Foram-se as asas

(Miguel Szymanski in Facebook, 15/10/2026, Revisão da Estátua)


A Alemanha fica, para já, com a TAP.

Há 15 anos Berlim quis a EDP, mas a elétrica foi para a China, que ficou também a controlar a Fidelidade e o BCP – BCP esse que tinha ficado com o BPA. Os outros bancos passaram para mãos espanholas, enquanto o Novo Banco foi para os EUA, acabando em França, tal como a velha Portugal Telecom (agora nas mãos dum empresário franco-israelita-marroquino).

É olhar para Portugal e ver como esta estratégia foi avançando com uma liga de políticos privatizadores desde Cavaco Silva, passando por Durão Barroso (começou na Comissão Europeia e acabou num banco dos EUA) até Maria Luís Albuquerque (passou por um fundo de investimento dos EUA e acabou na Comissão Europeia), incluindo ainda dezenas de outros ministros, de todos os partidos do arco da governação, que, após prestados os serviços, foram para cargos de topo das empresas anteriormente públicas, vendidas ao desbarato, pelo mundo fora, de Angola à Alemanha.

A soberania financeira foi para Frankfurt, a estratégia política/militar para Bruxelas, Comissão Europeia/NATO, as casas e palacetes, o centro de Lisboa, para os ‘vistos gold’ e para fundos imobiliários.

A seguir virão atrás das terras e minérios que ainda sobram. Finalmente, tentarão privatizar as praias e a água.

Isto não é ser de esquerda, de direita ou do centro. É ser contra um país em saldo que há um quarto de século teve de sacrificar a sua indústria têxtil para a Alemanha poder vender mais carros à China.

Não têm sido bem, ‘vendas’ ou ‘privatizações’. Tem sido um misto de burla, assalto e mutilação. Levaram-nos a camisa, venderam-nos os anéis, paralisaram-nos as mãos e as pernas. Agora levam-nos as asas.

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As coisas importantes

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 12/05/2023)

Miguel Sousa Tavares

Vamos explicar outra vez: não há água. E outra vez ainda: não há água. Portugal está sob ameaça iminente de ter de começar a racionar a água, já não só para a agricultura, mas para o próprio consumo humano. O mais de um milhão de turistas que todos os Verões triplicam a população residente do Algarve vão correr o risco, este ano, de, após servidos os 60 campos de golfe, os laranjais e olivais intensivos, as estufas de frutos vermelhos para os pequenos-almoços dos alemães e as cada vez maiores plantações de abacate (esse fruto exótico que precisa muito de humidade e que a Europa não dispensa), abrirem as torneiras e não verem água a correr. Talvez aí, finalmente, percebam do que estamos a falar. Entretanto não se preocupem, essa iluminada que ocupa o cargo de ministra da Agricultura já terá visto atingido o ponto de seca necessário para activar os mecanismos europeus que, não lhe inventando água, lhe darão dinheiro com o qual ela julga, pobre criatura, resolver, como de costume, os problemas estruturais da agricultura portuguesa. É isto que António Costa não entende, é isto de que Marcelo não se ocupa.

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E enquanto ambos e todos os partidos, os comentadores e o “país político” esperam o depoi­mento do adjunto Pinheiro na CPI da TAP como quem espera a revelação das Tábuas de Moisés, alguma gente tem passado por lá e dito algumas coisas curiosas, que mereciam aprofundamento, mas que, como não criavam o escândalo mediático oportuno e adequado, não colheram atenções: um representante dos sindicatos ousou dizer que, afinal, David Neeleman tinha “uma visão estratégica para a TAP” (a qual a comissão não viu interesse em aprofundar), e Diogo Lacerda Machado, diminuído por ser o “amigo de António Costa”, ousou dizer que a troca dos A-350 pelos A-320 Meo fez todo o sentido e que o “ruinoso negócio da VEM Brasil”, negociado por Fernando Pinto, foi o que permitiu à TAP conquistar a sua posição até hoje dominante no mercado do Brasil, com um lucro avaliado em 10 mil milhões de euros. Coisas que mereciam ter sido melhor esclarecidas até em termos de futuro da empresa. Mas parece que é mais importante e mediático passar 10 dias a discutir se um “parecer” existe ou não existe, se é um relatório ou um “parecer” e a esperar ansiosamente que as notas de uma reunião do adjunto Pinheiro (que até podem ser agora acrescentadas livremente, por irresistível vingança) deem a uma eunuca oposição a oportunidade de se fingir útil e vigilante.

