A igreja que pede perdão mas nunca tem culpa

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 13/04/2019)

Fernanda Câncio

Há quem veja na carta do ex papa que não quer deixar de ser papa “um embaraço” para ele, a igreja a que pertence e o papa em funções. É com certeza. Mas é também uma boa radiografia da instituição e da sua ridícula obsessão pelo sexo, da sua raiva à liberdade e da sua impiedosa e brutal indiferença por tudo o que não seja ela própria.


“Começou com a prescrição pelo Estado da necessidade de introduzir as crianças e jovens à natureza da sexualidade. (…) Filmes sexuais e pornográficos tornaram-se comuns, chegando-se ao ponto de passarem nos cinemas. (…) Lembro-me de chegar à cidade de Regensburg na sexta-feira santa e haver um enorme poster de um casal completamente nu abraçado. (…) O colapso moral esteve também ligado a uma propensão para a violência. É por esse motivo que filmes sexuais deixaram de ser mostrados em aviões: porque desencadeariam violência entre os passageiros. E como o tipo de roupa usado nesse tempo também era propenso a provocar agressão, os diretores das escolas tentaram impor uniformes de forma a propiciar um ambiente adequado à aprendizagem.”

Sim, isto é o início da carta publicada esta semana por aquele a quem já chamaram o papa “morto-vivo” (por ter resignado mas se manter no Vaticano como papa emérito, com nome papal, vestes papais e, como se constata, a determinação de continuar a interferir no governo da igreja a que pertence).

Aparentemente, para este homem nascido em 1927 — que esteve na juventude hitleriana e assistiu ao nazismo, durante o qual, dizem-nos, um seu primo de 14 anos com síndroma de Down foi em 1941 retirado à família para ser, como tantos outros deficientes, e também homossexuais, judeus e resistentes, “eliminado” –, terrível como colapso moral e como “ambiente propenso à violência” foi a revolução sexual dos anos 1960. No âmbito da qual, ficamos a saber, não só passavam filmes porno nos aviões como, garante-nos Bento XVI, “a pedofilia foi diagnosticada como permitida e apropriada.”

Para este homem nascido em 1927 — que esteve na juventude hitleriana e assistiu ao nazismo, durante o qual, dizem-nos, um seu primo de 14 anos com síndroma de Down foi em 1941 retirado à família para ser, como tantos outros deficientes, e também homossexuais, judeus e resistentes, “eliminado” –, terrível como colapso moral e como “ambiente propenso à violência” foi a revolução sexual dos anos 1960.

Esta última revelação, que a todos terá passado despercebida, talvez possa explicar por que motivo assistimos a uma tão notória relutância da hierarquia da IC, ao longo das décadas e ainda hoje, em denunciar padres acusados de abusar de crianças (pelo contrário, criou, como se sabe, um verdadeiro livro de estilo de encobrimento, descredibilizando os seus denunciantes, mudando os denunciados de paróquia em paróquia e evitando sempre, claro está, “o escândalo público”): estará a instituição, como o papa emérito, convencida de que nos anos 1960 o abuso foi declarado como “apropriado”. Ou é isso ou o facto de durante séculos a Igreja Católica ter casado crianças com adultos e portanto, dentro da lógica daquilo a que chama “a lei natural”, não ver onde está o abuso.

Mas não desçamos à mesquinhez de trazer a verdade histórica à colação quando Bento nos fala da verdade com maiúscula – a qual, como se sabe, não se detém em minudências do tipo “isso nunca aconteceu” ou “mas que magistral aldrabice para aí vai.”

É porque se ocupa da verdade com maiúscula que Bento, ao pretender que a crise do abuso sexual na IC se deve ao que chama “a dissolução do conceito de moralidade cristã”, marcada, afiança, por “um radicalismo sem precedentes nos anos 1960”, quando, jura, foram criadas “cliques de homossexuais” nos seminários, ignora resolutamente tudo o que se sabe sobre abusos sexuais ocorridos no seio da IC muito antes dessa década – e o facto, já agora, de muitas das vítimas serem também do sexo feminino.

Ignora também resolutamente aquilo que especialistas já apontaram em reação à carta: que as alterações devidas ao Vaticano II só começaram a ter efeito nos seminários a partir da década de 1970. Aliás, ignora resolutamente a sua própria lógica: logo após falar das “cliques homossexuais” menciona o facto de haver seminários – dá o exemplo de um no sul da Alemanha — onde candidatos a padres e leigos viviam e comiam juntos, e por vezes “os leigos casados recebiam as suas mulheres, filhos e até namoradas.” Conclui Bento: “O ambiente neste seminário não providenciava apoio para a preparação para o sacerdócio.”

