França: a 14 de julho, uma declaração de guerra à Rússia?

(Por Valérie Bérenger, in Reseau International, 23/06/2026, Trad. Estátua)


Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, tropas nazis vão desfilar nos Campos Elísios na festa nacional do 14 de julho. Uma provocação à memória dos resistentes franceses e uma declaração de guerra…


O dia 14 de julho de 2026 ficará, sem dúvida, marcado na história francesa como o 14 de julho da Vergonha. Este feriado, que deveria homenagear o exército nacional, tornou-se, graças a Emmanuel Macron, uma pantomima que glorifica a Europa e o nazismo ucraniano.

Originalmente, o dia 14 de julho deveria celebrar a Queda da Bastilha e a chegada da República. Pouco importa que este feriado só tenha surgido em 1880, durante a Terceira República, com o objetivo de reavivar o espírito combativo francês e fazer com que as pessoas esquecessem o desastre da Guerra Franco-Prussiana de 1870. Na sua essência, o 14 de julho continua a ser a celebração da liberdade, destinada a homenagear o exército francês e apenas o exército francês. Mas isto sem ter em conta a ascensão ao poder de um homem instalado para “destruir o que é a França” e substituí-la por uma federação composta por um caldeirão cultural, com o objetivo de apagar o seu próprio povo.

O dia 14 de julho deste ano será uma verdadeira doutrinação para a guerra. Apoio total à Ucrânia e uma europeização generalizada do exército francês.

A Ucrânia… Um dos países mais corruptos do mundo, segundo a OCDE, cujo ditador, com o apoio dos eurocratas, é parte integrante desta oligarquia transnacional que degradou os valores ocidentais.

Além disso, Zelensky e as autoridades militares batizaram uma unidade do exército com o nome de um nazi reconhecido como herói nacional, que lutou à frente de uma divisão ucraniana com a Wehrmacht. Stepan Bandera, que combateu no exército alemão, é responsável pela morte de 100 mil polacos na Volínia, entre 1943 e 1944.

Ademais, a 12ª Brigada Azov, formada em 2014 para reprimir os separatistas russos no Donbass, é abertamente nazi. Além disso, o governo ucraniano começou a bombardear e a massacrar populações que, na altura, eram ucranianas já em 2014. Este batalhão tornou-se agora uma brigada da “Guarda Nacional Ofensiva”, uma brigada que, no entanto, manteve as suas credenciais nazis.

Além disso, a decisão da Ucrânia de realizar um funeral de Estado a Andriy Melnyk, uma figura histórica ligada a movimentos que colaboraram com a Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial, foi vista como uma provocação. Uma cerimónia onde, notavelmente, Volodymyr Zelensky se ajoelhou diante do túmulo de um nazi declarado. O líder de um país pseudodemocrático ajoelhou-se diante do túmulo de um nazi! E é isso que vamos receber com grande pompa? E não nos digam que o facto de Zelensky ser judeu o absolve de toda a abjeção!

Imaginem… Emmanuel Macron vai desfilar soldados de um exército cujas tendências neonazis foram abertamente demonstradas pelo regime ucraniano nos Campos Elísios. “Glória à SS!”, é o que veremos a marchar em solo francês! O desfile de soldados ucranianos ao lado de soldados franceses, alguns cujos pais e avós lutaram contra o nazismo em duas guerras, é uma mancha absoluta na memória daqueles que lutaram pela nossa liberdade e agora morreram em vão!

O que dizer da inclusão de um destacamento deste exército no tradicional desfile militar francês? Isto para não falar dos pilotos ucranianos que terão a “honra” de voar em conjunto com a Patrouille de France, com a presença de dois Mirage 2000 doados pela França, pelo menos um deles pintado com as cores da Ucrânia.

