Não é a Terceira Guerra Mundial: esta é uma Guerra de Terror

(Por Pepe Escobar, in Strategic Culture, 18/09/2024, Trad. Estátua de Sal)

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A Rússia está a travar uma guerra existencial pela sobrevivência da Pátria – o que tem feito repetidamente ao longo dos séculos.


Isto não é festa
Isto não é discoteca
Isto não é brincadeira
Não há tempo para dançar
Ou amores
Eu não tenho tempo para isso agora
.

Talking Heads, A vida em tempos de guerra


Primeiro tivemos ação: o Presidente Putin – calmo, sereno, controlado – alerta que qualquer ataque à Rússia com mísseis de longo alcance da NATO será um ato de guerra. Então tivemos reação: os ratos da NATO a correrem e a regressarem à sarjeta – à pressa. Por enquanto.

Tudo isso foi uma consequência direta do desastre de Kursk. Uma aposta desesperada. Mas o estado das coisas na guerra por procuração na Ucrânia era desesperado para a NATO. Até que ficou claro, como cristal, que tudo é basicamente irrecuperável. Então restam duas opções.

A rendição incondicional da Ucrânia, nos termos da Rússia, que equivale à completa humilhação da NATO. Ou uma escalada para uma guerra total  (itálico meu) com a Rússia.

As classes dominantes dos EUA – mas não do Reino Unido – parecem ter registado a essência da mensagem de Putin: se a NATO está em guerra com a Rússia, “então, tendo em mente a mudança na essência do conflito,  tomaremos as decisões apropriadas  em resposta às ameaças que serão colocadas sobre nós”.

O vice-ministro das Relações Exteriores, Sergey Ryabkov, foi ainda mais preciso e ameaçador: “A decisão foi tomada, foi dada carta-branca e todas as indulgências foram dadas [a Kiev], então nós [Rússia] estamos prontos para tudo. E reagiremos de uma forma que não será bonita.”

A NATO está de facto em guerra com a Rússia

Para todos os efeitos práticos, a NATO já está em guerra com a Rússia: voos de reconhecimento sem escalas, ataques de alta precisão em campos de aviação na Crimeia, forçando a Frota do Mar Negro a mudar-se de Sebastopol, esses são apenas alguns exemplos. Com “permissão” para atacar até 500 km de profundidade na Rússia, e uma lista de vários alvos já submetidos por Kiev para “aprovação”, Putin declarou claramente o óbvio.

A Rússia está a travar uma guerra existencial pela sobrevivência da Pátria – o que tem feito repetidamente ao longo dos séculos. A URSS sofreu 27 milhões de baixas mas emergiu da Segunda Guerra Mundial mais forte do que nunca. Essa demonstração de força de vontade, por si só, assusta até à morte.o Ocidente coletivo.

O Ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov – cuja paciência taoista parece estar a esgotar-se – acrescentou um pouco de cor ao Grande Quadro, trazendo à cena a literatura inglesa:

“ George Orwell tinha uma rica imaginação e previsão histórica. Mas, mesmo ele, não conseguia imaginar como seria um estado totalitário. Ele descreveu alguns de seus contornos, mas falhou em penetrar nas profundezas do totalitarismo que agora vemos, dentro da estrutura da ‘ordem baseada em regras’. Não tenho nada a acrescentar. Não tenho nada a acrescentar. Os actuais dirigentes de Washington, que suprimem qualquer dissidência, ultrapassaram-no. É o totalitarismo na sua forma mais pura”.

Lavrov concluiu que “eles estão historicamente condenados”. No entanto, eles não têm realmente coragem de provocar a 3ª Guerra Mundial. Covardes de marca registada só podem recorrer a uma Guerra de Terror.

Aqui estão alguns exemplos. O SVR – A Inteligência russa – descobriu um plano de Kiev para encenar um ataque de míssil russo a um hospital ou jardim-de-infância em território controlado por Kiev. Os objetivos incluíam elevar o moral – em colapso – das AFU; justificar a remoção completa de quaisquer restrições a ataques de mísseis de longo alcance dentro da Federação Russa; e atrair o apoio do Sul Global – que entende amplamente o que a Rússia está a fazer na Ucrânia. Paralelamente, se essa descomunal falsa bandeira funcionar, o Hegemon vai utilizá-la para “aumentar a pressão” (Como? Gritando a plenos pulmões?) sobre o Irão e a Coreia do Norte, cujos mísseis provavelmente seriam os supostos perpetradores da carnificina.

