Putin e o pensamento único

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 30/06/2023)

Miguel Sousa Tavares

Vi uma reportagem de um canal de televisão americano passada recentemente na SIC e intitulada “Como Putin enganou cinco Presidentes americanos”. Era um tipo de trabalho jornalístico-político clássico da TV americana — parte-se de uma tese que se quer “provar” e vai-se procurar cuidadosamente “testemunhos” que a demonstrem: o secretário de Estado Antony Blinken, antigos embaixadores americanos na ONU, na NATO ou em Moscovo, jornalistas da estação. Depois, monta-se tudo com imagens de arquivo dos encontros bilaterais entre Putin e os Presidentes americanos, tendo o cuidado de selecio­nar imagens do Presidente russo onde surge com ar de raposa prestes a saltar sobre a presa. Sucessivamente, é-nos relatado que Clinton não teve tempo suficiente para formar uma opinião do russo, George W. Bush foi completamente enganado depois de “o ter olhado nos olhos” e ter acreditado nele, Obama não ligou ao assunto Rússia, Trump quis ser enganado e só Biden, finalmente, não se deixou enganar, a não ser no início. Mas em que é que eles todos se deixaram enganar é a pergunta que um espectador atento fará, pois que nem a pergunta e menos ainda a resposta passam ao longo dos 40 minutos do programa. OK, Putin enganou-os a todos, diz o título. Mas sobre o quê? Acerca de quê? Como não só não existia nenhum contraditório nem ninguém se deu ao trabalho de fazer um relato daquilo que esteve em cima da mesa ao longo de 20 anos de relações bilaterais entre os Estados Unidos e a Rússia, fui forçado a concluir que se tratava de um exercício jornalístico para convertidos ou iniciados ao credo: todos eles estavam carregados de boas intenções, enquanto o russo só queria enganá-los. Até que, quase a terminar o programa, uma das “testemunhas”, uma ex-embaixadora na NATO, se descaiu e finalmente revelou onde esteve o longo “engano”: “Convencemo-nos de que ele queria ocidentalizar a Rússia, mas afinal não queria.”

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Afinal, Putin não queria ocidentalizar a Rússia… Enganou-os, enganou-nos! Não, não enganou. Há 10 anos, Putin fez um discurso de estratégia onde defendia que o futuro da Rússia estava a leste, da Sibéria até ao Pacífico: ninguém no Ocidente lhe prestou atenção, mas o discurso representava uma mudança fundamental, e não apenas do ponto de vista económico e histórico, sobre o papel da Rússia num mundo cada vez mais bipolar, entre a China e os EUA. Antes mesmo de os EUA decretarem também que a sua zona estratégica de interesses se passava a concentrar na região da Ásia-Pacífico, já Vladimir Putin estava a olhar para lá: a Ucrânia foi um acidente de percurso, que ele, forçado ou não, avaliou mal. Mas não era para o Ocidente que ele estava a olhar, ao contrário de Pedro o Grande, com quem tantas vezes é comparado. Há dois anos, também, ele fez outro discurso, uma espécie de manifesto anti-Ocidente, onde acusava os Estados Unidos e os seus aliados de quererem impor os seus valores morais e políticos ao mundo inteiro, como se o mundo inteiro os reconhecesse como os únicos legítimos e adequados aos seus povos. Putin é um conhecedor da História russa, um dado fundamental que escapa grosseiramente aos seus adversários no Ocidente, ao ponto de terem anunciado que ele seria apeado pelo povo decorridos poucos meses de guerra e de “privações”. Putin sabe que a democracia e as liberdades, tal como as conhecemos no Ocidente, são coisas alheias aos russos: não lhes fazem falta. Não obstante o heroísmo de resistentes como Navalny, o poder autocrático de Putin não é uma forma de governo estranha aos russos. Ele aprendeu com Dugin, o seu ideólogo (cuja filha os serviços secretos ucranianos mataram num atentado que visava o pai), que, desde tempos imemoriais, há três coisas em que assenta o poder na Rússia: a noção de pátria, a religião e o autocrata. Durante a monarquia, a noção de pátria estava na “Mãe Rússia”, o território sagrado pelo qual cada russo daria a vida contra as ameaças dos inimigos; a religião era a Santa Igreja Ortodoxa; e o autocrata era o Czar, investido de poder divino. A partir de 1917, com a Revolução e a paz de Brest-Litovsk, Lenine cedeu território em troca de ganhar os soldados massacrados do Czar para a Revolução, substituiu a religião da Igreja pela do comunismo e a autocracia do Imperador pela do Partido. Após o desmantelamento da URSS, um irresponsável Boris Ieltsin, totalmente na mão dos americanos e dos piores capitalistas ocidentais, foi levado a acreditar na versão maligna da democracia ocidental: a confusão entre a liberdade e a libertinagem, o salve-se quem puder. No seu livro “Os Homens de Putin”, a ex-correspondente do “Financial Times” em Moscovo Catherine Belton descreve pormenorizadamente como é que Vladimir Putin conquistou o poder e aos poucos foi substituindo a máfia e os oligarcas de Ieltsin pelos seus. Embora o livro seja um violento libelo anti-Putin, lido com atenção, percebe-se, mesmo contra a vontade da sua autora, que o que ele fez, no essencial, foi pôr fim ao saque das empresas estatais e estratégicas russas, que Ieltsin tinha entregue a estrangeiros a preços de saldo, e recuperou-as para a esfera do governo. A diferença entre os seus oligarcas e os do seu antecessor é que os seus passaram a ser controlados a partir do Kremlin e não do Texas. Depois, daí em diante, foi uma cascata: ele passou a “enganá-los” a todos. Ao contrário do esperado, não se deixou “ocidentalizar”.

