Ponham os olhos nestes dois. Vocês, que torcem por esta seleção como quem vai para Aljubarrota, vocês que se excitam pela pátria com esta sombra de futebol, lembrem-se de quão destrutivo podem ser o egoísmo, o narcisismo e a falta de espinha. Para estes dois, valeu tudo para tentarem sair por cima. A causa do desastre é, em grande parte, deles. Ponto.
Foram eles que roubaram dois mundiais a Gonçalo Ramos e a outros que ficam na fila de espera para dar lugar ao egoísmo sem freio, enquanto se perde uma geração. De Roberto Martinez pouco se falará, cheira-me. Daqui a nada deve andar pelas Arábias.
Quanto a Cristiano Ronaldo apenas confirmo o que sempre pensei: dificilmente veremos algo deste calibre no que o futebol tem de persistência, talento e sacrifício. Fez-se a si próprio e isso tem um mérito incontestável. Na sombra, no quotidiano, pode ainda ter gestos muito cristãos, mas o seu ego, a sua falta de respeito pelo coletivo, o seu egoísmo doentio são também o seu bilhete de identidade.
Por isso, CR7 acaba como mereceu. Pena ter enterrado outros com ele. Por mim, até podia ser um ET no relvado, mas quando olho para as decisões que toma e, de certo modo, impõe, não passa de um profissional de segunda. Está ótimo para uma sociedade do eu, cada vez mais atomizada, cega de individualismo. E ainda convence os garnisés de sempre que adoram homens providenciais.
“Demos o nosso melhor”, desabafou Diogo Costa no final. Não, não deram. Foram subservientes com a mais abjeta sociedade que a seleção de todos vós já pariu: Roberto & Cristiano, Lda. Amanhem-se.
“Tomem nota: Açores dia 24, para seguirmos aqui uma hora depois do jantar, porque já sabem que invasões em directo é o meu programa de televisão favorito”, concluiu Trump
Graças ao meu amigo Arnaldo (nome fictício e apelido omitido por razões de segurança) e aos seus extraordinários talentos informáticos, foi-me possível, por intermédio do acesso que obteve às comunicações classificadas do embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, assistir à reunião secreta ocorrida em Mar-a-Lago anteontem — em directo e a partir de Lisboa, tal como o próprio embaixador assistiu. É dessa reunião, histórica do ponto de vista português, que aqui dou conta, num resumo do essencial.
A reunião foi convocada para as 5 da tarde, dando tempo ao Presidente para terminar os 18 buracos do campo de golfe de que é proprietário, oferecido pela Arábia Saudita, e a tempo de o libertar para o jantar dos membros do clube Trump em Mar-a-Lago, os quais pagam uma fortuna de jóia e mensalidade do clube, além de uns dois mil euros por cada jantar com Trump, normalmente realizados duas vezes por mês. Tudo em troca da possibilidade de terem uns três minutos de conversa com o Presidente, aproveitados para exporem rapidamente um problema que enfrentam nos seus negócios e, a um sinal de Trump, entregarem um papel com os dados da situação à chefe de gabinete deste.
A reunião de anteontem foi convocada para o Salão Versalhes de Mar-a-Lago, decorado em tons dourados, vermelhos e púrpura, mas com colunas dóricas de mármore rosa em cada canto do aposento, nas quais se enroscavam serpentes de prata e lápis-lazúli. Estavam presentes, além do anfitrião, o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Dan Caine, o director da CIA, John Ratcliffe, a chefe de gabinete, Susie Wiles, e o genro e parceiro de negócios de Trump, Jared Kushner. À distância e a partir de Lisboa, como já disse, estava o embaixador recém-nomeado John Joseph Arrigo, descrito na página da embaixada como um “líder visionário, empresário de sucesso e defensor dedicado da comunidade”. Da sua biografia consta ter nascido na mesma Florida adoptada por Trump, ter um “diploma de associado em Administração de Empresas”, passado por um Palm Beach College, ter explorado um negócio de automóveis durante 30 anos e, segundo a embaixada, ter vindo para Portugal “acompanhado da mulher Megan e do cão ‘Hank’”. Difícil era pedirmos mais.
Foi Marco Rubio quem abriu a reunião, expondo brevemente toda a situação.
— Estamos aqui reunidos, por iniciativa do Presidente, para analisarmos a oportunidade e os benefícios, ou possíveis danos, de levarmos para a frente a denominada Operação Ananás.
— Lembre-me, Marco, o que é a Operação Ananás? — atalhou Trump, que parecia vagamente alheado, ainda irritado por ter falhado o birdie no buraco 10.
— Falámos disso depois da Venezuela, senhor Presidente… É a tomada das ilhas dos Açores.
— Aquelas ilhas ao largo da costa de África? — volveu Trump.