Dez mil soldados, a Ucrânia em destaque! Se acreditarmos no General Loïc Mizon, a quem aparentemente devemos esta humilhação:

“Enquanto a ameaça paira sobre as portas da Europa, o feriado nacional será uma oportunidade para uma demonstração de força e determinação. Planeamos este desfile tendo em conta o contexto estratégico. Deverá ser um resultado tangível para os franceses e os nossos aliados dos esforços de rearme empreendidos“, confidencia ele, referindo-se à militarização dos Campos Elísios, “onde mais tropas marcharão numa demonstração mais operacional do que em anos anteriores“. Embora a ambição não seja rivalizar com o número de tropas dos regimes autoritários (não se riam), o exército francês quer mostrar que está preparado e, acima de tudo, que não está sozinho.

Enquanto a ameaça ruge às portas da Europa!” Que ameaça? Sem dúvida, aquela que germina nas mentes distorcidas de alguns generais de gabinete ávidos de alguma suposta glória. Ninguém está a ameaçar a Europa! E certamente não a França!

O Dia da Bastilha, o desfile de 14 de julho de 2026, será realizado sob o tema “O Despertar Estratégico da Europa”. Este desfile, que até então era uma grande celebração da liberdade e da igualdade, não se tornou mais do que uma zona proibida para a população francesa. Embora as famílias dos militares participantes tenham provavelmente permissão para comparecer, não serão elas que se arriscarão a opor-se à “autoridade”. Muitas pessoas também estarão lá para aplaudir. Mas os franceses, os verdadeiros franceses, aqueles que em todas as aparições públicas não fazem mais do que expressar a sua justa indignação vaiando alegremente Emmanuel Macron, estão proibidos de participar no evento e mantidos bem afastados. A presença de Volodymyr Zelensky, Ursula von der Leyen e do general americano Alexus G. Grynkewich, chefe das tropas americanas na Europa e Comandante Supremo Aliado da NATO na Europa, não deve ser manchada pela exposição da realidade.

Mas, talvez o aspecto mais preocupante seja a presença de membros da “Coligação dos Dispostos”. Estes 35 países estão prontos para oferecer garantias de segurança à Ucrânia em caso de um cessar-fogo duradouro entre a Rússia e a Ucrânia. Isto significa que potencialmente 35 chefes de Estado e/ou representantes governamentais estrangeiros poderão assistir ao desfile ao lado de Emmanuel Macron, e um número semelhante de exércitos estará representado, incluindo o Batalhão Multinacional da NATO na Roménia e o 501º Regimento de Tanques, um Batalhão Multinacional da NATO na Estónia.

Como todos os anos, a Patrouille de France abrirá o espetáculo aéreo. Mas desta vez, os nove Alpha Jet franceses serão acompanhados por dois Mirage 2000 ucranianos. Um total de 78 aeronaves da Força Aérea e Espacial Francesa, 22 da Marinha Francesa, 2 do Exército Britânico, 4 do Exército Alemão, 2 do Exército Ucraniano, 1 do Exército Grego e 1 do Exército Sueco partilharão os céus franceses.

Pela primeira vez, as aeronaves serão equipadas com armamento, supostamente bombas e mísseis simulados. Tudo isto visa projetar uma imagem de “solidariedade estratégica”. Esta “solidariedade estratégica” parece mais uma manipulação psicológica e uma preparação para uma guerra contra a Rússia. Tanto que se coloca a questão: será que este desfile assinalará o início de uma declaração de guerra da França e da UE contra a Rússia no início de 2027?

Tudo está a ser feito para simbolizar um exército francês pronto para o combate, pelo menos nos sonhos mais delirantes dos falcões da NATO!

As tropas apeadas marcharão ao lado dos helicópteros da Aviação Ligeira do Exército, destacando a geografia do campo de batalha, onde as operações ar-terra são a norma.

A 2ª Brigada Blindada marchará em três secções distintas: unidades de combate (infantaria, cavalaria), unidades de apoio (artilharia, inteligência, engenharia, cibersegurança) e unidades de logística (manutenção, médica). Até o distintivo de desfile, usado por todos os soldados, será mais “operacional”, com cores que lembram a camuflagem multi ambiente.