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A repressão do terrorismo tchetcheno (que é suspeito de ter fomentado secretamente) ajudou-o a ganhar tranquilamente as segundas eleições e a consolidar o poder como novo senhor de “Todas as Rússias”, a antiga designação imperial. Como autocrata apoia­do pela Igreja e ex-agente do KGB, sempre que necessário, Putin lança mão de métodos desagradáveis para se livrar dos seus adversários internos: envenena-os ou fá-los “suicidarem-se” saltando do alto de prédios para a rua. Nada de muito estranho num país onde dantes os czares se livravam dos inimigos empalando-os e deixando-os a agonizar pendurados de fora dos muros do Kremlin. A barbárie dos russos e dos eslavos, em geral, é lendária. Todavia, a história das décadas da Guerra Fria está carregada de episódios semelhantes do nosso lado, uns conhecidos, outros não, e dificilmente se poderá sustentar que, em matéria de métodos de actuação, de invasões, de golpes de Estado, de massacres, de Guantánamos, nós fomos predominantemente os bons e eles os maus. A História é uma lavandaria onde todos entram sujos e só sai limpo o último a fechar a porta. Isso não impediu que, para bem da Humanidade, vivêssemos em paz durante mais de 70 anos, mesmo sob a ameaça permanente de milhares de ogivas nucleares capazes de fazerem cessar de vez todas as divergências. Claro que, para quem teve a sorte de nascer e ser educado com os valores daquilo a que chamamos “democracias liberais”, só por masoquismo experimental ou obstinação ideológica trocaríamos o nosso modo de vida pelo do país de Vladimir Putin. E, se pudéssemos, decretaríamos o mesmo, a liberdade, para todos os povos e nações do mundo. A liberdade e também a prosperidade. E também a paz — também a paz. Mas, como tal não é possível, nós, os campeões das democracias liberais e dos direitos humanos, hoje execramos Putin e perseguimos qualquer russo, de atleta olímpico a compositor, mas convivemos com ditadores e assassinos conhecidos como tal de África, do Médio Oriente, da Ásia ou da América Latina e até com alguns peculiares “democratas” europeus. Por isso, por ser menos hipócrita e guardar ainda memória de uma guerra mundial, é que, até que a URSS se desmoronasse de podre, uma sábia geração de dirigentes ocidentais de outro calibre, que nada tem que ver com os desta geração rasca que agora nos governa, soube esperar pacientemente e durante décadas que a razão se impusesse por si, preservando a todo o custo os ténues fios de diálogo que, contra todos os riscos, mantiveram a paz possível.