Por muito que isto pareça rebuscado ao nível do Estupidistão Máximo, considerando a Demência Profunda que vai de Washington e Londres a Kiev, continua a ser possível, uma vez que a NATOstão detém, de facto, a iniciativa estratégica nesta guerra. A Rússia, por seu lado, permanece passiva. É a NATO que escolhe o método, o local e o momento para os seus ataques-chave decisivos.

Outro exemplo clássico da Guerra do Terror é o facto de o grupo jihadista e subproduto da Al-Qaeda, Hayat Tahrir al-Sham, na Síria, ter recebido 75 drones de Kiev, em troca da promessa de enviar um grupo de combatentes experientes do espaço pós-soviético para o Donbass. Nada de novo na frente do terror: O espião ucraniano Kirill Budanov – adorado no Ocidente como uma espécie de James Bond ucraniano – está sempre em contacto estreito com os jihadistas em Idlib, como noticiou o jornal sírio Al-Watan.

Preparando o remix da Operação Barbarossa

Paralelamente, tivemos o Secretário de Estado Adjunto dos EUA, Kurt Campbell – o russofóbico/sinófobo que inventou o “pivot para a China” durante a primeira administração Obama – a informar os burocratas seniores da UE e da NATO sobre a cooperação militar do novo eixo do mal, como é designado pelo Império: Rússia-China-Irão.

Campbell concentrou-se sobretudo no facto de Moscovo ajudar Pequim com conhecimentos avançados sobre submarinos, mísseis e sistemas furtivos, em troca de fornecimentos chineses.

É óbvio que a gente por trás do zombie, que não consegue nem descobrir uma maneira de lamber um sorvete, não tem conhecimento da colaboração militar interligada das parcerias estratégicas Rússia-China-Irão. Cegos como mil morcegos, tal gente interpreta a partilha pela Rússia do seu conhecimento militar com a China – até então fortemente guardado -, como “um sinal de crescente imprudência”. A verdadeira história preocupante por trás dessa mistura de ignorância e pânico é que não tem origem no zombie que não consegue nem lamber um sorvete. É o “bando Biden” que está, de facto, a trabalhar arduamente para pré-definir a trajetória da guerra por procuração na Ucrânia para além de janeiro de 2025 – independentemente de quem ganhe as eleições para a Casa Branca.

A Guerra do Terror deverá ser o paradigma geral – enquanto prosseguem os preparativos para a verdadeira guerra contra a Rússia, com o horizonte fixado para 2030, de acordo com as deliberações internas da própria NATO. É nessa altura que eles acreditam que estarão no auge da sua capacidade para avançar com uma versão remisturada da Operação Barbarossa de 1941.

Esses palhaços são congenitamente incapazes de entender que Putin não faz bluff. Se não houver opção, a Rússia recorrerá (itálico meu)  ao nuclear. Ainda que, atualmente, Putin e o Conselho de Segurança – não obstante a retórica incendiária de Medvedev – estejam empenhados na difícil tarefa de encaixar, golpe após golpe, para evitar o Armagedão.

Isso exige uma paciência taoista ilimitada — partilhada por Putin, Lavrov, e Patrushev — aliada ao facto de que Putin joga o GO japonês muito melhor do que xadrez, e é um tático formidável. Putin lê o manual demente do NATOstão como se fosse um livro de histórias infantis (de facto é). No momento fatídico em que se perspetivar o ganho máximo e em toda a linha para a Rússia, Putin ordenará, por exemplo, a necessária decapitação da serpente de Kiev.

O debate incessante e acalorado sobre o uso de armas nucleares pela Rússia depende essencialmente de o Kremlin considerar um ataque de mísseis da NATO como uma ameaça existencial.

