Ainda haverá mundo daqui a um mês?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso,14/07/2023)

Miguel Sousa Tavares

Vilnius foi, de facto, uma cimeira histórica. De uma assentada, tivemos a Suécia a tornar-se o 32º membro da NATO, depois de ultrapassada a resistência da Turquia e depois de sepultada a longa tradição sueca de país de refúgio para os exilados políticos das ditaduras — no caso, os curdos da Turquia, talvez o povo mais injustiçado do mundo, traído sem vergonha pela Suécia. Tivemos ainda a Turquia a ir mais longe, entregando à Ucrânia quatro comandantes da batalha de Azovstal capturados pelos russos, que os deixaram ficar à guarda dos turcos com a condição de não serem devolvidos à Ucrânia — é Erdogan a mudar de lado, a favor da NATO, e não se sabe ainda a troco de quê. Tivemos Zelensky a participar na cimeira como membro de pleno direito e a ver — embora não tenha conseguido já a adesão formal apesar das suas insistências constantes e públicas — a Ucrânia ser dispensada no futuro do MAP, o Plano de Acção para a Adesão, a que todos os países da NATO são sujeitos antes de serem aceites. E vimos um silêncio pesado da maior parte dos membros sobre a decisão dos Estados Unidos de fornecerem bombas de fragmentação (as sinistras e célebres cluster bombs), cujo uso está interdito por uma convenção internacional de que a maioria dos membros da NATO é signatária. E, finalmente, e já previsto, viu-se a NATO a reforçar outra vez as garantias de defesa e armamento fornecido à Ucrânia, confirmando aquilo que é um facto evidente: se a Ucrânia, formalmente, ainda não está na NATO, a NATO já está na Ucrânia — e não apenas desde o início da guerra, mas desde 2014.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Como seria de esperar também, em lado algum, em palavras algumas, vindas de alguém, escutámos o mais pequeno esboço de um desejo, uma ideia, por mais tímida que fosse, de um plano para discutir nem sequer a paz, mas uma hipótese de paz. Não sei o que se passa ou o que se pensa do lado de lá; do lado de cá parece-me claro que a doutrina unânime é só parar a guerra com a derrota total da Rússia, o que inclui a retoma da Crimeia. Pensar que isto será possível, que a Rússia se deixará esmagar e humilhar, retirando-se sem transformar a derrota numa catástrofe, parece-me um plano de loucos, cegos pela ambição de não perderem o que julgam uma oportunidade única de pôr a Rússia de joelhos. Sem consequências devastadoras. É o velho sonho do general Patton, de continuar de Berlim até Moscovo. Só que isso foi em 1945, antes das armas nucleares e quando a Rússia já estava de joelhos devido à guerra contra a Alemanha.Mas eles é que sabem. A nata dos dirigentes ocidentais, o selecto grupo de Vílnius, deve saber o que faz e o que arrisca. Ou, pelo menos, devemos rezar por isso. Só que, às vezes, tudo parece mais uma questão de fé do que leitura da realidade — exactamente o mesmo erro que cometeu Putin quando decidiu invadir a Ucrânia, julgando que tudo não passaria de uma “operação militar especial”. Quando a ofensiva russa começou a patinar e, em especial, quando a Ucrânia lançou a contra-ofensiva do Outono passado, os “especialistas” da NATO anteviram a derrota russa ao virar da esquina e os políticos passaram a exigir nada menos do que isso; qualquer conversa sobre terminar a guerra ou falar de paz foi banida do discurso oficial. Mas, depois, os “especialistas” também não entenderam porque se assanhavam tanto os russos na batalha por Bakhmut, uma povoação sem importância estratégica, quando o que deveriam ter questionado era porque o faziam os ucranianos. Porque, enquanto os russos sacrificavam ali as tropas do Grupo Wagner, desgastando os ucranianos, mais atrás o exército regular russo preparava a defesa contra a tão anunciada contra-ofensiva ucraniana. A História deveria ter ensinado aos “especialistas” que os russos sempre foram melhores a defender do que a atacar. E agora, sem disfarce possível, a contra-ofensiva marca passo. Por isso é que, depois de ter pedido sucessivamente os lança-mísseis múltiplos de longo alcance HIMARS, os tanques Leopard, os F-16 e todas as munições disponíveis nos stocks da NATO — com os quais a guerra garantidamente seria ganha —, Zelensky pede agora mísseis de longo alcance para alvejar a Rússia, bombas de fragmentação e a protecção do artigo 5º do Tratado da NATO — ou seja, tropas combatentes da NATO na Ucrânia para finalmente o ajudarem a ganhar a guerra.

