A cidade e a metrópole

(António Guerreiro, in Público, 15/03/2019)

António Guerreiro

De todas as grandes cidades europeias nos chegam notícias de um problema comum: a falta de casas. Em resumo: muita procura, pouca oferta, aumento vertiginoso dos preços, os habitantes a serem expulsos para periferias cada vez mais longínquas. Por razões nada estranhas a este fenómeno, a distinção entre a cidade e o campo deixou de fazer sentido porque fora da esfera urbana já não existe quase nada. Na melhor das hipóteses, é paisagem para ser olhada à distância ou visitada nalguns dos seus recantos por quem quer viver a ilusão de que faz uma viagem ao país dos arquétipos. Mas, na maior parte, é o deserto que cresce. Aí, há vilas e aldeias que vão ficando despovoadas, muitas casas vazias — uma história de fantasmas para adultos temerários. Aquilo a que se chama hoje o interior não é senão a parte do território que fica fora das áreas metropolitanas.

Torna-se então necessário fazer uma distinção entre cidade e metrópole: a cidade tem o carácter estático de espaço residencial com espessas camadas de história, passível de ser lida como um palimpsesto. Remete para a a ideia de comunidade política, herdeira da polis grega, e a sua história está ligada aos grandes sujeitos colectivos, aos grandes empreendimentos da vida artística e intelectual. Foi nela que nasceram os grandes projectos.

Aquilo a que chamamos hoje, com alguma imprecisão, “cidade histórica” é esta cidade que já não existe, foi transformada em museu e em espaços de acolhimento e diversão para os visitantes. O que existe e não pára de crescer é a metrópole (ao contrário da cidade antiga não tem muros, não há uma marca dos seus confins), atravessada por muitas linhas de fronteira e codificações sociais e culturais. A metrópole é a cidade generalizada. Rem Kolhaas, um famoso arquitecto holandês, chamou-lhe “cidade genérica”. É a cidade que está por todo o lado, mas é também o que resta depois de vastos pedaços da cidade material passarem para o espaço virtual, para o ciberespaço. Quem hoje sai de uma metrópole e vai viver para “o interior” quase sempre continua a habitar essa cidade que se estende no espaço virtual. Por isso é que algum movimento de deslocação para esse tal interior, por parte de gente aventureira, romântica ou fatigada, não tem quaisquer efeitos na paisagem humana nem no povoamento do território. Uma cidade histórica como Évora, a pouco mais de uma hora de distância de Lisboa, é um museu não por privilégio, mas por condenação: dentro dos muros tem uma vida contemplativa, fora do tempo, que proporciona ao visitante experiências singulares (diferentes daquelas que se têm, por exemplo, numa cidade histórica italiana); para além dos muros é uma terra de ninguém, nem cidade nem campo, atraída pela metrópole — Lisboa — que estende os seus braços para além dos limites visíveis, sonhando fazer parte da “cidade genérica”. A cidade genérica é ainda uma cidade? Não, por isso é que Rem Kolhaas fala de junkspace, de substâncias urbanas que são como detritos. E, no final de um ensaio–manifesto sobre a cidade-lixo, ele imagina que o fim da história da cidade está a desenrolar-se ao contrário, como a fita de um filme a rodar para trás. Escreve ele: “O centro esvazia-se, as últimas sombras deslizam para fora do plano […], o silêncio torna-se agora mais denso por causa do vazio […] Nós respiramos… Acabou. Eis a história da cidade. A cidade já não existe”. Aquilo a que ele chama cidade genérica é a cidade ilimitada. A cidade genérica não tem arqui-tectura, isto é, não responde a nenhum fundamento, a um princípio (archè) construtivo, nem tem aspirações ideais ou utópicas. A cidade sem arquitectura, pura espontaneidade da urbanização, é uma cidade sem confins. O espaço urbano sem arquitectura é o junkspace. Ora, a cidade, por oposição à metrópole ilimitada, representou o espaço por excelência  do conflito e da ambivalência; ela deve a sua sobrevivência ao de-lirare: isto é, ao facto de introduzir confins, limites (lirae) na fundação da urbs. A cidade tende a delirar. Em 1995, Rem Kolhaas deu um curso em Harvard, para o qual quis que o programa se chamasse “Centro de estudos do que outrora se chamava cidade”. A administração da universidade não gostou da sua proposta porque era demasiado radical.

Especulação Imobiliária

(Dieter Dellinger, 28/09/2018)

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Foto: Alta de Lisboa com muito espaço para construção

A especulação imobiliária tem de ser vista nos seus números verdadeiros.

Há uns anos atrás a EDP declarou que tinha ultrapassado o número de 6 milhões de contadores domésticos, o que significa esse número de habitações para menos de quatro milhões de famílias.

Desde há décadas que natalidade tem vindo a descer e a mortalidade a subir um pouco apesar da esperança de vida crescer e chegar agora aos 80 anos. Quanto mais elevada a esperança de vida maior a mortalidade. Foi de 115 mil pessoas no ano passado com 87 mil nascimentos. Nenhum de nós fica por cá para sempre.

No prédio em vivo que é uma boa construção com 52 anos de idade já morreram 25 condóminos e ficaram dois casais, o meu e o de outro vizinho. Os apartamentos foram todos herdados pelos filhos ou sobrinhos que os passaram para netos ou venderam e serviram para ajudar esse netos a pagar uma entrada para um apartamento. Aconteceu isso com toda a gente que eu conhecia e com os de outros prédios vizinhos.