Mas, de então para cá, o Ocidente manteve viva a mentalidade da Guerra Fria. Não conseguiu deixar de ver a actual Rússia como uma continuação da extinta União Soviética. Não conseguiu perceber que a URSS comunista nada tinha que ver com a Rússia profunda, enquanto a Rússia de Putin é a restauração daquilo que, para o bem e para o mal, para a grandeza e para a desgraça, a Rússia foi ao longo dos séculos. E, sobretudo, não conhecendo essa História nem entendendo essa Rússia, o Ocidente insiste em avaliá-la e julgá-la por padrões éticos e políticos em que os russos não se reconhecem e que em nada contribuem para o entendimento comum. Acicatado pelos países bálticos ou pela Polónia, que têm justas razões para temer o abraço do “urso”, doutrinado por intelectuais de pensamento único como Fukuyama, Timothy Garton Ash ou o exibicionista francês Bernard-Henri Lévy, refém da doutrina NATO de não perder esta oportunidade de derrotar a Rússia a qualquer preço, o Ocidente conseguiu — com a ajuda da imponderação de Putin, é certo — fazer deste um tempo ainda mais perigoso do que o da Guerra Fria.

E, porque nada entendem além das regras de pensamento que estabeleceram, nada percebem agora do que se passa na Rússia com a revolta interna do Grupo Wagner. Mas, se tivessem estudado a História, saberiam que muitos czares recorreram também a guardas pretorianas por desconfiarem do Exército regular, que conduziram guerras com elas para evitarem a mobilização popular e que alguns acabaram assassinados por elas.

Chega a ser confrangedor ver os 27 da UE, comandados por esse patético Josep Borrell, paralisados na ignorância e na angústia, qual grupo de papagaios amestrados à espera de instruções superiores. Que seguramente virão dos generais americanos — apesar de tudo, os que melhor conseguirão perceber o que se vai passar numas Forças Armadas que cobrem 11 fusos horários de território continental e um espaço aeronaval que vai do Pacífico ao Árctico, passando pelo Mediterrâneo, o Índico, o Atlântico e o Báltico, com o maior número de ogivas nucleares de um Estado.

Ao pé disso, a escolha do chamado Mecanismo Europeu de Apoio à Paz de continuar o business as usual, apostando tudo na guerra (cabendo a Portugal contribuir com 170 milhões de euros para ajudar a comprar armas e munições para a Ucrânia), numa guerra na Europa que se espera possa durar até 2027, é certamente uma decisão visionária.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Budarém, um aeroporto à nossa medida

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 23/06/2023)

Miguel Sousa Tavares

Navegamos entre o aeroporto de Budapeste e o imaginado futuro Aeroporto Internacional de Lisboa (AIL)… em Santarém. Estamos, pois, em Budarém, esse espaço de mentirinhas, explicações absurdas e embustes onde se consome a nossa actualidade e a nossa capacidade criativa. Já se sabe que os Falcon são uma tentação irresistível para os nossos governantes, como os restantes jatinhos privados o são para os futebolistas de luxo e os agentes dos futebolistas de luxo, que alimentam o Instagram com as suas fotografias a bordo, de taça de champanhe em punho e acompanhante de silicone ao lado, brindando aos deuses da fortuna, enquanto contemplam lá de cima a triste sina dos que cá em baixo os veneram e alimentam. Tudo explicado ou não explicado, porém, fiquei sem perceber o que foi o Falcon de António Costa fazer a Budapeste. Ver um jogo de futebol de uma equipa de Mourinho não cabe na cabeça de ninguém, de tal maneira o futebol das equipas de Mourinho se tornou soporífero há anos largos. Dar um abraço ao dito cujo, francamente, seria o abraço mais caro que os contribuintes já tiveram de pagar. Corresponder a um convite do presidente da UEFA, essa associação de bem-fazer, seria até suspeito, mesmo que em benefício de uma operação de lobbying a favor do Mundial de Futebol em Portugal e Espanha — esse projecto, como de costume, decidido sem consulta aos portugueses e aos contribuintes. Ir ao aniversário de Viktor Orbán ou entabular com ele quaisquer negociações secretas, pessoais ou de outra natureza parece muito estranho e de difícil explicação. O que terá, então, António Costa ido fazer a Budapeste? Que tal, por uma vez, dar-nos uma explicação franca, cara a cara e convincente? Ou então dizer que não tem nenhuma e pedir desculpa?

