Para uma maior justiça fiscal internacional

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 09/01/2020)

Alexandre Abreu

Uma parte importante da desigualdade global tem origem na dificuldade em taxar adequadamente a actividade das empresas multinacionais. Se, como foi recentemente assinalado pelo Institute for Policy Studies norte-americano, Jeff Bozos, Bill Gates e Warren Buffett têm um património líquido sensivelmente equivalente à metade mais pobre da sociedade norte-americana (150 milhões de pessoas), isso deve-se em boa parte à inadequação das taxas mais elevadas de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares e à insuficiência dos impostos sobre o património (algo que o próprio Gates assinalou recentemente), mas a montante disso está também a fiscalidade inadequada sobre a actividade das multinacionais.

Como qualquer empresa, as multinacionais beneficiam largamente de um conjunto de benefícios que decorrem no essencial de investimentos públicos nos territórios onde operam. Beneficiam das infraestruturas físicas, como as redes viárias, eléctricas e de comunicações. Beneficiam da educação e dos serviços de saúde proporcionados à força de trabalho. Beneficiam da segurança pública e do sistema judicial. Beneficiam do instituto jurídico da responsabilidade limitada: a invenção da separação jurídica entre a responsabilidade das empresas e a responsabilidade dos empresários que remonta a alguns séculos atrás. Tudo isto são razões pelas quais a actividade das empresas deve estar sujeita a fiscalidade distinta, e para além, da que incide sobre os rendimentos singulares dos seus proprietários.

Sucede que, num mundo caracterizado pela falta de coordenação fiscal – e muitas vezes, pela concorrência fiscal aberta –, as empresas que operam em vários territórios especializaram-se em tirar partido das diferenças entre os sistemas fiscais para pagar o mínimo possível de impostos. O principal mecanismo a que recorrem para isso são os chamados preços de transferência (transfer pricing). A utilização dos preços de transferência para efeitos de elisão fiscal consiste em declarar preços fictícios por transacções entre filiais ou subsidiárias do mesmo grupo de modo a transferir contabilisticamente o lucro para jurisdições onde os impostos são mais baixos ou inexistentes. Por exemplo, a empresa XPTO Portugal, que tem lucros de 10 milhões de euros em Portugal, declara para efeitos fiscais que paga à empresa XPTO Irlanda, do mesmo grupo, uma licença no valor de 10 milhões de euros para utilizar uma determinada marca ou tecnologia (apesar da propriedade das duas empresas ser a mesma). Os lucros em Portugal são assim contabilisticamente transferidos para a Irlanda, onde estarão sujeitos a menos impostos. Algumas empresas, especialmente na área digital, têm uma capacidade chocante de tirar partido destas estratégias: a Amazon ou a Google, por exemplo, praticamente não pagam impostos apesar de terem receitas anuais largamente superiores ao PIB de muitos países de pequena ou média dimensão.

Estas práticas são injustas a vários níveis. Beneficiam os titulares de rendimentos de capital em detrimento dos titulares de rendimentos do trabalho. Beneficiam as empresas maiores, que operam em vários territórios e são mais capazes de tirar partido destas estratégias, em detrimento das mais pequenas, que acabam a pagar a maior parte do IRC. E recompensam os territórios que adoptam regimes fiscais predatórios, os quais acabam muitas vezes por arrecadar impostos sobre actividade que não ocorre no seu território. Encontrar formas adequadas e sobretudo justas de taxar a actividade das empresas multinacionais é por isso uma prioridade fundamental em temos de justiça fiscal global.

Têm sido propostas várias formas para enfrentar este problema. A menos ousada, que aliás é já um requisito em vários contextos, é a imposição de um chamado critério ‘arm’s length’ para os preços de transferência: isto é, os preços cobrados por bens, serviços e licenças entre empresas do mesmo grupo devem ser razoáveis à luz dos preços praticados no mercado entre empresas que não têm relação entre si. Este critério é no entanto por vezes muito difícil de aplicar e, consequentemente, de fiscalizar, principalmente se não houver preços de mercado facilmente comparáveis que sirvam de referência. Uma forma muito mais eficaz de responder ao problema passa pelo aumento da coordenação fiscal: se os estados, pelo menos ao nível de entidades como a União Europeia ou a OCDE, acordarem entre si o estabelecimento de taxas mínimas de imposto sobre as empresas, o incentivo para a adopção destas práticas de elisão fiscal internacional reduzir-se-á significativamente.

