O turista exasperado

(António Guerreiro, in Público, 14/06/2019)

António Guerreiro

Sabemos que o turismo chegou à fase última da sua condição de paródia da mobilização total e, exasperado, tenta escapar ao círculo vicioso que é a lei da sua existência, quando lemos a notícia de que as expedições para subir o Evereste estão a saturar a montanha de filas de gente aventureira e de que Chernobyl, onde ocorreu uma catástrofe nuclear em 1986, é um novo lugar de atracção turística.

Se já quase não existem as terras virgens, abertas à exploração e à descoberta, então é preciso recorrer aos redutos que já nem são um território de aventura, mas de alto risco. A analogia militar que o turismo evoca encontra aqui a sua legitimação sem reservas. A aventura, que foi outrora uma motivação fundamental do turista, consistia em sair para um lugar exterior à vida comum e procurar momentos de vida excêntrica ou extravagante. Agora, já não se trata de aventura, mas de desafio radical. Aventura era o que procuravam os jovens dos anos 50 e 60 do século passado, que renunciavam ao conforto e, hostis aos meios turísticos em fase de grande desenvolvimento, punham-se em viagem com um saco às costas e chegavam mesmo a criar artificialmente as duras condições para uma experiência singular. Sobretudo, uma experiência que lhes proporcionava a evasão do mundo dos pais, dos adultos.

Um cruzeiro gigante que atravessa, descontrolado, a Laguna e choca com Veneza, corpo contra corpo (e isto não é um modo de dizer metafórico, esta cidade está exposta a estes choques, literalmente entendidos), como aconteceu há duas semanas, não tem nada de extraordinário, faz parte do curso normal da indústria do turismo. É verdade que o acontecimento fornece imagens fotográficas que mostram ao mundo inteiro a Serenissima cidade tão vulnerável como um urso polar na nova era do Antropoceno. Mas, aí, estamos perante um desastre ocasional que muitos farão os possíveis para subtrair à lógica desastrosa que o originou, enquanto que as viagens turísticas à zona de radioactividade de Chernobyl são a fruição de um desastre ainda a ocorrer, silencioso. Quanto ao aventureiro que sobe ao Evereste, ele vê o mundo aos seus pés, mas para lá chegar passa por provações e perigos do mais elevado teor. Em todos os casos, o mundo parece completamente domesticado, atravessado de lado a lado e de baixo para cima. Este mundo completamente profano e fanérico é como que rebaixado à condição de parque de diversões. As consequências, como sabemos, é que já não há nada para ver, há apenas umas últimas coisas, perigosas, para experimentar. A Europa invadida pela “sight-seeing people” é uma coisa que, vista de fora, vista por aqueles que vêem os outros a ver, tem um lado cómico (bem sei: pode ter também um lado irritante e, quanto aos seus efeitos, pode mesmo tornar-se um mal maior), exactamente porque parece que entramos num mundo às avessas, mas todos sabemos que “a coisa a ver”, que era de uma importância decisiva para os turistas, já não existe. Existiu, de facto, para quem lia o “red book” para viajantes, que o inglês John Murray, um profeta do turismo, publicou em 1836, fazendo nele o inventário das curiosidades da Holanda, da Bélgica e da Alemanha, recomendando ao mesmo tempo os trajectos mais pitorescos.

O movimento que fez do turismo o mais importante fenómeno mundial do nosso tempo é tão poderoso que não pode admitir que o seu destino é o falhanço e que, por isso, só pode lançar-se em esforços cada vez maiores para não parar, em renovar incessantemente as suas promessas para não desacelerar.

Até onde pode chegar nas suas promessas e realizações insensatas, às vezes estapafúrdias, não se sabe. Temível seria vê-lo a regredir, porque o que ele deixa geralmente, quando desaparece, são cidades vazias e devastadas. Quem não gosta do que ele vai fazendo a tudo o que está à sua frente, também não se pode sentir feliz com o que ele deixa atrás de si. Por isso é que o melhor, ainda, é vê-lo exasperado, como ele está hoje condenado a ser, quase sempre, enquanto o resultado de todos os esforços para não desacelerar. Quem ousa hoje imaginar a situação anterior ao nascimento do turismo, quando as viagens tinham um carácter essencialmente prático?


A cidade e a metrópole

(António Guerreiro, in Público, 15/03/2019)

António Guerreiro

De todas as grandes cidades europeias nos chegam notícias de um problema comum: a falta de casas. Em resumo: muita procura, pouca oferta, aumento vertiginoso dos preços, os habitantes a serem expulsos para periferias cada vez mais longínquas. Por razões nada estranhas a este fenómeno, a distinção entre a cidade e o campo deixou de fazer sentido porque fora da esfera urbana já não existe quase nada. Na melhor das hipóteses, é paisagem para ser olhada à distância ou visitada nalguns dos seus recantos por quem quer viver a ilusão de que faz uma viagem ao país dos arquétipos. Mas, na maior parte, é o deserto que cresce. Aí, há vilas e aldeias que vão ficando despovoadas, muitas casas vazias — uma história de fantasmas para adultos temerários. Aquilo a que se chama hoje o interior não é senão a parte do território que fica fora das áreas metropolitanas.