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Já mais claro e convincente foi João Galamba quando, num debate sobre mobilidade, disse aquilo que é óbvio para qualquer pessoa: que um aeroporto em Santarém é longe demais e não faz sentido nenhum para servir Lisboa. Tivesse isto sido dito por Pedro Nuno Santos e logo teríamos a imprensa a elogiar a frontalidade dele, mas dito pelo proscrito Galamba tornou-se em mais uma “polémica” que, logo no dia seguinte, o forçou a começar a recuar.

Ora, toda esta história do aeroporto de Lisboa-Santarém é uma coisa sem sentido, típica de um país incapaz de tomar decisões sobre o futuro e só possível de sustentar pela inércia de uma imprensa que engole o que lhe metem à frente, sem sequer se dar ao trabalho de pensar. Santarém foi uma coisa que uns senhores foram enxertar à última da hora na cabeça de Luís Montenegro, e ele, que, como sempre, não tinha ideia alguma sobre coisa alguma mas queria fingir que tinha, levou-a a António Costa, o qual, por sua vez, sempre disponível para adiar decisões, a chutou para uma tal Comissão Independente, à qual foi dado o prazo de um ano para propor uma solução final de localização do futuro AIL. Depois de seis meses verdadeiramente anedóticos, em que os portugueses foram todos convidados a indicar localizações ao gosto de cada um, a Comissão acabou a estudar 17 e depois a reduzir as hipóteses a seis. Aposto que não cumprirá o prazo de um ano e que, no final, não apresentará uma só solução, mas sim três ou quatro para o Governo escolher: aquelas que, desde sempre, se sabia serem as menos más ou mais viáveis. Espero, pelo menos, que Santarém não seja uma delas. Santarém fica a quase 90 quilómetros de Lisboa, quando a média de distância de um aeroporto às principais cidades europeias é de pouco mais de 20 quilómetros. O “argumento” de que demoraria apenas 29 minutos a transportar um passageiro do aeroporto até Lisboa de comboio deixa por explicar que linha e que comboios seriam utilizados, que por “Lisboa” se entende a periferia (Gare do Oriente) e que para tal seria preciso que à saída do aeroporto cada passageiro tivesse à sua espera um comboio pronto a partir imediatamente. Outro embuste que os defensores de Santarém vendem é que o seu aeroporto seria construído apenas com dinheiro de privados, embora até hoje nenhum tenha dado a cara. E, claro, quando dizem que custaria 1000 milhões de euros, ou estão a brincar ou demonstram a sua total incompetência para ter voz no assunto. Enfim, outra questão de que nem sequer se ocupam é a de saber se os milhares de trabalhadores que hoje estão na Portela, alguns deles desempenhando funções muito qualificadas, estariam dispostos a mudar-se para Santarém ou a fazer todos os dias 180 quilómetros para ir trabalhar.