Porém, mesmo sem essa coordenação, os estados, se tiverem vontade política para isso, podem dar passos no sentido de uma maior justiça fiscal. Para isso, podem por exemplo introduzir alterações nos seus regimes fiscais de modo a que, para empresas a partir de uma determinada dimensão, o imposto devido seja pelo menos em parte função da actividade desenvolvida no país – tal como representado pelo volume de vendas, pelo número de funcionários, pelos activos detidos no país, ou por uma combinação destes indicadores.

Actuar eficazmente no sentido da justiça fiscal global é difícil, incluindo devido à existência de jurisdições especializadas em facilitar estas práticas: os paraísos fiscais. Em todo o caso, entidades supranacionais como a União Europeia podem com certeza avançar seriamente nesse sentido, assim haja vontade política, inviabilizando a existência de paraísos fiscais no seu seio, restringindo os fluxos financeiros de e para paraísos fiscais no exterior do seu espaço, estabelecendo taxas mínimas de imposto que inviabilizem a concorrência desleal entre estados-membros e caminhando para a imposição de impostos que incidam sobre a actividade efectiva das empresas e não apenas sobre os lucros registados contabilisticamente.

Nesse sentido, é desanimador, para não dizer chocante, que 12 estados membros (que por pouco não incluíam Portugal) tenham em novembro do ano passado inviabilizado uma proposta de directiva europeia que obrigaria as empresas multinacionais a revelar os lucros realizados e os impostos efectivamente pagos em cada estado-membro – o chamado ‘country-by-country reporting’. Mas o facto de mesmo passos modestos no sentido do aumento da transparência como este serem muitas vezes vetados pelos estados que beneficiam da situação actual não deve impedir cada estado de, individualmente, caminhar na direcção correcta. Começando pela nossa própria casa, os imperativos da justiça e da decência fiscais deveriam levar Portugal a caminhar no sentido de extinguir a zona franca da Madeira, de constranger fortemente os fluxos de e para outros paraísos fiscais, de impor requisitos mais fortes de country-by-country reporting às empresas multinacionais que aqui operam e de exigir que, para empresas de grande dimensão, o imposto a pagar dependa pelo menos em parte das vendas realizadas e/ou dos funcionários em Portugal, não apenas dos lucros.

Moneyland

(Paul de Grauwe, in Expresso, 03/08/2019)

Uma vez que o dinheiro roubado pode ser tão habilmente escondido nos paraísos do Ocidente, não existe um limite para o roubo e a pilhagem.


Férias de verão são sinónimo de leitura. Pelo menos para um leitor ávido como eu. Eu não me deito na praia e, se o fizesse, seria com um livro. Ontem terminei de ler “Moneyland”, de Oliver Bullough. O subtítulo é: “Why Thieves and Crooks Now Rule the World and How to Take it Back” (porque é que ladrões e criminosos dominam agora o mundo e como o podemos reaver). É uma linguagem forte. Provavelmente um exagero, mas existem, ainda assim, motivos para preocupações.

É sobre o quê? Desde a década de 1980 que os movimentos de capitais entre países foram liberalizados. O dinheiro pode mover-se mais ou menos livremente de um país para outro. Antigamente, não era assim. Não era possível transferir dinheiro de um banco num país para um banco noutro país. A maioria dos países utilizava diferentes formas de controlo cambial para fazer tais movimentações de dinheiro, e, se não era impossível, era muito difícil. Impulsionados pela ideia de que os mercados livres eram mais capazes de decidir para onde o dinheiro deveria ir do que os governos e os burocratas, os sistemas de controlo de câmbio foram sendo gradualmente abolidos.

Esta liberdade de movimentação de capitais tornou-se um elemento da globalização da economia mundial, em que bens, serviços e capitais podem mover-se livremente entre a maioria dos países. Por si só, não há nada de errado nisso. Mas agora parece que devem ser impostos limites a essa liberdade. Porquê?

Uma parte importante dos movimentos de capitais resulta de considerações económicas legítimas. O capital flui para onde o retorno é mais elevado. O que acontece, normalmente, em países com um nível de desenvolvimento relativamente baixo. Como resultado, o capital circula dos países desenvolvidos para os menos desenvolvidos e contribui para um desenvolvimento económico mais rápido dos últimos.

