Quando os poderosos controlam a opinião pública, as eleições não são reais

(Caitlin Johnstone, 12/06/2024, Trad. Estátua de Sal)

Tenho ignorado a corrida presidencial dos EUA porque as eleições são manipuladas.

Quando alguém diz que as eleições presidenciais dos EUA são manipuladas, há uma série de coisas que isso pode significar. Pode estar a alegar-se que os votos são ativamente adulterados para garantir um resultado específico, como os republicanos comumente alegaram nas eleições de 2020. Mas não é essa a afirmação que estou a apresentar aqui – apesar de os EUA terem as eleições mais disfuncionais de qualquer democracia liberal do mundo.

Pode também estar-se a falar sobre como a corrupção legalizada nos Estados Unidos permite que os ricos manipulem os resultados eleitorais e comprar lealdades políticas através de donativos de campanha . Embora, certamente, tal seja um facto bem estabelecido, também não é disso que estou a falar.

Também se poderia estar a falar do facto de que não importa quem ganha as eleições, uma vez que o presidente dos EUA é apenas uma figura de proa que finge governar um país que é, na verdade, governado por plutocratas não eleitos e gestores de impérios, em agências governamentais secretas. Novamente, isso é absolutamente verdade, mas não é disso que estou a falar neste ensaio específico.

Na verdade, poderíamos resolver todos os problemas do sistema de votação americano e, mesmo assim, as eleições presidenciais dos EUA ainda seriam manipuladas. Seria possível corrigir as leis de financiamento de campanha até ao ponto em que os ricos já não pudessem utilizar os donativos de campanha para alcançar os resultados políticos desejados, e as eleições presidenciais dos EUA ainda seriam manipuladas. Poderíamos dar ao presidente dos EUA todos os poderes reais de liderança governamental que, quando crianças, nos levaram a acreditar que ele tem, e as eleições presidenciais dos EUA ainda seriam manipuladas.

As eleições presidenciais dos EUA continuariam a ser manipuladas, porque a opinião política dominante continuaria a ser moldada pelas pessoas ricas e poderosas, que controlam as fontes a partir das quais os americanos foram treinados para obter a sua informação. Enquanto os ricos e poderosos puderem manipular a opinião pública em grande escala, através dos meios de comunicação social corporativos, de Hollywood e da manipulação de algoritmos do Silicon Valley, poderão manipular as eleições como quiserem.

Há uma citação atribuída a Albert Einstein que circula nas redes sociais há anos e que geralmente diz algo como:

 “Chegará um momento em que os ricos serão donos de todos os meios de comunicação e será impossível o público formar uma opinião informada”.

Ao contrário da maioria das citações fixes que circulam na internet, atribuídas a Einstein, esta é baseada em algo que o renomado físico teórico realmente disse – exceto que ele não estava prevendo algo que aconteceria no futuro, ele estava falando sobre algo que já acontecera, quando ele escreveu sobre isso em 1949.

Em seu ensaio “Porquê o socialismo ?”, Einstein escreveu o seguinte para a Monthly Review (sublinhado a negrito nosso):

“O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado, mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade uma vez que os membros dos órgãos legislativos são selecionados por partidos políticos, em grande parte financiados ou de outra forma influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos sectores desfavorecidos da população. Além disso, nas condições actuais, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É, portanto, extremamente difícil, e na maioria dos casos mesmo impossível, que o cidadão chegue a conclusões objetivas e faça uso inteligente dos seus direitos políticos. 

Era verdade quando Einstein o escreveu, há 75 anos, e continua a ser verdade até hoje. Continua a ser verdade hoje porque Einstein não dirigia as suas críticas às pessoas e acontecimentos individuais do seu tempo, mas aos sistemas sociais abrangentes que ainda existem hoje.

Num sistema capitalista, aqueles que controlam o capital controlam quais as ideias e informações que serão ingeridas pela maioria das pessoas. Num sistema democrático de governo – mesmo com um sistema de votação sólido e sem dinheiro permitido a financiar políticos – isto dará sempre aos ricos a capacidade de manipular as eleições, condicionando a opinião pública através da propaganda. 

