A TAP: como liquidar uma bela empresa

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/11/2019)

Miguel Sousa Tavares

1 Episódio 1, passado com um familiar meu, no princípio desta semana, no voo TAP Toronto-Lisboa. Duração do voo de sete horas e meia, saída com uma hora de atraso, voo nocturno, com partida local à 1h e chegada a Lisboa às 11h. Constatando que o voo vai cheio, que não há espaço no banco e que há passageiros próximos que provavelmente vão incomodar com ruído toda a noite, o passageiro pergunta ao chefe de cabine se pode usar as milhas de que dispõe, mais dinheiro, se necessário, para obter um upgrade. A resposta deste, em tom altivo, é: “Não, não pode. E, em breve, já não poderá nem no balcão de embarque.” Considerando que se trata de uma empresa que registou 118 milhões de euros de prejuízos em 2018 e que no primeiro semestre de 2019 já vai em 120 milhões, trata-se de uma resposta adequada a toda uma inteligente estratégia empresarial.

Episódio 2, passado com um casal meu amigo, regressando de Cabo Verde pela TAP, na semana passada. Voo de quatro horas (médio curso), saindo às 13h20, com duas horas de atraso, mas atrasado mais duas, já com os passageiros a bordo, por força de um incidente causado por um passageiro, sentado na última fila, que queria mudar de lugar mas a quem a tripulação de cabine não fez a vontade, apesar de haver vários lugares vazios em turística. Preço do voo: 350 euros; refeição servida a bordo, como almoço uma minisanduíche.

Episódio 3, passado comigo no último sábado, em voo da TAP da ilha Terceira, nos Açores, para Lisboa. Voo de duas horas e um quarto, marcado para as 19h40 e a sair com uma hora de atraso, para (com a diferença horária) chegar a Lisboa às 23h45. Preço do bilhete (a sete dias): 277 euros na “zona verde” da classe turística sem direito a bagagem de porão; 295 euros na “zona vermelha”; 306 euros na “zona vermelha” com direito a bagagem de porão; ou 360 euros com isso mais fast track e prioridade na bagagem. Uma nota importante: as zonas verdes e vermelhas não distinguem só a refeição a bordo e o tipo de bagagem que se pode levar: também, e mais importante, na zona verde, o espaço para as pernas é ínfimo e os bancos não reclinam. Também não há ecrãs nem som nem auscultadores para ouvir música: qualquer autocarro da Rodoviária tem mais condições de viagem. Sem fazer a mais pequena ideia desta nova luta de classes instalada a bordo da classe turística da TAP, fui parar, por sorte minha, aos lugares da saída de emergência, onde ao menos tinha lugar para as pernas. Mas eis que chega uma hospedeira e me estende um pacote de batatas fritas tipo Pala-Pala. Julguei que fosse uma espécie de aperitivo para acompanhar um espumante, um copo de vinho branco ou coisa assim. Não: era o jantar. A seguir a isto, disse-lhe que só faltava que viessem com um cesto de amendoins e no-los atirassem, como se fôssemos macacos. Ao meu lado, uma passageira perguntou como podia reclamar. Pois, esclareceu a assistente de bordo, não há livro de reclamações nem nada de parecido, sequer online. “Tente o Facebook”, sugeriu.

Caros passageiros eventuais da TAP: para o caso de ainda não saberem, informo-vos que a TAP se transformou estrategicamente numa low cost — e a pior que eu conheço — mas com preços de companhia de linha — e os mais caros entre todas. Alguém, entre aqueles cérebros pagos a peso de ouro para apresentarem prejuízos que nós, contribuintes, teremos de pagar (visto que o Estado ainda é o acionista maioritário da TAP, com 50%), dedica-se afanosamente todos os dias a pensar que mais há-de inventar não para melhorar mas para piorar o serviço para os passageiros da companhia. Se alguém sugere dar só 40 centímetros de espaço para as pernas, eles respondem: “40 não, 30.” Se alguém sugere retirar os ecrãs, eles respondem: “Só os ecrãs não, o som também.” Se alguém sugere pagar mais pela segunda mala, eles respondem: “Pela segunda não, pela primeira.” Se alguém sugere reduzir o jantar a uma sanduíche, eles respondem: “Uma sanduíche não, um pacote de Pala-Pala e um copo de água.” Se alguém nota que os voos se estão a atrasar em média uma hora, eles respondem: “Até três não faz mal, ninguém reclama.”

Bem-vindos a bordo da TAP, outrora a companhia de bandeira que era o orgulho de Portugal.