Até aqui, tudo bem. O problema, porém, é que os fluxos de capitais também se movimentam intensamente na outra direção: dos países menos desenvolvidos para os países ricos. E isso tem tudo a ver com a corrupção. Nos países do Leste europeu, tais como a Rússia e a Ucrânia, em alguns países africanos, asiáticos e do Médio Oriente, a corrupção é uma epidemia. Estas são as regiões do mundo onde as elites políticas e económicas pilham os seus próprios países.

O principal problema com essa pilhagem maciça é que o dinheiro roubado tem de ser escondido. Quando a riqueza acumulada pelos líderes/ladrões locais se torna muito visível, desencadeia a resistência social e até mesmo revoluções.

Como é que estes saqueadores resolvem esse problema? Mudando o dinheiro para o que Oliver Bullough chama de “Moneyland” (paraíso do dinheiro). Que é todo o sistema financeiro ocidental que fica fora do controlo das autoridades. Consiste em bancos e outras instituições financeiras ocidentais que usam as inúmeras lacunas nas legislações nacionais para ocultar e redirecionar o dinheiro roubado.

Um exército de banqueiros e advogados, que ficam com uma parte do dinheiro, limpa o dinheiro de todos os vestígios de fraude e corrupção, para que possa ser branqueado. O dinheiro acaba transformado em casas e apartamentos de luxo em Londres e Nova Iorque e numa série de outros produtos e serviços extravagantes. Ou fica apenas nos bancos para ser usado no dia em que os líderes/ladrões são expulsos dos seus tronos.

O problema destes movimentos maciços de capitais é duplo. Em primeiro lugar, a existência de um “Moneyland” tornou possível aumentar drasticamente o nível de corrupção em muitos países. Uma vez que o dinheiro roubado pode ser tão habilmente escondido no Ocidente, não existe um limite para o roubo e a pilhagem. O “Moneyland” elevou o saque a outro nível.

Isto também significa que os países ricos são culpados de cumplicidade da enorme corrupção que existe na Europa de Leste, em países asiáticos e africanos e no Médio Oriente. Pior, alimentam essa corrupção.

O que leva a um segundo problema. Todo o dinheiro roubado que está em contas no sistema financeiro ocidental é usado para disseminar o cancro da corrupção no Ocidente. O dinheiro é usado pelos ladrões para subornar políticos ocidentais. Estes, esperam os ladrões, irão garantir que os seus interesses são protegidos. É também utilizado para disseminar informações falsas e criar confusão na opinião pública ocidental, minando as instituições democráticas. Quanto menos democracia houver, mais a corrupção se pode propagar.

É tempo de verificar e controlar o “Moneyland”. Isso é possível, mas exige a cooperação internacional. Infelizmente, esta é dificultada pelo aumento do nacionalismo.

Professor da London School of Economics, Reino Unido


Ronaldo, Jorge Mendes, Doyen e Rui Pinto. Os protagonistas no Football Leaks

(In Diário de Notícias, 1902/2019)

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Jorge Mendes é uma das pessoas mais referidas no livro ‘Football Leaks’.

(Este artigo revela a podridão que se oculta por detrás dos ordenados e das transferências milionárias do futebol. Os Estados, ou seja todos nós, estamos a ser roubados pelas máfias que desviam milhões para os offshores, fugindo aos impostos que deveriam pagar. Depois não há dinheiro para a saúde, para a educação, nem para modernizar os países. 

O capitalismo é isto. O futebol, como negócio de milhões em que se transformou, não recorre a práticas diferentes de outros negócios. O objectivo é sempre o mesmo obter o máximo lucro, nem que seja à custa de esquemas de duvidosa legalidade.

Comentário da Estátua, 19/02/2019)


Cristiano Ronaldo, Jorge Mendes, Doyen. O primeiro é para muitos o melhor jogador de futebol do mundo; o segundo é o empresário mais influente naquele que é considerado o desporto-rei em grande parte do mundo e o terceiro nome é de um fundo de investimentos também liderado por um português, Nélio Lucas, que em poucos anos esteve ligado aos maiores e mais lucrativos negócios de transferências de jogadores.