Num país a sério, que quisesse andar para a frente e não perder tempo com questões inúteis, quem tivesse de decidir diria simplesmente: “Não precisamos de Comissão alguma nem de um ano para avaliar isto. Santarém é um absurdo, risquem.” Mas como chegámos a um ponto da política onde interessam mais discutir as “polémicas” sobre questões laterais do que a substância dos problemas, logo o PSD e a oposição saltaram em cima de mais esta e do saco de pancada Galamba. Já havia sido assim na CPI à TAP, em que, mais do que o futuro da empresa, o que interessou foi discutir a responsabilidade do ministro pelo episódio em que o adjunto roubou um computador e se o SIS foi ou não bem chamado. Aliás, bastou assistir a algum tempo das patéticas intervenções do deputado do PSD na Comissão, Paulo Moniz, para perceber a miséria política em que vegeta o maior partido da oposição: o homem até desconhece que, desde que o Estado Novo caiu, chama-se ao chefe do Governo primeiro-ministro e não presidente do Conselho! Um partido que exige a demissão de um ministro porque um seu colaborador despedido montou um escarcéu no Ministério mas que nomeia para duas Comissões Parlamentares um deputado arguido num processo-crime por suspeitas de corrupção e que regressou ao Parlamento à revelia do próprio presidente do partido! Um partido que diz e rediz que o Governo já não governa mas que foge de eleições antecipadas como a pior das soluções. Que jura que é alternativa mas que não apresenta ao país uma única que se conheça, seja relativa à Saúde, à Educação, à Agricultura, ao Ambiente, à Justiça, ao modelo de desenvolvimento, à TAP, à Efacec, ao que quer que seja… Porque há-de alguém votar no PSD se o PSD nem sequer quer ir a eleições e, se tiver de ir, não é capaz de dizer com quem se aliaria e quem excluiria? E, pior do que tudo, não sabe o que propor. O aeroporto de Lisboa em Santarém — é isso? Bom, sempre é uma ideia. Então assumam-na.

2 Deixámos de pensar o país e o seu modelo de desenvolvimento, agora e para o futuro. Entrámos num processo de deixar andar, enquanto as coisas se forem aguentando e houver dinheiros europeus que não nos obriguem a pensar demais. O modelo assenta largamente no sucesso da balança comercial graças a actividades intensivas: agricultura intensiva e turismo intensivo. O problema é que são actividades predadoras: do ambiente, da paisagem, da qualidade de vida nas cidades, dos recursos naturais disponíveis e das relações laborais. Sendo actividades intensivas, reclamam mão-de-obra intensiva, que não existe internamente. Para onde quer que nos viremos, com quem quer que falemos, escutamos a mesma reclamação: “Não há ninguém que queira trabalhar!” É um mistério perceber de que vivem os portugueses: do Fundo de Desemprego, do RSI, do Fundo de Desemprego mais biscates por fora? O facto é que nem grandes empreendimentos turísticos nem novas explorações agrícolas intensivas deixam de ser lançados todos os dias. Para satisfazer as necessidades, o país tornou-se importador de uma legião de mão-de-obra asiática semiescrava, que vai das vinhas do Douro aos olivais do Alqueva, passando pelas amêijoas do Tejo e as estufas de frutos vermelhos de Odemira. No mundo do trabalho, o grosso da factura é pago pelos jovens, “a geração mais qualificada de sempre”, que, não servindo para apanhar mirtilos nem ameijoas, vê reduzir-se cada vez mais o fosso salarial para os trabalhadores indiscriminados e fugir-lhe um futuro minimamente decente num país que investiu tanto na sua educação. Há gente no Governo, como o ministro do Ambiente, que fecha os olhos ao que não quer ver, e há gente, como a ministra da Agricultura, que delira com o sucesso deste modelo. E há o ministro da Economia, que bem se esforça para tentar explicar que o turismo não é tudo, mas que é desmentido e submergido pela realidade dos factos.

Não avançamos, caminhamos sem sentido, sem saber para onde vamos e onde estaremos daqui a 10, 20 anos. Talvez em Budarém, a terra de ninguém.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Fotopátria pelo Presidente Marcelfie

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 16/06/2023)