Conclusão: a culpa é dos homossexuais mas também dos heterossexuais. Qualquer sexual, em suma, ameaça a vocação dos candidatos a padres. A vida, as pessoas, quiçá as correntes de ar e a luz do sol. Como daí, da vocação ameaçada, se passa para o abuso sexual (não seria muito mais evidente passar-se para não ser padre?) é que falta explicar. Mas calma: tudo será revelado. Até porque, diz-nos Bento, “a questão da pedofilia, tal como me recordo, não se agudizou a não ser na segunda metade dos anos 1980”.

Supõe-se que o papa emérito achará também que a violência doméstica só se agudizou quando se começou a falar dela e mais ainda quando foi criminalizada: antes as mulheres e crianças não levavam tareias; zero. E por exemplo em Portugal, como o crime de abuso sexual de crianças só existe no Código Penal desde os anos 1990, e só desde aí podemos contabilizar queixas, temos de concluir que antes ninguém abusava de crianças. Como não havia homens violados, porque a lei definia a violação como um crime de vítima exclusivamente feminina.

Mas há ainda melhor na carta de Bento. Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé de 1981 a 2005, quando foi ordenado papa, queixa-se na carta do garantismo processual da lei canónica: “Os direitos dos acusados tinham de ser garantidos acima de tudo, a um ponto tal que se excluía qualquer condenação de facto.” Como prefeito e como cardeal Ratzinger, o autor da carta superintendia os processos e as investigações de abuso sexual; depois, durante oito anos, foi chefe máximo da igreja. Mudou a lei canónica que o seu antecessor João Paulo II (de quem foi declaradamente o teórico) reviu em 1983? Não. Nem lhe ocorreu fazer por exemplo o apelo que Francisco já lançou, o de que os casos sejam denunciados às autoridades civis.

Bento foi durante mais de 30 anos, no surgir e no desenvolvimento da crise, responsável pela sua gestão. Mas não encontramos nesta missiva um reconhecimento do óbvio falhanço, um pedido de desculpas – não só pelo que não fez como pelo facto de ter abandonado o posto e passado a responsabilidade a Francisco.

Bento foi durante mais de 30 anos, no surgir e no desenvolvimento da crise, responsável pela sua gestão. Mas não encontramos nesta missiva um reconhecimento do óbvio falhanço, um pedido de desculpas – não só pelo que não fez como pelo facto de ter abandonado o posto e passado a responsabilidade a Francisco. Para agora, da plateia, se dedicar a minar-lhe a autoridade.

Não vemos de resto nesta longa carta mais menção às vítimas do que quando fala de uma mulher abusada em criança a quem o padre antes dos atos dizia “toma o meu corpo”. E mesmo isso não é mencionado para sublinhar o sofrimento da vítima; fá-lo para se afligir com a falta de fé e com a rutura com a igreja que tais atos do padre lhe podem ter causado. É essa, claramente, a única preocupação de Bento: o poder e a sobrevivência da igreja, e os seus próprios – contra o mundo, contra os factos, contra a verdade. Tudo pela igreja, nada contra ela.


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O Grande Encobridor dos clérigos pedófilos – Para quando a descanonização de ‘S. João Paulo II’?

(Por Mário de Oliveira, in A Viagem dos Argonautas, 03/03/2019)

A Cimeira dos bispos presidentes das conferências episcopais com o papa sobre os crimes de pedofilia dos clérigos católicos não passou de mais uma viagem turística para os bispos, e de mais um dos muitos shows mediáticos em que o jesuíta Jorge Mário Bergóglio, ex-cardeal emérito de Buenos Aires e, desde há anos, bispo de Roma, é manifestamente perito.

Ou não seja ele o mais recente sucessor do imperador Constantino, o primeiro papa da igreja católica romana e o pai do Credo de Niceia-Constantinopla que ainda hoje continua a ser vergonhosamente recitado nas missas de domingo. Numa criminosa tentativa de apagar da memória dos povos Jesus histórico, o filho de Maria, que o mesmo império, ao tempo de Tibério, manda executar em Abril do ano 30, no pior dos seus instrumentos de tortura política, a cruz. Essa mesma que hoje é apresentada como o símbolo maior do cristianismo católico e protestante. O que, só por si, constitui o absurdo dos absurdos e o sadomasoquismo elevado à máxima potência.

