A quinta coluna

(Daniel Oliveira, in Expresso, 13/07/2018)

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Daniel Oliveira

Augusto Santos Silva nunca apreciou a atual solução governativa. Ela é contraditória com a clivagem política fundamental que acredita existir na Europa e em Portugal: em vez de esquerda contra direita, europeístas contra eurocéticos e moderados contra populistas. Uma visão coerente com o enorme entusiasmo que mostrou com a vitória de Emmanuel Macron, o homem que traiu e enterrou o Partido Socialista Francês. Assim sendo, PCP e BE estão, do seu ponto de vista, no espaço político oposto ao do PS. E PSD e CDS, podendo ser concorrentes, são aliados estratégicos. A ‘geringonça’ é e sempre foi, para Santos Silva, uma fase tática que aceitou por razões igualmente táticas. Mas um solução contranatura.

Numa entrevista à Rádio Renascença, Santos Silva defendeu que a ‘geringonça’ deveria ser reeditada depois das próximas eleições. Mas o compromisso deveria ser maior: entre outras áreas, teria de haver um entendimento sobre a União Europeia. Recordo que, em dezembro do ano passado, Santos Silva disse ao jornal “Die Zeit” que não era “fundamentalmente contra medidas de austeridade”, apenas achava que tinha sido necessário dar “um sinal de recuperação à população”. Ao contrário de Costa, Santos Silva acredita na solução austeritária imposta durante a crise. Não é por isso credível que esteja a defender que o PS faça qualquer tipo de cedências ao PCP e ao BE em política europeia. O que Santos Silva está a dizer é que, para haver um novo entendimento, comunistas e bloquistas têm de passar a defender as vantagens do dogmatismo monetário, a cegueira dos limites orçamentais, e que o combate à inflação tem prioridade face à promoção do emprego, como expressamente exige o dogma do BCE. BE e PCP teriam de se transformar no oposto do que são.

Tem razão Manuel Alegre quando sublinha a contradição entre a defesa da reedição da ‘geringonça’ e a exigência de que os partidos se entendam naquilo em que estão irremediavelmente distantes. Mas o que Santos Silva pretendeu defender na Renascença não foi a renovação da ‘geringonça’, foi uma negociação que a leve a um beco sem saída e assim a enterre. Santos Silva não quer uma clarificação do PCP e do BE, quer uma clarificação do PS.

Isto é apenas a continuação do debate iniciado no último congresso. Quer provar por dentro o que Assis não conseguiu provar de fora. É, sempre foi, uma espécie de quinta coluna dentro da ‘geringonça’. Só que, enquanto Assis e Sousa Pinto tiveram a coragem de assumir a divergência e por isso ficaram longe da esfera de influência da direção do PS, Santos Silva preferiu agarrar o lugar de ministro, que também deve ao PCP e ao BE. A forma enviesada como combate a ‘geringonça’ é coerente com a forma pouco clara como se comprometeu com esta solução de Governo. Uma e outra, mais do que um perfil político, traçam um perfil de personalidade. António Costa veio desautorizar a tese de que a ‘geringonça’ só se repetirá com um acordo em torno da Europa — que é o mesmo que dizer que não se repetirá.

Não é a primeira vez que Santos Silva se substitui a Costa na definição estratégica do PS. A questão é saber se o faz por autorecriação ou com autorização do primeiro-ministro, que depois tempera a coisa, deixando que fique o recado. Como não tenho qualquer razão para pensar que Santos Silva deixou de estar no núcleo duro do líder, continuo a achar que Costa está a jogar um jogo duplo e perigoso, que tem tudo para correr mal nas próximas eleições.

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Onde pára a maioria?

(José Soeiro, in Expresso Diário, 13/07/2018)

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José Soeiro

Desde o seu Congresso, dirigentes do PS e membros do Governo têm-se multiplicado em declarações contraditórias sobre o caminho que pretendem. Nalguns casos, elas são a expressão normal das contradições existentes no próprio Governo e no Partido Socialista, entre os que defendem convictamente a solução política que existe (como Pedro Nuno Santos, por exemplo) e os que, como Santos Silva, por exemplo, anseiam regressar ao lugar de onde verdadeiramente nunca saíram e libertar-se rapidamente de qualquer compromisso com a Esquerda. Se fosse apenas uma troca de declarações, seria interessante mas pouco relevante. Mas este ziguezague é a expressão de uma confusão em torno de escolhas políticas concretas, que aliás põe em causa a consistência e a coerência da atual maioria. Se a ideia do Governo é essa – pô-la em causa, para reconstruir o centrão –, então é uma boa estratégia. Mas seria, sobretudo, uma irresponsabilidade que fosse por esse caminho. Há muitas escolhas para fazer e muitos problemas para resolver.

