O Vaticano, o clero e o poder

(Carlos Esperança, 06/09/2018)

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O Vaticano não é apenas a sede da multinacional da fé católica, em concorrência direta com outros monoteísmos, e a ambição de penetrar em outros mercados de crenças mais ou menos teístas, é um centro de poder político à escala global.

O cristianismo, nascido da primeira cisão bem-sucedida do judaísmo, foi sempre palco de cisões, que tiveram como pretexto a ortodoxia e o poder como objetivo. Há no clero, de qualquer religião, imensa ânsia de poder e especial apetência por verdades únicas.

Tendo as democracias nascido contra a vontade das Igrejas, e graças à repressão política sobre o clero, compreende-se que se tornem tanto mais vulneráveis quanto mais se identifiquem com regimes democráticos e prescindam da opressão no seu seio.

Não estão em causa os dogmas ou a hipotética existência de Deus nos ódios que nascem no interior da Igreja católica, acossada pelo fascismo islâmico e pelo poder financeiro e político de Igrejas evangélicas cujo proselitismo é hoje o que foi o da Igreja católica na Idade Média ou no advento do fascismo. O que está em causa é o poder. Simplesmente.

A chegada do Papa Francisco ao Vaticano, certamente com vários cardeais distraídos e o Espírito Santo ausente do consistório que o proclamou, permitiu à Igreja católica um prestígio acrescido, apesar de manter pujante a indústria dos milagres e em exercício os exorcistas que afugentam demónios, atividades em que apenas os seus fiéis acreditam.

A condenação da pena de morte, um abalo enorme na moral dos padres reacionários, foi uma deceção para os que ainda hoje gostariam de acender fogueiras contra os hereges.

Não surpreende, pois, que o primeiro Papa que apostou combater a pedofilia tenha sido a sua vítima. Os que sempre protegeram os pedófilos, condescenderam com o tráfico de crianças roubadas a mães solteiras ou à guarda de instituições pias, foram os primeiros a tentar derrubar o Papa, agora que a comunicação social está mais alertada para aditivos alimentares e medicamentosos.

A Igreja católica está à beira de um cisma, mas os autores serão os que pretendem que o Vaticano abençoe a deriva fascista que contamina a Europa e a América, especialmente a América latina.

Os ataques ao Papa Francisco não são uma quezília interna, fazem parte da conspiração contra as democracias constitucionais, a que chamamos Estados de Direito.

Surpreendentemente, os bispos portugueses decidiram apoiar o Papa, o que é bom sinal. Esperemos que os democratas, ateus, agnósticos ou católicos, acertem na barricada. É o poder que está em causa. Dentro e fora da Igreja.

O PSD português e o PP espanhol

(Carlos Esperança, 05/09/2018)

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O PSD nasceu na sequência de uma rotura revolucionária que lhe exigiu dirigentes de passado dissonante com a ditadura. Sá Carneiro, Magalhães Mota e Pinto Balsemão, os três principais fundadores, tinham dado provas públicas de desconforto com a ditadura, situação comum ao CDS. Nenhum dos dois partidos reclamou a herança salazarista ou se atreveu a pôr em causa a legitimidade revolucionária da Revolução de Abril. Eram, aliás, suficientemente inteligentes, tal como Freitas do Amaral e Amaro da Costa (CDS), para saberem que a guerra colonial deixara de ser uma teimosia nacional e passara a ser um crime internacional.

O PP espanhol foi fundado por oito ex-ministros do mais sanguinário genocida ibérico de todos os tempos, na designada transição pacífica. A Constituição integrou vontades do déspota que em 1936 se sublevou contra o governo republicano legítimo e manteve a guerra com o apoio da Itália fascista, da Alemanha nazi e do Portugal germanófilo.

Em Portugal, o MFA garantiu eleições livres e a liberdade partidária, com os cúmplices da ditadura afastados do poder e os generais fascistas, em sentido perante os capitães, a receberem guias de marcha a caminho de casa.

Foi na génese da restauração das democracias ibéricas que se afirmaram as diferenças. A Constituição espanhola nasceu à sombra do ditador e dos seus sequazes, com o medo do retrocesso a pairar ainda. Por isso, recebeu de contrabando uma monarquia franquista e a herança da ditadura com os seus cúmplices. O espírito da Falange foi preservado nas casernas, sacristias, tribunais e gestão do território.

A Constituição Portuguesa foi votada com fascistas escondidos nas sarjetas e cúmplices a conspirarem sem apoio popular. Por isso nasceu liberta de constrangimentos.

Hoje, na ressaca das democracias, afloram em Espanha e em Portugal saudosismos das ditaduras. Espanha já tem Pablo Casado à frente do PP, um franquista com o mestrado oferecido de presente pela Universidade Juan Carlos, e que quer arquivar a História da ditadura sob o túmulo de Franco, que louva a apoteose do fascismo no Vale dos Caídos.