Estes são três vértices de um mundo com muitas pontas, mas, segundo oFootball Leaks, livro hoje é publicado em Portugal pela editora Planeta. com um único objetivo: gerar o maior lucro possível para os atletas, para a empresa com sede no paraíso fiscal de Malta e, às vezes, para os clubes. E com um perdedor: as autoridades tributárias, que devido aos contratos geridos por empresas sediadas em paraísos fiscais e com nuances que aproveitavam as liberdades das diversas legislações sobre impostos para pagar o menos possível aos Estados, principalmente com a cedência dos direitos de imagem dos atletas que beneficiam em muitas zonas de pouca tributação, não recebiam as verbas devidas pelos rendimentos recebidos pelos futebolistas.

Têm ainda um outro ponto em comum: foram alvo da atenção de um hackerque divulgou, a partir de setembro de 2015, num site a que chamou Football Leaks, documentos com os quais se ficou a perceber a rede de interesses que gere o futebol mundial. Um pirata informático que agora se sabe viver em Budapeste (Hungria) e que tinha outra coisa para partilhar com os três nomes atrás referidos: é português, chama-se Rui Pinto e está desde 16 de janeiro deste ano em prisão domiciliária depois de ser detido pela polícia húngara.

Foi por causa deste jovem que o mundo do futebol entrou em ebulição nos anos mais recentes. Ou, mais especificamente, por causa da raiva que “FL”, como lhe chamam no início do livro, disse sentir num dos primeiros contactos com a revista ao ver “homens de negócios sem escrúpulos a infiltrar-se no futebol.[…] A raiva em relação àqueles que lucraram com o dinheiro sujo que o futebol atrai e que sustenta o desporto. Chama-lhes os ‘inimigos do jogo’ e tenta desmascará-los, usando dados concretos de contratos, negócios paralelos, saldos bancários e contas para revelar o que se encontra verdadeiramente por trás das suas fachadas”.

É a história de como este encontro entre Rui Pinto e a revista aconteceu, as negociações que foram efetuadas, os encontros em várias cidades europeias, os e-mails trocados e as consequências da ação do hacker que diz estar a trabalhar com vários países para tentar mudar a face do futebol que são explicados no livro. O livro já teve uma edição na Alemanha, em 2017, e agora o que escreveram Rafael Buschmann e Michael Wulzinger ganhou atualidade devido à detenção do rosto das denúncias e que as autoridades nacionais querem ver extraditado para Portugal, o que os seus advogados contestam. Defensores de peso: William Bourdon já representou Edward Snowden – o analista da CIA e da NSA que divulgou o sistema de vigilância da NSA – e Francisco Teixeira da Mota.

O livro conta a teia que os jornalistas encontraram – Rui Pinto forneceu-lhes ao longos dos meses 1,9 terabytes de informação, 18,6 milhões de documentos – e como trabalharam a informação juntamente com o consórcio European Investigative Collaborations (de que faz parte o semanário Expresso), os encontros que um deles manteve com a fonte deste manancial de informações sobre o mundo dos negócios em redor do futebol.

Nas suas cerca de 300 páginas são descritos os esquemas utilizados por jogadores e empresários para maximizar o lucro recorrendo a empresas offshore – nomeadamente nas Ilhas Virgens Britânicas onde, por exemplo, Cristiano Ronaldo teria cem milhões de euros – e as movimentações de verbas entre firmas que depois acabavam, em alguns casos, em contas bancárias na Suíça.

Por exemplo, num dos capítulos é explicado como eram conduzidas as comissões dos agentes de futebol para os paraísos fiscais: com a utilização de agências que faziam circular os pagamentos entre si e alguns bancos – o Novo Banco surge referenciado – e depois apresentavam faturas do serviço de intermediação a clubes como o FC PortoReal MadridManchester United e Inter de Milão, para nomear os referidos. A verdade é que quase nenhum clube escapa aos esquemas denunciados, incluindo os chamados três grandes portugueses e algumas das suas transferências.

Também a questão dos impostos não pagos por Cristiano Ronaldo nos anos que esteve ao serviço do Real Madrid é parte deste livro que por ter sido publicado em 2017 não conta o acordo que o internacional de Portugal fez com a autoridade tributária espanhola para regularizar a sua situação fiscal.