No dia em que o território russo for atacado e a sua sobrevivência ameaçada, Putin carrega botão. Isto não é um jogo de estratégia nem de bons contra maus. É um jogo de vida ou de morte. Não podemos ir de férias descansados. Por mais inacreditável que possa ser, houve membros da NATO dispostos a acolher já a Ucrânia e a envolver todos directamente na guerra.

Saiba mais aqui

 

Para já, Joe Biden teve a sensatez de dizer “não”. Mas já vimos este “não, por enquanto”, acabar por se transformar num “sim, seja”, quando os fantásticos dotes de persuasão de Zelensky conseguem fazer perder a cabeça aos líderes e às opiniões públicas. Mas que não haja ilusões, porque Putin já o disse e isso consta da doutrina nuclear da Rússia, como da das outras potências nucleares: no dia em que o território russo for atacado e a sua sobrevivência ameaçada, ele carrega no botão. Isto não é um jogo de estratégia nem de bons contra maus. É um jogo de vida ou de morte. Não podemos ir de férias descansados.

2 Quem pode ir de férias descansado é o ressuscitado Pedro Nuno Santos (P.N.S.). Não cessa de me espantar a vida política deste D. Quixote lusitano. A primeira vez que lhe prestei atenção (e como não?) foi quando ele ameaçou pôr os alemães com os joelhos a tremer, declarando que poderíamos não pagar a dívida externa. A jovem plateia socialista que o escutava ficou em delírio e a imprensa percebeu que tinha ali homem para o futuro. Eu (e não os alemães) fiquei aterrado: primeiro por ver o desplante de quem se arrogava o direito de falar assim em nosso nome; depois por constatar a imensa ignorância e irresponsabilidade do Quixote — ele ignorava, por certo, que grande parte da dívida do Estado estava na mão de portugueses e de pequenos aforradores, que ali põem as suas poupanças, e supunha que, uma vez declarado o default, o Estado iria continuar a poder pagar aos funcionários públicos e a cobrir as despesas com os serviços públicos essenciais. Mas estava construí­da a imagem de bravura e socialismo genuíno. Ou, do meu ponto de vista, a de total leviandade na gestão de dinheiros públicos — depois confirmada no Ministério das Infra-Estruturas e na forma como injectou €3,2 mil milhões numa TAP que afinal parece que só vale mil milhões, como se livrou, pagando bem, de quem não suportava, ou de como mandou pagar €500 mil de indemnização a uma administradora sem sequer confirmar que ela tinha direito a ela e depois sem sequer se lembrar de o haver feito. Enfim, caído provisoriamente em desgraça e forçado a demitir-se, P.N.S. voltou para enfrentar uma dócil CPI à TAP, onde a oposição, devidamente orquestrada pela imprensa e comentadores, queria as cabeças de Galamba e Medina, mas não a sua. Passada a prova com facilidade, P.N.S. regressou então ao Parlamento, onde tinha à sua espera um batalhão de jornalistas, que fotografou e filmou cada um dos seus passos, os cumprimentos, os sorrisos, as subtis declarações. E depois, nos telejornais do dia e nos jornais do dia seguinte, estava o veredicto esperado da imprensa: “Reabilitado pela CPI e recebido em apoteose no Parlamento [pelos próprios jornalistas], Pedro Nuno Santos está de regresso como o grande candidato à sucessão de António Costa.” Fantástico, o homem é mesmo um fenómeno! Que aproveite enquanto o levam ao colo!