2 Tenho toda a legitimidade para escrever isto. Em tempos, e não agora, fiz parte de um movimento de cidadãos que se opôs à privatização da TAP. Porque o histórico das privatizações de empresas públicas actuando em regime de monopólio de prestação de serviços públicos essenciais já deixava antecipar com segurança o que se iria passar: os preços iriam subir, os consumidores iriam ser mais mal servidos e, se as coisas corressem mal, os contribuintes seriam chamados a pagar a conta da aventura privada. Na altura, assisti a um blitz de argumentos a favor da privatização: que era a única hipótese de salvação da companhia, que a Europa não permitia mais ajudas do Estado (tese desmentida pela British Airways, pela Swissair, pela Iberia, pela Alitalia e por tantas outras). Mas, no prato da balança, nunca se colocou o essencial: a TAP era o mais eficaz instrumento de política externa do país; era uma empresa de referência em termos de qualidade, muito acima do país; e era o maior elo de ligação, até comovente, entre Portugal e as suas numerosas comunidades emigrantes espalhadas pelas rotas da TAP. Tudo isso foi sumariamente sacrificado e deitado fora — nalguns espíritos, por simples estupidez; noutros, por mal disfarçada cupidez.

Porque a memória dos homens é curta, registo os nomes dos liquidatários daquela que foi uma das raras empresas públicas de referência deste país: Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro; António Pires de Lima, ministro da Economia; Sérgio Monteiro, secretário de Estado dos Transportes; Miguel Relvas, artífice de toda a trama; e Luís Silva Ribeiro, presidente da Autoridade Nacional da Aviação Civil.

Lembrem-se dos nomes deles todos os que, como eu, dantes sentiam orgulho quando entravam a bordo de um avião da TAP em qualquer lugar do mundo e hoje sentem vergonha ao verem-se tratados como gado.

3 Sim, eu tive uma longa e bonita história de amor com a TAP. A TAP deu-me muito — sobretudo, a sua gente e a sua cultura de empresa, agora deitada ao lixo. E eu dei de volta tudo o que podia à TAP. Viajei mais de 50 vezes ao Brasil com a TAP, cheguei a mudar dias de viagem em vários destinos só para ir com a TAP, nunca usei outro cartão de crédito que não o da TAP mesmo sabendo que as milhas eram um embuste, defendi sempre a empresa e os seus profissionais, senti-me sempre a bordo como se estivesse em casa — o que suponho que seja o maior elogio que um passageiro possa fazer a uma companhia aérea. Mas agora tudo isso acabou. Um pacote de batatas fritas como jantar é de mais. Antes que cheguem aos amendoins atirados para as filas verdes e vermelhas, é altura de dizer adeus. Podia ter sido diferente, podiam ter apostado no contrário, na melhoria do serviço para se distinguirem dos outros, na imagem de marca e na cultura de empresa longamente cimentada que era a sua. Mas eles é que sabem: escolheram ser a pior das low cost com preços de companhia do Médio Oriente. Pois, boa sorte. Take Another Plain.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia




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TAP boa, TAP má

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 20/03/2019)

Capitão Ferreira

Parece quase certo que a TAP se prepara para declarar que o ano de 2019 correu tão mal quanto poderia ter corrido: prejuízos muito acima dos 100 milhões de euros. Públicos ou privados? Mais públicos que privados.

O Estado não manda na TAP, mas é o maior acionista. Como o Tribunal de Contas em tempos veio dizer, e já o temíamos: o Estado recuperou algum controlo estratégico, mas perdeu direitos económicos, além de assumir maiores responsabilidades na capitalização e no financiamento da empresa.

É a terceira vez que aqui escrevo isto, mas tenham lá paciência, isto tem de ser entendido: “uma empresa não pode andar ao sabor das conveniências políticas, ora sendo tratada como uma empresa privada ora como empresa pública. Um e outro modelo de gestão têm vantagens e inconvenientes. Este não modelo de gestão tem os inconvenientes de ambos e, ao que parece, nenhuma das vantagens.

A TAP é demasiado importante para viver nesta ambivalência. O Governo que se decida, ou a empresa é pública ou não é. Mas de uma vez por todas. Escolham lá um modelo de governação. Este não serve a empresa. Não serve o País. Não serve os clientes. E não serve os trabalhadores. Serve, e mal, para o combate político sectário”.

Nada foi feito e a soma de uma péssima privatização – onde, descansem, também respondíamos por mais de 600 milhões de dívida da TAP – com uma má renacionalização parcial – onde o Estado tem uma influência limitada mas responde pelos montantes necessários para recapitalizar a TAP sempre que os capitais próprios atinjam valores inferiores a 571,3 milhões de euros negativos – é sinal de permanentes má notícias.