— Não, estas são ilhas portuguesas no Atlântico Norte.
— Espere aí, Marco. — Trump estava agora mais desperto. — É aquela ilha do meu amigo Cristiano Ronaldo?
— Não, não — interveio Jared Kushner. — Essa é outra ilha mais a sul.
— Ah, bom — suspirou Trump. — E vamos seguir o “método Venezuela”? Primeiro atacamos os petroleiros deles no alto mar?
— Eles não têm petroleiros, senhor Presidente — meteu-se o almirante do ar, Dan Caine.
— Não têm petroleiros?
— Não têm petróleo…
— Ah, então o que têm? Terras raras, ouro?
— Não — Rubio voltou à conversa —, não têm terras raras e ouro só nas reservas do Banco de Portugal.
— Então porque vamos lá?
Trump estava a começar a irritar-se com o assunto.
— Porque — retomou Marco Rubio, cheio de cautela — uma das ilhas dos Açores tem uma base aérea que já foi nossa e onde hoje dispomos de facilidades, mas a pedido. É muito útil para atacarmos no Médio Oriente… o Irão, por exemplo… e para apoiar Israel.
Neste ponto, Marco Rubio dirigiu um olhar disfarçado a Jared Kushner, que inclinou a cabeça, incentivando-o.
— E que — retomou ele — poderão ser-nos também muito úteis em caso da Operação Gronelândia.
Trump inclinou-se para trás na poltrona, finalmente interessado.
— Ah, estou a ver! E essa operação ocupar-nos-ia muitas forças e muito tempo?
— Nada, senhor Presidente. — Pete Hegseth interveio, sorrindo. — Meia dúzia de aviões a aterrarem na tal base, uma companhia Delta e numa hora tínhamos o assunto resolvido.
— E qual seria o pretexto diplomático para tomarmos conta dessas ilhas? Tráfico de droga?
— Bem, isso é difícil. — O director da CIA entrou na conversa pela primeira vez. — Portugal importa muita droga vinda do Brasil e da Colômbia, em rota para a Europa…
— Estou a ver, esses bandidos comunistas do Lula e do colombiano, exportando droga e marginais para a decadente Europa — entusiasmou-se Trump. — Então, temos aí o pretexto necessário!
— Bem, senhor Presidente — insistiu cautelosamente Ratcliffe. — Mas a droga não passa pelos Açores, mas bem mais a sul.
— OK, mas podemos sempre castigar Portugal por servir de porta de entrada de droga na Europa, ou não?
— Mas aí não poderíamos invocar a segurança nacional…
— Invocamos a segurança da NATO, a Europa é NATO.
Como sempre, Trump simplificava as coisas mais complexas, uma das qualidades que os seus seguidores mais apreciavam.
— Bem, mas eles também são membros da NATO — lembrou Marco Rubio.
— Hum… — Trump não se dava por vencido. — Essa tal base e as ilhas que vamos ocupar não servem para controlar o tráfico de droga no Atlântico?
— Podiam servir se eles tivessem aviões e navios adequados para essas missões — esclareceu Pete Hegseth.
— E não têm?
— Não, aviões não podemos reclamar, porque, depois dos F-16, preparam-se para nos comprar os F-35, que não servem para isso, mas são nossos, da Lockheed…
— E navios?
— Navios também não. Vão agora gastar 6 ou 7 mil milhões de dólares a comprar três fragatas aos italianos, que também não servem para essas missões.
— Aos italianos? — espantou-se Trump. — Mas alguém se lembra de comprar fragatas aos italianos?
— Lembrou-se o ministro da Defesa deles, este aqui na imagem — e Pete Hegseth apontou para uma fotografia de Nuno Melo, que aparecia no ecrã gigante colocado no Salão Versalhes.
— Um seu admirador, senhor Presidente — interveio, desde Lisboa, o embaixador visionário.
— Hum… — Trump contemplava, interessado, a fotografia de Melo. — O senhor embaixador informe-se como é que ele trata o cabelo, pois parece-me muito bem.
— Mas então o método do seu amigo Ronaldo não está a funcionar? — interrompeu, com um sorriso cúmplice, Jared, o genro.
— Está, mas não se perde nada em experimentar outros. Bom, adiante: então, o ministro da Defesa é meu admirador. E os outros, o Presidente, o primeiro-ministro, o ministro dos Estrangeiros? O que acha, senhor embaixador, vai haver grande barulho?
— Não creio, senhor Presidente. Portugal não é a Espanha, que costuma ter ideias próprias. Além disso, o Presidente deles está de saída, porque vai haver eleições no dia 18; o PM vai dizer umas banalidades sobre a indestrutível amizade entre Portugal e os Estados Unidos, e o ministro dos Estrangeiros, que classificou de “benigna” a nossa operação em Caracas, vai ficar a analisar o assunto, mas sem precipitações.
