A UE para o Telegram – Estamos a ir atrás de ti

(Por Pepe Escobar, in Sputnik International, 27/08/2024, Trad. Estátua de Sal)

A saga de Pavel Durov é um presente que nos continuará a ser oferecido por muito tempo.  É disso que se trata, da guerra quente da informação.  Tentemos, portanto, analisar os diferentes elementos do caso.


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Um analista russo bem colocado acredita que a prisão de Pavel Durov está ligada a “protestos antifranceses nas suas antigas colónias – tendo a França perdido a sua tradicional ‘esfera de influência’ -, e onde a infraestrutura do Telegram foi usada para promover narrativas anticoloniais e antimacronistas”.

A isto acrescenta-se uma “tentativa de influenciar narrativas sobre a Ucrânia nos meios de comunicação russos e internacionais, que dependem fortemente da infraestrutura do Telegram”.

Paris tenta, de facto, desesperadamente se tornar-se útil em termos de operações psicológicas e guerra de influência/especial na Ucrânia.

No entanto, como observa o analista, os franceses não dispõem de meios técnicos para o fazer. Talvez tenha sido isto que levou Macron a decidir “exercer uma campanha de pressão pessoal contra o próprio Durov”. As autoridades francesas devem estar bastante desesperadas na sua tentativa de manter a cabeça no topo do jogo da política mundial. E o Telegram hoje é a política mundial”.

Paris estava apenas à espera de uma oportunidade. Quando o piloto do jato particular Embraer de Durov apresentou o seu plano de voo, não havia mandado de prisão na França. Foi só quando o jato já estava a caminho de Le Bourget que Paris apresentou o mandado à pressa. Durov não sabia nada sobre isso desde o início.

Resumindo: Paris foi avisada da chegada de Durov a França – talvez através da namorada de Durov, uma pós-obsessiva da ascensão social, residente no Dubai – e preparou a armadilha num abrir e fechar de olhos.

Uma eminência na prisão

Existe um mito de que o FSB, (Serviços secretos russos), pediu a Durov as chaves de criptografia do Telegram no passado. Isto é falso. O FSB queria que o Telegram lhe proporcionasse acesso privilegiado para investigar crimes graves caso a caso. Esta é uma enorme diferença em relação ao que o governo dos EUA faz com a Meta do Facebook ou com o Twitter/X através de “portas do cavalo”, completamente abertas.

No entanto, Durov embriagou-se com a propaganda de “liberdade e democracia” da NATO, rejeitou a Rússia e foi-se embora.

O que nos leva ao Presidente Putin. Putin tinha coisas melhores para fazer do que encontrar-se com Durov em Baku, e o Kremlin foi rápido a negar a reunião. Durov estava viajando pela Ásia Central e pelo Cáucaso, e os caminhos de ambos cruzaram-se no Azerbaijão. Mas há uma coisa que Putin nunca tolerará: a traição à Rússia. E isso aplica-se, à letra, a Durov.

Quando Durov visitou os Estados Unidos, os americanos, como era esperado, exigiram-lhe as “portas do cavalo” do Telegram para poderem espiar toda a gente. Por isso, ele veio a estabelecer-se, no Dubai e depois solicitou a nacionalidade francesa.

Durov tornou-se cidadão francês há apenas 3 anos – isto é, antes do lançamento da operação militar especial na Ucrânia – através de um programa especial de “estrangeiros proeminentes” criado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da França. Muito poucas pessoas são elegíveis; apenas um “estrangeiro francófono que contribui com a sua acção eminente para a influência da França e a prosperidade das suas relações económicas internacionais”. Contudo, nem a sua “ação eminente” foi suficiente para o manter longe de uma prisão francesa.

Como obter essas chaves

A Comissão Europeia (CE) em Bruxelas pode ser sumariamente descrita como um notório bando de cobardes e/ou eurocratas psicopatas que elogiam alegremente os “nossos valores”.

Previsivelmente, a CE recusa-se a comentar a prisão de Durov, dizendo que se trata de uma “investigação nacional”. Uma “investigação” que por acaso foi “encorajada” pelo estado profundo americano, levada a cabo desde 8 de Julho pela polícia vassala macronista, em benefício da NATO,  e… da própria Comissão Europeia.