Além das tropas destacadas na Estónia e na Roménia, estarão também presentes reservistas, juntamente com os da Companhia Nacional de Ferrovias Francesa (SNCF) — que precisam de estar mentalmente preparados para a chegada de comboios carregados de tanques e armamento — e do Grupo Airbus. O desfile terminará com um quadro que representa o “envolvimento da juventude”, que deveria ser descrito com mais precisão como “envio de carne para canhão”. E, para agravar a situação, já não será o hino nacional francês que encerrará o desfile, mas sim o hino europeu, sinalizando definitivamente que a França dos valores tradicionais está morta, e de facto morta, dando lugar a um regime autoritário mais próximo do regime de Hitler do que de uma democracia.

A versão oficial da propaganda estatal do Ministério das Forças Armadas refere que, este ano, “o desfile pretende ser uma demonstração educativa que visa ilustrar esquematicamente a geografia do campo de batalha, com, pela primeira vez, uma interação entre as tropas terrestres e o apoio aéreo, apresentando assim todo o espectro de capacidades. De facto, no campo de batalha, a organização das forças armadas assenta numa estrutura hierárquica e funcional otimizada para uma coordenação eficaz entre as forças terrestres, navais e aéreas.”

Tradução: quando os seus filhos são enviados para a Ucrânia sob o pretexto de defender os valores europeus, apenas para serem sacrificados no caldeirão enfrentando o exército russo; só podem morrer no campo de batalha sob o comando de alguns comandantes cegamente subservientes do poder.

Quanto à chamada Coligação dos Dispostos, que reúne 35 países “que desejam fornecer à Ucrânia garantias de segurança robustas que lhe permitam regenerar as suas forças e dissuadir qualquer nova ofensiva russa… com o objetivo de garantir uma paz justa e duradoura para a Ucrânia e todo o continente europeu“, ela lembra mais os internos de um hospício que ignoram um pormenor crucial:

Embora a Rússia possa ter ostensivamente “invadido” a Ucrânia a 24 de Fevereiro de 2022, não se deve esquecer que, na realidade, este ato foi consequência da agressão contínua que se seguiu aos protestos do Maidan, ao incêndio da Casa dos Sindicatos de Odessa em Maio de 2014 e às atrocidades colossais cometidas por Kiev contra o povo do Donbass. Sem falar da preparação de tropas concentradas nas fronteiras das repúblicas independentes para facilitar a destruição da Rússia. Todos estes são factos muito reais, que em França estão proibidos de ser discutidos.

Mas, fundamentalmente, QUEM é que começou tudo isto?

Porque sem os planos dos EUA e da UE para desmembrar a Rússia, não estaríamos nesta situação. Sem o fornecimento incessante de armas de longo alcance a Kiev, esta guerra já teria terminado há muito tempo.

Lembremo-nos que, durante os acordos de Minsk I e Minsk II, quem foi realmente enganado? Vladimir Putin. Porque nestes acordos, a França e a Alemanha garantiram um modus vivendi que a Rússia desejava, que não tinha absolutamente nenhuma intenção de invadir o Donbass. A única coisa que Vladimir Putin pediu foi a proteção da população russófona, e nada mais! Vladimir Putin cometeu apenas um erro: confiar. Vladimir Putin não é Hitler. É simplesmente vítima da sua ingenuidade perante as potências ocidentais: François Hollande e Angela Merkel, que lhe mentiram descaradamente!

A Rússia não era uma ameaça para nós. Antes de 2022, a França era mesmo o seu principal parceiro económico, e Vladimir Putin tinha aderido ao G7, que se tornou o G8 para a ocasião.

Nem Donald Trump se deixou enganar, declarando recentemente ao site Axios: “Deveríamos ter mantido o G8. Provavelmente não teria havido uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia se o tivéssemos mantido. Mas [o ex-presidente dos EUA, Barack] Obama não queria que [o líder russo, Vladimir] Putin participasse. Acho que um ou dois outros líderes também não queriam. Queriam excluir Putin. Antes, era o G8, e teria sido muito melhor se tivesse permanecido assim.”