Os crimes, consumados ou só platónicos, de pedofilia dos clérigos são tão antigos quanto os próprios clérigos. Decorrem da natureza do ser-clérigo. Existem, desde que eles existem. E só terminam, quando eles forem definitivamente extintos.

Mas como extingui-los, se a igreja católica de Roma, desde o papa, no topo da pirâmide, ao mais ignoto pároco de aldeia, na base da pirâmide. está fundada sobre eles, todos celibatários? Os chamados leigos, elas e eles, não são igreja. Só os clérigos o são. Os próprios povos das nações, porque não clérigos, vêem-se condenados a ter de carregar sobre os ombros o peso da pirâmide clerical e a ter de ouvir e calar o que suas excelências reverendíssimas, os bispos e os párocos, suas eminências, os cardeais, e sua santidade, o papa, têm para lhes dizer, do altar para baixo. Para isso foram escolhidos por ‘deus-pai todo poderoso’, o do Credo de Niceia-Constantinopla.

É hoje público e notório que o papa polaco João Paulo II, com tudo de anti-comunista e anti-ateista primário, como de anti-Concílio Vaticano II – é um dos poucos que, enquanto bispo conciliar, vota contra a Constituição Lumen Gentium sobre a igreja – é o Grande Encobridor dos crimes de pedofilia dos clérigos. Sob o pretexto de que ‘o bom nome da igreja’ está acima de tudo o mais. Por mais que nesse então gritem as vítimas dos clérigos, os seus gritos esbarram sempre na muralha de aço do silêncio papal. Mas é assim que o Grande Encobridor adquire aura de santo e vê entrar nos cofres do Vaticano rios de dinheiro, em troca do seu silêncio. O mais aberrante dos muitos casos que então chegam ao seu conhecimento é o do fundador dos ‘Legionários de Cristo’ – só o nome já nos faz mijar de medo! – um tal clérigo católico, Marcial Maciel. É dele a instituição que, nas suas muitas casas, acolhe crianças e jovens em situação de fragilidade. E sempre que Maciel passa por cada uma delas, só tem de escolher entre todos os menores os que sexualmente mais o excitem. Uma escolha que deve ser vista pelas vítimas, não como um crime, sim como uma ‘promoção’!!!

De tudo o papa João Paulo II é sabedor. Mas os rios de dinheiro que o clérigo Maciel faz entrar no Banco do Vaticano têm o poder de tornar ‘santos’ os seus horrendos crimes. E para que tais horrores silenciados não venham a impedir, mais tarde, a sua previsível canonização pós-morte, o mesmo papa decide acabar com a figura de ‘Advogado do Diabo’, nos respectivos processos. E assim a sua canonização aconteceu quase na hora. A partir de então, deixou de haver o papa João Paulo II histórico com todos os seus crimes e há apenas o mítico ‘S. João Paulo II’.

Uma realidade que a Cimeira dos bispos com o papa Francisco ignorou de todo. Daí a inevitável pergunta, Para quando a descanonização de ‘S. João Paulo II’ e a condenação pública do papa João Paulo II? Enquanto esta imperiosa operação se não concretizar, todas as Cimeiras de bispos que o papa promova não passam de refinado fariseísmo católico romano. E são de crocodilo todas as suas lágrimas.


P.S.

Interrompo por uma semana completa as minhas actividades, também jornalísticas. Pelo que conto estar de volta ao Vosso contacto no domingo 17 de Março 2019. Uma saudável diversão de Carnaval para quem ainda o não dispensa. Por mim, prefiro águas mais profundas onde se escutam os sons do Cosmos em expansão e a Festa tem o incomparável paladar da plenitude HUMANA. A todas, todos a minha Paz.

Os padres têm sexo

(José Pacheco Pereira, in Público, 02/03/2019)

Pacheco Pereira

É difícil mudar em muitos aspectos a moral sexual da Igreja e as suas consequências institucionais, mas sem uma mudança profunda na atitude da Igreja em relação à sexualidade tudo vai continuar na mesma.