E é isso que eles fazem . Além de comprarem meios de comunicação inteiros e de controlarem os seus acionistas, os ricos investem dinheiro para reforçar o controle narrativo por outros meios, como grupos de reflexão operações de informação online como NewsGuard Wikipedia , e a manipulação de algoritmos por megacorporações online como o Google. Isto dá-lhes a capacidade de moldar a visão do mundo da maioria do público, garantindo assim que as eleições resultem em resultados que reforcem o status quo sobre o qual foram construidas as suas fortunas.

Isto é verdade em todas as eleições de consequências significativas nos EUA, não apenas nas eleições presidenciais, e é verdade em todo o mundo ocidental, não apenas nos Estados Unidos.

Estamos a ser psicologicamente manipulados em grande escala desde a infância, e as nossas mentes são continuamente moldadas por pessoas que usam a sua riqueza para dominar as nossas narrativas partilhadas sobre como as coisas são, sobre o que está a acontecer no mundo e sobre o que deve ser feito a esse respeito.

Somos ensinados sobre o nosso mundo por pais profundamente doutrinados e professores profundamente doutrinados, que cresceram no mesmo ambiente de informação que nós – o qual reforça o status quo –, e a nossa doutrinação continua, através de todos os écrans das nossas vidas, até ao nosso último suspiro.

Podemos consertar tudo o que está errado no nosso sistema político, mas a não ser que também eliminemos a capacidade da classe capitalista manipular psicologicamente o público – para apoiar um status quo político que foi artificialmente moldado pelos poderosos, para o benefício dos poderosos -, nada de significativo mudará. As guerras vão continuar, a oligarquia vai continuar, a desigualdade e a injustiça vão continuar, a exploração e a extração vão continuar, o ecocídio vai continuar.

É por isso que eu coloco sempre a tónica na importância do controlo da narrativa e na forma como está a acontecer – porque é daí que surgem todos os nossos outros problemas e porque, enquanto não resolvermos esse problema, não conseguiremos resolver os outros.

Felizmente, é possível resolver esse problema. Nós, pessoas comuns, estamos em desvantagem porque não nos podemos dar ao luxo de comprar todos os meios e plataformas mais influentes da nossa sociedade para impor as nossas preferências políticas como os plutocratas podem fazer, mas estamos em vantagem porque somos muito mais do que eles – e porque temos a verdade e a autenticidade do nosso lado.

Nenhum de nós pode enfrentar sozinho a máquina de propaganda imperial, mas juntos podemos travar uma guerra de informação com o objetivo de desmascarar as narrativas imperiais e desacreditar a propaganda imperial aos olhos do público. Podemos fazê-lo utilizando todas as plataformas e meios de que dispomos para despertar as pessoas para a verdade em todas as oportunidades, para que possam ajudar a juntar-se à luta. Quanto mais pessoas perceberem que foram enganadas durante toda a sua vida sobre o que se passa na sua sociedade, mais pessoas haverá para ajudar a enfraquecer o controlo da narrativa imperial.

Todos os desenvolvimentos positivos no comportamento humano são sempre precedidos por uma expansão da consciência , quer estejamos falando dos seres humanos como indivíduos ou como coletividade. Isto não é diferente. Se você puder aproveitar todas as oportunidades para ajudar a espalhar a consciência da verdade e abrir outro par de olhos para a realidade da nossa situação, então estará a usar a sua energia para atacar o império no seu ponto mais fraco, da maneira mais eficiente possível.

Ganhando ou perdendo, se você dedicar sua vida a essa luta, no final poderá dizer com certeza que deu tudo de si.

Fonte aqui.


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A batalha pela verdade factual

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 11/05/2024)

Quando em 1968 as forças do Vietname do Norte e da guerrilha Vietcongue iniciaram a sua poderosa Ofensiva do Tet, contra as tropas de Saigão e dos EUA, tinha eu acabado de completar 10 anos.

Lembro-me, vivamente, de como, apesar da censura, o trabalho dos repórteres ocidentais revelava cruamente, em imagens ainda hoje icónicas (como a da execução, à queima-roupa, de um prisioneiro comunista), a brutalidade da guerra. Nos lares de meio mundo, era possível ver as baixas e o sofrimento dos militares vindos das grandes cidades e do recôndito rural dos EUA. Nessa altura, a expressão “quarto poder” não era um exagero retórico, como o Caso Watergate o voltaria a provar em 1972. Contudo, os poderes que contam – o dinheiro e o seu braço político – aprenderam a prevenir, com mais ou menos sofisticação, essa liberdade capaz de manifestar a exuberância nua dos factos.