Através deste desfile vergonhoso, a França, através dos seus actuais dirigentes, está a ser colocada numa posição de aprovação quase oficial do passado vergonhoso influenciado pelo nazismo e do presente doentio do exército ucraniano. A função primordial de um símbolo é comunicar informação, uma vontade, através de imagens que sejam económicas em palavras.

O desfile do 14 de Julho deveria ser um símbolo da honra do nosso exército, da democracia e da liberdade, e não uma celebração extravagante do regresso do nazismo.

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A UE para o Telegram – Estamos a ir atrás de ti

(Por Pepe Escobar, in Sputnik International, 27/08/2024, Trad. Estátua de Sal)

A saga de Pavel Durov é um presente que nos continuará a ser oferecido por muito tempo.  É disso que se trata, da guerra quente da informação.  Tentemos, portanto, analisar os diferentes elementos do caso.


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Um analista russo bem colocado acredita que a prisão de Pavel Durov está ligada a “protestos antifranceses nas suas antigas colónias – tendo a França perdido a sua tradicional ‘esfera de influência’ -, e onde a infraestrutura do Telegram foi usada para promover narrativas anticoloniais e antimacronistas”.

A isto acrescenta-se uma “tentativa de influenciar narrativas sobre a Ucrânia nos meios de comunicação russos e internacionais, que dependem fortemente da infraestrutura do Telegram”.

Paris tenta, de facto, desesperadamente se tornar-se útil em termos de operações psicológicas e guerra de influência/especial na Ucrânia.

No entanto, como observa o analista, os franceses não dispõem de meios técnicos para o fazer. Talvez tenha sido isto que levou Macron a decidir “exercer uma campanha de pressão pessoal contra o próprio Durov”. As autoridades francesas devem estar bastante desesperadas na sua tentativa de manter a cabeça no topo do jogo da política mundial. E o Telegram hoje é a política mundial”.

Paris estava apenas à espera de uma oportunidade. Quando o piloto do jato particular Embraer de Durov apresentou o seu plano de voo, não havia mandado de prisão na França. Foi só quando o jato já estava a caminho de Le Bourget que Paris apresentou o mandado à pressa. Durov não sabia nada sobre isso desde o início.

Resumindo: Paris foi avisada da chegada de Durov a França – talvez através da namorada de Durov, uma pós-obsessiva da ascensão social, residente no Dubai – e preparou a armadilha num abrir e fechar de olhos.

Uma eminência na prisão

Existe um mito de que o FSB, (Serviços secretos russos), pediu a Durov as chaves de criptografia do Telegram no passado. Isto é falso. O FSB queria que o Telegram lhe proporcionasse acesso privilegiado para investigar crimes graves caso a caso. Esta é uma enorme diferença em relação ao que o governo dos EUA faz com a Meta do Facebook ou com o Twitter/X através de “portas do cavalo”, completamente abertas.

No entanto, Durov embriagou-se com a propaganda de “liberdade e democracia” da NATO, rejeitou a Rússia e foi-se embora.

O que nos leva ao Presidente Putin. Putin tinha coisas melhores para fazer do que encontrar-se com Durov em Baku, e o Kremlin foi rápido a negar a reunião. Durov estava viajando pela Ásia Central e pelo Cáucaso, e os caminhos de ambos cruzaram-se no Azerbaijão. Mas há uma coisa que Putin nunca tolerará: a traição à Rússia. E isso aplica-se, à letra, a Durov.

Quando Durov visitou os Estados Unidos, os americanos, como era esperado, exigiram-lhe as “portas do cavalo” do Telegram para poderem espiar toda a gente. Por isso, ele veio a estabelecer-se, no Dubai e depois solicitou a nacionalidade francesa.