Eu não sou católico, nem apostólico, nem romano e sou um ateu que se classifica de agnóstico para não ofender o Popper que há dentro de mim. Mas não sou, em 2019, anticlerical, e reconheço no meu país, também em 2019, o papel muito importante da Igreja, principalmente social e cultural. Não tenho qualquer vezo contra a instituição e reconheço mesmo que numa sociedade sem valores muitos dos valores do cristianismo que transporta a Igreja são positivos para a nossa vida colectiva, mesmo quando a Igreja não dá o exemplo. Num país onde há muita pobreza, muita exclusão, sem a Igreja tudo estaria muito pior, mesmo muito pior e a Igreja é uma poderosa força cultural e intelectual. Até aqui muito bem.

A partir daqui muito mal. Não é por acaso que várias vezes datei o que penso sobre a Igreja no ano de 2019, hoje e em Portugal, porque não queria generalizar para o passado, nem tenho a certeza do que vai ser no futuro. Apenas, hoje. E hoje a crise da Igreja católica, com sucessivos casos de pedofilia e abuso sexual de menores e maiores, é gravíssima, até porque foi ocultada ao mais alto nível. Padres e bispos cometeram crimes de delito comum e encontraram na Igreja e nas suas instituições a mesma protecção que os “soldados” da Máfia tinham na organização criminosa. O Papa actual, que em muitas matérias mostrou bastante coragem, compreendeu a dimensão do problema e parece resolvido a defrontá-lo. Não é fácil.

A razão do que aconteceu é simples e não tem qualquer complexidade: o celibato dos padres, o impedimento de as mulheres acederem ao sacerdócio e a condenação pela Igreja da homossexualidade, ou seja, a moral sexual do cristianismo. Esta moral sexual não data da origem do cristianismo, mas forjou-se em confronto com a moral e costumes pagãos, quando os cristãos começaram a “conquistar” Roma. Na verdade, não é dogma de fé, embora tenha sido, com o fim das primitivas Igrejas cristãs, uma tradição identitária da Igreja quer do Ocidente quer do Oriente.  

Mas nunca foi cumprida à letra e tal está abundantemente documentado, até para Portugal. Na célebre viagem de Frei Bartolomeu dos Mártires, e no que escreveu Frei Luís de Sousa, a regra era os padres estarem “amancebados” e viverem com as suas famílias, sem particular escândalos das populações. Os conventos eram muitas vezes descritos desde o século XVIII quase como sendo lupanares e houve muitos amores de “freiras portuguesas”. Já para não falar das práticas libertinas a que os fiéis se entregavam na ida à missa, como a prática do beliscão nas senhoras, que tinham de ir almofadadas para não serem magoadas e apalpadas. Do mesmo modo, a passagem rápida pelos boletins da censura durante a ditadura do Estado Novo revela como as histórias de padres e freiras violando a regra do celibato ou os votos eram uma permanente fonte de dichotes, denúncias, poemas satíricos, notícias mais ou menos crípticas nos jornais locais, tudo fervorosamente cortado pela censura. E algumas retratavam crimes, então e hoje.

Os conflitos gerados pela moral sexual cristã têm sido uma constante da história da Igreja que se tem agudizado com a crescente laicização das sociedades ocidentais. A Igreja nunca lhes deu uma resposta consistente e agora paga um preço muito elevado em todas as frentes, controlo dos nascimentos, planeamento familiar, papel da mulher, cada vez mais casais com vida em comum sem o casamento, desvalorização da virgindade, marginalização dos homossexuais, e, no limite, abusos sexuais e pedofilia. O tronco é comum: padres e freiras têm sexo e a pressão para não o sentirem é, num certo sentido simplista, antinatura.

Um dos resultados é o risco para a Igreja de ter, em particular nos países anglo-saxónicos, mas não só, cada vez mais homossexuais, num contexto de “armário” de sete chaves, convivendo nas múltiplas instituições de carácter educativo, no serviço da missa, nos coros das igrejas, nos escuteiros, com milhares de rapazes e raparigas que acabam por abusar. Até agora a Igreja protegia-os da denúncia pública, agora presume-se que vai deixar de o fazer. Mas isso não resolve o problema, porque a repressão da sexualidade não gera felicidade. O Diabo já sabia disso há muito tempo, porque era por aí que vinham a maioria das suas mais gráficas tentações.

Não viola a fé cristã, nem os fundamentos do cristianismo, nem sequer é particularmente recusado pelo povo cristão, que não vê grandes problemas em os padres se casarem. É difícil mudar em muitos aspectos a moral sexual da Igreja e as suas consequências institucionais, como os anglicanos perceberam quando decidiram fazer entrar no sacerdócio mulheres. Mas, sem uma mudança profunda na atitude da Igreja em relação à sexualidade, tudo vai continuar na mesma.