— Há eleições dia 18? — interessou-se Trump. — E concorre algum candidato com as ideias MAGA?
— Sim. — O embaixador Arrigo, defensor dedicado da comunidade, estava radiante com o seu inesperado protagonismo. — Concorre um que as sondagens dizem que vai ganhar à primeira volta, mas não tem hipóteses à segunda.
— E é mesmo um homem MAGA?
— Completamente. E outro seu admirador… Chama-se Ventura.
— Até o convidámos para o banquete da sua posse, senhor Presidente — informou o secretário de Estado. — Mas não teve lugar lá dentro e ficou no jardim.
— E o que diz esse tal Ventura?
— O mesmo que o senhor — retomou o embaixador e ex-empresário de sucesso como vendedor de automóveis na Florida. — É a favor da pena de morte e contra os imigrantes e os ciganos.
— Ciganos? Quem são esses?
— São os índios deles — esclareceu o embaixador.
— Ah! — Trump estava agora completamente decidido. — Esse tal Ventura parece-me um tipo mesmo às direitas! E, então, ganha na primeira volta, dia 18, mas perde na segunda?
— É essa também a informação que temos — completou o director da CIA.
— Nesse caso, é claro como água. — Donald J. Trump sorriu, uma vez mais reconhecendo em si mesmo as qualidades que o tinham elevado a dono do mundo. — Deixamos o tipo ganhar dia 18 e depois atacamos os Açores dia 24, que calha a um sábado. Não havendo então condições para realizar uma segunda volta, os Estados Unidos vão reconhecer esse gajo como Presidente legítimo de Portugal, e você, Marco, vai trabalhar para que outros países o reconheçam também. A seguir faremos com o novo Presidente deles um tratado de amizade e cooperação, que nos concede os Açores em troca da nossa protecção na luta contra a droga, a imigração e os… como se chamam eles?
— Os ciganos? — arriscou o embaixador.
— Esses — rematou Trump. — Então, tomem nota: Açores dia 24, para seguirmos aqui, em Mar-a-Lago, uma hora depois do jantar, porque já sabem que invasões em directo é o meu programa de televisão favorito.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
O Observatório Fiscal da União Europeia revelou que Portugal tem 40% do seu Produto Interno Bruto (PIB) “parqueados em paraísos fiscais: 115,8 mil milhões de euros”. Esta cifra torna-nos um dos países do mundo com mais riqueza exfiltrada (vamos chamar-lhe assim), para offshores.
Por outras palavras, quase metade da riqueza criada pelo trabalho dos portugueses é evadida para praças financeiras ao serviço do lucro privado, ver aqui).
Compreende-se, assim, o elogio da revistaThe Economist que, proclamando a economia portuguesa como “a melhor do ano”, fez com que, parolamente, os poderes instituídos transformassem o país, “cá dentro”, por via de uma apreciação jornalística “lá de fora”, numa espécie de “coelhinha” de capa da Playboy.
Aproveitando o balanço, o Primeiro-Ministro aspergiu papalmente votos de um “santo natal” para todos. Esquecendo a sua velha frase de 2015, “o país está melhor, as pessoas é que não”, omitiu as urgências hospitalares fechadas, a miséria de quem não tem trabalho e de quem o tem, o clima intimidatório da extrema viragem à direita do regime, a precariedade que passou de vínculo laboral a condição existencial. E esqueceu-se também de dizer como foi parar a offshores 40 por cento da riqueza produzida em Portugal. Preferiu falar de Cristiano Ronaldo, para prescrever aos portugueses uma “mentalidade” adequada.
É decerto por falta de mentalidade que dois milhões de portugueses, entre os quais quase 300 mil crianças, vivem abaixo do limiar de pobreza e não ao facto de 2,5 milhões de trabalhadores portugueses não chegarem a levar mais de 700 e poucos euros mensais para casa. Coisa que só lhes acontece por não terem mérito suficiente para se transformarem em Ronaldos da direita política, dos Conselhos de Administração das corporações do regime (deste e dos demais) ou, enfim, em Primeiros-Ministros disfarçados de Pai Natal.
Que, tantas vezes offside, Ronaldo aproveite o facto de ser usado por um príncipe saudita para fazer negócios de armamento com Donald Trump, compreende-se. Trata-se do CEO do qual Ronaldo é “colaborador”.
Que o Primeiro-Ministro tente apanhar uma boleia idêntica do futebolista, trata-se de outra coisa. Trata-se da vertiginosa derrapagem da mal concretizada ideia de democracia, para a ignomínia da sua transformação na mais rasteira e frívola demagogia que encobre o encontro, entre a alta finança e a baixa política, do qual é feita a “melhor economia do ano”.