Durov tornou-se cidadão francês há apenas 3 anos – isto é, antes do lançamento da operação militar especial na Ucrânia – através de um programa especial de “estrangeiros proeminentes” criado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da França. Muito poucas pessoas são elegíveis; apenas um “estrangeiro francófono que contribui com a sua acção eminente para a influência da França e a prosperidade das suas relações económicas internacionais”. Contudo, nem a sua “ação eminente” foi suficiente para o manter longe de uma prisão francesa.

Como obter essas chaves

A Comissão Europeia (CE) em Bruxelas pode ser sumariamente descrita como um notório bando de cobardes e/ou eurocratas psicopatas que elogiam alegremente os “nossos valores”.

Previsivelmente, a CE recusa-se a comentar a prisão de Durov, dizendo que se trata de uma “investigação nacional”. Uma “investigação” que por acaso foi “encorajada” pelo estado profundo americano, levada a cabo desde 8 de Julho pela polícia vassala macronista, em benefício da NATO,  e… da própria Comissão Europeia.

As acusações contra Durov reveladas pelo Ministério Público francês deveriam ser destruídas em tribunal por qualquer equipa jurídica digna desse nome. Essencialmente, as acusações são de que o próprio Durov é responsável por aqueles que abusam do Telegram. Ele é “cúmplice” de todos os delitos possíveis – desde a fraude organizada ao tráfico de drogas – até à vaga acusação de fornecer serviços criptografados sem uma “declaração certificada”.

As acusações sobre a falta de moderação do Telegram são falsas. Por exemplo, o Telegram censura ativamente a correspondência dentro da UE; Os residentes da UE não podem aceder a inúmeros chats e canais. Além disso, o Telegram não é afetado pela recente lei neo-orwelliana da UE contra mega redes sociais, uma vez que acolhe menos de 45 milhões de utilizadores europeus por dia.

Agora vamos concentrar-nos no motivo..

O atual Euro-gulag liberal-totalitário, ou EuroLag, é um enorme bloco de poder que não tem acesso ao conteúdo do Telegram.

O Telegram possui servidores próprios em todo o mundo, e o roteamento passa pela Amazon, Cloudfare e Google. Desde a criação do Telegram, os serviços de inteligência e vigilância americanos têm tido meios para o bloquear facilmente – se assim o desejassem.

Mas a UE é uma história diferente. Assim, Bruxelas, através de Paris, tenta adquirir pelo menos algum controlo sobre o Telegram – e sobre as redes sociais em geral. Um lembrete crucial – que poderia ser arquivado no patético departamento de Tecnologia: a Europa  não tem (itálico meu) redes sociais.

Daí as ameaças incessantes contra o Twitter/X e a  Lei neo-Orwelliana de Serviços Digitais sobre  a responsabilidade das plataformas em termos de conteúdo, que se aplica a todos, e não apenas ao Telegram.

A UE e a França querem ter o poder que a potência hegemónica (os EUA) já tem: acesso a tudo, aqui e agora, sem qualquer documento legal.

A questão agora é se eles conseguirão isso pressionando Pavel Durov. Não há evidências de que ele possua as chaves de criptografia do Telegram. E se eles prenderam a pessoa errada?

Nikolai Durov, irmão ultra discreto de Pavel, é o principal arquiteto genial do Telegram: mestre em matemática, dois doutoramentos, medalhas de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática. Os franceses prefeririam fazer um acordo – daí o interrogatório prolongado: mas isso envolveria quebrar Pavel para que ele influenciasse Nikolai a entregar as famosas chaves.

Porquê agora? E a quem beneficia?

Como esperado, o interrogatório de Durov ocorre sem qualquer transparência. A França é uma sociedade atrozmente secreta, propensa ao silêncio absoluto sobre assuntos sérios, a uma lentidão extenuante, pontuada por raras declarações oficiais. É tudo uma questão de procedimento – e a burocracia é entorpecente.

No entanto, a burocracia francesa pode ter dado uma pista valiosa sobre o que realmente a incomoda. Simplesmente não pode aceitar que alguém utilize – ou forneça – os meios para “cobrir os rastos” em termos de transações financeiras, de contornar a censura e a vigilância.

