Uma vergonha e casos de (muita) pouca vergonha

(In Blog O Jumento, 13/06/2017)
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Celebrava-se o Dia 10 de Junho, era feriado nacional, Marcelo e Costa multiplicavam-se em discursos e viagens, Assunção Cristas punha o seu ar mais sério. Todos celebravam o Dia de Portugal. Todos? Não. Passos Coelho precisa de recuperar os votos perdidos, o Expresso deu-lhe uma deixa, e mal se livrou do frete oficial acelerou rumo ao sul. Mas não foi para passar o resto do dia com a esposa e muito menos para celebrações, o tema era um petisco, um amigo de Costa tinha sido nomeado administrador da TAP, a mesma TAP que ele privatizou numa noite e que Costa devolveu ao país.
Era um escândalo entre os nomeados em representação do capital do Estado na transportadora estava quem tinha negociado, em nome do Estado, a reversão da privatização. Um escândalo, uma enorme falta de ética, quem defendera o Estado nas negociações com os privados ia agora defender os mesmos interesses do Estado como administrador não executivo.
O país parou de espanto, uma vergonha, Costa tinha inventado um novo “Catroga”, um amigo ia enriquecer na TAP. Como é sabido o cargo de administrador executivo numa empresa onde apenas os administradores nomeados pelos privados mandam na empresa, não só é um cargo altamente remunerado como tem um grande poder. Até a Catarina Martins juntou a sua à voz de Passos Coelho, estava indignada com tanta pouca vergonha.
Passos Coelho está de parabéns, o país anda há quatro dias a discutir um cargo da treta, remunerado com pouco mais do que gorjetas e sem qualquer poder. Foi este o grande problema nacional que levou Passos Coelho a ignorar tudo e todos e a esquecer que era Dia de Portugal. Depois dele anda meio mundo a perder tempo e até o CDS veio perguntar se a CRESAP tinha sido ouvida.
Passos Coelho tem mesmo razão, é uma vergonha que a sua grande preocupação no Dia de Portugal não tenham sido os problemas familiares ou proporcionar a sua companhia à família, mas sim aproveitar-se de uma notícia da treta para criar um fato político que só merece uma gargalhada e apenas serviu para percebermos as preocupações com que se ocupam os nossos partidos.
Em contraponto:
casos de (muita) pouca vergonha

Pouca vergonha é a Maria Luís ter empregado o seu marido na EDP, pouco depois de ter privatizado esta empresa.

Pouca vergonha é a EDP conseguir que Passos substituísse o secretário de Estado da Energia, gesto que Mexia terá celebrado com champanhe, para pouco tempo depois a EDP empregar o pai do novo secretário de Estado arranjar emprego na …. EDP.

Pouca vergonha é Passos Coelho se ter esquecido de pagar as contribuições `Segurança Social.

Pouca vergonha foi o Catroga ter negociado com a Troika que queria baixar as rendas da EDP e depois aparecer em presidente daquela empresa. Pouca vergonha foi o mesmo Catroga se ter oferecido a António Costa para lhe fazer fretes.

Pouca vergonha foi o último presidente do BES escolhido pela família Espírito Santo ter sido Mota Pinto?

Pouca vergonha foi a escolha de nomeação de Manuel Frexes, presidente dos autarcas sócias-democratas e da Câmara Municipal do Fundão, e Álvaro Castello-Branco, do CDS-PP e vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, para administradores da empresa “Águas de Portugal”