As acusações contra Durov reveladas pelo Ministério Público francês deveriam ser destruídas em tribunal por qualquer equipa jurídica digna desse nome. Essencialmente, as acusações são de que o próprio Durov é responsável por aqueles que abusam do Telegram. Ele é “cúmplice” de todos os delitos possíveis – desde a fraude organizada ao tráfico de drogas – até à vaga acusação de fornecer serviços criptografados sem uma “declaração certificada”.

As acusações sobre a falta de moderação do Telegram são falsas. Por exemplo, o Telegram censura ativamente a correspondência dentro da UE; Os residentes da UE não podem aceder a inúmeros chats e canais. Além disso, o Telegram não é afetado pela recente lei neo-orwelliana da UE contra mega redes sociais, uma vez que acolhe menos de 45 milhões de utilizadores europeus por dia.

Agora vamos concentrar-nos no motivo..

O atual Euro-gulag liberal-totalitário, ou EuroLag, é um enorme bloco de poder que não tem acesso ao conteúdo do Telegram.

O Telegram possui servidores próprios em todo o mundo, e o roteamento passa pela Amazon, Cloudfare e Google. Desde a criação do Telegram, os serviços de inteligência e vigilância americanos têm tido meios para o bloquear facilmente – se assim o desejassem.

Mas a UE é uma história diferente. Assim, Bruxelas, através de Paris, tenta adquirir pelo menos algum controlo sobre o Telegram – e sobre as redes sociais em geral. Um lembrete crucial – que poderia ser arquivado no patético departamento de Tecnologia: a Europa  não tem (itálico meu) redes sociais.

Daí as ameaças incessantes contra o Twitter/X e a  Lei neo-Orwelliana de Serviços Digitais sobre  a responsabilidade das plataformas em termos de conteúdo, que se aplica a todos, e não apenas ao Telegram.

A UE e a França querem ter o poder que a potência hegemónica (os EUA) já tem: acesso a tudo, aqui e agora, sem qualquer documento legal.

A questão agora é se eles conseguirão isso pressionando Pavel Durov. Não há evidências de que ele possua as chaves de criptografia do Telegram. E se eles prenderam a pessoa errada?

Nikolai Durov, irmão ultra discreto de Pavel, é o principal arquiteto genial do Telegram: mestre em matemática, dois doutoramentos, medalhas de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática. Os franceses prefeririam fazer um acordo – daí o interrogatório prolongado: mas isso envolveria quebrar Pavel para que ele influenciasse Nikolai a entregar as famosas chaves.

Porquê agora? E a quem beneficia?

Como esperado, o interrogatório de Durov ocorre sem qualquer transparência. A França é uma sociedade atrozmente secreta, propensa ao silêncio absoluto sobre assuntos sérios, a uma lentidão extenuante, pontuada por raras declarações oficiais. É tudo uma questão de procedimento – e a burocracia é entorpecente.

No entanto, a burocracia francesa pode ter dado uma pista valiosa sobre o que realmente a incomoda. Simplesmente não pode aceitar que alguém utilize – ou forneça – os meios para “cobrir os rastos” em termos de transações financeiras, de contornar a censura e a vigilância.

Portanto, isto pode ir muito para lá da obsessão de obter todas ou parte das chaves de criptografia do Telegram. O aparelho burocrático francês quer fazer todos os possíveis para eliminar qualquer possibilidade de evasão – mantendo ao mesmo tempo o poder de punir qualquer pessoa.

Se a saga continuar, resultando num julgamento e, em última instância, numa pena de prisão de 20 anos, significa que Durov não terá quebrado face ao aparelho burocrático e que permanecerá sempre “um cúmplice”.

É improvável. Adeus ao brilho e ao glamour ilimitados, em troca de uma baguete de pão ao amanhecer numa prisão francesa?

Duas outras questões inevitáveis. Porquê agora? Porque a UE precisa muito disso. E a quem beneficia? Os principais candidatos são o “espírito de corpo” da burocracia francesa ultra regulada e as suas ligações oligárquicas franco-europeias. O desejo também é um fator. Durov é russo, estrangeiro, e o Telegram, que tem um bilião de utilizadores em todo o mundo, é um sucesso retumbante.