Ou há lucros e o Estado passa de ter 50% para receber apenas 5% dos mesmos, ou há prejuízos e de repente é como se a empresa fosse pública. Isto é um pesadelo para o contribuinte. E o Governo deve-nos uma explicação.

E sim, este é o mesmo Governo que aprovou esta semana a medida mais importante e consequente dos últimos anos: com a revisão dos passes em 2 grandes áreas metropolitanas (Lisboa e Porto) e 11 Comunidades Intermunicipais espalhadas pelo País, de uma penada: revoluciona-se a mobilidade urbana, repõem-se rendimentos nas mãos de quem mais deles precisa e ainda se contribui para a sustentabilidade ambiental do País. É obra, e nenhuma quantidade de comentários indigentes sobre quem paga o quê a quem no País (que servem só para dividir e reinar) oculta isto: para muito mais de meio milhão de pessoas a vida mudou, e mudou para melhor.

E, afinal, a medida não é assim tão cara. Custa mais coisa menos coisa um ano de prejuízo da gestão privada da TAP, ou menos de um quarto dos “sucessos” do Novo Banco em 2018. Posto assim, talvez se perceba melhor.


Pobre TAP, pobre contribuinte

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 20/06/2018)

capitaoferreira

Aqui há uns tempos escrevi por aqui sobre a TAP, e concluí: “uma empresa não pode andar ao sabor das conveniências políticas, ora sendo tratada como uma empresa privada ora como empresa pública. Um e outro modelo de gestão têm vantagens e inconvenientes. Este não modelo de gestão tem os inconvenientes de ambos e, ao que parece, nenhuma das vantagens. A TAP é demasiado importante para viver nesta ambivalência. O Governo que se decida, ou a empresa é pública ou não é. Mas de uma vez por todas. Escolham lá um modelo de governação. Este não serve a empresa. Não serve o País. Não serve os clientes. E não serve os trabalhadores. Serve, e mal, para o combate político sectário”.

Nem de propósito, o Tribunal de Contas vem agora dizer o que já temíamos: o Estado recuperou algum controlo estratégico, mas perdeu direitos económicos, além de assumir maiores responsabilidades na capitalização e no financiamento da empresa.

Um clássico português: mandamos pouco ou nada enquanto a empresa tiver pernas para andar, mas pagamos os custos das decisões tomadas assim que ela entrar em dificuldades. Os dados são claros, e o Tribunal de Contas, a pedido da Assembleia da República, faz aqui um trabalho meritório: descodifica a dimensão da tragédia.

Desde logo a tragédia da privatização apressada, que não garantiu os interesses do Estado e, depois, a renacionalização parcial da empresa, que partindo, é certo, daquela base pouco sólida, mostrou também ela fragilidades procedimentais. A ausência de uma política coerente e prudente, com sucessivas alterações contratuais agravou as responsabilidades do Estado e aumentou a sua exposição às contingências adversas da empresa.

Se na privatização o Estado ficou a garantir mais de 600 milhões de dívida da TAP – facto que se esqueceram de nos comunicar na altura – sem ter qualquer intervenção na gestão da empresa, agora temos uma influência limitada mas respondemos pelos montantes necessários para recapitalizar a TAP sempre que os capitais próprios atinjam valores inferiores a 571,3 milhões de euros negativos. Isso é quando e quanto? Não sabemos.

O Estado tem 50% do capital da empresa, mas apenas 5% dos direitos económicos. Os privados têm 45% do capital, mas 90% dos direitos económicos. Traduzindo: se a empresa der dinheiro ele é do privado. Se der elevados prejuízos, é nosso. Já sabemos quem saiu a ganhar, e para variar não foi o contribuinte.

Um gestor privado que comprasse metade do capital de uma empresa para ficar com 5% dos eventuais lucros e responsabilidade ilimitada por prejuízos acima de um determinado montante era despedido em 5 minutos ou menos.

E, claro, não podiam faltar – como nunca faltam nestas festas – os consultores privados. Só na privatização, podem encontrar isso em letras pequeninas na página 13 do Relatório do Tribunal de Contas, o Estado gastou meio milhão de euros em assessoria jurídica e um milhão e meio em assessoria financeira. Nenhuma das quais, note-se, responde minimamente pelo lindo resultado que ajudaram a construir. O costume, portanto.

Então e agora? Agora, aposto já aqui, nada.


Fonte aqui