Também pelo tempo passado entre a edição e o presente nem a detenção de Rui Pinto surge nas três centenas de páginas. Aliás, os autores nunca identificam o português pelo nome. Começa por ser “FL”, depois passa a “John”, uma figura que começa por gerar desconfiança – até pela forma como escreve Tony Kroos, num primeiro documento surgia Toni -, mas que depois acaba por ser central no livro.

E que no primeiro encontro com o jornalista é descrito por este da seguinte forma: “À minha frente, encontrava-se um jovem de olhos alerta. Era magro, de cabelo escuro e uma barba rala.” E do qual algumas páginas à frente ficamos a saber gostar de cerveja, vodca, que não tinha residência fixa, lembrando ao autor “Leonardo DiCaprio no filme Apanha-me Se Puderes“.

John ou Rui Pinto nunca conta como teve acesso aos milhares de documentos que mostravam como negociavam alguns dos grandes clubes europeus como Chelsea, Arsenal, Tottenham, Real Madrid e Atlético de Madrid ou como os atletas conseguiam não pagar impostos, mas, a dado passo de um dos vários encontros que mantiveram, disse ter medo de ser envenenado e estar a pensar em entregar-se às autoridades pois achava que andava a ser perseguido. Até tinha um programa no telefone que manipulava o recetador de GPS do telemóvel para não ser detetado.

O livro acaba com um exemplo de como se consegue ganhar dinheiro desde que bem aconselhado: “Ronaldo está agora longe, em Itália, e quer esquecer todos os problemas judiciais e concentrar-se no seu novo papel como messias da Juve. Mesmo que não atinja os seus objetivos desportivos, a aventura italiana valerá a pena para ele. Financeiramente. Em Turim, o criminoso fiscal pode beneficiar de uma concessão fiscal especial do Estado italiano: de todas as receitas obtidas no estrangeiro, Ronaldo terá de pagar simplesmente um imposto fixo de cem mil euros por ano. Um lucro de milhões.”

Já a parte dos agradecimentos termina com duas frases: “Mas os maiores agradecimentos de todos vão para o nosso delator, John, o homem sem o qual nada disto teria sido possível. Cuida-te.”

O DN publica uma parte de um dos capítulos do livro:

Herói ou chantagista?

“Ali estava ele, o tipo que toda a gente – incluindo a polícia e os detetives privados – procurava. O homem que estava a ser perseguido pelos maiores clubes e pelos agentes mais poderosos. O homem que estava sempre em fuga devido a tanta gente ter tanto medo dele, medo de perder dinheiro e de verem os seus segredos revelados. Ali estava ele, sentado nas bancadas do Volksparkstadion, casa do clube de futebol Hamburger SV. Na mão direita, John tinha um copo de plástico com cerveja. No campo, o Hamburgo estava novamente a ser massacrado. Os adeptos da equipa visitante cantavam: ‘Bem-vindos à II Divisão!’ John ria. Os bilhetes custavam 75 euros cada. Estavam mesmo a meio da bancada, muito perto do relvado. Incrivelmente caros. Aqui, John parecia ser só mais um adepto. Entoava os cânticos do Hamburgo ‘Hamburg, meine Perle’ e desanimava com cada golo que a equipa visitante marcava. Quando se vai ao estádio enquanto adepto neutro, disse-me ele, tem de se apoiar a equipa da casa. Afinal de contas, é-se convidado. Tive isso em conta.”

“Após o jogo, os adeptos do Hamburgo assobiaram e vaiaram a sua equipa. John levantou-se e deu um trago na cerveja. Tínhamo-nos divertido e era altura de irmos trabalhar. Regressámos ao escritório. John sentou-se num dos nossos postos de trabalho na sala segura, um computador com dois monitores e um computador portátil à sua frente. Ele queria mostrar-me algo nos documentos acerca da empresa de Malta e tinha-se lembrado de um ponto acerca de um agente e dos seus truques de evasão fiscal. Os documentos surgiram em cascata no ecrã do computador. As pernas do John animaram-se e as suas pupilas saltavam para cima e para baixo, não vendo nada além de nomes, números e endereços numa selva de dados.”

