A cultura e os seus instrumentos e os impérios e o seu fim

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 31/08/2024, Revisão Estátua de Sal)

A composição de quadros diz respeito à Grande Guerra Turca (1683)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O texto que publiquei sobre a desratização da Palestina – (ver aqui) – motivou várias considerações que são sempre motivo de reflexão. Uma grande escritora, e Joana Ruas é uma grande escritora e também uma mulher com uma riquíssima experiência de vida desde Timor à Guiné Bissau, além de senhora de uma cultura no sentido mais abrangente muito rara, referiu a Elegia de Duíno, do poeta Rainer Maria Rilke (1875–1926) desta forma:

 “Esta obra de Rainer Maria Rilke, foi considerada uma das mais complexas dos tempos modernos pois exprime a inquietação pelas transformações ocorridas na Europa e no Mundo pela guerra de 14/18, no campo da ciência, da tecnologia e da cultura. A Guerra de 14/18, a primeira tecnológica, mobilizou exércitos, populações, economias e os impérios coloniais dos Estados europeus, do Japão e dos Estados Unidos da América. Eis um excerto:”

«O mundo da cultura não acompanhou a marcha dos regimes ditos democráticos na vereda das guerras coloniais. A carnificina dos campos de batalha desta guerra provocou uma imensa comoção entre os intelectuais e os artistas que integraram as hostes combatentes. Pela primeira vez na história das guerras a maior parte dos soldados não regressou a casa, e muitos foram os que não tiveram sepultura. A partir deste contexto, o soldado foi despido da sua pertença aos vivos logo que chamado às armas. Para o estatuto da cidadania, as responsabilidades continuaram a ser públicas mas as dores continuaram a ser privadas. Com a derrocada do mundo antigo e o nascimento de um espirito novo, a angústia da inteligência perante o futuro levou a que de um lado e do outro dos povos em guerra, os escritores, poetas e artistas tivessem poucos traços em comum como se vivessem em dois mundos diferentes e mesmo em duas épocas. Uns procuravam obstinadamente tudo o que numa Europa em devir seria ainda parte universal e perene enquanto outros se abismavam na contemplação do que ainda invisível se vinha afirmando. Havia o sentimento de que cada homem está só num mundo por outros «interpretado», e oposto ao mundo vivido.”

Um camarada militar referiu que:

 “Depois da História e também com ela vêm os argumentos estratégicos — soberania e economia e os etc do costume. Condenando a violência que grassa naquela região geográfica, independentemente de quem a pratica, em que as pessoas são tratadas como (os teus) ratos e sem poder arranjar qualquer justificação, perdão, atenuante para aquele atropelo à existência humana (qualquer guerra é por princípio desumana) onde uns são maus e outros piores, atribuo grandes responsabilidades a quem inventou que teria de haver um estado palestino…e agora pegando na História, escreveríamos resmas sobre o assunto e não chegávamos lá! …tudo começou mais pertinho com a derrocada do Império turco.”

Duas notas, muito simples: a cultura não acompanha a democracia — ora o que designamos por cultura, a nossa cultura, gerou o que chamamos democracia, a nossa democracia. Estamos a falar entre nós.

Os intelectuais, os políticos, e os cidadãos europeus estão a avaliar o mundo segundo a tabela que eles próprios criaram. Estamos hoje na Europa como estávamos há quinhentos anos quando fomos impor a nossa civilização e os nossos paradigmas pelo mundo.

O conflito global que hoje se trava resulta da reação de uma boa parte do mundo a quem os europeus impuseram a sua cultura, incluindo a sua moeda, a sua língua, as suas armas, os seus parlamentos, as suas fronteiras, os seus deuses. Trata-se de uma reação a um domínio.