3 Nunca me canso de lembrar que em 2008 o Estado português foi à falência e, não tendo optado pela solução Pedro Nuno Santos, teve de pedir ajuda externa no valor de €78 mil milhões e, entre outras desgraças, obrigar todos os portugueses a um “brutal aumento de impostos” para pagar a conta. Desse massacre fiscal fez parte uma coisa chamada “taxa de solidariedade”, incidindo sobre os escalões mais altos do IRS e variando entre 2% e 4% — fazendo com que a taxa máxima possa chegar a 52% do rendimento. Anos de austeridade, de boas contas e, em 2022, de inflação a funcionar a favor da cobrança fiscal fizeram com que, entretanto, a situação financeira do Estado se tenha invertido para bem melhor. Apenas no ano passado, a receita fiscal subiu 30%, o equivalente a mais €11 mil milhões. Mas a tal “taxa de solidariedade”, que era “provisória” e para ajudar o erário público numa situação de aperto, continua “esquecida” de ser abolida. Já nem se trata de esperar que o Estado seja uma pessoa de bem, mas tão-somente que não se comporte como um salteador sem vergonha.P.S. — Que ainda haja mundo quando regressar de quatro semanas de pausa.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

O incêndio da revolta

(António Guerreiro, in Público, 07/07/2023)

António Guerreiro

A revolta que irrompe actualmente por todo o lado não é um acontecimento conjuntural, é estrutural, ainda que possa parecer efémera e a sua propagação seja intermitente.


Um estabelecimento danificado em Montreuil, perto de Paris, durante os protestos pela morte do jovem Nahel às mãos da polícia EPA/JULIEN MATTIANa semana passada, Paris esteve novamente a arder. O fogo e a pilhagem são, desde sempre, o instrumento e a consequência das revoltas urbanas – ou “motins”, se utilizarmos a classificação dos aparelhos do Estado que obviamente não utilizam a palavra “revolta” para não atribuir ao acontecimento uma qualificação política e para não reconhecerem que estão a lutar contra quem lhes “volta a cara”, que é o que a palavra “revolta” significa quando percebida na sua etimologia.O grito de guerra dos negros do bairro de Watts, em Los Angeles, durante quatro dias de Agosto de 1965 era Burn, baby, burn, que depois serviu de título a muitas canções. Nos primeiros momentos dessa revolta – ou, para quem preferir, motins – as pilhagens seguidas de incêndios deram-se em armazéns de bebidas alcoólicas e de armas. Também agora, em Paris, houve quem apontasse motivações puramente criminosas de roubo de produtos das marcas de prestígio às esquadras juvenis que ocuparam algumas cidades francesas de maneira violenta e com o objectivo de provocar a máxima destruição.Na sequência da revolta de Los Angeles, Guy Debord escreveu um texto, publicado no número 10 da Internacional Situacionista, em 1966, que era uma defesa da revolta, interpretando-a como revolta contra a mercadoria, como o título deixava depreender: O Declínio e a Queda da Economia do Espectáculo-Mercadoria (Le déclin et la chute de l’économie spectaculaire-marchande). Disse então Debord: “A revolta de Los Angeles é uma revolta contra a mercadoria, contra o mundo da mercadoria e do trabalhador-consumidor submetido às medidas da mercadoria.” E, designando os actos dos revoltosos como “o potlatch da destruição”, viu neles “uma superioridade humana sobre as mercadorias”.Nas circunstâncias actuais, ninguém ousaria evocar o valor de fetiche próprio da mercadoria e dizer que os jovens se apropriam dos produtos para os usar e os profanar, recusando o seu valor de troca. Marx não é para aqui chamado, nesta passagem da “consommation à la consumation” (do consumo à consumação), como escreveu Debord. Pensar que a dinâmica da revolta devia ser, hoje, incompatível com a pilhagem e o consumo é tão deslocado como aquele apelo aos pais para não deixarem os meninos sair à noite de modo a evitar que eles façam distúrbios, isto é, queimem carros, autocarros e vandalizem lojas e edifícios públicos.A lógica e o tempo da revolta não é a lógica e o tempo da revolução. A revolta, que permite redescobrir o ponto de contacto entre o tempo mítico e o tempo histórico, é o “laboratório do resgaste”, a “passagem anárquica”. Quem assim a define é a filósofa italiana Donatella Di Cesare, num livro intitulado O Tempo da Revolta, que tem tradução em português nas Edições 70 (2021). Vale muito a pena ler esse livro para percebemos o que se passa nesta longa sucessão de acontecimentos revoltosos que vão de Occupy Wall Street às cidades francesas na semana passada, onde ainda ecoam uns gritos vindos de longe: Burn, baby, burn.A revolta anárquica, diz-nos Donatella Di Cesare, viola as fronteiras, desnacionaliza os supostos cidadão, confere-lhes estranheza, convida-os a considerarem-se residentes estrangeiros, ainda que tenham a nacionalidade do país de residência. Daí a sua afirmação de que há uma relação profunda entre revolta e migração, na medida em que são os migrantes que vêm das margens da arquitectura política (e “migrante”, como se pode ver, é uma condição que se herda). O título do livro, O Tempo da Revolta, remete para a tese central da autora: a revolta que irrompe actualmente por todo o lado não é um acontecimento conjuntural, é estrutural, ainda que possa parecer efémera e a sua propagação seja intermitente.