Sem o poder da imprensa livre, a Guerra do Vietname teria continuado e Nixon completaria tranquilamente o seu mandato.

Pouco antes da Ofensiva do Tet, a filósofa Hannah Arendt publicou na revista New Yorker um presciente ensaio intitulado Verdade e Política. Arendt salienta que o poder político tem uma incompatibilidade radical com a mais elementar manifestação da verdade, aquela que se limita a relatar e situar os acontecimentos nas coordenadas do espaço e do tempo: a verdade factual. A filósofa identifica até um conjunto de profissões e papéis sociais cuja essência consiste em testemunhar e defender a objetividade factual, correndo os seus praticantes o risco de ficarem sozinhos, ocupando “um ponto de vista fora do campo político”. O filósofo, o cientista, o artista, o historiador imparcial, o juiz, a testemunha e o repórter são, para ela, protagonistas de diferentes formas de dizer e defender a verdade factual.

Os factos suscitam opiniões e interpretações, mas não se confundem com elas. O conteúdo absoluto e único dos factos, é, contudo, muito frágil. Depende de validação, como ocorre nas testemunhas oculares de um crime chamadas a tribunal. Um exemplo: podem existir várias e contraditórias interpretações sobre as causas da I Guerra Mundial, mas nenhum revisionismo histórico pode anular a verdade factual absoluta de que a 4 de agosto de 1914, foi a Alemanha que invadiu a Bélgica e não o contrário.

A verdade factual está hoje em perigo por toda a parte. As democracias liberais, em recuo, cada vez mais subordinadas a interesses financeiros globais, não escapam à vontade de selecionar apenas os “factos” que satisfaçam as interpretações convenientes. A precariedade crescente da comunicação social torna-a mais vulnerável e menos independente. O assassinato deliberado de jornalistas em Gaza, pelo Exército israelita, mostra como até democracias podem ultrapassar a rudeza das autocracias.

Em contracorrente, o jornalista Bruno Amaral de Carvalho publicou um livro singular: A Guerra a Leste. 8 Meses no Donbass, Caminho. Ele ousou mostrar as vozes e os rostos, as vítimas, as pessoas de carne e osso, do outro lado da Guerra da Ucrânia. Começou a conhecer o Donbass, em 2018, quando o ataque do Governo de Kiev à sua população a leste, silenciado no Ocidente, provocava a fuga de refugiados para a Rússia. A invasão de 2022 tem atrás de si uma série causal que só os factos ajudam a compreender. São um sinal de esperança, os verdadeiros repórteres que preferem arriscar testemunhar os factos, recusando serem meros repetidores de interpretações prontas a usar.

Liberdade de escolha, razão e demagogia

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 25/02/2024)


A liberdade de escolha constituiu o elemento a partir do qual os debates tradicionais sobre a liberdade e a necessidade começaram na Grécia há mais de dois mil e quinhentos anos. O problema da liberdade de escolha reside na contradição resultante do facto de podermos decidir contra o bem essencial, transformando a liberdade em servidão. Isso acontece porque a liberdade pode resumir-se à escolha do conteúdo, das normas e dos valores a partir dos quais a nossa natureza essencial, incluindo a nossa liberdade, se expressa. A liberdade pode agir contra a liberdade, entregando-nos à servidão. E esse é o projeto das “democracias iliberais”, ou formais que nos está a ser proposto como paradigma da democracia. Votais! — o resto está por conta de outrem, de nós, os vossos representantes. Este tipo de “democracia” é o meio ideal de criação e desenvolvimento dos demagogos e da demagogia. Dos abutres da liberdade, dos que comem o interior dos corpos, os órgãos vitais que garantem a liberdade e deixam o esqueleto, que continuam a designar por democracia. Não é, como o cavername de um barco não é um barco e não navega.

O que está a ser imposto como “democracia” é a apropriação do direito de voto por uma elite. Essa velha perversão aproveita o que, à falta de melhor, pode ser traduzida pela palavra alemã de Angst — medo, horror, angústia de confrontar possibilidades e desejos com a realidade, de medo de usar a liberdade, por isso os temerosos transferem a responsabilidade para outros que lhe surgem como mágicos realizadores de felicidade. Esta transferência de responsabilidade pelo uso da liberdade contradiz a natureza essencial do ser humano, de ser livre, condu-lo à servidão, mas vendida a liberdade, já não há regresso, o demagogo está aos comandos da nossa vida e não mais nos ouvirá.