Austeridade, rigor e sacanice

(In Blog O Jumento, 18/04/2017)
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É bom que os governos sejam austeros no momento em que usam recursos públicos, seja dinheiro dos contribuintes, como agora se diz, seja o dinheiros que as próximas gerações de contribuintes terão de pagar. Não só é um bom princípio e uma exigência de qualquer cidadão, como é uma obrigação pois os recursos são sempre escassos e como tal devem ser considerados. Infelizmente nem todos os governos dão bons exemplos, recordo-me, por exemplo, da forma como os governos de Cavaco Silva gastaram os dinheiros do Fundo Social Europeu, era um fartar vilanagem, com os resultados que décadas depois ainda suportamos e com língua de palmo.
Ser austero não significa ser rigoroso, pode-se ser cuidadoso na forma como se gasta e muito incompetente no momento de fazer previsões. Foi o que sucedeu ainda recentemente, com o governo de Passos Coelho, cujos ministros das Finanças se revelaram incompetentes em matéria de previsões. A sua incompetência na política económica levou a que nunca acertassem nas previsões. A falta de competência técnica daqueles governantes levou a que não tivessem conseguido acertar numa única variável económica. Os orçamentos eram corrigidos trimestralmente, nunca acertaram numa previsão de crescimento económico ou de desemprego. A imprevisibilidade era tanta que ninguém podia confiar numa promessa governamental, ninguém, empresas ou cidadãos, sabiam com o que podiam contar no mês seguinte.
Se a austeridade e o rigor são atributos de um governo competente já a sacanice não pode ser considerada a melhor orientação para uma política económica, ainda que haja quem diga que deu excelentes resultados no Chile de Pinochet. Por cá os resultados não foram grande coisa, chamar reforma estrutural a cortes de vencimentos e pensões declarados inconstitucionais, dizer que um jovem desempregado tem a oportunidade da sua vida num país estrangeiro graças a um governo que lhe nega o futuro ou chamar requalificação ao despedimento de um funcionário público, podem ser boas soluções ideológicas, mas não passam de sacanices enquanto política económica.
A política económica do governo anterior pode ser sintetizada em duas palavras: sacanice e velhacaria. Poder-se-ia acrescentar oportunismo, graças ao Tribunal Constitucional e às manobras eleitoralista em 2015 registou-se algum crescimento económico, só por oportunismo a direita justifica hoje esse crescimento com as velhacarias que fez aos portugueses.
O grande mérito de Mário Centeno não está apenas nos resultados, está sim em provar que é possível ser austero sem ser sacana, que é possível ser rigoroso sem ter de encobrir a incompetência com mais sacanice orçamental, que é possível ser honesto e falar verdade, que é possível dialogar e convencer toda a esquerda que é no poupar que está o ganho, que um país pode ser rigoroso na forma como gasta os seus recursos sem se culpar os pobres de comerem um bife a mais ou com recurso às ameaças do senhores Poul Thomsen, Abebe Selassie ou Subir Lall, essas três personagens do FMI que se predispuseram a fazerem de papões sempre que Passos Coelho precisava de ameaçar e amedrontar os portugueses.
Mário Centeno provou que é possível reduzir os défices orçamentais sem governos autoritários, sem a chantagem da troika e isso foi possível com uma grande adesão e compreensão por parte da maioria dos portugueses. Mário Centeno mostrou que a democracia pode resolver os problemas sem conduzir ao populismo e que é o rigor, a competência e a honestidade que conseguem os melhores resultados, ao contrário de um Passos Coelho que preferia o medo, o complexo de culpa e a chantagem para justificar as suas soluções.

Portugal quase no top ten da ciência europeia

(Carlos Fiolhais, in Público, 05/04/2017)

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Este artigo e esta temática são uma bofetada sem luva no paspalho do Dijsselbloem. Andamos nos copos, como ele diz, e ainda conseguimos estar à frente da Alemanha e da França no ranking da ciência, a nível europeu. É obra. É o lado positivo da notícia. Só resta perguntar em que lugar estaríamos se entre 2011 e 2015 o governo de Passos não tivesse empreendido uma política de destruição da ciência nacional, como provam as estatísticas, sobretudo impulsionando os mais jovens e promissores cientistas a emigrar. Qualquer que seja o dossier que analisemos, constata-se que a governação pafiosa foi o maior desastre que aconteceu ao país, atrevo-me a dizer, desde os tempos de D. Afonso Henriques. Nem o terramoto de 1755 foi tão pernicioso.