Torna-se então necessário fazer uma distinção entre cidade e metrópole: a cidade tem o carácter estático de espaço residencial com espessas camadas de história, passível de ser lida como um palimpsesto. Remete para a a ideia de comunidade política, herdeira da polis grega, e a sua história está ligada aos grandes sujeitos colectivos, aos grandes empreendimentos da vida artística e intelectual. Foi nela que nasceram os grandes projectos.

Aquilo a que chamamos hoje, com alguma imprecisão, “cidade histórica” é esta cidade que já não existe, foi transformada em museu e em espaços de acolhimento e diversão para os visitantes. O que existe e não pára de crescer é a metrópole (ao contrário da cidade antiga não tem muros, não há uma marca dos seus confins), atravessada por muitas linhas de fronteira e codificações sociais e culturais. A metrópole é a cidade generalizada. Rem Kolhaas, um famoso arquitecto holandês, chamou-lhe “cidade genérica”. É a cidade que está por todo o lado, mas é também o que resta depois de vastos pedaços da cidade material passarem para o espaço virtual, para o ciberespaço. Quem hoje sai de uma metrópole e vai viver para “o interior” quase sempre continua a habitar essa cidade que se estende no espaço virtual. Por isso é que algum movimento de deslocação para esse tal interior, por parte de gente aventureira, romântica ou fatigada, não tem quaisquer efeitos na paisagem humana nem no povoamento do território. Uma cidade histórica como Évora, a pouco mais de uma hora de distância de Lisboa, é um museu não por privilégio, mas por condenação: dentro dos muros tem uma vida contemplativa, fora do tempo, que proporciona ao visitante experiências singulares (diferentes daquelas que se têm, por exemplo, numa cidade histórica italiana); para além dos muros é uma terra de ninguém, nem cidade nem campo, atraída pela metrópole — Lisboa — que estende os seus braços para além dos limites visíveis, sonhando fazer parte da “cidade genérica”. A cidade genérica é ainda uma cidade? Não, por isso é que Rem Kolhaas fala de junkspace, de substâncias urbanas que são como detritos. E, no final de um ensaio–manifesto sobre a cidade-lixo, ele imagina que o fim da história da cidade está a desenrolar-se ao contrário, como a fita de um filme a rodar para trás. Escreve ele: “O centro esvazia-se, as últimas sombras deslizam para fora do plano […], o silêncio torna-se agora mais denso por causa do vazio […] Nós respiramos… Acabou. Eis a história da cidade. A cidade já não existe”. Aquilo a que ele chama cidade genérica é a cidade ilimitada. A cidade genérica não tem arqui-tectura, isto é, não responde a nenhum fundamento, a um princípio (archè) construtivo, nem tem aspirações ideais ou utópicas. A cidade sem arquitectura, pura espontaneidade da urbanização, é uma cidade sem confins. O espaço urbano sem arquitectura é o junkspace. Ora, a cidade, por oposição à metrópole ilimitada, representou o espaço por excelência  do conflito e da ambivalência; ela deve a sua sobrevivência ao de-lirare: isto é, ao facto de introduzir confins, limites (lirae) na fundação da urbs. A cidade tende a delirar. Em 1995, Rem Kolhaas deu um curso em Harvard, para o qual quis que o programa se chamasse “Centro de estudos do que outrora se chamava cidade”. A administração da universidade não gostou da sua proposta porque era demasiado radical.

Também nas cidades, “take back control”

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 31/07/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

O artigo de hoje, com que me despeço para ir de férias, é sobre gentrificação das cidades. E não é sobre o ex-vereador Ricardo Robles, sobre o qual escreverei na edição semanal do Expresso. Até lá, lamento se insisto em escrever sobre política e se não contribuo para uma das tarefas centrais da comunicação social de hoje: a de conseguir que, através de um tratamento sempre desproporcionado (seja qual for o alvo) do pequeno escândalo pessoal em relação aos grandes problemas políticos, vivamos todos alheados dos problemas políticos e continuemos a avaliar os eleitos por tudo menos pelo que fazem no cargo. E nisto sou absolutamente coerente com tudo o que tenho escrito sobre o miserável estado do debate público nas democracias de hoje. Do que quero falar é, pois, de políticas públicas. Pedindo desculpa pelo aborrecimento causado.