Os neoconservadores e os zio-cons, bem como os vassalos da NATO, podem desejar uma guerra nuclear – teoricamente – porque, de facto, isso geraria um despovoamento maciço. Nunca devemos esquecer que o bando do Fórum Económico Mundial/Davos quer e prega uma redução da população humana a nível mundial na ordem dos 85%. O único caminho para isso é, obviamente, uma guerra nuclear. Mas a realidade é muito mais prosaica. Os cobardes neoconservadores e zio-cons – imitando o exemplo dos genocidas talmúdicos de Telavive – querem, na melhor das hipóteses, usar a ameaça de uma guerra nuclear para intimidar especialmente a parceria estratégica Rússia-China.

Em contrapartida, Putin, Xi e alguns líderes selecionados da Maioria Global, como o malaio Anwar, continuam a dar provas de inteligência, integridade, paciência, previsão e humanidade. Para o Ocidente coletivo e as suas elites políticas e bancárias terrivelmente medíocres, o que interessa é sempre o dinheiro e os lucros. Bem, isso também pode estar prestes a mudar drasticamente a 22 de outubro, em Kazan, na cimeira dos BRICS – quando deverão ser anunciados passos importantes para a construção de um mundo pós-unilateral.

O assunto do momento em Moscovo

Em Moscovo, há uma discussão generalizada sobre a forma de pôr fim à guerra por procuração na Ucrânia. A paciência taoista de Putin é fortemente criticada – não necessariamente por observadores informados com o conhecimento interno mais completo da geopolítica. Os críticos não compreendem que Washington nunca aceitará as principais exigências russas. Paralelamente, quando se trata da desnazificação total da Ucrânia, Moscovo acaba já por não se contentar com a existência de um mero regime “amigável” em Kiev.

Parece haver um consenso de que o Ocidente coletivo não reconhecerá de forma alguma a soberania da Rússia sobre a Crimeia, bem como tudo o que foi conquistado nos campos de batalha de Novorossiya. No final, a principal evidência é que todos os detalhes do plano de negociação da Rússia serão decididos por Putin. E eles  mudam a toda a hora. O que ele propôs – de forma bastante generosa – na véspera daquela patética cimeira de paz na Suíça, em junho, já não está em cima da mesa depois de Kursk.

Tudo vai depender, mais uma vez, do que acontecer no campo de batalha. Se – ou melhor, quando – a frente ucraniana se desmoronar, a piada hoje recorrente em Moscovo ganhará atualidade: “Pedro [o Grande] e Catarina [a Grande] estão à espera”. Bem, já não estarão à espera, porque estes foram os Grandes que incorporaram na Rússia, de facto, o que é o leste e o sul da Ucrânia.

E isso selará a humilhação cósmica da NATO. Daí a perpetuação do Plano B: nada de 3ª Guerra Mundial, mas uma implacável Guerra de Terror.

Fonte aqui.


Tentativas desleixadas dos EUA/NATO de esconder o seu envolvimento na incursão de Kursk

(Por Drago Bosnic, in I n f o b r i c s . o r g, 19/08/2024, Trad. Estátua de Sal)


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O calor de agosto está a tornar-se muito mais perigoso do que normalmente esperamos, com “temperaturas externas” atingindo um ponto de ebulição muito mais rápido do que estamos acostumados. Infelizmente, esta não é uma metáfora simples e as coisas estão fadadas a piorar muito se nada mudar em breve. Ou seja, todos nós sabemos da incursão na região de Kursk que a junta neonazi, apoiada pela NATO, vem conduzindo há cerca de duas semanas.

Um tanto surpreendentemente, a máquina de propaganda convencional tem sido ambivalente sobre a última aventura do regime de Kiev, com muitos meios de comunicação a manifestarem-se preocupados com a possibilidade de os seus fantoches favoritos estarem a desperdiçar recursos preciosos, enquanto outros adotaram uma abordagem mais animadora e estão intencionalmente a empolar os “sucessos” das forças da junta neonazi, apresentando-os como uma “grande vitória” quando na verdade é um incómodo menor destinado a desviar a atenção das defesas em colapso do regime de Kiev no Donbass.