Portanto, isto pode ir muito para lá da obsessão de obter todas ou parte das chaves de criptografia do Telegram. O aparelho burocrático francês quer fazer todos os possíveis para eliminar qualquer possibilidade de evasão – mantendo ao mesmo tempo o poder de punir qualquer pessoa.

Se a saga continuar, resultando num julgamento e, em última instância, numa pena de prisão de 20 anos, significa que Durov não terá quebrado face ao aparelho burocrático e que permanecerá sempre “um cúmplice”.

É improvável. Adeus ao brilho e ao glamour ilimitados, em troca de uma baguete de pão ao amanhecer numa prisão francesa?

Duas outras questões inevitáveis. Porquê agora? Porque a UE precisa muito disso. E a quem beneficia? Os principais candidatos são o “espírito de corpo” da burocracia francesa ultra regulada e as suas ligações oligárquicas franco-europeias. O desejo também é um fator. Durov é russo, estrangeiro, e o Telegram, que tem um bilião de utilizadores em todo o mundo, é um sucesso retumbante.

Tudo pode acontecer no futuro – incluindo o bloqueio do Telegram em França e na UE. A maioria mundial não se importaria nada.

Entretanto, milhares de cidadãos ficam surpreendidos com o facto de um tecno-globalista narcisista poder ser tão ingénuo a ponto de acreditar que o totalitarismo liberal alguma vez protegerá a sua liberdade.

Fonte aqui.


Abertura das Olimpíadas de Paris: A Civilização Ocidental revela-se sem máscaras aos olhos do mundo

(Raphael Machado in Twitter 27/07/2024)

Não há nada de surpreendente na abertura das Olimpíadas de Paris, exceto pelo fato de que, talvez, a maioria das pessoas não tenha visto uma concentração tão grande de inversões e deturpações históricas, culturais, simbólicas e axiológicas quanto nesse evento.


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Para ser justo começarei por um elogio. A ideia de realizar uma abertura fora de um estádio, com o objetivo de valorizar a “paisagem” e os cenários típicos da cidade-sede, tem algo de interessante. Mas é isso. Essa foi a única coisa de interessante nessa abertura (houve também umas poucas referências cinematográficas e literárias interessantes no ponto em que se passou pelo cinema francês), e essa possibilidade nem mesmo foi bem aproveitada pela França.

Em primeiro lugar, os atletas olímpicos “desfilaram” em barcos, sob chuva, em um rio extremamente contaminado por poluição (fruto da decadência urbana de Paris, que fora dos bairros icônicos não é mais que uma favela). Os barcos pareciam improvisados, como se o governo tivesse “encampado” temporariamente barcos aleatórios, aproveitando-os para a abertura. Agora é torcer para que ninguém fique doente por causa da chuva (atletas de alto rendimento, às vezes apresentam fragilidades de saúde porque o esforço excessivo que é típico de suas atividades impacta em suas respostas imunológicas), e que ninguém tenha tido contato com a água do Sena.

Deixando isso de lado, porém, aproveito para elogiar principalmente as delegações africanas, asiáticas, pacíficas e árabe-islâmicas, porque foram as que mais consistentemente buscaram representar as suas identidades etnoculturais. Algumas delegações ibero-americanas idem.

Quanto aos europeus, eles ou têm vergonha daquilo que são, ou simplesmente esqueceram ou não sabem quem são, então as suas delegações são sempre genéricas, e têm mais de “ocidentais” do que de “europeias. Mas isso, claro, não tem nada a ver com a organização francesa da abertura em si.

Porque quanto à abertura o que nós vimos foi uma exibição do âmago da civilização ocidental. Eu não poderia aqui falar em “coração”, porque o âmago da civilização ocidental está, na verdade, em sua “cloaca” – que foi exatamente o que vimos.