Na semana passada um conjunto de cidades assinou uma declaração pelo direito à habitação e à cidade, que pode ler AQUI. Subscrito pelos presidentes de câmara de Amesterdão, Barcelona, Berlim, Cidade do México, Durban, Lisboa, Londres, Montreal, Montevideo, Nova Iorque, Paris e Seul, é um documento totalmente político que ultrapassa o discurso redondo e burocrático que costumamos encontrar nestes documentos. É um grito de protesto e uma exigência de ação contra a transformação das cidades em meros ativos financeiros. É, acima de tudo, a afirmação de uma das maiores prioridades políticas da próxima década: o combate à gentrificação das cidades, que expulsa os cidadãos pobres e de classes médias. E tem dois alvos principais: a ausência de gestão das políticas de turismo e a entrada dos fundos financeiros no mercado imobiliário, transformando as cidades em meros investimentos especulativos.

Os autarcas exigem mais ferramentas fiscais e jurídicas para regular o mercado imobiliário, seja na venda e compra de casa, seja no arrendamento. Como noutros casos, a tese de menos Estado e mais liberdade para o mercado esbarra com a realidade: essa escolha levará, com a entrada dos fundos financeiros e do turismo em larga escala nos grandes centros urbanos, ao esvaziamento dos centros e à insustentabilidade da vida urbana. O mercado totalmente livre é, sempre foi, insustentável. É por isso que o capitalismo, sempre que conquistou demasiada liberdade, entrou em rutura e acabou por aceitar maior intervenção do Estado. E foi sempre salvo por essa intervenção.

As câmaras também exigem mais meios financeiros para criar um verdadeiro mercado público de habitação. Esse é o caminho: dar à habitação o estatuto que demos, nas sociedades onde há Estado Social, à saúde e à educação. O processo de globalização torna isto inevitável. E se durante décadas a habitação pública se concentrou apenas nas classes mais baixas, ela agora terá de se dirigir às classes médias. Porque sem isso elas serão expulsas e passaremos a ter cidades ainda mais irracionais, totalmente despovoadas nas suas zonas centrais e sobrepovoadas nas periferias; e porque a entrada de milhares de casas públicas no mercado é a única forma de moderar a pressão especulativa causada pelo turismo e pelo investimento financeiro que migrou dos bancos para o imobiliário. Esta política de habitação pública pode ser combinada com a cooperação do Estado com o sector privado e comunitário.

Os presidentes de câmara defendem o reforço do planeamento urbano, essa palavra maldita num tempo em que ideologias quase distópicas parecem acreditar que as cidades, os países e as economias podem navegar na corrente do mercado sem qualquer perspetiva de futuro que não seja o imprevisto. Isto quer dizer, é bom dizer a quem custa ouvir, Estado com mais poder sobre o território e o mercado.

Esta declaração, assinada por algumas das cidades mais importantes do mundo, é sobre política urbana mas podia ser sobre qualquer outro assunto que se relacione com a globalização económica. O facto de ser sobre políticas concretas e facilmente compreensíveis para o comum dos cidadãos tem a enorme vantagem de retirar o debate sobre a globalização e financeirização do capitalismo das frases feitas e piedosas. Ele mostra como este processo é insustentável e acabará por ter efeitos de tal forma destrutivos da vida em sociedade que só pode acabar em reações de revolta com discursos que nenhum democrata quer ver triunfar.

Estas cidades, conscientes de que com a perda de muitos dos poderes dos estados nacionais elas passaram a estar na linha da frente da regulação, exigem o que está expresso na frase que mais calafrios causa a quem confunde cosmopolitismo com o fim da soberania: “take back control”. A frase usada na campanha do Brexit não está errada. Ela é a base da democracia que permite a soberania de um povo sobre os seus destinos, do Estado sobre a finança, do poder político sobre o poder económico. Ela é a base de todo o pensamento da esquerda democrática. É ela que permite políticas públicas, recursos financeiros, planeamento que se impõe ao mercado, leis e capacidade coerciva que nos defendam do poder do mais forte. O que está errado é a esquerda ter deixado a direita xenófoba apropriar-se desta frase para atacar os imigrantes. O que está errado é não ter sido a primeira a usá-la.

Nós, cidadãos, queremos as nossas cidades de volta. E queremos que os que elegemos para dirigir os destinos das nossas nações e das nossas cidades nos representem. Sim, queremos o controlo democrático perante o poder do “internacionalismo financeiro”. Isto vale para as cidades, ao recusarem que umas poucas plataformas digitais transnacionais passem a gerir uma parte razoável do arrendamento e que fundos de pensões tornem bairros inteiros em investimento especulativo. E vale para as nações. Sem complexos, temos de recuperar o controlo.