Miguel Sousa Tavares

O Estado Novo ensinou-me a desconfiar dos patriotismos exaltados; o “patriota” importado Scolari — que treinava a Selecção enquanto fazia publicidade a uma empresa pública e achava que fazia parte dos costumes fugir aos impostos — deu-me mais um substancial abalo quando conseguiu pôr o país inteiro vestido com as horríveis cores da bandeira a proclamar-se nação valente e imortal. As cerimónias do 10 de Junho acrescentam-me habitualmente mais melancolia à versão oficial da história lusa, com as suas inescapáveis oportunidades de grandiloquentes discursos patrióticos. Imagino que seja assim um pouco por todo o lado, nos respectivos dias nacionais, mas duvido que algures se abuse tanto da invocação de um passado secular e grandioso por mares nunca de antes navegados ou coisa semelhante. Não que eu próprio não sinta orgulho nesse passado, porque sinto, e sem complexos neocoloniais — tudo visto localmente, tudo revisto nos livros e mesmo muito não podendo ser esquecido ou perdoado. Mas, simplesmente, já é tempo de deixarmos de viver à conta do fado das Descobertas, como fazia o Estado Novo, e percebermos que, tal como reza a anedota, nós não somos descendentes directos dos que partiram mas dos que ficaram.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Assim, quando leio que neste 10 de Junho, na Régua, após os seus banhos de selfies, o Presidente Marcelfie dirigiu-se à pátria e, perante o sentido aplauso do povo, disse coisas tão profundas como “todos os 10 de Junho sabemos que, por entre alegrias e tristezas, estamos a fazer Portugal” ou “somos dez milhões cá dentro mas valemos muito mais”, regressa-me este mal-estar que não sei se é um défice de patriotismo ou um excesso de cinismo. Porque eu, de verdade, não sei o que seja fazer Portugal nem entendo porque haveremos de achar que valemos mais do que valemos. A tal ridícula ideia de “fazer Portugal” aplica-se a quem: às poucas ilhas de excelência que conseguem inovar e fazer para além da mesquinhez resignada e eternamente insatisfeita ou àqueles que não vivem sem o favor, o subsídio, o apoio do Estado? Aos que podendo ser facilmente grandes cá dentro não têm medo de ser iguais aos melhores lá fora ou aos que preferem viver no conforto de serem os melhores da sua rua, infalíveis no auto-elogio e na cobrança à ingrata pátria onde se acolhem?

Remeto para a sondagem ao estado de espírito dos portugueses publicada na última edição do Expresso. Sem nenhuma surpresa, constatei que os portugueses se declaram largamente insatisfeitos. Com tudo: o país, o Governo, a economia, as instituições. Não confiam em nada nem ninguém, com excepção de alguma condescendência para com o Presidente das selfies e as Forças Armadas — o sector que o Presidente excluiu do rol de “ramos mortos” que é preciso cortar da árvore pátria, muito embora o que não faltem lá sejam escândalos de toda a ordem, com indisciplina, dinheiros desaparecidos, material desbaratado, armas roubadas. Ou seja, a fazer fé no que dizem, os portugueses não gostam do país que têm. E a culpa, já se sabe, é sempre “deles” — essa entidade difusa que quase sempre remete para o governo em funções, inevitavelmente formado por oportunistas e corruptos, mas que se estende a toda a classe política e quem quer que tenha poder. Se, num dia de semana e em horário de trabalho, encontramos um grupo de amigos com ar saudável e longe da idade de reforma, sentados num café a beber mínis, e lhes perguntamos como vai a vida e o país, é certo que desatarão a queixar-se de tudo e “deles” lá em cima. Porque, aparentemente, Portugal seria maravilhoso se ninguém o governasse e todas as reivindicações de cada grupo de interesses fosse satisfeito sem mais. Por isso, exercer a crítica política construtiva, denunciar e condenar os verdadeiros casos de corrupção, de tráfico de influências, de oportunismo político, é caminhar sobre gelo fino: porque cada um que cai, justamente condenado na opinião pública e nos tribunais, serve imediatamente para alimentar a tese de que “são todos iguais”. E não é inocentemente que essa “verdade” é estrategicamente soprada ao bom povo por quem espera vê-la ganhar caminho aos poucos até se transformar num incêndio que possa devorar a democracia.