Tudo pode acontecer no futuro – incluindo o bloqueio do Telegram em França e na UE. A maioria mundial não se importaria nada.

Entretanto, milhares de cidadãos ficam surpreendidos com o facto de um tecno-globalista narcisista poder ser tão ingénuo a ponto de acreditar que o totalitarismo liberal alguma vez protegerá a sua liberdade.

Fonte aqui.


Abertura das Olimpíadas de Paris: A Civilização Ocidental revela-se sem máscaras aos olhos do mundo

(Raphael Machado in Twitter 27/07/2024)

Não há nada de surpreendente na abertura das Olimpíadas de Paris, exceto pelo fato de que, talvez, a maioria das pessoas não tenha visto uma concentração tão grande de inversões e deturpações históricas, culturais, simbólicas e axiológicas quanto nesse evento.


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Para ser justo começarei por um elogio. A ideia de realizar uma abertura fora de um estádio, com o objetivo de valorizar a “paisagem” e os cenários típicos da cidade-sede, tem algo de interessante. Mas é isso. Essa foi a única coisa de interessante nessa abertura (houve também umas poucas referências cinematográficas e literárias interessantes no ponto em que se passou pelo cinema francês), e essa possibilidade nem mesmo foi bem aproveitada pela França.

Em primeiro lugar, os atletas olímpicos “desfilaram” em barcos, sob chuva, em um rio extremamente contaminado por poluição (fruto da decadência urbana de Paris, que fora dos bairros icônicos não é mais que uma favela). Os barcos pareciam improvisados, como se o governo tivesse “encampado” temporariamente barcos aleatórios, aproveitando-os para a abertura. Agora é torcer para que ninguém fique doente por causa da chuva (atletas de alto rendimento, às vezes apresentam fragilidades de saúde porque o esforço excessivo que é típico de suas atividades impacta em suas respostas imunológicas), e que ninguém tenha tido contato com a água do Sena.

Deixando isso de lado, porém, aproveito para elogiar principalmente as delegações africanas, asiáticas, pacíficas e árabe-islâmicas, porque foram as que mais consistentemente buscaram representar as suas identidades etnoculturais. Algumas delegações ibero-americanas idem.

Quanto aos europeus, eles ou têm vergonha daquilo que são, ou simplesmente esqueceram ou não sabem quem são, então as suas delegações são sempre genéricas, e têm mais de “ocidentais” do que de “europeias. Mas isso, claro, não tem nada a ver com a organização francesa da abertura em si.

Porque quanto à abertura o que nós vimos foi uma exibição do âmago da civilização ocidental. Eu não poderia aqui falar em “coração”, porque o âmago da civilização ocidental está, na verdade, em sua “cloaca” – que foi exatamente o que vimos.

Em geral, as aberturas olímpicas tentam contar um pouco da história do país-sede. Passa-se por séculos ou mesmo milênios de história. Os povos buscam mostrar ao mundo as suas raízes longínquas, os seus ancestrais heroicos, os grandes feitos de seu passado. Nas Olimpíadas de Paris não tivemos nada disso.

Nenhum elemento da França pré-Revolução Francesa se fez presente. E esse é um fato importante que precisa ser esmiuçado e enfatizado. De fato, o “neo-iluminismo” foi o tema geral da Abertura das Olimpíadas, ou seja, a atualização do Iluminismo setecentista para a pós-modernidade woke. São os mesmos valores, mas adaptados para a era do pós-indivíduo e da sobreposição das pulsões à razão “patriarcal” e “fascista” – que não é senão a consequência lógica de elevar a razão acima de seus limites.

A impressão que se tem, de fato, é que a França nasceu em 1789. E realmente, a França de Macron nasceu em 1789. A França pré-1789 – aquela França de Vercingetorix e dos celtas, de Carlos Magno e dos paladinos, de Luís IX e dos cruzados, de Joana d’Arc e da Guerra dos 100 Anos, e mesmo a já modernizante França de Luís XIV – é outro país.

Não sou “eu” que estou dizendo. Macron e os seus caminham sobre os chãos franceses como se fossem parasitas alienígenas que vagam sobre as ruínas de uma civilização inimiga conquistada. Não foi casual que Macron reagiu com indiferença ao incêndio da Catedral de Notre-Dame. Ele não se emocionou porque há 2 Franças, a França europeia e a França ocidental. E era isso que se fez questão de evidenciar nessa abertura.