Em Portugal, Cavaco não era mais democrata do que Aznar, mas era cedo para reabilitar o ditador, e não sucedeu a Fraga Iribarne. Balsemão era mais liberal e não foi cúmplice da ditadura.

A vitória de Rui Rio adiou provisoriamente o regresso do PSD ao tenebroso período de Cavaco e Passos Coelho. Não sei o que o futuro reservará, mas a direita terá de remover Rui Rio para criar o seu Viktor Orbán. Em Espanha já existe. Chama-se Pablo Casado. Pretende revogar a Lei da Memória Histórica e substituí-la pela Lei da Concórdia, uma espécie de vassalagem da democracia e das vítimas à ditadura e aos seus algozes.

A democracia precisa de ser defendida em Portugal e Espanha, e é de crer que o futuro das instituições democráticas ibéricas será comum.

OPERAÇÃO MARQUÊS – INSTRUÇÃO

(Virgínia da Silva Veiga, 05/09/2018)

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Aguardemos então que nos façam a delicadeza de divulgar, não notícias deturpadas, mas as peças processuais, na íntegra, os requerimentos de Abertura de Instrução para, finalmente, se saber o que alegam a seu favor os arguidos e, posto também os terem apresentado, os mais relevantes, começando pelo de Carlos Santos Silva, que, afinal, o apresentou e é o principal visado neste caso.

Vai ser particularmente interessante conhecer o que alega, que provas junta e que provas requer a minha Colega que o representa e que, como fiz notar, sempre se manteve longe da comunicação social.

Os requerimentos de Joaquim Barroca, da própria Lena, do administrador de Vale do Lobo, de Armando Vara e até de Zeinal Bava, merecem ser lidos.

Ouvindo a comunicação social, confirma-se José Sócrates não o ter feito que significa o que este sempre disse: não tem sido por ele que o processo se tem arrastado em tribunal e não vai já a julgamento. Evidentemente, as defesas destes arguidos contendem a do ex-primeiro-ministro que agora ficará a aguardar as diligências requeridas. É acusado, recordo, de uma série de actos que só encontram alicerce em supostos actos de terceiros sem os quais, evidentemente, se despem totalmente de fundamento. Por curiosidade, até ao momento também não há notícias de Ricardo Salgado o qual, ao que parece, igualmente não terá entrado nesta fase ((Ver aqui as razões de Salgado, que alega a existência de vírus nos ficheiros).

O respeito pelo contraditório, que existe no Direito mas também no Código Deontológico do Jornalismo, após tanta notícia contra Carlos Santos Silva, obrigaria agora à divulgação integral da defesa.

A manterem-se e a serem válidas as notícias, a mulher de Santos Silva e Sofia Fava não terão, também estas, apresentado requerimento deixando nas mãos do Ministério Público provar ao juiz de Instrução, com alguma substância, as tais acusações, até ao presente fundamentadas em extrapolações sobre frases de vários sentidos, proferidas ao telefone, onde a Procuradoria buscou alicerce para suspeições que em qualquer outro processo não teriam permitido alicerçar qualquer acusação.

João Araújo, que as notícias não esclarecem se voltou a assumir a defesa do ex-primeiro-ministro, contactado pela SIC, não se terá pronunciado sobre o assunto e, de novo segundo as notícias, terá remetido comentários para “ daqui a dias” o que legitima pensar que o próprio José Sócrates dirá ao País a razão de não ter pretendido intervir num acto processual sem garantias, sendo ao MP que compete apresentar as provas das suspeições alegadas. ((Outras notícias dizem que Araújo nunca deixou de ser advogado de Sócrates).

O respectivo julgamento, o qual sempre disse desejar com brevidade, fica agora dependente das decisões sobre os requerentes. As diligências requeridas e as provas apresentadas pelos outros permitirão apurar aos nossos olhos e aos da Justiça se existe alguém que corrobore a posição do MP contra este arguido (José Sócrates), sendo certo que da acusação resulta a inocência do mesmo.

Hélder Bataglia, o único que terá admitido ter dado a Carlos Santos Silva, dinheiro, alegando tê-lo feito por ordem de Ricardo Salgado, negou ele próprio conhecer qualquer ligação desse caso a José Sócrates, não sendo, assim, o episódio relacionável com este último acusado, sendo certo que a veracidade é peremptoriamente negada pelo banqueiro, o qual, recorde-se, presidia à administração do BES, banco que tinha vários negócios com Bataglia, designadamente os relativos à compra de submarinos, bem como ao BESA, nada havendo na acusação que legitime pensar-se que o dinheiro entregue ao luso-angolano possa estar relacionado, ainda que indirectamente, com José Sócrates, o qual nunca ninguém relacionou com os negócios do empresário. (Ver aqui as razões de Bataglia).

A não detenção deste outro arguido, a residir em Angola, e os contornos da vinda a Portugal, seguindo em liberdade, deixaram a generalizada convicção de uma “delação premiada”, de contornos cuja veracidade em todo lançou suspeitas sobre o seu depoimento, de nenhuma relevância em tribunal.