“Foi a nossa última noite juntos em Hamburgo. Até àquela altura, eu evitei o assunto, mas já não tinha escolha. Tive de o confrontar com as alegações de chantagem que tínhamos encontrado nos dados e as quais abordámos com a equipa da EIC em Lisboa. Entretanto, eu tinha olhado mais de perto para os e-mails em questão e tinha de admitir que não mostravam uma boa imagem dele. Era um assunto desagradável.”

“Várias empresas tinham sido encarregadas de localizar a Football Leaks, incluindo especialistas em informática, empresas de advocacia de muito boa reputação e agências de detetives privados. Estes eram verdadeiros profissionais, duros e implacáveis no que dizia respeito à obtenção de resultados. Um dos gestores da resposta à crise era o líder de uma empresa que pertencia a um oligarca russo duvidoso. Um dos detetives privados era um elemento formado numa academia militar do Reino Unido. Tinha feito pressão sobre as pessoas por trás da página da internet da Football Leaks durante semanas e meses. Os delatores tinham tido a sua página da internet tornada inutilizável várias vezes.”

“John tinha-me contado isto ao longo das últimas semanas. Foi uma época de pânico, disse ele, durante a qual quase tinha enlouquecido. Nunca tive a certeza se ele exagerou um pouco, mas as suas preocupações eram bem fundamentadas. Ele só não me falou do outro lado da Football Leaks, do lado negro. Mas havia e-mails que nos permitiam reconstruí-lo.”

“A história começou a 3 de outubro de 2015, apenas cinco dias depois de o projeto ter sido carregado para a internet. Nélio Lucas, o líder da Doyen para o marketing do futebol, recebeu um e-mail de um certo Artem Lobuzov. Isto poderia muito bem ser um pseudónimo. O e-mail foi enviado de uma conta no domínio russo, Yandex, o qual também era utilizado pela Football Leaks. Nesse mesmo e-mail, Lobuzov descreveu o tipo de documentos que tinha em sua posse: material desagradável, fotografias, mensagens escritas e e-mails. ‘Tudo isto e muito mais poderá ficar disponível na internet e, depois, em toda a imprensa europeia’, escreveu Lobuzov. ‘Certamente que não queres que isso aconteça, pois não? Mas podemos falar.'”

“Lucas parece ter desconfiado do que ele e a Doyen estavam a ser acusados, mas aqueles que estão habituados a fazer valer o seu poder sobre os outros não estão habituados a serem colocados, eles próprios, sob pressão. Têm de manter o controlo. Os seus segredos são, simultaneamente, os segredos do seu sucesso. Portanto, Lucas fez o que pôde e tentou chegar a um acordo com esta entidade desconhecida. Lobuzov concordou e respondeu a 5 de outubro que se via a fazer negócio com Lucas. Por um valor entre 500 mil euros e 1 milhão de euros, escreveu, ‘a informação que tenho será eliminada’. Acrescentou: ‘Podemos resolver isto facilmente no maior secretismo possível, preferencialmente, entre advogados.’»

“O advogado de Lobuzov chamava-se Aníbal Pinto, um pequeno advogado do Porto, não sendo, de todo, uma vedeta da advocacia. Ficaria encarregado de tratar do resto das negociações com os gigantes da indústria do futebol. No final de outubro, houve, alegadamente, um encontro entre Lucas, o seu advogado e Pinto numa bomba de gasolina em Lisboa. Lucas, escreveu um gestor da Doyen num e-mail, sugeriu que Lobuzov recebesse 300 mil euros em troca do fim das revelações. Outros e-mails permitiram-nos reconstruir o que aconteceu a seguir: os três homens seguiram cada um o seu caminho e passariam duas semanas até Lucas receber uma resposta de Lobuzov.”

“Quem era Lobuzov? Um dos parceiros de John? Será que John o conhecia pessoalmente? Ou talvez Lobuzov fosse o próprio John. Seria o verdadeiro objetivo do projeto não informar o público relativamente à corrupção, mas sim encher a sua própria conta bancária?”

“John resfolegou. Estava sentado comigo há quase cinco horas na sala segura. A sua face estava rosada e esfregava repetidamente os olhos. Tinha-se descalçado. Uma das meias tinha um grande buraco no calcanhar. O delator, outrora tão relaxado, estava visivelmente irritado com este assunto. Antes de responder, sentou-se a olhar fixamente para o ecrã do computador e a coçar o queixo durante vários minutos.”

