Saudades do governo de Passos Coelho e Paulo Portas

(Por Carlos Esperança, 19/03/2018)

o_trio

Naquele tempo, que Cavaco Silva desejou esticar, corriam rios de mel, e só não havia virgens à espera das vítimas porque era outra a devoção em Belém e S. Bento.

As matas eram então incombustíveis, à prova de pirómanos, as urgências dos hospitais aguardavam doentes para quebrarem o tédio aos enfermeiros e médicos, a banca estava capitalizada e sem créditos malparados, o emprego era pleno e os portugueses viviam felizes com a sobretaxa do IRS e divertidos com os orçamentos de Estado à espera dos retificativos.

Os vírus não matavam, o sarampo não era epidémico e a bastonária dos enfermeiros não se oporia à vacina obrigatória aos seus membros, para exercerem a profissão no Estado, se acaso ocorresse ao governo a prudência e o bom senso a ela.

As pessoas podiam andar deprimidas, mas as vacas dos Açores sorriam com a presença do casal presidencial, e as cagarras das ilhas Selvagens acolheram ruidosamente a visita do PR, preocupadas com a ausência da prótese conjugal.

O país vivia feliz, espoliado dos feriados identitários, 1.º de Dezembro e 5 de Outubro, e até o cardeal andava sossegado com o fim dos feriados que a Igreja impôs à República e a intimidade dos cônjuges recasados, sem precisão de apoiar manifestações de colégios privados onde a sua Igreja lucra mais do que com o negócio das almas.

Então, até os carrilhões de Mafra se seguravam às torres de onde ameaçam agora soltar-se, com a força com que o senhor D. João V se agarrava à madre Paula, em Odivelas, e ao ouro do Brasil para enviar ao Papa e obter dele o irónico e caro epíteto, Fidelíssimo.

A imprensa de reverência vivia em harmonia com o poder, designando a incompetência do PM por coragem e por institucional a cumplicidade entusiasta do PR.

Ditosos tempos! Os cravos de Abril tinham sido exonerados das lapelas do PR e do PM e o ordenamento jurídico era uma incómoda referência da Constituição que juraram, a ilustrar o adágio: «quem mais jura, mais mente».

Anúncios

Passos, passado e futuro 

(Clara Ferreira Alves, in Expresso Diário, 23/02/2018)  

cfa

Clara Ferreira Alves

 

(Declaração de interesses: não sou sectário quanto a personagens. Não há autores proscritos. A dona Clara que, nos últimos tempos me tem desiludido com as suas intervenções macambúzias no espaço público, desta vez produz um excelente retrato do “passismo”. Um fresco de excelente traço e recorte literário. A dona Clara pode não saber, por vezes, onde anda e mostrar um pensamento que é uma amálgama ideológica sem coerência e de desiderato oculto. O que não pode dizer-se é que não saiba escrever. Escreve e escreve muito bem.

Comentário da Estátua, 23/02/2018)


Pedro Passos Coelho foi o autor da frase mais desastrosa da democracia e o seu rosto ficou, justa ou injustamente, conforme a ótica, associado a um tempo e um lugar de penas e expiações. E ninguém gosta que lhos recordem 

Pedro Passos Coelho nunca apareceu ao país como um daqueles predestinados da política, um daqueles que sabem que acabarão primeiros-ministros, só não sabem quando. A sua vida partidária e atividade política discretas desaguaram numa vida empresarial que mais tarde serviria de arma de arremesso. Daí, subitamente, saltou para chefe do PSD e, armado por uma obstinação que não o serviu historicamente, interiorizou e exteriorizou o discurso da austeridade e foi autor da frase mais desastrosa da democracia. Ir além da troika.

Passos Coelho, depois do desaire político e financeiro de Sócrates, e muito antes dos desaires judiciais do processo Marquês, acreditava piamente que Portugal precisava de uma regeneração do tecido económico e social e de uma revolução neoliberal que transformasse um país dependente e sujeito a resgates da Europa, com a cauda de humilhações, num país autónomo e, digamos, mais civilizado.

Ideologicamente, Passos foi um arlequim que serviu a dois amos, o partido de nome social-democrata e a ideologia ultramontana que de social-democrata nada tinha

O discurso que autorizava este pensamento que pedia emprestado às ideologias neoliberais americanas e aos discípulos portugueses que viram em Passos o motor revolucionário da direita, não era sustentado por uma ideologia partidária adquirida ao longo de anos nem por uma íntima convicção que se tivesse manifestado, também, ao longo de anos.

Ideologicamente, Passos foi um arlequim que serviu a dois amos, o partido de nome social-democrata e a ideologia ultramontana que de social-democrata nada tinha. Sabemos onde estava o coração de Passos. A bancarrota e o resgate serviram de pretexto para a revolução, e ancoraram-na em meia dúzia de princípios pragmáticos que qualquer político experiente saberia que poderiam tornar-se antipatrióticos. Nunca chegaremos a saber se a insensibilidade social do discurso do sucessor de um Sócrates subitamente guinado para a esquerda e um keynesianismo encenado, era sentido ou, também, encenado.