A liberdade humana é o risco humano. A possibilidade de ultrapassar uma qualquer situação implica a possibilidade de não o conseguir. Mas a delegação da liberdade pode tornar-se servidão se for atribuída a quem corrompa os princípios e os meios “democráticos” para se apropriar dela. As campanhas eleitorais servem também e cada vez mais como legitimações desse tipo de corruptos que surgem a par dos que cumprem regras básicas de conquistar o voto. Isso acontece porque o modelo “democrático” imposto pelo poder dominante para ultrapassar a universalização do voto é o de escolher “quem” e não escolher “o quê”. A personalização (fulanização) das campanhas e das candidaturas, o empolamento a “casos” e revelações de intimidades servem o propósito de atrair as atenções para o quem e não para o quê.

Os debates-espetáculo que nos são servidos como ração democrática e integral querem que vejamos lutadores em competição e não os empresários e os que manipulam os resultados. Os espetáculos-debate são um falso combate encenado para dar a vitória antecipada aos demagogos, aqueles que melhor dominam a arte de conduzir habilmente as pessoas ao objetivo desejado, utilizando os seus conceitos de bem, mesmo quando lhes são contrários. Aos que corrompem a essência da democracia, de o poder ser constitucionalmente detido pelo povo, para se apropriarem dele apelando ao menor denominador comum, propondo ações prontas a servir para enfrentar situações e crises complexas, enquanto acusam oponentes de moderados, de fracos e de corruptos, segundo as conveniências do momento.

O êxito dos demagogos assenta na cobardia. Os demagogos orgulham-se da sua arte de arrastar cobardes. Os grandes meios de manipulação elegem e legitimam a cobardia como um valor cívico. A discussão da pré-campanha tem sido centrada no lugar a dar num futuro governo aos demagogos que têm a arte de arrastar cobardes.

A adesão de grandes massas aos demagogos é antiga, é uma servidão trágica que ao longo da história tem levado a situações de brutais e irracionais ruturas, em que a humanidade se pode reduzir à situação do indivíduo isolado à beira do abismo, insignificante e incapaz de se aperceber da ameaça para ele próprio e da aniquilação ao seu redor. Julgo ter sido essa a situação de muitos alemães durante o nazismo e de ser essa a situação de muitos israelitas perante o genocídio de palestinianos. Duas situações em que foram os cidadãos que elegeram, que votaram os que os governaram e governam, que participaram em comícios, em ações de esclarecimento, que ouviram ou viram debates.

O que podem fazer os que sentem a angústia da servidão para evitar a tragédia que anteveem como inevitável resultado da demagogia nas horríveis das experiências do passado? Existe um valor que tem sido esquecido ou muito aviltado: a coragem e não existe nenhum ser mais corajoso do que o ser humano, porque mesmo quando em condição de servidão não perde a liberdade se mantiver a sua dignidade.

A demagogia é um atentado à dignidade humana e o mais reles e eficaz argumento dos demagogos é o aproveitamento do sentimento de insegurança, que eles próprios criam e que prometem resolver a troco da integração no seu bando. Exploram a solidão e a fragilidade do “homem só”, do ser só, perante os predadores e rodeado de necrófagos. Uma grande parte das criações da civilização humana pode ser compreendida em termos de “busca de segurança”. A utilização da insegurança como argumento encontra-se hoje no primeiro plano da panóplia de armas dos demagogos, insegurança física, política, económica e até por falta de sentido na vida.

Outro dos sentimentos explorados pelos demagogos é o do desespero, entendido como o conflito entre a vontade de se manter a si mesmo e o de se perder a si mesmo, o desejo, ou a vontade de obter o mundo completo (a realização), e o desejo ou a vontade de se acolher à servidão, abdicando da da liberdade.

As ações a que assistimos durante uma campanha eleitoral são a repetição do negócio da compra e venda da alma a troco de promessas, as encenações tecnológicas nas televisões não alteram o essencial do logro do mito de Fausto, apenas o embrulham e o disfarçam com luzes faiscantes. O demagogo é, no fundo, uma velha máquina de picar carne que transforma em pasta o cérebro de quem acredita que ele lhe vai fornecer uma salsicha.


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