Entenderam o porquê de eu sempre insistir na existência de uma distinção fundamental entre uma “civilização europeia”, adormecida, sedimentar, oculta, e uma “civilização ocidental”, disposta sobre as ruínas e fragmentos dessa civilização anterior e cujos valores são antitéticos e descontínuos em relação aos seus valores? Não sou apenas “eu” dizendo. A própria elite francesa exibe isso aos olhos do mundo. Não precisam crer em mim. Vejam.

Que se tenha escolhido o injusto assassinato de Maria Antonieta para expor as “origens” da França é significativo. Essa é uma França que nasce de uma traição maçônico-frankista que culmina em um assassinato ritualístico do “Sol” (encarnada na figura do Rei). Aquilo que nasce desse ritual e que se espalha pelas capitais europeias e cujo centro é, posteriormente, deslocado para os EUA, é precisamente o espírito obscuro da subversão contra iniciática e da dissolução universal. A chuva de sangue é o “sacramento” satânico da França de Macron.

Aqui precisamos apontar, ademais, que mesmo de uma perspetiva técnica essa abertura foi sofrível. Crianças de grupos amadores de dança seriam capazes de organizar algo melhor. Não havia qualquer coordenação motora ou sincronia, por exemplo, na exibição de “cancã” realizada por pessoas vestidas de rosa. Comparemos isso com a sincronia absoluta das exibições da abertura das Olimpíadas de Pequim, por exemplo. Uma dança posterior, no estilo de “dança de rua”, dava a impressão de que os dançarinos estavam fantasiados de mendigos – talvez uma homenagem ao lúmpem francês, a classe que serve de sustentação quantitativa para o macronismo.

Foi curiosa a pretensão de que as Olimpíadas de Paris estavam, em sua abertura, “celebrando a mulher” em um sentido geral, quando ela havia acabado de exibir uma mulher decapitada pelos jacobinos. Mas é necessário entender que quando o Ocidente celebra “as mulheres” é de uma maneira muito peculiar. Não são “todas as mulheres”, não são as “mulheres francesas”, mas as “mulheres ocidentais da França” – o que obviamente incluiu, na seleção de “10 ícones”, mulheres que não eram etnicamente francesas; com as que eram etnicamente francesas só podendo ser, obviamente, abortistas, anarquistas, feministas e, naturalmente, a pedófila Simone de Beauvoir.

Em outra parte da abertura, celebra-se um poliamorismo pós-gênero, com um triângulo amoroso entre um homem, uma mulher e uma pessoa andrógina de sexo não esclarecido. Além de, obviamente, celebrar a desconstrução de conceções tradicionais de “homem”, “mulher”, “amor” e “família” (em paralelo, dançarinos em roupas que não diferenciavam entre sexo deixavam bem claro que se tratava, ali, precisamente, de um impulso pós-gênero e, portanto, transumano), é necessário aí fazer referência à inversão satânica do mito do andrógino.

O mito do andrógino (presente mesmo no Cristianismo, bastando que recordemos que Adão já continha nele Eva antes de Deus retirar a sua “costela”) aponta para um certo princípio de unidade cósmica. Ela não é meramente sexual, mas é um símbolo do Um, o qual é alcançado, simultaneamente, por uma “conexão ritual” com o elemento do sexo oposto que subsiste em nosso interior (o “animus/anima” de Jung), bem como por meio do casamento enquanto rito sagrado, o qual só pode ser concretizado com uma pessoa do sexo oposto.

Pretender alcançar o “Um” materialmente por meio da indeterminação e fluidez sexual e por meio de práticas sexuais “desconstrucionistas” não é senão uma paródia, uma inversão do casamento tradicional e dos ritos tradicionais dos povos. Não é a ascensão na direção do Um, é a queda na dissolução caótica, como um nigredo sem fim.