Quando não se têm políticas alternativas sobre a substância daquilo que verdadeiramente interessa — no caso, o futuro da TAP —, gasta-se o tempo e as atenções a fazer “oposição” de opereta. A um Governo inerte responde uma oposição de fachada, disposta a substabelecer as suas funções no Presidente. O qual, porém, e para desgraça nossa, também adora este jogo de aparências.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Veja-se o caso do aeroporto de Lisboa, talvez a mais cara e mais estruturante obra que o país tem pela frente. À esquerda do PS não se conhece qualquer ideia sobre o assunto; à direita, não é coisa que ocupe o Chega ou a IL. Resta o PSD, que começou por defender a Portela+Montijo e depois passou a defender Alcochete, para acabar a defender mais uma comissão e mais um ano de espera para estudar um assunto já estudado intensamente há 20 anos. E na véspera da entrada em funcionamento da comissão, depois de uns senhores irem falar com Montenegro, este impôs que se estudasse também a hipótese Santarém — talvez porque fica mais perto de Espinho. Ora, Santarém, como a Ota e outras ideias malucas, é um completo disparate, que só sobrevive por um intenso blitz mediático alicerçado em mistificações. Santarém ficaria a mais de 90 km de Lisboa, quando, como o Expresso aqui contou na semana passada, a distância média dos aeroportos europeus às cidades que servem é de 21 km. Dizem eles para contrariar o argumento que haveria um shuttle que reduziria o tempo até Lisboa para 40 minutos por comboio. Mas não explicam por onde e a que custo se faria a linha do shuttle e quantos seriam precisos para que os passageiros desembarcados de um avião tivessem logo um comboio à espera para os levar à Gare do Oriente, de onde apanhariam um táxi para o centro da cidade: avião após avião. Também dizem que o aeroporto em Santarém não custaria um euro aos contribuintes, porque seria financiado por privados, que já teriam garantido mil milhões para o efeito. Tudo dá vontade de rir, a começar pelos privados que nunca apareceram e pelos mil milhões que não chegariam nem para as terraplanagens de uma só pista.

Mas, mais do que tudo, o que é assustador é que o país se prepare para embarcar nisto, confiando a decisão a uma comissão técnica de “sábios”, sem que antes o poder político — Governo, oposição, Presidente —, tão ocupados com outros assuntos mais importantes, faça a necessária discussão política: para que queremos um novo aeroporto em Lisboa? Dizem-nos que, uma vez ultrapassados os 20 milhões de passageiros/ano na Portela, Lisboa precisa de um aeroporto que possa receber 50, 80 ou até 100 milhões/ano. Quem o diz e quem tem conduzido o processo e pressionado a decisão são os empresários de hotelaria e turismo, que se queixam de estar a perder milhões pela impossibilidade de verem mais aviões a aterrar na Portela. Mas é o turismo que deve decidir o objectivo primeiro do futuro aeroporto de Lisboa e o futuro da própria cidade? Lisboa quer e aguenta 50 milhões de turistas? O desejo premente dos lisboetas, que já sofrem quanto baste com o excesso de turismo, é verem a sua cidade transformada numa imensa Albufeira à margem do Tejo, para satisfazer a ambição das dezenas de novos hotéis planeados?

E, já agora, o futuro e a salvação de Portugal vai continuar a ser a aposta no turismo de massas, em Lisboa, no Algarve, na costa alentejana, e por aí acima? Com os empresários do turismo algarvio a reclamarem a simplificação urgente da imigração de trabalhadores dos PALOP e da Ásia, pois que têm 50 mil postos de trabalho por preencher e que, pagando o ordenado mínimo e instalando os trabalhadores onde nenhum turista quereria passar uma noite, só mesmo os pobres entre os pobres aceitam servir. E, pior: continuando a construir desenfreadamente, onde já não resta um metro livre nas praias, se espera 20 minutos para entrar de barco numa gruta, não há sítio para estacionar o carro em lugar algum, se demora três vezes mais tempo num supermercado do que em Lisboa ou Porto e em breve não haverá água nas torneiras, porque ela estará a regar os golfes e os campos de abacateiros e laranjais intensivos. Há 30 anos que sustento em vão esta discussão, mas como a estupidez, longe de cessar, é verdadeiramente infinita, como dizia Einstein, só resta repetir as mesmas perguntas: é este o turismo que queremos e de que precisamos, é esta a nossa aposta no futuro económico do país — crescer até rebentar? Nem ao menos aprendemos nada com a pandemia?

O mesmo com a agricultura. Quando oiço um empresário agrícola (não confundir com agricultor) reclamar água para os seus regadios intensivos instalados em terras onde já sabia que não havia água, dá-me vontade de o exportar daqui para fora, juntamente com a sua “agricultura”. Mas tenho, inversamente, uma profunda admiração por alguns pequenos agricultores, que, nas zonas mais secas do Alentejo, fazem uma agricultura com zero de desperdício e com inovações no uso e poupança de água, fruto do estudo do que se fazia antes combinado com a tecnologia de hoje. A prazo, só temos uma saída, que é o oposto do que estamos a assistir: não é reclamar água para a agricultura que se quer fazer, é fazer a agricultura que se pode fazer com a água que se tem. Mas para tal era preciso, mais uma vez, que o poder político se interessasse pelo assunto e tivesse a coragem de tomar as decisões necessárias.

O Presidente da República é o responsável principal pela defesa da soberania nacional. O conceito é abstrato e talvez demasiado vago. Mas não tenho dúvidas disto: em lugar de andar a gastar a palavra todos os dias, a meter-se nos assuntos do Governo, a ameaçar com o uso dos seus poderes ou a distribuir Ordens da Liberdade por quem nada fez pela liberdade, podia, com mais proveito comum, encabeçar a defesa da terra, da agricultura, da água, da paisagem e do futuro do país, que depende de tudo isto. E isto é a soberania nacional.

2 Uma das coisas que mais me espanta neste país nem são aqueles que têm, ou fingem ter, falta de memória: são aqueles que descaradamente apostam na falta de memória dos outros. Na semana passada, aqui na sua coluna, e como quem não quer a coisa, Francisco Louçã referiu-se ao “golpe de 2021, que provocou eleições para a maioria absoluta” e que, segundo ele, foi promovido por António Costa, ajudado por Marcelo. É preciso ter lata! O “golpe de 2021”, para quem ainda se lembra, foi a aliança entre o BE (certamente incentivado por Louçã), o PCP e a direita para chumbarem um banal Orçamento e paralisarem o país durante cinco meses, interrompendo um processo de recuperação económica no pós-covid. O desfecho foi a redução do BE a um terço da sua força parlamentar, o reforço substancial do Chega, o desaparecimento do CDS e a maioria absoluta do PS. Que Louçã não tenha aprendido a lição de 2008, quando fez a mesma coisa com o PEC IV, juntando-se à direita para derrubar um Governo do PS e trazer a troika e o Governo Passos Coelho/Portas, é com ele. Mas que tente passar a responsabilidade para cima de quem quis assim atingir, contando com o esquecimento colectivo para reescrever a história, é verdadeiramente assombroso.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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A importância do adjunto Pinheiro para os destinos da nação

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 05/05/2023)

Miguel Sousa Tavares

Podia ao menos chamar-se Carvalho ou Faia, essas árvores majestosas do Norte; ou Sobreiro ou Azinheira, as do Alentejo, que não ardem; ou Oliveira, que resiste a tudo e vive eternamente; ou Alfarrobeira ou Figueira, árvores do Algarve, que dão sombra e frutos e não roubam água, como os queridos abacateiros da ministra da Agricultura. Mas, não, o homem chama-se Pinheiro e, seguramente, da espécie pinheiro-bravo, que não dá sombra nem pinhas mas serve para incendiar a terra, furtar o computador de serviço, espancar as colegas e atirar a bicicleta contra as janelas do Ministério. O ajunto Pinheiro conseguiu a proeza de preencher o vazio dos noticiários num longo fim-de-semana de praia, desassossegar as miniférias do primeiro-ministro na Toscana, deixar a oposição a babar-se de excitação com mais um episódio determinante para o futuro da TAP e pôr o Presidente, que disserta nas feiras sobre a dissolução do Parlamento e do Governo, a declarar que desta vez “o tema é tão particularmente sensível que não pode ser tratado na praça pública”. E, ao longo de toda uma terça-feira que parecia condenada à monotonia habitual — isto é, a seguir à CPI à TAP —, o adjunto Pinheiro tornou-se a figura central da nação, congregando em si mesmo todo o regular funcionamento das instituições democráticas, levando tudo atrás de si, qual onda canhão da Nazaré: o ministro, o SIS, a sobrevivência do Governo, a relação do PM com o PR e até as boas notícias da economia — que, como explicou o Presidente, não têm nada a ver com a boa governação. Assim como nada disto, obviamente, tem a ver com a TAP. Porque tudo isto, não sei se se lembram, acontece a propósito da TAP.

Mas, deixando de lado o humor e o avassalador ridículo do assunto, eu vou contrariar aquilo que o PM classificou, e acertadamente, como a unanimidade dos comentadores e 99% dos portugueses: eu gostei de ouvir as explicações de António Costa para recusar a demissão de João Galamba. E, partindo do princípio de que elas são verdadeiras e sérias, não vejo que, como ele sustentou, a pressão mediática ou popular se devesse sobrepor à sua consciência pessoal. Acho, aliás, eloquente do clima que se vive que, depois de ele as ter apresentado, ninguém se tenha detido a analisar, contrariar, confrontar com outros factos as suas razões, preferindo reduzir tudo a uma guerra de palácios ou a uma jogada táctica de prazos e oportunidades eleitorais. Claro que não o acompanho nos elogios à competência profissional e política do ministro Galamba, que, com muitos outros que fazem parte do Governo, vejo apenas como o refugo do PS. Pensar que, depois de Pedro Nuno Santos e Hugo Mendes, o futuro da TAP, da CP e do novo aeroporto de Lisboa está confiado a João Galamba, claro, deixa-me derrotado. Mas é o que temos, é o que somos, é, seguramente, o que merecemos!

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Os “politólogos”, que sabem destas coisas, encarregar-se-ão de explicar nas suas horas vagas o mistério do absoluto desastre que tem sido o segundo Governo de Costa, um ano e meio desperdiçado em coisa alguma, com uma absoluta alergia a mudar o que quer que seja, sentados sobre uma montanha de impostos saqueados ao país que ainda trabalha e produz e apostados em fazer do Chega o seu principal cabeça de cartaz. Mas não precisaremos dos “politólogos” nem do Marques Mendes (que a tal não se atreveria) para explicar igualmente o que tem sido o previsível patético segundo mandato presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. No primeiro tirou partido da sua popularidade mediática para subjugar o populismo da rua, o que foi inteligente e louvável. E, para glória própria, correu a fazer-se receber pelos grandes do planeta Terra, ainda que pouco recomendáveis, mas enquanto estivessem vivos e em funções: a Rainha de Inglaterra, o Rei de Espanha, o Trump, o Bolsonaro, o Presidente de Angola e todos os dos “palopes”, o Xi Jinping… you name it. Foi a todo o lado, desde a Padaria Portuguesa até à Ovibeja. Discursou, disse coisas bonitas aqui e ali, citou poe­tas, namorou os “agentes culturais”, abraçou sem fim as forças vivas do Minho às Selvagens, invadiu os balneários da Selecção Nacional, condecorou sem descanso e fez-se reeleger sem espinhas — para um segundo mandato onde, então, vem demonstrando não conseguir apagar a sua anterior e eterna pele: a de conspirador.

Contra os factos arrolados por Costa para não demitir o ministro, Marcelo veio contrapor a “percepção pública” — um Presidente e professor de Direito a defender a justiça popular contra a justiça fundada em factos?

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Marcelo, que não conseguiu consumar a sua ambição de governar Portugal, tem uma profunda dor de cotovelo em relação a António Costa, pela maneira subtil como ele chegou lá, como pôs a extrema-esquerda ao seu serviço e depois a dispensou, como alcançou uma impensável maioria absoluta, como geriu a crise bancária e a covid, como reduziu à impotência três presidentes do PSD… E, mesmo agora, que tanto lhe apetece dissolver a Assembleia e despachar Costa, Marcelo tem pela frente um chefe de Governo que apresenta este ano a maior redução do défice público, a maior queda da inflação e o maior crescimento económico entre os 27 da União Europeia.

Apesar dos infatigáveis disparates e das deploráveis cenas do pessoal político do Governo de Costa, apesar da total falta de vocação do PM para ousar navegar em mares nunca antes navegados, a nau de Costa mantém-se a navegar, enquanto com Marcelo ao leme naufragaria rapidamente, minada por intrigas, revoltas na coberta e no porão e humores instáveis do capitão. Se fizesse parte deste Governo, Marcelo Rebelo de Sousa, versão segundo mandato, estaria ao nível dos seus piores ministros e dos seus melhores troublemakers.

Admite-se que o Presidente da República, ainda antes de o PM acabar de falar, publique uma nota a dizer que discorda do que ele está a dizer? Encenada ou não a cena da demissão de Galamba, António Costa apresentou razões fundadas para a recusar. E, contra os factos arrolados por Costa para não demitir o ministro, Marcelo veio contrapor a “percepção pública” — um Presidente e professor de Direito a defender a justiça popular contra a justiça fundada em factos? E, agora, o que fará Marcelo, quando confunde os seus desejos e a sua incontinência com os nossos desejos e a nossa vontade? Se ele, obviamente turvado na sua lucidez e nos seus deveres constitucionais, caminhar para a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições, e se António Costa voltar a ganhar, com maioria absoluta ou simples, só resta a Marcelo uma saída digna: demitir-se no dia seguinte às eleições e dar entrada num mosteiro.

2 Anteontem fui ao enterro do meu compadre José Afonso Muchacho, em Lagos. Conhecemo-nos tinha eu 11 anos e ele 25, na tão fotografada praia D. Ana, a praia da minha infância, que virou cartaz turístico do Algarve e chegou a ser considerada a mais bonita do mundo pela “Condé Nast Traveler”, antes de a sua sobrelotação ter inspirado as inteligências locais a uma operação de alargamento com injecção de areia que para sempre a desvirtuou e prostituiu. Mas, antes disso, quando tudo aquilo era um paraíso, o Zé Afonso vinha buscar-me à praia ao final das tardes e embarcávamos na sua chata à vela de três metros para passarmos a noite inteira à pesca à lula ao largo da Ponta da Piedade, onde hoje a Sonae constrói duas torres de nove andares e a Câmara Municipal promete “sustentabilidade”. Então, porém, éramos apenas um jovem adulto e um miúdo, sozinhos no mar e num céu de estrelas, a partilhar um escabeche de peixe, repetindo o monótono gesto de recolher a toneira com a lula a bordo, enquanto eu escutava fascinado as histórias das suas campanhas ao bacalhau nos bancos da Terra Nova e, por vezes, adormecia sentado no banco, de cansaço ou embriagado pelo cheiro do petromax, de que até hoje guardo uma infinita saudade. Ele fez-me padrinho de baptismo da sua filha e, por isso, e para sempre, tratou-me e tratámo-nos por compadre — essa palavra tão bonita e tantas vezes mal empregue.

Agora, que passou um ano que, após longa e ponderada meditação, resolvi trazer os meus livros, os meus quadros, as minhas memórias e os meus olhos para o Algarve, agora que vejo Portugal inteiro nas minhas costas e todo o mar em frente, eu escolheria como comadre, se ela me desse esse privilégio, a Noélia. Porque ela me dá o mesmo que o meu compadre Zé Afonso me deu: descoberta, generosidade, partilha. Outros conhecem-na pela fantástica cozinheira (ou chef, se preferirem) que ela é; eu conheço-a por mais do que isso, pelo sorriso quando olha para mim e me vê sair dali, em Dezembro, Fevereiro ou Março, deliciado e feliz com uma coisa tão aparentemente simples e todavia tão sumptuosa como um grande jantar. Sério, inspirado, genuíno. E sonho que um dia hei-de morrer assim, depois de jantar na Noélia e a seguir me sentar à noite no terraço de casa, vendo as estrelas sobre o mar, onde, era eu miú­do e a Terra Nova estava tão longe, adormecia a pescar lulas na “Senhora do Mar”, do meu compadre Zé Afonso.

Nota: Este artigo foi escrito antes da comunicação ao país do Presidente da República.

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