Por isso, o surto especulativo é de pouca duração, tanto mais que na única zona verdadeiramente livre para a construção, a Alta de Lisboa, já estão a construir novos prédios de grandes dimensões.

Falou-se no elevado custo da habitação na Rua do Salitre. Eu não queria viver nessa rua escura sem arrumação para carros nem que me pagassem. Também não queria viver em Alfama e qualquer outro bairro histórico nem no Martim Moniz ou na Rua da Palma, etc. e, menos ainda, no Chiado, Bairro Alto ou Largo de Camões.

Eu sempre pensei que Portugal pode vir a ser uma Califórnia da Europa devido ao seu clima amenos e às ligações eletrónicas e transportes que devem ser melhores nos próximos anos.

A Califórnia era uma terra bastante seca com um clima semelhante, só que nos anos vinte e trinta do século passado os americanos trouxeram água da Serra Nevada que vem do Estado do Nevado e criaram uma importante zona agrícola, o “Orange Valley” e depois veio muito turismo, universidades e indústria, principalmente, aquela que lançou a atual revolução digital mundial.

Fundamentalmente foi o clima ameno semelhante ao português. E está a acontecer isso em Portugal. Nada acontece em poucos anos, mas lentamente ou muito rapidamente em termos históricos, Portugal está a transformar-se. Claro, há os que são contra porque são sem sequer saberem porquê e os que se deixam enganar pelas televisões

COIMBRA, MARÉ BAIXA

(José Gabriel, 07/08/2018)

coimbra
Quando era professor na E.S. Jaime Cortesão, dizia que tinha o privilégio de trabalhar num monumento e ter o melhor pátio de recreio que podia desejar, a Baixa de Coimbra. Já nos meus tempos de estudante e durante muitos anos foi a minha “sala de estar”, como a de muitos amigos. Os cafés e esplanadas – onde todos éramos democraticamente promovidos a doutores a partir dos dezoito anos – , onde as palavras voavam livres e aprendíamos mais que nos bancos da Universidade – e, por vezes, os mestres eram os mesmos -, mesmo em frente da porta de algumas das melhores livrarias do país, os livros lidos à sombra benévola dos velhos prédios da Ferreira Borges e da Visconde da Luz – “Faltou a luz na rua Visconde da mesma”, lembram-se? -, às vezes encadernados para não despertar curiosidades duvidosas, o copo e o petisco num daqueles lugares que talvez não passasse hoje numa vistoria da ASAE, enfim, um habitat propício ao desenvolvimento mental da espécie. Tudo quanto foi importante, passou por ali: manifestações, lutas, festas, vida, enfim. Até há não muito tempo.

Dou por mim, agora, a evitar o mais que posso essas paragens. Não porque me comova a nostalgia – sou pouco dado a saudosismos – de tempos idos, mas porque me custa ver aquilo que, antes, era considerado um espaço nobre da cidade, no estado deplorável que dia a dia se agrava. Ocorre-me este desabafo porque acabei de chegar de uma ida, por obrigação, a esses lugares e, entre lojas, serviços, bancos e até caixas multibanco, tudo fechou. As livrarias e discotecas, essas, já tinham partido há muito. Tudo apresenta um ar sujo, decrépito. Restam apenas algumas lojas resistentes, taipais e papéis nas montras e janelas, multiplicam-se os comedouros e lojas de “true portuguese souvenirs”.

Alguns cafés clássicos ainda resistem, mas o largo da Portagem está transformado numa pocilga de esplanadas que, por excesso de ocupação, apresenta um ar abominável, com lixo pelo chão que a brisa que corria fazia passear pela calçada. Furgões de cargas e descarga a horas absurdas, tuc-tuc com condutores “chega p’ra lá” agravam a paisagem. Até os músicos de rua – como que fazendo corresponder a sua falta de arte ao ambiente – que me couberam hoje, eram intragáveis – ó gente, se querem tocar e cantar para os passantes convinha que acertassem alguns acordes.

Não, não vou culpar a multidão de turistas que por lá circulava, de nariz no ar, talvez interrogando-se porque raio aquela cidade lhes tinha sido tão recomendada. Não, a culpa não é de quem visita, é de quem recebe.

Coimbra queria turistas. Tem-nos. Mas não mexe um dedo para merecê-los. Saca deles o que pode e trata-os, e aqui é que bate o ponto, tão mal como trata os seus cidadãos. E uma cidade que não cuida da felicidade dos seus habitantes, não cuidará da dos visitantes, mesmo que pareça fazê-lo. E está destinada a perder o melhor de uns e outros.

Ou, dos que ficam, restarão os que se retiram para uma espécie de “Vale de Lobos” urbano. E descobrem que, por lá, se reencontram amigos e companhia, lugares habitáveis, enfim, reinventam a cidade que amam.

Sei que há “muitos factores que explicam o que se passa” e de todas as justificações da ementa de desculpas habitual. Mas também sei que se as cidades não podem impedir o inevitável podem remediar, podem resistir. Podem, até, superar e transformar os problemas em oportunidades. Mas isso exige lideranças de outra tempera. Assim seja – um dia.