Um terceiro elemento ritualístico aparece na paródia da Santa Ceia, protagonizada por elementos que representavam precisamente essa ponte entre “desconstrução do gênero” e “transumanismo”. Nesse cenário da paródia profana, que tinha como mote a “diversidade” e a “representatividade”, incluiu-se inclusive uma criança, para o horror de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Depois de exibir uma overdose de diversidade pós-gênero, o fato de ser uma paródia da Santa Ceia é confirmada pelo fato de que a cena culmina num “banquete”. Nesse banquete, uma estranha paródia de Baco é trazida seminua em uma bandeja – uma referência ao canibalismo ritual e, nesse sentido, à conotação da ingestão do corpo de Cristo na Eucaristia.

O fato do Baco, porém, parecer castrado, bem como o próprio cenário e contexto geral, mostra que esse Baco é aquela perversão de Dioniso engendrada pelos sacerdotes de Cibele – é o Dioniso visto a partir das “profundezas”, aquele que no lugar da transcendência imanente é apenas imanência, submersão do “zangão” no colo da “Deusa-Mãe” das monstruosidades titânicas.

Considerando que essa cena foi disposta numa ponte sob a qual as delegações tinham que passar em seus barcos representou, intencionalmente, um gesto de humilhação para as delegações pertencentes a povo que ainda estão ligados às suas Tradições. Passar sob a ponte da paródia da Santa Ceia era como uma demonstração do triunfo desses elementos demoníacos sobre os povos do mundo.

Nada mais precisa ser dito sobre essa abertura das Olimpíadas de Paris. Foi, claramente, a pior abertura olímpica da história, tanto de uma perspetiva técnica e estética quanto de uma perspetiva simbólica e espiritual.

A comparação com as aberturas mais recentes, como a de Pequim, Rio ou Atenas é suficientemente chocante e deixa absolutamente claro quão profundo é o buraco no qual a civilização ocidental está se afundando e pretende afundar o resto da humanidade.

Mas se isso ficou evidente dessa maneira, então devemos saudar essa abertura. Sempre que o inimigo se exibe de forma tão evidente e inequívoca o nosso trabalho de convencimento é facilitado.

As distinções entre “nós” e “eles” tornam-se naturais e automáticas, e resta apenas que cada um se alinhe com o próprio bando para travar a necessária guerra cultural.

A meu ver, a reação a essa abertura é tão determinante politicamente quanto a posição em relação a Ucrânia e em relação à Palestina.

Aqueles que sentiram nojo dessa abertura são nossos amigos, aqueles que ficaram encantados com ela são nossos inimigos.


Em que caixa está a extrema-direita?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 08/07/2024)


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Na cozinha da casa dos meus pais existiam umas caixas de lata com rótulos Arroz, Massa, Açúcar, Café… O que se encontrava no interior nunca correspondia ao rótulo. A lata que anunciava café de umas vezes tinha biscoitos, de outras nozes, a do açúcar podia ter massa ou farinha, havia uma que habitualmente servia de mealheiro e guardava moedas. Habituei-me a não confiar nos rótulos. Também passei mais de dois terços da minha vida a comer em refeitórios de instituições. Sou um consumidor de rancho geral, não espero maravilhas gastronómicas, mas procuro saber o que os cozinheiros lá colocam para evitar diarreias.

Com estas habilitações, fruto das circunstâncias, tendo a apreciar a “nobre arte da política” como um cozinhado de rancho geral elaborado com os produtos das latas que se encontram na dispensa. Hoje a política é um rancho geral produzido com uma receita de politicamente correto. As recentes eleições em Inglaterra e em França e as sondagens sobre as intenções de voto na Alemanha fornecem pistas para os clientes-consumidores que nós somos entenderem o que lhes estão a colocar no prato. O que devemos comer e o que devem rejeitar para não ficarmos doentes. Pelo menos isso: haja saúde!

Na Europa estão em hasta pública dois produtos políticos. O dos situacionistas e o dos anti situacionistas. As grandes máquinas promocionais, aquelas que nos convencem que uma bebida xaropada, escura como um esgoto, que desentope canos e desoxida moedas é a melhor bebida do mundo, impuseram o bom e o mau para a nossa saúde. As fontes produtoras de opinião etiquetaram os primeiros de moderados e os segundos de radicais. Mas a caixa com o rótulo moderados contem mesmo moderados? E a do rótulo: radicais, extremistas e outros que tais, conterá de facto ingredientes alternativos? A França é um bom tubo de ensaio para análise, mas os reagentes são os mesmos do Reino Unido e da Alemanha.