“- Nunca pirateámos ninguém e, tal como sempre afirmámos, não somos piratas informáticos – acabou por dizer. – Tudo o que temos é uma boa rede de fontes. Todas essas alegações ridículas vêm de uma organização criminosa. É isso o que a Doyen é para nós, uma organização mafiosa.”

“Não restava nada mais a dizer. Ponto final, parágrafo.”

“Uma coisa tem de ser realçada neste ponto: John nunca recebeu dinheiro da EIC pelas suas informações.”

“Mais tarde, confrontámos a Doyen com esta história de chantagem. Um porta-voz da empresa reagiu como se estivesse a ser insultado, dizendo-nos que a nossa informação era ‘completamente falsa e manipulada’ e que a Doyen se defenderia nos tribunais. Demos seguimento ao assunto: qual das questões que colocámos tinha feito a Doyen pensar que a nossa informação tinha sido manipulada? O porta-voz recusou-se a especificar o que queria dizer com isso. E, meses depois, ainda não tínhamos ouvido nada dos advogados da Doyen relativamente a este assunto.”

“Também perguntámos às pessoas envolvidas acerca do que se recordavam relativamente à alegada tentativa de extorsão. Aníbal Pinto declarou que não tinha ajudado Lobuzov a chantagear Lucas; tinha sido simplesmente contratado enquanto mediador para concluir um negócio com outro advogado. Quando se apercebeu ao longo do encontro que o negócio podia ter sido uma tentativa de extorsão de dinheiro, interrompeu as negociações, informou o seu cliente acerca das possíveis repercussões legais e aconselhou-o a dar por encerrada a tentativa de chantagem. O pedido de uma declaração que enviámos para a conta de e-mail de Lobuzov ficou sem resposta.”

“O que achávamos nós de tudo isto? Para os jornalistas, trabalhar com delatores como John faz que, quase invariavelmente, nos questionemos a nós próprios. Será o material suficientemente relevante para compensar os motivos pessoais, biografia e possível passado criminoso de uma fonte? Os documentos revelam um problema que, de outro modo, permaneceria escondido? As pessoas tornam-se delatoras porque estão preparadas para ultrapassar limites. Esses limites podem ser de conduta adequada, moral e até legalmente. Muitas vezes, são heróis com falhas de carácter, mas raramente são santos.”

“Mais tarde decidiríamos publicar histórias seguindo o nosso cache de dados, apesar de nunca conseguirmos determinar completamente o que acontecera no incidente da alegada extorsão. O material era genuíno e tinha um importante grau de relevância. Estas histórias mereciam ser contadas. Revelavam o verdadeiro rosto de uma indústria do futebol que estava descontrolada. O público tinha o direito de ter conhecimento disto e era o nosso dever informá-lo.”

“Outra razão para avançar com a publicação era que Artem Lobuzov, esta figura-chave desconhecida com os seus documentos desagradáveis, nunca chegou a realizar qualquer negócio com a Doyen. Não deu em nada o assunto todo. Não houve dinheiro a trocar de mãos e Lobuzov rejeitou a oferta da Doyen. As razões por detrás de tal decisão continuam a não ser claras. Talvez Lobuzov se tenha arrependido ou talvez tenha tido um desentendimento com o seu advogado, Pinto. Isso é concebível. Mas havia outra explicação mais provável, para a qual também encontrámos indícios em e-mails entre os documentos da Football Leaks: a polícia manteve o encontro com Lucas, o seu advogado e Pinto sob vigilância e fez uma gravação secreta do mesmo.”

“É possível que Lobuzov tenha ouvido falar disto mais tarde. De qualquer dos modos, retirou-se do negócio. ‘Fiquem com o vosso dinheiro’, escreveu ele a Lucas. ‘Irão precisar dele.’ Lucas reagiu de modo conhecido em filmes de máfia, respondendo: ‘Não estou a ameaçar-te com uma tareia, que é o que mereces, mas não somos bandidos. Somos pessoas com carácter e princípios. A tua lição será outra que te magoará mais!!!!'”

Ficha do Livro

Football Leaks
Rafael Buschmann e Michael Wulzinger
Planeta, 2019, tradução de Pedro Carvalho e Guerra, 304 páginas, €18,85