Assine já

Sabemos bem que a revolta como categoria política foi sempre desqualificada, mesmo à esquerda. A tradição da esquerda é a dos sujeitos políticos, não a do anonimato que pertence à própria forma da revolta. Este anonimato não deve ser interpretado apenas como exigência estratégica, faz parte do éthos da revolta.

Daí, o recurso à máscara e aos capuzes. Os jornalistas do Le monde, na abertura de uma reportagem, avisavam o leitor de que era impossível chegar aos revoltosos, identificá-los, retirá-los da invisibilidade e do anonimato. Não conseguiam saber alguma coisa deles senão através de mediações.Só alguém de uma esquerda muito heterodoxa e com algumas afinidades com a anarquia, como foi o mitólogo Furio Jesi, podia definir deste modo a revolta: “Se a revolução prepara o amanhã, a revolta evoca o depois de amanhã.”



Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Um mundo em desagregação

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/07/2023)

Miguel Sousa Tavares

Nahel pagou com a pena de morte pequenos delitos e pequeno cadastro de juventude. Tinha 17 anos, era argelino em França e conduzia sem carta de condução. Parado pela polícia e ameaçado de morte, assustou-se, deixou o carro avançar sozinho e foi executado por alguém que alguns colegas polícias consideraram um “herói”. Se fosse branco, estaria provavelmente vivo, pelo que este foi um crime de ódio racista, cometido por quem tem o dever de manter a ordem e não de fomentar a desordem.

O racismo nas forças poli­ciais e a infiltração destas pela extrema-direita, dos Estados Unidos a Portugal, é um facto e um motivo de crescente alarme.

E o que se seguiu em França — quatro noites de vandalismo juvenil à solta, de assalto orquestrado nas redes sociais aos símbolos da República e do Estado de Direito, ao comércio e à propriedade privada — já se vai tornando recorrente naquele que é um dos países mais prósperos do mundo. Se não estão na rua a incendiar carros e a lançar cocktails molotov sobre a polícia para protestar porque lhes querem aumentar a idade da reforma (que é a mais baixa do mundo), ou retirar subsídios dos tempos de abundância, tais como o “subsídio do carvão”, dado aos maquinistas de comboio no século XIX e que ainda subsistia no tempo dos TGV, ou porque a política agrícola comum já não suporta a factura dos seus agricultores, os franceses estão nas ruas simplesmente porque estão zangados. Segundo uns, porque protestar e revoltar-se está-lhes na massa do sangue; segundo outros, porque são o país mais politizado do mundo. Ou talvez — atrevo-me a pensar — porque, partindo de um lugar de prosperidade e de conforto do Estado Social ímpar no mundo, a França é o primeiro país a perceber que esses tempos estão a ficar para trás de forma definitiva. Há 30 anos, lembro-me de ter lido no “Nouvel Observateur” uma reportagem sobre a geração francesa mais feliz de sempre: a dos reformados, que então tinham 60 ou menos anos. Hoje, estamos perante a primeira geração desde o pós-guerra que, apesar da baixa natalidade, vai transmitir aos seus filhos uma vida pior do que aquela que viveu. Começa pela França, mas outros se seguirão.