Os pensadores europeus vêm o mundo com os seus instrumentos de análise, com a sua cultura. Estamos num conflito entre significante e significado. Leio por aqui afirmações do género, mas a França é uma democracia e a Venezuela não é. Mas a França é um estado europeu que se desenvolveu no contexto do império de Carlos Magno, da Igreja de Roma…. E a Venezuela resulta da colonização espanhola e da imposição de um modelo senhorial sobre uma colónia. São duas realidades não comparáveis. Já agora, não foram os venezuelanos que inventaram a guilhotina para distinguir democratas de não democratas…

A outra questão é a da relação entre a História e a Estratégia, colocada por um camarada que muito respeito — e, já agora a Política. A política é a imposição de uma vontade e dos interesses que a motivam. A estratégia é exatamente o mesmo e a História é a interpretação que num dado momento é feita do passado por parte dos que detêm o poder. As guerras não são boas nem más, uma apreciação de ordem moral que não tem cabimento na análise. Aristóteles dixit. A questão muito estimulante que é colocada diz respeito aos impérios. O império é um Centro. A discussão sobre se a Europa foi em algum período um império seria uma história sem fim. Resta a questão do Centro. O que vivemos hoje é o tempo em que a Europa deixou de ser o Centro, ou um Centro, para ser uma periferia. Uma área de serviços.

As razões para esta degradação são variadas, mas o que conta é o resultado. Como tem acontecido com os impérios eles morrem a partir de dentro. Isso aconteceu — porque já aconteceu e é irreversível — com a Europa nestes últimos 50 anos.

Uma nota final, julgo mais provável o ressurgimento de um pequeno império turco, do que o de uma pequena União Europeia. Quer isto dizer que os dirigentes turcos possuem uma visão estratégica que faz da Turquia um centro e os da União Europeia, principescamente pagos, não têm. Aliás, são pagos para não ter.

Quando os poderosos controlam a opinião pública, as eleições não são reais

(Caitlin Johnstone, 12/06/2024, Trad. Estátua de Sal)

Tenho ignorado a corrida presidencial dos EUA porque as eleições são manipuladas.

Quando alguém diz que as eleições presidenciais dos EUA são manipuladas, há uma série de coisas que isso pode significar. Pode estar a alegar-se que os votos são ativamente adulterados para garantir um resultado específico, como os republicanos comumente alegaram nas eleições de 2020. Mas não é essa a afirmação que estou a apresentar aqui – apesar de os EUA terem as eleições mais disfuncionais de qualquer democracia liberal do mundo.

Pode também estar-se a falar sobre como a corrupção legalizada nos Estados Unidos permite que os ricos manipulem os resultados eleitorais e comprar lealdades políticas através de donativos de campanha . Embora, certamente, tal seja um facto bem estabelecido, também não é disso que estou a falar.

Também se poderia estar a falar do facto de que não importa quem ganha as eleições, uma vez que o presidente dos EUA é apenas uma figura de proa que finge governar um país que é, na verdade, governado por plutocratas não eleitos e gestores de impérios, em agências governamentais secretas. Novamente, isso é absolutamente verdade, mas não é disso que estou a falar neste ensaio específico.

Na verdade, poderíamos resolver todos os problemas do sistema de votação americano e, mesmo assim, as eleições presidenciais dos EUA ainda seriam manipuladas. Seria possível corrigir as leis de financiamento de campanha até ao ponto em que os ricos já não pudessem utilizar os donativos de campanha para alcançar os resultados políticos desejados, e as eleições presidenciais dos EUA ainda seriam manipuladas. Poderíamos dar ao presidente dos EUA todos os poderes reais de liderança governamental que, quando crianças, nos levaram a acreditar que ele tem, e as eleições presidenciais dos EUA ainda seriam manipuladas.

As eleições presidenciais dos EUA continuariam a ser manipuladas, porque a opinião política dominante continuaria a ser moldada pelas pessoas ricas e poderosas, que controlam as fontes a partir das quais os americanos foram treinados para obter a sua informação. Enquanto os ricos e poderosos puderem manipular a opinião pública em grande escala, através dos meios de comunicação social corporativos, de Hollywood e da manipulação de algoritmos do Silicon Valley, poderão manipular as eleições como quiserem.

Há uma citação atribuída a Albert Einstein que circula nas redes sociais há anos e que geralmente diz algo como:

 “Chegará um momento em que os ricos serão donos de todos os meios de comunicação e será impossível o público formar uma opinião informada”.