Qual é o produto político que os situacionistas propõem em França e cuja vitória saúdam como se os sans culottes tivessem tomado de novo a Bastilha (uma história muito adulterada)?

O situacionismo em França tem como ponto de partida o fim do mandato de Jacques Chirac e com ele o conceito gaulista de uma política autónoma da França e da Europa, de uma Europa com um núcleo formado pelo antigo império de Carlos Magno, a França, a Alemanha e o Norte de Itália (a lotaríngia). Chirac foi substituído por Sarkozy e este por Hollande e este por Macron. Este trio de PP ( petits presidents) corresponde em Portugal a Durão Barroso, Passos Coelho e Paulo Portas, em Espanha a Aznar e a Zapatero, em Inglaterra a Blair, Gordon Brown, Cameron, Theresa May, Boris Johnson.

Em termos de latas de cozinha temos uma prateleira de produtos que metidos em panela e deixando a cozer em lume brando produz uma papa que é o neoliberalismo. Uma ranchada que ilude a fome a curto prazo, mas mata a médio, porque lhe foram retirados, em nome do lucro, os elementos essenciais de vitaminas e proteínas.

Com que produtos se cozinha o “Ensemble” de Macron que ficou em segundo lugar nas eleições francesas e que tem sido celebrado pela caldeirada reunida sob o ressuscitado lema de “Nova Frente Popular”, que nem é nova, nem é uma frente, menos ainda é popular como a salvação da democracia tricolor da Liberdade, Igualdade e Fraternidade? Uff! Titulou o progressista moderado Liberation. Mas uff a propósito de quê? Os franceses vão ressuscitar o sistema europeu Galileo de geolocalização para substituir o GPS americano? Vão impor uma administração europeia para o BCE, que faça do euro uma moeda de troca universal e ao serviço de uma política europeia?

E o que se encontra na caixa da Nova Frente Popular? O sereno desespero dos coletes amarelos que colocaram a França a ferro e fogo para depois permanecer tudo na mesma? Com a atual política da França (e da Europa) de crispação contra meio mundo: Rússia, China, Índia, África e até a América latina a quem vai a França da Nova Frente Popular vender produtos de luxo? Se a NFP mantiver a politica de Macron, dita moderada, de guerra aos BRICS, passará a submissa sem nunca ter sido insubmissa. Mélenchon e os seus aliados ficam com as malas, os perfume, os vinhos à porta dos clientes. Mas se quiser ser a França Insubmissa, os Estados Unidos tiram-lhe o tapete, passam-lhes uma rasteira, como fizeram no negócio dos submarinos para a Austrália (que vai entrar para a NATO, com a Nova Zelândia e com o apoio da França!) A NFP de Jean-Luc Mélenchon tem boas hipóteses de ficar isolada entre Putin, Xi Jiping e Trump. Deve ter sido essa possibilidade de quadratura do circulo, de comer o bolo e ficar com o bolo, que celebraram ontem! Dentro de dias saberemos novas dos extremistas moderados que salvaram a República!

Um dos maiores sucessos da propaganda política é ter conseguido “vender” o neoliberalismo como um produto saudável, moderado, equilibrado depois da sua apresentação pública como religião de salvação no golpe de Pinochet no Chile em 1973. O “Ensemble” de Macron é uma mixórdia neoliberal metida numa embalagem que tem sido impingida como sendo genuinamente democrata e que, como os meios de propaganda nos matraquearam ontem, contribuiu para a derrota do que os taxionomistas políticos classificaram como extrema-direita, que passou de Frente Nacional a União (Rassemblement) Nacional e da direção de Marine Le Pen para um seu meio genro (casado com uma sobrinha), Jordan Bardela.

Os produtos que compõem o “Ensemble” são conhecidos desde que a escola de economistas de Chicago patrocinada por Milton Friedman os utilizou para cozinhar a ditadura de Pinochet, no Chile: um deus — o mercado; um princípio – homem é o lobo do homem — sobrevivem os mais aptos, sucesso é estar acima dos outros. Um programa de vida: que cada ser humano viva e morra segundo as suas possibilidades. Obediência aos Trés Mandamentos de Margareth Thatcher: não há sociedade, há indivíduos; não há cidadãos, há consumidores, não há eleitos, há predadores de votos. Um sacrário: a Reserva Federal dos Estados Unidos.