Um exemplo: a legislação laboral. Independentemente das divergências que sempre existiram entre o Partido Socialista e a Esquerda, tinha sido possível chegar a um acordo, depois de quase dois anos de reuniões de um Grupo de Trabalho, entre Bloco, PS e Governo, com medidas importantes para limitar abusos nos contratos a prazo e no trabalho temporário. Depois, é o que se sabe: à revelia da Esquerda, o Governo acordou com as confederações patronais um conjunto de medidas de sinal contrário para esvaziar e mitigar o que tinha negociado com o Bloco. Acontece que a proposta de lei laboral do Governo ainda não foi votada. Está o PS disponível para, no Parlamento, concertar-se com a Esquerda na especialidade? Está o PS disponível, por exemplo, para anular as normas suscetíveis de serem declaradas inconstitucionais, como o alargamento do período experimental para 180 dias? Para eliminar da proposta o alargamento a todos os sectores de contratos orais sem invocação formal de motivo nem direito a compensação? Ou para garantir que a questão do banco de horas é reenviada para a esfera da negociação coletiva? Está o PS disponível para voltar a negociar à Esquerda, ou vai ser apenas o eco parlamentar das medidas impostas pelos patrões na concertação social?

Outro exemplo: o Serviço Nacional de Saúde. António Arnaut e João Semedo, duas figuras exemplares cuja vida simboliza o compromisso com o SNS público e universal, deram um exemplo de generosidade e de diálogo, propondo em conjunto uma nova Lei de Bases, com o objetivo de salvar o SNS e reverter a sangria de recursos públicos para o negócio privado na saúde. O Governo, que marcou presença na apresentação da proposta, apressou-se a criar uma Comissão presidida por Maria de Belém Roseira para fazer uma outra proposta de Lei de Bases, amiga dos grupos privados (com os quais, de resto, Belém mantém uma relação íntima) , capaz de travar a Lei Arnaut/Semedo. O PS quer mesmo deitar por terra a possibilidade de negociar uma lei à Esquerda, para negociar à Direita uma lei que tenha o apoio de quem descaracterizou o SNS e protege interesses particulares de grupos económicos da área da saúde? É esse o caminho que escolhe?

Os exemplos são muitos. Depois de ter repetido, a propósito de assuntos tão diversos como as carreiras dos professores, as pensões antecipadas, a meta de 1% para a Cultura ou a renovação de equipamento para hospitais que “não há dinheiro”, o Governo descobriu subitamente uma disponibilidade de desembolsar mais 4 mil milhões em despesas militares, para ir de encontro à exigência da NATO e à pressão de Trump de gastar 2% do PIB (do PIB, não é sequer do Orçamento!) em defesa. Num país que dedica à Cultura, por exemplo, 0,1%, ou seja, 20 vezes menos.

Ao longo destes últimos meses, a Esquerda tem estado onde sempre esteve: não cala as suas posições nem abdica das suas propostas sobre cada assunto, mas nunca faltou à maioria para nenhum progresso nem nunca se pôs de lado de nenhum processo negocial. Resta saber se o PS pretende, em cada uma destas matérias, falar com a Esquerda ou faltar à Esquerda.

Sondagem. PS a três pontos da maioria absoluta

(Vítor Matos, in Expresso Diário, 13/07/2018)

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(Depois de ver hoje o debate do Estado da Nação, o resultado desta sondagem é um balde de água fria para o Negrão, a Cristas, o Magalhães, o Telmo, o Adão e companhia, os quais conseguiram pintar, sem se rirem, que o país está pior que no tempo do governo pafioso onde militaram diligentemente para levar os portugueses à indigência. 

O PS está bem onde está e não convém que suba mais para não ter tentações de desvario para a direita, seguindo os cantos da sereia do Assis e do truculento Santos Silva ou do César nos dias pares, já que nos dias ímpares é um “geringoncista” assumido.