Ao contrário da maioria das citações fixes que circulam na internet, atribuídas a Einstein, esta é baseada em algo que o renomado físico teórico realmente disse – exceto que ele não estava prevendo algo que aconteceria no futuro, ele estava falando sobre algo que já acontecera, quando ele escreveu sobre isso em 1949.

Em seu ensaio “Porquê o socialismo ?”, Einstein escreveu o seguinte para a Monthly Review (sublinhado a negrito nosso):

“O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado, mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade uma vez que os membros dos órgãos legislativos são selecionados por partidos políticos, em grande parte financiados ou de outra forma influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos sectores desfavorecidos da população. Além disso, nas condições actuais, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É, portanto, extremamente difícil, e na maioria dos casos mesmo impossível, que o cidadão chegue a conclusões objetivas e faça uso inteligente dos seus direitos políticos. 

Era verdade quando Einstein o escreveu, há 75 anos, e continua a ser verdade até hoje. Continua a ser verdade hoje porque Einstein não dirigia as suas críticas às pessoas e acontecimentos individuais do seu tempo, mas aos sistemas sociais abrangentes que ainda existem hoje.

Num sistema capitalista, aqueles que controlam o capital controlam quais as ideias e informações que serão ingeridas pela maioria das pessoas. Num sistema democrático de governo – mesmo com um sistema de votação sólido e sem dinheiro permitido a financiar políticos – isto dará sempre aos ricos a capacidade de manipular as eleições, condicionando a opinião pública através da propaganda. 

E é isso que eles fazem . Além de comprarem meios de comunicação inteiros e de controlarem os seus acionistas, os ricos investem dinheiro para reforçar o controle narrativo por outros meios, como grupos de reflexão operações de informação online como NewsGuard Wikipedia , e a manipulação de algoritmos por megacorporações online como o Google. Isto dá-lhes a capacidade de moldar a visão do mundo da maioria do público, garantindo assim que as eleições resultem em resultados que reforcem o status quo sobre o qual foram construidas as suas fortunas.

Isto é verdade em todas as eleições de consequências significativas nos EUA, não apenas nas eleições presidenciais, e é verdade em todo o mundo ocidental, não apenas nos Estados Unidos.

Estamos a ser psicologicamente manipulados em grande escala desde a infância, e as nossas mentes são continuamente moldadas por pessoas que usam a sua riqueza para dominar as nossas narrativas partilhadas sobre como as coisas são, sobre o que está a acontecer no mundo e sobre o que deve ser feito a esse respeito.

Somos ensinados sobre o nosso mundo por pais profundamente doutrinados e professores profundamente doutrinados, que cresceram no mesmo ambiente de informação que nós – o qual reforça o status quo –, e a nossa doutrinação continua, através de todos os écrans das nossas vidas, até ao nosso último suspiro.

Podemos consertar tudo o que está errado no nosso sistema político, mas a não ser que também eliminemos a capacidade da classe capitalista manipular psicologicamente o público – para apoiar um status quo político que foi artificialmente moldado pelos poderosos, para o benefício dos poderosos -, nada de significativo mudará. As guerras vão continuar, a oligarquia vai continuar, a desigualdade e a injustiça vão continuar, a exploração e a extração vão continuar, o ecocídio vai continuar.

É por isso que eu coloco sempre a tónica na importância do controlo da narrativa e na forma como está a acontecer – porque é daí que surgem todos os nossos outros problemas e porque, enquanto não resolvermos esse problema, não conseguiremos resolver os outros.

Felizmente, é possível resolver esse problema. Nós, pessoas comuns, estamos em desvantagem porque não nos podemos dar ao luxo de comprar todos os meios e plataformas mais influentes da nossa sociedade para impor as nossas preferências políticas como os plutocratas podem fazer, mas estamos em vantagem porque somos muito mais do que eles – e porque temos a verdade e a autenticidade do nosso lado.

Nenhum de nós pode enfrentar sozinho a máquina de propaganda imperial, mas juntos podemos travar uma guerra de informação com o objetivo de desmascarar as narrativas imperiais e desacreditar a propaganda imperial aos olhos do público. Podemos fazê-lo utilizando todas as plataformas e meios de que dispomos para despertar as pessoas para a verdade em todas as oportunidades, para que possam ajudar a juntar-se à luta. Quanto mais pessoas perceberem que foram enganadas durante toda a sua vida sobre o que se passa na sua sociedade, mais pessoas haverá para ajudar a enfraquecer o controlo da narrativa imperial.