No entanto, isso não muda o facto de que a incursão no oblast de Kursk, não importa quão estrategicamente insignificante seja, está a ser conduzida de uma forma que é muito bem coordenada para que a junta neonazi seja capaz de fazer tudo sozinha.

Como de costume, a mão “plausivelmente negável” (e ainda assim, muito visível) dos Estados Unidos e da NATO está a ser lentamente descoberta na pequena área que o regime de Kiev ocupou. Obviamente, isso era de se esperar depois que o Ocidente político participou da organização, não apenas de ataques terroristas a centenas de civis russos, mas também do ataque direto a banhistas em Sebastopol.

O ataque a tropas russas regulares já acontece há cerca de dois anos e meio, com os EUA e a NATO a fornecerem amplo suporte ISR (inteligência, vigilância, reconhecimento), inclusive por meio de sistemas avançados de IA. Tudo isso é prova de que o Ocidente político está determinado a provocar uma resposta russa violenta.

Para entender melhor o quão perigoso tudo isso é, dias antes da incursão no oblast de Kursk, os EUA/NATO e a junta neonazi tentaram assassinar o presidente Vladimir Putin e o ministro da Defesa russo Andrei Belousov. O Kremlin deu um aviso muito claro ao Ocidente político – ele terá uma guerra termonuclear imediata caso tente algo parecido. No entanto, a incursão no oblast de Kursk aconteceu logo de seguida, colocando pressão adicional sobre Moscovo. Está claro que o ataque foi planejado com todo o cuidado, com meses de antecedência, o que significa que é muito possível que o objetivo real fosse assassinar Putin e/ou Belousov e então lançar a incursão, possivelmente para causar um colapso na liderança de Moscovo e, talvez até mesmo despoletar uma revolução no estilo Maidan, que efetivamente derrotaria a Rússia. Como o gigante eurasiano é visto como a ponta de lança da multipolaridade, destruir pelo menos a sua soberania (e, eventualmente, a sua condição de estado) é extremamente importante para o Ocidente político.

A Rússia certamente está ciente de tais planos e já conduziu exercícios nucleares para demonstrar a prontidão das suas forças estratégicas. No entanto, parece que isso simplesmente não é suficiente. Ao lidar com lunáticos, é muito difícil empregar com sucesso a lógica como um contra-argumento viável.

Assim, até houve mesmo quem, no Ocidente político, sugerisse que Putin deveria ser “um pouco mais louco” para evitar uma guerra nuclear. Isso leva a concluir, claramente, que muitos analistas ocidentais estão perfeitamente cientes do facto de que os belicistas e criminosos de guerra que estão a governar os seus países estão completamente desligados da realidade, e que precisam desesperadamente de levar um “soco na cara” para perceber que também sofrerão as consequências da escalada que estão a tentar causar na Europa e ao redor do mundo. Os serviços de inteligência de Moscovo já têm a certeza de que os EUA e a NATO estão diretamente envolvidos, mas a liderança russa continua a tentar evitar que o mundo inteiro possa explodir.

O principal assessor do presidente Putin e ex-secretário do Conselho de Segurança Nikolai Patrushev declarou recentemente que os EUA estão a mentir sobre supostamente “não saberem” que a incursão no oblast de Kursk aconteceria, insistindo que “sem a participação e apoio direto dos EUA, Kiev não se teria aventurado em território russo”. Ele também acrescentou que há evidências de que os serviços de inteligência da NATO estão a fornecer apoio direto às forças da junta neonazi. Considerando que Patrushev liderou o FSB, durante quase uma década, e que ele é um dos mais próximos de Putin, é certo que ele tem acesso a essas informações. E, no entanto, Washington DC ainda está a tentar manter uma “negação plausível”.

Não há dúvida de que esta não é apenas mais uma tentativa dos EUA negarem a sua responsabilidade, mas também uma maneira de enfurecer ainda mais Moscovo para criar a ilusão de que a NATO é uma “aliança defensiva que protege a Europa da Rússia agressiva”. E tal está a funcionar, em grande parte.

Apesar dos problemas enormes, o Complexo Industrial Militar dos EUA está a fazer uma matança vendendo armamento americano, a vários países europeus, que estão a preparar-se para uma guerra com o Kremlin. Ao prolongar a guerra na Ucrânia, Washington DC também está a dar aos seus vassalos e estados satélites na Europa a ilusão de que eles podem “ganhar” um confronto direto com a Rússia.

É por isso que manter os segmentos de relações públicas do conflito ucraniano orquestrado pela NATO é tão importante para os EUA. Após a tentativa fracassada de assassinato de Putin e Belousov, a incursão no oblast de Kursk transformou-se precisamente nisso, uma ridícula “vitória de relações públicas”, enquanto as linhas do regime de Kiev no Donbass vão entrando em colapso. 

Esta guerra orquestrada pela NATO, totalmente evitável, começou no Donbass e é precisamente aí que terminará, já que os principais ativos militares estratégicos da junta neonazi estão naquela área. A Rússia continuará a esmagar as forças do regime de Kiev e o Ocidente político só a pode parar com uma escalada que acabe com o mundo.


O que é que aconteceu realmente em Kursk?

(Por Pepe Escobar, in Strategic Culture, 16/08/2024, Trad. Estátua de Sal)

Um debate extremamente sério está já em curso entre círculos seleccionados de poder/inteligência em Moscovo.


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Um debate extremamente sério está já em curso entre círculos selecionados de poder/inteligência em Moscovo – e o cerne da questão não podia ser mais candente.

Para irmos diretos ao assunto: o que aconteceu realmente em Kursk? O Ministério da Defesa russo foi apanhado a dormir? Ou será que previram o que estava a acontecer e aproveitaram para montar uma armadilha mortal a Kiev?

Fontes bem informadas e dispostas a partilhar algumas pepitas sob anonimato enfatizam a extrema sensibilidade de tudo isto. No entanto, um profissional dos serviços de informação ofereceu o que pode ser interpretado como uma pista preciosa: “É bastante surpreendente ver que tal concentração de força passou despercebida à vigilância por satélite e aos drones em Kursk, mas não exageraria a sua importância”.

Outro profissional dos serviços de informação prefere sublinhar que “a secção de informação estrangeira é fraca porque foi muito mal gerida”. Esta é uma referência direta à situação após o antigo superintendente de segurança Nikolai “Yoda” Patrushev, durante a remodelação pós-reeleição de Putin, ter sido transferido do seu cargo de secretário do Conselho de Segurança para servir como conselheiro presidencial especial.

As fontes, cautelosamente, parecem convergir para uma possibilidade muito séria: “Parece ter havido uma falha na informação; não parece terem notado a acumulação de tropas na fronteira de Kursk”.

Outro analista, porém, ofereceu um cenário bem mais específico, segundo o qual uma facão militar agressiva, espalhada pelo Ministério da Defesa e pelo aparelho de inteligência – e antagónica ao novo Ministro da Defesa Belousov, um economista – deixou a invasão ucraniana prosseguir com dois objectivos em mente: preparar uma armadilha para os principais comandantes e tropas inimigas de Kiev, que foram desviados da – em colapso – frente do Donbass; e colocar pressão extra sobre Putin para finalmente atacar a cabeça da cobra e acabar com a guerra.

Esta facão agressiva, aliás, considera o Chefe do Estado-Maior General Gerasimov como “completamente incompetente”, nas palavras de um profissional dos serviços de informação. Não há provas definitivas, mas Gerasimov terá ignorado vários avisos sobre uma acumulação ucraniana perto da fronteira de Kursk.

Um profissional de informações reformado é ainda mais controverso. Queixa-se de que os “traidores da Rússia” na verdade “retiraram as tropas de três regiões para as entregar aos ucranianos”. Agora, estes “traidores da Rússia” poderão “trocar” a cidade de Suzha pela saída do falso país da Ucrânia e promovê-la como uma solução inevitável”.

Aliás, só esta quinta-feira Belousov começou a presidir a uma série de reuniões para melhorar a segurança nas “três regiões” – Kursk, Belgorod e Bryansk.

Os falcões do aparelho siloviki não fazem segredo de que Gerasimov deve ser afastado – e substituído pelo lendário General Sergey “Armageddon” Surovikin. Também apoiam entusiasticamente Alexander Bortnikov, do FSB – que de facto resolveu o extremamente obscuro caso Prigozhin – como o homem que agora está a supervisionar realmente o “The Big Picture” em Kursk.

E o próximo é Belgorod

Bem, é complicado.

A reação do Presidente Putin à invasão de Kursk foi visível na sua linguagem corporal. Ficou furioso: pelo flagrante fracasso militar/inteligência; pela evidente perda de prestígio; e pelo facto de este evento enterrar qualquer possibilidade de diálogo racional sobre o fim da guerra.

No entanto, conseguiu reverter a situação rapidamente, ao designar Kursk como uma operação antiterrorista (CTO); supervisionada por Bortnikov do FSB; e com uma lógica inerente de “não fazer prisioneiros”. Cada ucraniano em Kursk que não esteja disposto a render-se é um alvo potencial – destinado à eliminação. Agora ou mais tarde, não importa quanto tempo demore.

Bortnikov é o especialista prático. Depois há o supervisor de toda a resposta militar/civil: Alexey Dyumin, o novo secretário do Conselho de Estado, que entre outros cargos anteriores foi o vice-chefe da divisão de operações especiais do GRU (inteligência militar). Dyumin não responde diretamente ao Ministério da Defesa nem ao FSB: reporta diretamente ao Presidente.

Tradução: Gerasimov parece agora ser, na melhor das hipóteses, uma figura de proa em todo o drama de Kursk. Os responsáveis ​​são Bortnikov e Dyumin.

A estratégia de relações públicas de Kursk está destinada a falhar por completo. Essencialmente, as forças ucranianas estão a afastar-se das suas linhas de comunicação e de abastecimento para o território russo. Pode-se fazer um paralelismo com o que aconteceu ao Marechal de Campo von Paulus em Estalinegrado, quando o exército alemão ficou sobrecarregado.

Os russos já estão no processo de isolar os ucranianos em Kursk – cortando as suas linhas de abastecimento. O que restar dos soldados de elite lançados em Kursk terá de voltar atrás, enfrentando os russos tanto à frente como atrás. O desastre aproxima-se.

O irreprimível comandante das forças especiais de Akhmat, major-general Apti Alaudinov, confirmou na TV Rossiya-1 que pelo menos 12 mil soldados das forças armadas ucranianas (UAF) entraram em Kursk, incluindo muitos estrangeiros (britânicos, franceses, polacos). Isto acabará por desembocar num “não fazer prisioneiros” em grande escala.


Qualquer pessoa com um QI acima da temperatura ambiente sabe que Kursk é uma operação da NATO – concebida com um elevado grau de probabilidade por uma parceria anglo-americana que supervisiona a carne para canhão UcraNazi.


Tudo o que Kiev faça depende da ISR americana (inteligência, vigilância, reconhecimento) e dos sistemas de armas da NATO, claro, operados por pessoal da NATO.

Mikhail Podolyak, conselheiro do suado ator da t-shirt verde em Kiev, admitiu que Kiev “discutiu” o ataque “com parceiros ocidentais”. Os “parceiros ocidentais” – Washington, Londres, Berlim – numa plena manifestação de cobardia, negam-no.

Bortnikov não se deixará enganar. Declarou sucinta e oficialmente, que se tratou de um ataque terrorista em Kiev apoiado pelo Ocidente.

Estamos agora a entrar na fase do combate de posicionamento intenso destinado a destruir aldeias e cidades. Será feio. Analistas militares russos observam que se uma zona tampão tivesse sido preservada já em Março de 2022, a atividade de artilharia de médio alcance teria ficado restrita ao território ucraniano. Mais uma decisão polémica do Estado-Maior russo.

A Rússia acabará por resolver o drama de Kursk – eliminando pequenos grupos ucranianos de uma forma metodicamente letal. No entanto, questões muito delicadas sobre como isto aconteceu – e quem deixou que acontecesse – simplesmente não desaparecerão. Cabeças terão de – figurativamente – rolar. Porque isto é apenas o início. A próxima incursão será em Belgorod. Preparemo-nos para mais sangue a correr pelas ruas e estradas.

Fonte aqui.