O que houve de novo nestes motins foi a aliança entre os jovens adolescentes brancos, os idiotas das redes sociais, e os jovens argelinos: uma alian­ça contranatura. As sociedades afluentes da Europa escolheram renunciar aos piores trabalhos e fazer filhos para melhor gozarem a vida. Foi uma escolha com consequên­cias, a principal das quais a imigração, que se tornou vital para assegurar os trabalhos que ninguém quer fazer e a própria sustentabilidade financeira da Segurança Social. Os alemães receberam turcos, os ingleses receberam indianos e paquistaneses (os outros querem-nos recambiar para o Ruanda), os italianos e os gregos receberam à força os náufragos do Mediterrâneo, vindos de África e do Médio Oriente, Portugal recebeu os africanos dos PALOP e agora a exótica imigração do Sudoeste Asiático. Mas os franceses receberam o pior: os argelinos, a que eles chamam depreciativamente les arabes. Os argelinos de França são um factor à parte na equação. Bem pode Macron acenar com novos bairros sociais e mais escolas ou projectos de integração — jamais um argelino de França chegará a primeiro-ministro, como indianos chegaram a primeiros-ministros na Inglaterra e na Escócia. Nem os franceses deixariam nem eles próprios querem. Eles não estão em França para se integrarem, mas para a minarem, para a destruírem por dentro, para se vingarem. E para entender isto, que é tão politicamente incorrecto de dizer, é preciso conhecer a História, conhecer a Argélia e conhecer os argelinos.

Saiba mais aqui

 

A Argélia estava logo ali em baixo, à distância de uma curta travessia do Mediterrâneo, tinha petróleo, mar e um imenso e misterioso deserto: era irresistível para um poder imperial como a França. Expulsa a administração otomana, a Argélia tornou-se um departamento francês em 1848 e começou o seu povoamento com os colonos vindos de França. É fácil imaginar o arbítrio que deve ter sido ser colonizado pelos pequeno-burgueses e deserdados de França, de repente feitos senhores coloniais sob a protecção do Exército, da lei e das autoridades administrativas. Camus deixou-nos uma pequena ideia sobre isso, como Duras deixou sobre a colonização francesa na Indochina. Ambos os sonhos coloniais acabaram em guerras de guerrilha prolongadas, em derrotas humilhantes e em debandadas. Por imposição de De Gaulle, a França e os pied-noirs retiraram definitivamente da Argélia em 1962, deixando para trás 500 mil mortos argelinos na guerra e um povo que transmitiu o ódio aos franceses, de geração em geração, até aos bidonvilles, para onde depois emigrariam em França. Mas isso foi há 60 anos: tempo suficiente para a Argélia ter feito alguma coisa com a sua independência, com as lições aprendidas, com o seu petróleo. Não fez nada. É um Estado policial — não apenas no topo mas ao nível da prepotência de cada autoridade — e um povo antipático, hostil e incivilizado por natureza. Como não têm turistas nem esperam ter, desprezam e maltratam os estrangeiros, e nenhum polícia perde uma oportunidade para mostrar como estamos à mercê do seu arbítrio. Se os polacos, por exemplo, são o povo mais intratável da Europa, os argelinos são-no do Magrebe. Emigrados para França, levam tudo isso com eles, mais um desejo secular de vingança. A França tem um problema muito sério.