Todos os desenvolvimentos positivos no comportamento humano são sempre precedidos por uma expansão da consciência , quer estejamos falando dos seres humanos como indivíduos ou como coletividade. Isto não é diferente. Se você puder aproveitar todas as oportunidades para ajudar a espalhar a consciência da verdade e abrir outro par de olhos para a realidade da nossa situação, então estará a usar a sua energia para atacar o império no seu ponto mais fraco, da maneira mais eficiente possível.

Ganhando ou perdendo, se você dedicar sua vida a essa luta, no final poderá dizer com certeza que deu tudo de si.

Fonte aqui.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Passos Coelho e os que comem criancinhas

(António Fernando Nabais, in Aventar, 21/04/2024)

Quadro de Goya – Saturno devora um filho

No tempo do salazarismo, havia um faduncho anticomunista que servia para alimentar o medo do papão leninista-estalinista-siberiano. Incluía, o dito faduncho, versos como “Maldita seja a Rússia soviética!” e “Malditos os que comem criancinhas!”. Quando se pensava que já não seria possível reencontrar um discurso tão primário, eis que Passos Coelho reaparece para reavivar fantasmas em que ele próprio não acredita, mas que lhe dão jeito para a campanha em que se integra, juntamente com outros intelectuais do mesmo calibre, como Paulo Otero ou João César das Neves, alguns dos autores que integram a colectânea “Identidade e Família”.

Descaindo os cantos da boca, de modo a imitar uma gravitas de estadista, Passos Coelho disse que há uma «sovietização do ensino».

Um dos mitos alimentados pela direita tola (ou pela direita que fala para tolos) é o de que a Escola Pública é uma verdadeira madraça dominada por comunistas e outros parentes desgraçadamente próximos que andam a catequizar as pobres criancinhas, que, a não serem comidas ao pequeno-almoço, hão-de transformar-se, por força da doutrinação, em futuros comedores de criancinhas, em consumidores de drogas pesadas, médias, leves e pesos-pluma e em heterossexuais convertidos em quaisquer outros sexuais que tentarão obrigar toda a população a mudar a orientação sexual.

A acreditar em Passos Coelho (a propósito de acreditar em Passos Coelho, convém relembrar), os professores portugueses andaram a receber instruções para encher a cabeça dos alunos de ideias satanicamente esquerdistas. Temos, então, de imaginar que, de acordo com a cabecinha de Passos, os professores constituem um conjunto homogéneo de pessoas

  1. acéfalas: que obedeceriam a qualquer instrução ministerial;
  2. de esquerda: haveria um ou outro professor de direita, mas viveriam, na melhor das hipóteses, aterrorizados com as brigadas vermelhas de docentes que vigiam as escolas, de kalashnikov em punho, a fim de manter o comunismo em boa ordem;
  3. sem ética: porque se achariam no direito de usar as aulas para deixar de ensinar as matérias, com comícios em cada sala de aula e com as turmas transformadas em células de pequenos soviéticos, com o caderno diário a ser substituído pelo kit pedagógico da foice e do martelo.

No mundo fantástico da cabeça de Passos Coelho, os alunos serão, ainda, seres amorfos que se limitam a obedecer cegamente às ordens dos professores. Os alunos seriam gente, toda ela, sem cabeça e sem espírito crítico, incapazes de não cumprir uma única tarefa que lhes seja imposta pelos canibais infanticidas que se disfarçam de professores.

As próprias famílias, acuadas nas suas casas, viveriam petrificadas, impossibilitadas de criticar os professores, porque, vivendo em residências sovietizadas, estão a ser permanentemente escutadas, enquanto, lá fora, as tropas rubras dos professores batem as ruas, de noite e de dia, enquanto sovietizam os passeios, as ruas, as janelas e os postes de iluminação pública.

Como explica, ainda, o Rui Correia, até a tia – talvez de Passos Coelho – é soviética, o que, a ser verdade, deve ser um desgosto enorme para a família.

Fonte aqui.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.