E é aqui que entra em jogo o papel do Presidente da República. Trata-se da mais subtil e delicada função institucional do nosso sistema democrático: bem exercida, é utilíssima e pode mesmo ser imprescindível; mal exercida, pode tornar-se perigosa. Espartilhado entre um papel por vezes apenas decorativo, outras vezes ameaçador, de quem detém o poder nuclear, o Presidente é um homem solitário por função, sempre em busca de um caminho e de uma assinatura que façam sentido. Excluído dos riscos e dos sarilhos da governação, a salvo das guerrilhas diárias, a menos que as procure, facilmente o Presidente goza de uma popularidade acima de todos “eles”, a qual poderá usar bem ou mal, facilitando a vida “deles” ou tornando-a infernal. Sobre os Presidentes que temos tido em democracia, são sabidas duas coisas: que todos buscam um segundo mandato, mesmo que insinuem não o querer; e que todos fazem um segundo mandato diferente do primeiro. No primeiro, tratam de estabelecer um estilo, tão popular e familiar quanto possível, mostrando-se ao país e ao povo próximos, atentos e preocupados, mas deixando o Governo em paz, a menos que seja este a enfiar-se em atoleiros sem solução. No segundo mandato, porém, os Presidentes começam aos poucos a mostrar os dentes, ou porque estão fartos do seu papel secundário, ou porque querem deixar uma marca, ou porque se prestam a servir o partido de onde vêm. No lugar onde estão e próximos do fim da sua vida política, os Presidentes podiam aproveitar os segundos mandatos para convocar o país e os decisores a pensar no futuro e nas grandes questões que o país terá de enfrentar, desligando-se momentaneamente das querelas do dia-a-dia. Mas se algumas vezes isso é referido de passagem e de forma vaga em discursos ao vento, no essencial o que temos visto é eles a deixarem-se arrastar pela política partidária, seguramente a menos nobre das suas funções.

Marcelo caminha a passos largos para não ser excepção à regra. No estilo, ficou refém de um hiperprotagonismo que só a ele não cansa e que só ele parece não ver o quanto desgasta e descredibiliza a sua função e cada intervenção que faz.

É absolutamente surreal que em cada encontro de rua com populares ou jornalistas — alguns dos quais forçados por ele próprio — Marcelo se dedique a elaborar sobre a dissolução da Assembleia, a queda do Governo ou a demissão de ministros, como se estivesse a jogar “Monopólio”. É doentia e desagradável de ver a sua obsessão com a popularidade, oferecendo-se como Presidente Marcelfie a cada ajuntamento de mais de duas pessoas, mesmo quando à sua frente caminha o primeiro-ministro a ser insultado pelos mesmos populares: Ramalho Eanes ou Mário Soares não o teriam feito.

Mas é sobretudo no indispensável combate ao populismo e à demagogia — de que ele não pode de forma alguma ausentar-se — que eu o vejo a passar ao largo da sua obrigação neste segundo mandato. Ele, que tão bem soube, no primeiro mandato, aproveitar a popularidade de que dispunha, para silenciar os populismos antidemocráticos, agora não entende que esta é a hora de usar a autoridade que lhe advém do cargo para voltar a silenciá-los. Pelo contrário: sabendo ele que há muitos que confundem o estado da democracia com o estado da economia e com o seu próprio bem-estar, e que lhes é indiferente que haja uma epidemia planetária ou uma guerra na Europa que tudo condicione, olhar para os bons indicadores da conjuntura económica e dizer e repetir que “boa economia não é sinónimo de boa política”, pretende o quê, a não ser fornecer novos argumentos para a declarada e militante insatisfação geral? Alimentar simpatias para com reivindicações profissionais e sindicais que sabe não serem financeiramente comportáveis pretende o quê, a não ser minar o campo de batalha onde está o Governo e ele não tem de estar? Falar da “riqueza” do país, sabendo que não somos e nunca fomos um país rico e que só deixando de acreditar que existe um Estado rico num país que o não é que a todos poderá assistir é que poderemos avançar, destina-se a quê a não ser perpetuar as ilusões e as insatisfações? Talvez não seja de exigir a Marcelo que tenha a coragem de repetir a célebre frase de Kennedy, que tão bem caracteriza os países que se fazem de baixo para cima — (“Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti; pergunta o que podes tu fazer pelo teu país.”) — mas, pelo menos, que tenha a coragem de não cavalgar as sondagens sobre os impossíveis que os portugueses gostariam de ouvir. Que escolha o caminho mais difícil e pedagógico. O da verdade, talvez. Que não valemos mais do que aquilo que valemos e que não pode ser sempre e só por culpa “deles” que, com tantas ajudas e tão poucas catástrofes comparados com tantos outros, vamos ficando sempre para trás.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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