O situacionismo assenta em duas bases, no neoliberalismo económico e social e no alinhamento estratégico pelos Estados Unidos.

As eleições no Reino Unido e em França revelam o beco sem saída do situacionismo e a alienação que os meios de comunicação conseguiram ao colocar as massas de futuros desempregados, de futuros SDF, os sem abrigo na sigla francesa e em homenagem aos franceses tão aparentemente felizes por manterem Macron no Eliseu, Mélenchon na animação popular e Marine Le Pen a esperar por ele para as próximas eleições presidenciais, onde lhe perguntará o que o distingue de Macron quanto ao euro, quanto à relação com o BCE, quanto à relação com os Estados Unidos, a Rússia, a China e a África, o que o distingue de Macron quanto à caótica política ambiental, quanto às fontes de abastecimento de energia, quanto à política aeroespacial da Europa, quanto às guerras com que os Estados Unidos cercaram a Europa desde os anos 80 do século passado — Irão, Iraque, Afeganistão, Jugoslávia, Síria, Palestina, Líbano, Líbia, produtoras das vagas de migrantes.

As eleições na Alemanha produzirão com elevada probabilidade o mesmo tipo de vitória dos situacionistas com mais ou menos sociais-democratas ou conservadores no grande bolo. O situacionismo europeu, o grande grupo dos democratas moderados, que inclui conservadores e sociais-democratas, constitui a religião oficial na Europa. O situacionismo teve a arte e os meios financeiros para vender o seu extremismo (são os defensores de que eles representam o Fim da História) como um produto de moderação e que todos os que lhes expõem os punhais que trazem escondido são extremistas. Extremistas são os outros.

O extremismo que se esconde na lata com o rótulo de moderados, juntos, unidos, conservadores, nas também democratas cristãos, trabalhistas e socialistas está no poder. É o poder e há largos anos! Em Inglaterra Boris Johnson não era mais nem menos moderado, ou extremista que Toni Blair! Ursula Von Der Leyen não é mais ou menos extremista ou, à francesa va-t-en guerre contra a Rússia e a China, que Macron desde que Putin o colocou na ponta da quilométrica mesa do Kremlin. A warmonger Kellie Kallas, a estoniana que vai entrar de representante da política externa da União Europeia é mais moderada ou extremista que Marine Le Pen? Em quê? E a madame Lagarde do BCE é uma moderada que ajuda pobres e remediados a pagar os juros exorbitantes aos bancos para terem um teto? E o trabalhista Keir Starmer recém-eleito Primeiro-Ministro do Reino Unido tem uma politica mais moderada para deportar migrantes para o Uganda ou os deixar afogar no Canal da Mancha dos seus moderados antecessores conservadores? E o que distingue as políticas migratórias do Reino Unido, dos Países Baixos, da Alemanha (que é a maior financiadora dos campos de concentração de migrantes na Turquia) das de Marine Le Pen, ou da Primeira-Ministra italiana?

Falecido em 2019, após uma vida bem gozada, Jacques Chirac foi o último gaulista no poder. Com a sua morte morreu qualquer laivo de desalinhamento da Europa e da França com a política de domínio económico, financeiro e militar por parte dos Estados Unidos.

Sendo assim, o que estão a celebrar os situacionistas europeus e os franceses em particular e, mais aberrante ainda, os que se afirmam gaulistas? O que defendem aqueles que o pensamento dominante classifica como extremistas e colocou numa lata com um autocolante: Perigo!

Se o perigo para a Europa é, em primeiro lugar, o do alastramento e subida de patamar das guerras na Ucrânia e no Médio Oriente. Se, em segundo lugar o perigo é a da conjugação de inflação e depressão económica na Europa (a França dos moderados vitoriosos já está na categoria penalizadora de défice excessivo); e se, em terceiro lugar, o perigo para a Europa é o da irrelevância política e económica, transformada como está um mero apêndice dos Estados Unidos, foram os extremistas que trouxeram a Europa até aqui. E estão a celebrar a vitória. Celebram o quê?