2 Quem melhor do que Stoltenberg para suceder a Stoltenberg à frente da NATO? Se ele, como dizem, tem feito “um excelente trabalho” como instigador da guerra, para quê mudá-lo em plena guerra? Siga a guerra, siga Stoltenberg.

Entretanto, com a maior das banalidades e perante a apatia geral, Rússia e Ucrânia acusam-se mutuamente de quererem fazer explodir a central nuclear de Zaporíjia, a maior da Europa. Do lado ucraniano, há um ano que ouvimos relatos de ataques russos à central — todavia, é detida por eles e estão lá homens seus, o que torna a acusação difícil de acreditar. E agora dizem que os russos colocaram explosivos no telhado, o único local não inspeccionado pela Agência de Energia Atómica. Os russos, por seu lado, dizem que estará iminente um ataque da Ucrânia à central. E ninguém se mexe para se interpor entre ambos e evitar uma catástrofe inominável apenas para poder acusar o outro lado da sua responsabilidade?

De facto, brincamos com o fogo, brincamos com a morte de inocentes, brincamos com a guerra. Churchill, com quem alguns ignorantes e oportunistas resolveram comparar Zelensky, estava várias vezes na frente de batalha, mas também estava junto dos civis depois dos bombardeamentos aéreos dos alemães. Vemos várias vezes Zelensky a condecorar tropas e a fazer discursos marciais, mas nunca o vimos na frente de batalha nem junto dos civis bombardeados. Será que tem medo que lhe peçam a paz e não a guerra?

Do lado de lá já sabemos que temos um louco sentado em cima de um arsenal nuclear, que nos dizem que pondera usar todos os dias. Nada que nos dissuada a provocar cada vez mais o louco. Timothy Garton Ash, um dos gurus dessa estratégia da vitória sobre a Rússia até ao último ucraniano vivo, esteve em Lisboa em pregação, fazendo-se entrevistar por dois acólitos. A Teresa de Sousa disse que “foi fantástico” ter acompanhado a marcha das tropas do insano Prigozhin em direcção a Moscovo — louco por louco, preferia este. A José Manuel Fernandes explicou que a guerra só podia terminar com a recuperação da Crimeia por parte da Ucrânia, não importando o estabelecido no Tratado de Minsk. Não por razões históricas, que ele, historiador, sabe que não cabem à Ucrânia, mas porque “a Crimeia é um porta-aviões terrestre que ameaça o flanco sul da Ucrânia”. Pois, e também ameaça o da Rússia, e por isso é que Potemkine a conquistou (aos tártaros e não aos ucranianos, que lá não exis­tiam) para Catarina a Grande, no século XVIII. Mas se esta teoria da ameaça do porta-aviões terrestre fizer caminho, basta procurar no mapa-múndi e não faltarão guerras justas para os novos cruzados do Ocidente.

E enquanto já se esfregam as mãos e se alinham os candidatos ao grande negócio da reconstrução da Ucrânia, prepara-se também a ida à Justiça dos responsáveis dos crimes de guerra do lado russo — e apenas deste, pois do lado ucraniano, não obstante as “calúnias” divulgadas pela ONU ou pela Amnistia Internacional, não há, como se sabe, crimes de guerra alguns. Perante a falta de alçada do TPI, decidiu-se criar um tribunal ad-hoc, sediado em Haia, com jurisdição própria e cujos jurados serão a União Europeia e os Estados Unidos — os fornecedores de armas à Ucrânia — e a própria Ucrânia, uma das partes beligerantes. Antecipam-se resultados mais rápidos do que os daquela comissão que há longos meses investiga em vão quem serão os responsáveis pela sabotagem dos Nordstream — um acto de terrorismo cometido contra estruturas civis, fora do teatro de guerra e em águas territoriais de um país da UE. Quando o direito à justiça, à informação e à verdade sobre todos os factos se submete preventivamente a um juízo sobre o que deve ser contado e feito, por melhores que sejam as razões invocadas, não há razão que se aguente.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.