Estátua de Sal, 05/04/2017


 

A notícia dada recentemente pelo PÚBLICO de que Portugal estava no 11.º lugar no ranking europeu dos países com maior número de publicações científicas por habitante só nos pode orgulhar a todos. Em duas décadas deixámos de ser um país na cauda da Europa e, colocados entre a Inglaterra e a Alemanha, chegámos perto do grupo da frente. Ultrapassámos não só a Alemanha, mas também a Espanha, a Itália e a França. Tal deveu-se não apenas ao esforço dos cientistas mas, acima de tudo, a uma política que visava sair da posição lastimável em que nos encontrávamos. O seu principal protagonista foi José Mariano Gago, que infelizmente já não está entre nós para verificar mais este seu sucesso. Ele mobilizou governo e sociedade para que uma geração de jovens pudesse mostrar os seus talentos numa área que é hoje decisiva para o progresso das nações.

Uma questão interessante é saber se a política adoptada por Passos Coelho de contenção da ciência, entre 2011 e 2015, teve um impacto negativo no crescimento da produção científica que se estava a verificar desde há algum tempo, isto é, se a subida não podia ter sido ainda maior. A resposta é clara: o crescimento abrandou mesmo, pois caiu de 69%, no período entre 2005 a 2010, para 50%, no período entre 2010 e 2015. Olhando para os números, contabilizamos, disciplina a disciplina, os estragos que o anterior governo fez à ciência. A Física baixou de 1448 artigos em 2012 para 1371 em 2015. A Química desceu de 1372 artigos em 2013 para 1331 em 2015. E a Matemática desceu de 666 artigos em 2011 para 651 em 2015. Também as Ciências Biológicas, as Engenharias Civil e Química e as Nanotecnologias conheceram retrocessos. Nas Ciências Sociais e Humanidades (embora não estejam bem representadas na base de dados usada), o panorama é semelhante: a Economia e Gestão, as Ciências da Educação, a Sociologia, a História e as Artes minguaram.

Todos estão lembrados da “avaliação”, encomendada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) para “podar” metade dos centros nacionais. Essa manobra, feita em muitos casos por não especialistas, penalizou alguns dos centros mais produtivos do país. Felizmente que o ministro Manuel Heitor, co-autor do Livro Negro da Avaliação da Ciência em Portugal, interrompeu o despautério. Hoje há consenso de que o caminho é para a frente e não para trás. Por isso, qual não foi o meu espanto ao ler no Expresso de 1/4/2017 (não, não era mentira!), na mesma altura em que eram divulgadas as referidas estatísticas, um artigo de António Coutinho, ex-“dono disto tudo” da ciência em Portugal e curador da Fundação Champalimaud, a criticar aquilo a que chama o “novo rumo” da ciência. Preto no branco, ele quer voltar à sua ideia de “poda”, concretizada pela deriva ideológica, para não dizer mesmo politiquice sectária, do governo anterior. Crato nunca embarcou no barco da ciência e Coutinho achava que a navegação seria melhor se mandasse borda fora metade dos cientistas, escolhidos um pouco ao acaso. Os resultados estão hoje à vista e só poderão ser negados por alguém, como Trump, que queira trocar os factos por factos alternativos. A anterior gestão da FCT, que nunca foi alvo de uma auditoria, não almejava a excelência mas sim zelar pelos interesses particulares de alguns.

Não quer isto dizer que a ciência esteja perfeita entre nós, muito longe disso. Está simplesmente melhor do que quando Coutinho a deixou. Agora respira-se. Mas o ministro tem pouco dinheiro no orçamento e deixa escapar frases infelizes (como a última, quando disse que os investigadores deviam ser mais reivindicativos e ele ia reivindicar com eles). Manuel Heitor endossa, por exemplo, para as escolas superiores responsabilidades que são principalmente suas de renovação dos quadros de professores e investigadores, uma renovação que urge para dar lugar à nova geração. Como mostra a rede GPS (gps.pt), há uma multidão de cientistas portugueses que tiveram de emigrar e ainda não vêem hipóteses de regressar ao seu país. Por que não são atraídos? Se queremos aspirar a um lugar na primeira linha da Europa, a nossa ambição mede-se pelas oportunidades que soubermos criar em Portugal para manter e atrair talento.


Professor universitário (tcarlos@uc.pt)