Centeno, o homem do ano 2017

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 15/12/2017)

nicolau

 

Hoje ao cair da noite a agência de notação financeira Fitch vai subir em dois níveis a classificação da dívida portuguesa, retirando-a da categoria de “lixo”, onde se encontrava há seis anos. É a segunda das três maiores agências internacionais a fazê-lo. E em Janeiro será a vez da Moody’s seguir o mesmo caminho, iniciado pela Standard & Poor’s em Setembro quando sem ninguém o prever retirou a dívida portuguesa de “lixo”.

Trata-se de uma extraordinária vitória para Portugal, para o atual Governo e para o ministro das Finanças, Mário Centeno, o último responsável pela estratégia económica que Portugal tem vindo a seguir desde o final de 2015. E é uma extraordinária vitória porque as políticas económicas defendidas por Centeno foram recebidas com enorme cepticismo pela Comissão Europeia, pelo FMI, pelo Eurogrupo e pelos investidores e os mercados. Com efeito, defender que era possível cumprir os compromissos europeus, cortando radicalmente com a estratégia seguida de forma fundamentalista pelo Governo PSD/CDS e defendida pela troika exigiu grande coragem e uma forte convicção de que as coisas podiam ter os mesmos resultados por outras vias, com muito menos dor social.

2016 foi um ano difícil, em que a economia cresceu menos que em 2015. Mas em 2017 sucederam-se os êxitos. Portugal vai registar o défice mais baixo de sempre em democracia e o maior crescimento deste século. As exportações tem mantido um forte aumento, o investimento está de regresso e há crescimento do emprego e redução para lá do previsto no desemprego. O saldo da balança corrente e de capital mantém-se positivo. A recuperação tem-se caracterizado por uma reafetação crescente de recursos para o setor dos bens e serviços transacionáveis – ou seja, estamos perante um crescimento que assenta em bases saudáveis. E está a verificar-se a redução do endividamento público e privado.

Tudo isto originou que o país saísse do Procedimento por Défice Excessivo, onde se encontrava desde 2011 e que em Novembro conseguisse pela primeira vez na sua história emitir dívida a dez anos com uma taxa inferior a 2%. E Mário Centeno vê coroada a sua convicção e os êxitos que tem para apresentar com a eleição em Dezembro para presidente do Eurogrupo, onde os seus pares o receberam na primeira reunião em que participou ainda em Dezembro de 2015 de forma gelada, olhando para o lado e evitando cumprimentá-lo.

Ora por mais voltas que se dê e por mais que se tente denegrir estes resultados eles foram obtidos por um governo socialista, liderado pró António Costa e tendo Mário Centeno como ministro das Finanças. Mesmo que contra vontade, a Comissão, o FMI, o Eurogrupo e o Banco de Portugal tiveram de render-se às evidências. Era possível seguir outra via para reduzir a dívida e o défice sem ser através de brutais aumentos de impostos diretos e cortes draconianos nos salários, pensões e nos apoios sociais do Estado. Ou seja, Centeno ganhou. É claramente, na área económica, o homem do ano de 2017.

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Teodora Cardoso vs. Mário Centeno 

(Nicolau Santos, in Expresso, 11/11/2017) 

nicolau

Portugal emitiu esta semana €1,25 mil milhões em títulos de dívida a 10 anos à taxa de juro mais baixa de sempre (1,939%) da sua história para um período tão longo. É um resultado fantástico, que tem por trás a expectativa de que a Fitch vai elevar o rating de Portugal a 15 de dezembro e que a Moody’s fará o mesmo no início de 2018, a par da evolução positiva de vários indicadores económicos (PIB, défice, dívida, emprego, desemprego, exportações, turismo). Ainda esta semana soube-se que o desemprego caiu para 8,5%, o valor mais baixo desde 2008, estando já abaixo do valor que o Governo prevê para o próximo ano.

Digamos, pois, que a conclusão só pode ser uma: os mercados e as agências de rating estão a validar a política económica e orçamental do país. Não é isso, contudo, o que pensa o Conselho de Finanças Públicas, presidido por Teodora Cardoso, que, ao avaliar a proposta do Orçamento do Estado para 2018 faz graves acusações ao Governo e ao ministro das Finanças, Mário Centeno. Afirma, por exemplo, que o Governo se limita a “cumprir as regras apenas nos mínimos indispensáveis para obviar à desaprovação da Comissão Europeia”. É batota? Incumpre as regras? Não. Mas a mensagem que Teodora Cardoso passa é que o Governo é o aluno manhoso que devia fazer bastante mais. A presidente do CFP acusa também o Executivo de “usar toda a ambiguidade das regras” relativamente ao défice estrutural para não o cumprir. Teodora Cardoso sabe que o cálculo do défice estrutural é altamente polémico. Por isso, que sentido tem Portugal fazer um esforço adicional de redução do défice estrutural quando existem várias medidas que tanto podem ser consideradas para ele como não (o Eurostat decidirá), mas que o CFP decidiu desde já não considerar — e é por isso que diz que Portugal não vai cumprir o objetivo de reduzir o défice estrutural? E Teodora Cardoso pensa mesmo que com o défice orçamental a cair para 1% em 2018 e a dívida a reduzir-se pelo segundo ano consecutivo a Comissão Europeia vai aplicar sanções ao país por causa da diferença de uma ou duas décimas no défice estrutural?