Nada indicava o homem que morava em Massamá e usava Massamá como simbologia redentora adequada ao desígnio coletivo, a frugalidade sem peneiras, como o político punitivo das nossas manias de viver acima das nossas possibilidades

No percurso pessoal, nada indicava o homem que morava em Massamá e usava Massamá como simbologia redentora adequada ao desígnio coletivo, a frugalidade sem peneiras, como o político punitivo das nossas manias de viver acima das nossas possibilidades. Não tinha dimensão ambiciosa e nunca se percebeu como isto era conciliável com a entrepreneurship. A ambição individualista capitalista, a do entrepreneur, é sair de Massamá, não é regressar a Massamá. Perguntem a Miguel Relvas. Mais, um dos ministros de Passos, Miguel Macedo, alvitrou que os portugueses não passavam de um bando de cigarras que deveriam começar a viver como formigas. E o dito Relvas, ministro fundamental, aconselhou os jovens portugueses a saírem da zona de conforto. Por grosso, estas duas frases, mais a frase ir além da troika, selaram o destino infausto de Passos Coelho. E não só.

A aliança programada com um lugar-tenente ubíquo e ambíguo, um falso Dr., e a perceção de que a carreira política de Passos era uma conjunção dos ofícios de Ângelo Correia (em princípio de carreira) com os de Relvas (em final de carreira) geraram a certeza nos eleitores de que Passos era um recetáculo de ideias e interesses alheios e que servia, além dos dois amos ideológicos, os propósitos negociais de uma geração dotada de uma pesporrência que raiava, no início da legislatura, a prepotência.

Escorado na Europa chantagista dos países do sul e numa desorientação do partido socialista que se anunciava definitiva, o partido do homem que levou Portugal à ruína, Pedro Passos Coelho esqueceu-se de que os portugueses não são radicais

Relvas e Passos Coelho, e os outros, convenceram-se erradamente de que o momento de aperto dos portugueses lhes autorizava uma arrogância que incomodava o parceiro de coligação, Paulo Portas. Ao contrário dos sociais-democratas, Portas assentava o discurso do partido dele na necessidade apelar a um eleitorado pobre e remediado, a norte, tanto mais que a democracia-cristã tinha uma forte componente de consciência social. Consciência social que o próprio presidente da República, Cavaco Silva, não renegava, apesar dos tiques autoritários. Escorado na Europa chantagista dos países do sul e numa desorientação do partido socialista que se anunciava definitiva, o partido do homem que levou Portugal à ruína, Pedro Passos Coelho esqueceu-se de que os portugueses não são radicais.

Somos um povo expeditivo e conformista mas também volátil nos sentimentos e com ódio às privações. Instituir a privação como doutrina de vida funcionou nos primeiros tempos, quando se achava que Portugal poderia ser expulso da Europa e que o dinheiro faltaria nas caixas multibanco. Com a passagem do tempo, Passos deveria ter percebido que estava a construir na areia. Em vez de reformar o Estado, aumentou os impostos. Em vez de fazer a revolução, vendeu o país. Em vez de privatizar com método, privatizou em leilão. E os nomes titulares dos negócios, Relvas e Arnaut à cabeça, começavam a aparecer por todo o lado. A pureza incorrupta de Passos Coelho, fomentada por uma existência modesta, genuína mas não suficientemente cosmopolita, manchou-se com a Tecnoforma e perdeu-se nos labirintos africanos.

Passos tornou-se supérfluo. E o modo inadequado e atrapalhado como geriu as autárquicas, responsabilizando-se por uma derrota do partido nunca vista, foram o golpe de misericórdia

Externamente, na representação soberana, o país parecia dobrado e humilhado aos desígnios da Europa de Schauble e ao poder financeiro e corruptor da família dos Santos. Com a partida de Vítor Gaspar para o FMI, e os episódios do obviamente demito-me de Portas, ficou a impressão de que tinha partido vencido o grande executor da purga austeritária. O Estado continuava por reformar. E a coligação não corria lá muito bem. Apesar destes obstáculos, e outros, incluindo a mudança da mentalidade da aceitação da privação, Passo Coelho teve a maioria relativa nas legislativas. É meritório. O que ele não esperava era que o cetro lhe fosse retirado das mãos por, novamente, um chefe socialista. Ao ir buscar o apoio maioritário às esquerdas e formar governo, contrariando a prática histórica do partido mais votado, Costa fez o que ninguém no PSD, dos ideólogos aos seus admiradores e amadores, conseguira prever. O choque foi brutal, para todos. Por essa altura, o PSD nada tinha de social-democrata, e, num movimento simétrico, o PS virara à esquerda aliando-se a um velho inimigo, o partido comunista. Costa teve sorte, a Europa mudou, a austeridade acabou, e a saída limpa permitiu um alívio. A saída não foi, nem poderia ser, limpa, mas a política é a arte da ficção. Há quem lhe chame spinning.