Em geral, as aberturas olímpicas tentam contar um pouco da história do país-sede. Passa-se por séculos ou mesmo milênios de história. Os povos buscam mostrar ao mundo as suas raízes longínquas, os seus ancestrais heroicos, os grandes feitos de seu passado. Nas Olimpíadas de Paris não tivemos nada disso.

Nenhum elemento da França pré-Revolução Francesa se fez presente. E esse é um fato importante que precisa ser esmiuçado e enfatizado. De fato, o “neo-iluminismo” foi o tema geral da Abertura das Olimpíadas, ou seja, a atualização do Iluminismo setecentista para a pós-modernidade woke. São os mesmos valores, mas adaptados para a era do pós-indivíduo e da sobreposição das pulsões à razão “patriarcal” e “fascista” – que não é senão a consequência lógica de elevar a razão acima de seus limites.

A impressão que se tem, de fato, é que a França nasceu em 1789. E realmente, a França de Macron nasceu em 1789. A França pré-1789 – aquela França de Vercingetorix e dos celtas, de Carlos Magno e dos paladinos, de Luís IX e dos cruzados, de Joana d’Arc e da Guerra dos 100 Anos, e mesmo a já modernizante França de Luís XIV – é outro país.

Não sou “eu” que estou dizendo. Macron e os seus caminham sobre os chãos franceses como se fossem parasitas alienígenas que vagam sobre as ruínas de uma civilização inimiga conquistada. Não foi casual que Macron reagiu com indiferença ao incêndio da Catedral de Notre-Dame. Ele não se emocionou porque há 2 Franças, a França europeia e a França ocidental. E era isso que se fez questão de evidenciar nessa abertura.

Entenderam o porquê de eu sempre insistir na existência de uma distinção fundamental entre uma “civilização europeia”, adormecida, sedimentar, oculta, e uma “civilização ocidental”, disposta sobre as ruínas e fragmentos dessa civilização anterior e cujos valores são antitéticos e descontínuos em relação aos seus valores? Não sou apenas “eu” dizendo. A própria elite francesa exibe isso aos olhos do mundo. Não precisam crer em mim. Vejam.

Que se tenha escolhido o injusto assassinato de Maria Antonieta para expor as “origens” da França é significativo. Essa é uma França que nasce de uma traição maçônico-frankista que culmina em um assassinato ritualístico do “Sol” (encarnada na figura do Rei). Aquilo que nasce desse ritual e que se espalha pelas capitais europeias e cujo centro é, posteriormente, deslocado para os EUA, é precisamente o espírito obscuro da subversão contra iniciática e da dissolução universal. A chuva de sangue é o “sacramento” satânico da França de Macron.

Aqui precisamos apontar, ademais, que mesmo de uma perspetiva técnica essa abertura foi sofrível. Crianças de grupos amadores de dança seriam capazes de organizar algo melhor. Não havia qualquer coordenação motora ou sincronia, por exemplo, na exibição de “cancã” realizada por pessoas vestidas de rosa. Comparemos isso com a sincronia absoluta das exibições da abertura das Olimpíadas de Pequim, por exemplo. Uma dança posterior, no estilo de “dança de rua”, dava a impressão de que os dançarinos estavam fantasiados de mendigos – talvez uma homenagem ao lúmpem francês, a classe que serve de sustentação quantitativa para o macronismo.

Foi curiosa a pretensão de que as Olimpíadas de Paris estavam, em sua abertura, “celebrando a mulher” em um sentido geral, quando ela havia acabado de exibir uma mulher decapitada pelos jacobinos. Mas é necessário entender que quando o Ocidente celebra “as mulheres” é de uma maneira muito peculiar. Não são “todas as mulheres”, não são as “mulheres francesas”, mas as “mulheres ocidentais da França” – o que obviamente incluiu, na seleção de “10 ícones”, mulheres que não eram etnicamente francesas; com as que eram etnicamente francesas só podendo ser, obviamente, abortistas, anarquistas, feministas e, naturalmente, a pedófila Simone de Beauvoir.