Tanto azedume só pode ter uma razão. Teodora Cardoso não esquece nem perdoa que o Governo tenha chumbado os dois nomes que tinha proposto para o conselho de administração do CFP, Teresa Ter-Minassian e Luís Vitório. Mas o azedume não dá razão. No braço de ferro entre Teodora Cardoso e o ministro das Finanças, é Mário Centeno quem está a ganhar: não só conseguiu um défice em 2016 (2,0%) que a presidente do CFP primeiro assegurou que não era possível e depois desvalorizou (admitiu ter havido “quase um milagre”), como a economia vai crescer este ano 2,6% contra uma previsão inicial do CFP de 1,7%. Logo, porque há de estar Teodora Cardoso mais certa na avaliação do OE-2018 do que Mário Centeno?

ECONOMISTAS CIENTISTAS

(In Blog O Jumento, 09/11/2017)
galbraith
Por mais que tenha aprendido de economia – que não tendo sido grande coisa poderá ter sido o suficiente para não dizer grandes asneiras -, por mais modelos econométricos com equações simultâneas, equações quadráticas ou equações em Rn que tenha estudado, faz-me uma grande confusão quando em 2017 se fazem previsões do crescimento económico com o rigor de décimas. Fico com a impressão de que a economia não é coisa de seres humanos, podendo ser tratada como uma ciência exacta.
Mas a verdade é que o ser humano já consegue enviar uma sonda para Plutão fazendo-a chegar ao Polo deste agora despromovido planeta, com um rigor de milímetros e de segundos, mas não consegue prever qual vai ser o crescimento no próximo mês de dezembro. Ainda bem que assim é, senão seria uma grande monotonia vivermos “geridos” pelo Mário Centeno, isso para não recordar que se fosse no tempo do Gaspar teríamos direito a tatuagem com número de rato de laboratório.
Não faço parte dos muitos que há alguns anos estavam convencidos de que a economia iria crescer graças à boa disposição nacional porque o Benfica ia ser campeão; também não estou convencido que os modelos econométricos do governo passem a contemplar uma equação quadrática para fazer considerar os beijinhos e abraços do Marcelo na taxa do crescimento económico.
Mas, a verdade é que se as regras de gestão fossem aplicadas com rigor, não existiria um self made man e que se as previsões dos economistas estivessem sempre certas e se adotássemos todas as reformas que as Teodoras sugerem estaríamos ricos, mas ainda teríamos de andar de alpargatas, a bem do crescimento da economia. Um dos primeiros temas dos cursos de economia é discutir se a economia é ou não uma ciência; todos os professores gostam que a sua arte seja ciência, daí que hoje tudo seja muito científico, um pouco à semelhança do socialismo do PCP, o único comprovado laboratorialmente.
Mas a mesma Universidade de Chicago de Milton Friedman, que pouca consideração tinha pelo lado humano da economia, deu ao mundo Richard H. Thaler, o professor que ganhou o Nobel em 2017, por ter estudado a importância da psicologia na economia, pondo fim ao desprezo pelo ser humano evidenciados por alguns economistas, como os três artistas que ainda ontem ouvi numa das televisões.
Talvez faça sentido perguntar se um primeiro-ministro deve ser muito otimista ou moderadamente otimista, se um Presidente deve estimular o sucesso promovendo o otimismo e as boas soluções ou deve ir a todos funerais, velórios e missas do sétimo dia. De certeza que o crescimento nos próximos anos vai ser de 2% como diz Centeno, tendo em conta a envolvente externa e revelando um total desprezo pelos indígenas e pelos seus sentimentos e humores?
Parece-me que os nossos economistas deviam voltar às universidades para voltarem a ser humanizados e socializados, aprendendo a ser motivadores de homens, a preocuparem-se mais com os sentimentos e motivações dos agentes económicos do que a reduzir a sua existência a cardumes com comportamentos condicionados e previsíveis.