Estou convencida que Passos Coelho não tem futuro político, apesar de o designarem como sebástico candidato às presidenciais. Oito anos de Marcelo com Passos a seguir? Esqueçam. A inteligência de Marcelo gerará o seu sucessor, e nunca seria Passos

Afundado num ressentimento transformado em hostilidade e rancor aos socialistas, o PSD de Passos não soube fazer oposição. A oposição traduzida pela palavra “diabo”, veja-se a pobreza do conceito, consistia em desejar o apocalipse e a perda do país. A seguir ao resgate, viria a ameaça de novo resgate. Os portugueses começaram a achar que Passos e os seus exageravam e que não só não estavam acertados com a História como tinham sacrificado um povo a uma ideia normativa desnecessária. Passos tornou-se supérfluo. E o modo inadequado e atrapalhado como geriu as autárquicas, responsabilizando-se por uma derrota do partido nunca vista, foram o golpe de misericórdia. A impopularidade de Cavaco em fim de carreira não ajudou. A vitória de Marcelo menos ainda. O presidente Marcelo era tudo o que Passos quisera evitar. Não acertou, mais uma vez.

Estou convencida que Passos Coelho não tem futuro político, apesar de o designarem como sebástico candidato às presidenciais. Oito anos de Marcelo com Passos a seguir? Esqueçam. A inteligência de Marcelo gerará o seu sucessor, e nunca seria Passos.

Pode ser que o usem como conspirador ou patrono de conspirações, acenando-lhe com o putativo regresso ao trono da Buenos Aires, mas nunca se deve regressar a um lugar onde se foi feliz. Pode ser que o manipulem para, com malícia, destruir qualquer líder do PSD que não ele, mas ao deixar-se arrastar por miragens morrerá afogado nas areias movediças. A história move-se mais rapidamente que nunca e Passos é passado. O seu rosto ficou, justa ou injustamente conforme a ótica, associado a um tempo e um lugar de penas e expiações. E ninguém gosta que lhos recordem.

MUDAR O PAÍS EM DUAS LEGISLATURAS

(In Blog O Jumento, 06/02/2018)
cavaco-silva-passos-coelho-paulo-portas-governo-ultima-ceia
(Eis a Ultima Ceia dos pafiosos que queriam “mudar o país” – leia-se “desgraçar o país” -, em duas legislaturas. Não conseguiram. Mas cuidado, eles ainda andam todos por aí, e como se vê diariamente nos ataques ao Governo, de todos os tamanhos e feitios,  ainda não desistiram. Só nos resta cerrar fileiras e clamar, alto e bom som, que não passaram e não passarão.
Comentário da Estátua, 06/02/2018)

Um dos argumentos usados com alguma frequência por Passos Coelho para justificar os parcos resultados económicos do seu governo, é o de que o seu programa era a pensar em duas legislatura, que os resultados viriam depois. É verdade que uma boa parte da sua pinochetada estava por concretizar, ficou por fazer o ajustamento (reduções salariais) no setor privado, muito pelo falhanço do golpe da TSU, não teve tempo de consolidar os cortes de vencimentos com uma nova tabela remuneratória no Estado, ficou por concretizar o corte linear em todas as pensões e, acima de tudo faltou a cereja em cima do bolo, o despedimento em massa de funcionários públicos.
Vítor Gaspar, o economista de segunda linha que não era  mais do que a marioneta do falecido António Borges, contratado como seu consultor para estar mais perto do pupilo, fugiu para o FMI quando se apercebeu do falhanço. Mas Passos ainda acredita que em duas legislaturas conseguiria transformar Portugal numa espécie de Singapura da Europa, num dos países mais competitivos do mundo, como chegou a anunciar em Tóquio.
A receita era simples, o corte brutal do orçamento público, conseguido com privatizações e despedimentos, financiaria o capital, o aumento brutal de IRS compensaria uma redução equivalente do IRC, combinando a desvalorização fiscal com a liberalização das regras do mercado de trabalho conseguiria uma redução substancial dos custos do trabalho.
Passos Coelho e o seu falecido guru só se esqueceram de dois pormenores, essa foi a política do regime de Salazar e Marcelo e em vez de ter transformado Portugal na Singapura da Europa, transformou o nosso país na Roménia da Europa Ocidental. Esqueceram-se também de que no tempo dos salários de miséria havia uma polícia política para calar os protestos e um guarda fiscal de cem em cem metros de fronteira, para impedir o contrabando e a fuga dos trabalhadores. Esqueceram-se ainda de que no tempo das desvalorização Portugal ainda não estava na EU, as importações eram contingentadas, os portugueses não tinham grandes qualificações e ainda não beneficiavam da livre circulação de trabalhadores.
O resultado da primeira das duas legislaturas da revolução imaginada por Passos Coelho foi um falhanço, o investimento estrangeiro não confiou no país, os jovens emigraram, os estudantes passaram a ter a emigração como grande ambição, os casais jovens evitaram ter filhos. O país perdeu recursos humanos e todo o investimento feito pelo Estado e pelas famílias na geração mais qualificada que tivemos e agora cria riqueza em países como o Reino Unido, a Alemanha ou Angola.
Talvez seja de lamentar que a revolução de Passos tenha sido interrompida, talvez a esta hora o país já se tivesse livrado da sua extrema-direita chique, que ainda acredita que a miséria é o melhor instrumento de progresso económico.