Em outra parte da abertura, celebra-se um poliamorismo pós-gênero, com um triângulo amoroso entre um homem, uma mulher e uma pessoa andrógina de sexo não esclarecido. Além de, obviamente, celebrar a desconstrução de conceções tradicionais de “homem”, “mulher”, “amor” e “família” (em paralelo, dançarinos em roupas que não diferenciavam entre sexo deixavam bem claro que se tratava, ali, precisamente, de um impulso pós-gênero e, portanto, transumano), é necessário aí fazer referência à inversão satânica do mito do andrógino.

O mito do andrógino (presente mesmo no Cristianismo, bastando que recordemos que Adão já continha nele Eva antes de Deus retirar a sua “costela”) aponta para um certo princípio de unidade cósmica. Ela não é meramente sexual, mas é um símbolo do Um, o qual é alcançado, simultaneamente, por uma “conexão ritual” com o elemento do sexo oposto que subsiste em nosso interior (o “animus/anima” de Jung), bem como por meio do casamento enquanto rito sagrado, o qual só pode ser concretizado com uma pessoa do sexo oposto.

Pretender alcançar o “Um” materialmente por meio da indeterminação e fluidez sexual e por meio de práticas sexuais “desconstrucionistas” não é senão uma paródia, uma inversão do casamento tradicional e dos ritos tradicionais dos povos. Não é a ascensão na direção do Um, é a queda na dissolução caótica, como um nigredo sem fim.

Um terceiro elemento ritualístico aparece na paródia da Santa Ceia, protagonizada por elementos que representavam precisamente essa ponte entre “desconstrução do gênero” e “transumanismo”. Nesse cenário da paródia profana, que tinha como mote a “diversidade” e a “representatividade”, incluiu-se inclusive uma criança, para o horror de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Depois de exibir uma overdose de diversidade pós-gênero, o fato de ser uma paródia da Santa Ceia é confirmada pelo fato de que a cena culmina num “banquete”. Nesse banquete, uma estranha paródia de Baco é trazida seminua em uma bandeja – uma referência ao canibalismo ritual e, nesse sentido, à conotação da ingestão do corpo de Cristo na Eucaristia.

O fato do Baco, porém, parecer castrado, bem como o próprio cenário e contexto geral, mostra que esse Baco é aquela perversão de Dioniso engendrada pelos sacerdotes de Cibele – é o Dioniso visto a partir das “profundezas”, aquele que no lugar da transcendência imanente é apenas imanência, submersão do “zangão” no colo da “Deusa-Mãe” das monstruosidades titânicas.

Considerando que essa cena foi disposta numa ponte sob a qual as delegações tinham que passar em seus barcos representou, intencionalmente, um gesto de humilhação para as delegações pertencentes a povo que ainda estão ligados às suas Tradições. Passar sob a ponte da paródia da Santa Ceia era como uma demonstração do triunfo desses elementos demoníacos sobre os povos do mundo.

Nada mais precisa ser dito sobre essa abertura das Olimpíadas de Paris. Foi, claramente, a pior abertura olímpica da história, tanto de uma perspetiva técnica e estética quanto de uma perspetiva simbólica e espiritual.

A comparação com as aberturas mais recentes, como a de Pequim, Rio ou Atenas é suficientemente chocante e deixa absolutamente claro quão profundo é o buraco no qual a civilização ocidental está se afundando e pretende afundar o resto da humanidade.

Mas se isso ficou evidente dessa maneira, então devemos saudar essa abertura. Sempre que o inimigo se exibe de forma tão evidente e inequívoca o nosso trabalho de convencimento é facilitado.

As distinções entre “nós” e “eles” tornam-se naturais e automáticas, e resta apenas que cada um se alinhe com o próprio bando para travar a necessária guerra cultural.

A meu ver, a reação a essa abertura é tão determinante politicamente quanto a posição em relação a Ucrânia e em relação à Palestina.

Aqueles que sentiram nojo dessa abertura são nossos amigos, aqueles que ficaram encantados com ela são nossos inimigos.