Comentário da Estátua, 13/07/2018)


Mesmo com mais contestação nas ruas, com professores em pé de guerra e descontentamento na saúde, o PS consegue subir um ponto percentual nas intenções de voto. A pouco mais de um ano das eleições, António Costa aproxima-se aos poucos da maioria absoluta e recupera da quebra registada no último inquérito Expresso/SIC da Eurosondagem: sobe um ponto percentual para os 42%, quando o PS pode aspirar a governar sozinho se tiver um resultado próximo dos 45% (a meta atingida por Sócrates em 2005), dependendo da distribuição dos votos pelos círculos eleitorais.

Ao mesmo tempo, Costa vê os seus parceiros de esquerda — com quem tem mantido agora um nível mais alto de tensão política — com pequenas perdas de eleitorado. Tendo em conta estes resultados, nem o Bloco (com 7,9%) nem a CDU (com 7,3%) capitalizaram com a dramatização política das últimas semanas. Nem os professores parecem ter reunido as simpatias do resto do eleitorado, nem a crise nas leis laborais levou mais gente a querer dar o seu voto aos partidos de esquerda. Resumindo: os últimos episódios da “crise na geringonça” parecem afetar mais o BE e o PCP do que o PS.

Conclusão: se as eleições fossem hoje, mantinha-se como alta probabilidade a necessidade de ter pelo menos um parceiro para viabilizar um Governo.

Se à esquerda Costa ganha vantagem, o PSD perde pela segunda vez consecutiva. Rui Rio tinha começado bem neste estudo de opinião (com um impulso de 1,5 pontos percentuais em março, logo depois de chegar à liderança), mas desbaratou de forma consecutiva nos últimos quatro meses essa tendência: perdeu 0,7 pontos percentuais este bimestre (e tinha recuado 0,4 no estudo anterior).

O líder social-democrata melhora na popularidade (tem 10,9% de aprovação), mas António Costa também continua a crescer na avaliação dos inquiridos e está a milhas do social-democrata (34,2% de saldo positivo).

Ou seja, Rui Rio não descola nem ganha embalagem para o ano eleitoral que se avizinha e começa a deixar que se cristalize a ideia de que não conseguirá vencer eleições. O próprio líder do PSD, aliás, raramente tem procurado contrariar a ideia de que não vencerá as legislativas.

A quebra do PSD, no entanto, é proporcional à tendência de crescimento do CDS, que subiu meio ponto percentual no conjunto das duas últimas sondagens, para os 7,5%. Assunção Cristas lançou no seu congresso a ideia de que iria competir pela liderança da direita, mas os resultados continuam a ser insuficientes para chegar aos quase 12% das legislativas de 2011. Ainda há muito caminho a fazer, se o calendário eleitoral se mantiver estável.


FICHA TÉCNICA

ESTUDO DE OPINIÃO EFETUADO PELA EUROSONDAGEM S.A. PARA O EXPRESSO E SIC, DE 4 A 11 DE JULHO DE 2018. ENTREVISTAS TELEFÓNICAS, REALIZADAS POR ENTREVISTADORES SELECIONADOS E SUPERVISIONADOS. O UNIVERSO É A POPULAÇÃO COM 18 ANOS OU MAIS, RESIDENTE EM PORTUGAL CONTINENTAL E HABITANDO LARES COM TELEFONE DA REDE FIXA. A AMOSTRA FOI ESTRATIFICADA POR REGIÃO: NORTE (20%) — A.M. DO PORTO (13,7%); CENTRO (29,8% — A.M. DE LISBOA (26,6%) E SUL (9,9%), NUM TOTAL DE 1011 ENTREVISTAS VALIDADAS. FORAM EFETUADAS 1169 TENTATIVAS DE ENTREVISTAS E 158 (13,5%) NÃO ACEITARAM COLABORAR NESTE ESTUDO. A ESCOLHA DO LAR FOI ALEATÓRIA NAS LISTAS TELEFÓNICAS E O ENTREVISTADO, EM CADA AGREGADO FAMILIAR, O ELEMENTO QUE FEZ ANOS HÁ MENOS TEMPO, E DESTA FORMA RESULTOU, EM TERMOS DE SEXO: FEMININO — 51,5%; MASCULINO — 48,5% E, NO QUE CONCERNE À FAIXA ETÁRIA, DOS 18 AOS 30 ANOS — 16,8%; DOS 31 AOS 59 — 52,4%; COM 60 ANOS OU MAIS — 30,8%. O ERRO MÁXIMO DA AMOSTRA É DE 3,08%, PARA UM GRAU DE PROBABILIDADE DE 95%. UM EXEMPLAR DESTE ESTUDO DE OPINIÃO ESTÁ DEPOSITADO NA ENTIDADE REGULADORA PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL.