Portugal quase no top ten da ciência europeia

(Carlos Fiolhais, in Público, 05/04/2017)

fiolhais

Este artigo e esta temática são uma bofetada sem luva no paspalho do Dijsselbloem. Andamos nos copos, como ele diz, e ainda conseguimos estar à frente da Alemanha e da França no ranking da ciência, a nível europeu. É obra. É o lado positivo da notícia. Só resta perguntar em que lugar estaríamos se entre 2011 e 2015 o governo de Passos não tivesse empreendido uma política de destruição da ciência nacional, como provam as estatísticas, sobretudo impulsionando os mais jovens e promissores cientistas a emigrar. Qualquer que seja o dossier que analisemos, constata-se que a governação pafiosa foi o maior desastre que aconteceu ao país, atrevo-me a dizer, desde os tempos de D. Afonso Henriques. Nem o terramoto de 1755 foi tão pernicioso.

Estátua de Sal, 05/04/2017


 

A notícia dada recentemente pelo PÚBLICO de que Portugal estava no 11.º lugar no ranking europeu dos países com maior número de publicações científicas por habitante só nos pode orgulhar a todos. Em duas décadas deixámos de ser um país na cauda da Europa e, colocados entre a Inglaterra e a Alemanha, chegámos perto do grupo da frente. Ultrapassámos não só a Alemanha, mas também a Espanha, a Itália e a França. Tal deveu-se não apenas ao esforço dos cientistas mas, acima de tudo, a uma política que visava sair da posição lastimável em que nos encontrávamos. O seu principal protagonista foi José Mariano Gago, que infelizmente já não está entre nós para verificar mais este seu sucesso. Ele mobilizou governo e sociedade para que uma geração de jovens pudesse mostrar os seus talentos numa área que é hoje decisiva para o progresso das nações.

Uma questão interessante é saber se a política adoptada por Passos Coelho de contenção da ciência, entre 2011 e 2015, teve um impacto negativo no crescimento da produção científica que se estava a verificar desde há algum tempo, isto é, se a subida não podia ter sido ainda maior. A resposta é clara: o crescimento abrandou mesmo, pois caiu de 69%, no período entre 2005 a 2010, para 50%, no período entre 2010 e 2015. Olhando para os números, contabilizamos, disciplina a disciplina, os estragos que o anterior governo fez à ciência. A Física baixou de 1448 artigos em 2012 para 1371 em 2015. A Química desceu de 1372 artigos em 2013 para 1331 em 2015. E a Matemática desceu de 666 artigos em 2011 para 651 em 2015. Também as Ciências Biológicas, as Engenharias Civil e Química e as Nanotecnologias conheceram retrocessos. Nas Ciências Sociais e Humanidades (embora não estejam bem representadas na base de dados usada), o panorama é semelhante: a Economia e Gestão, as Ciências da Educação, a Sociologia, a História e as Artes minguaram.

Todos estão lembrados da “avaliação”, encomendada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) para “podar” metade dos centros nacionais. Essa manobra, feita em muitos casos por não especialistas, penalizou alguns dos centros mais produtivos do país. Felizmente que o ministro Manuel Heitor, co-autor do Livro Negro da Avaliação da Ciência em Portugal, interrompeu o despautério. Hoje há consenso de que o caminho é para a frente e não para trás. Por isso, qual não foi o meu espanto ao ler no Expresso de 1/4/2017 (não, não era mentira!), na mesma altura em que eram divulgadas as referidas estatísticas, um artigo de António Coutinho, ex-“dono disto tudo” da ciência em Portugal e curador da Fundação Champalimaud, a criticar aquilo a que chama o “novo rumo” da ciência. Preto no branco, ele quer voltar à sua ideia de “poda”, concretizada pela deriva ideológica, para não dizer mesmo politiquice sectária, do governo anterior. Crato nunca embarcou no barco da ciência e Coutinho achava que a navegação seria melhor se mandasse borda fora metade dos cientistas, escolhidos um pouco ao acaso. Os resultados estão hoje à vista e só poderão ser negados por alguém, como Trump, que queira trocar os factos por factos alternativos. A anterior gestão da FCT, que nunca foi alvo de uma auditoria, não almejava a excelência mas sim zelar pelos interesses particulares de alguns.

Não quer isto dizer que a ciência esteja perfeita entre nós, muito longe disso. Está simplesmente melhor do que quando Coutinho a deixou. Agora respira-se. Mas o ministro tem pouco dinheiro no orçamento e deixa escapar frases infelizes (como a última, quando disse que os investigadores deviam ser mais reivindicativos e ele ia reivindicar com eles). Manuel Heitor endossa, por exemplo, para as escolas superiores responsabilidades que são principalmente suas de renovação dos quadros de professores e investigadores, uma renovação que urge para dar lugar à nova geração. Como mostra a rede GPS (gps.pt), há uma multidão de cientistas portugueses que tiveram de emigrar e ainda não vêem hipóteses de regressar ao seu país. Por que não são atraídos? Se queremos aspirar a um lugar na primeira linha da Europa, a nossa ambição mede-se pelas oportunidades que soubermos criar em Portugal para manter e atrair talento.


Professor universitário (tcarlos@uc.pt)

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4 pensamentos sobre “Portugal quase no top ten da ciência europeia

  1. “O seu principal protagonista foi José Mariano Gago, que infelizmente já não está entreão nós para verificar mais este seu sucesso. Ele mobilizou governo e sociedade para que uma geração de jovens pudesse mostrar os seus talentos numa área que é hoje decisiva para o progresso das nações.”

    O Mariano Gago “mobilizou o governo” de Sócrates e o MP não desconfia de nada e não se lança no rasto de tal despesismo à cata da inevitável ligação corrupta de Sócrates?
    Então uma coisa que aconteceu sempre, a corrupção de Sócrates em tudo que mexeu, não se transforma em lei dita por indução?
    Porque espera o MP para investigar as ligações entre Gago e Sócrates para descobrir as vias de corrupção e onde pára a massa que o Salgado pagou aos dois para vir a ter, posteriormente, quadros altamente qualificados no BES afim de continuar e manter a posição de DDT do país.
    Dias Loureiro e Oliveira e Costa? Arquive-se que o MP não pode desperdiçar trabalho e quadros qualificados em casos menores.

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