O Grande Encobridor dos clérigos pedófilos – Para quando a descanonização de ‘S. João Paulo II’?

(Por Mário de Oliveira, in A Viagem dos Argonautas, 03/03/2019)

A Cimeira dos bispos presidentes das conferências episcopais com o papa sobre os crimes de pedofilia dos clérigos católicos não passou de mais uma viagem turística para os bispos, e de mais um dos muitos shows mediáticos em que o jesuíta Jorge Mário Bergóglio, ex-cardeal emérito de Buenos Aires e, desde há anos, bispo de Roma, é manifestamente perito.

Ou não seja ele o mais recente sucessor do imperador Constantino, o primeiro papa da igreja católica romana e o pai do Credo de Niceia-Constantinopla que ainda hoje continua a ser vergonhosamente recitado nas missas de domingo. Numa criminosa tentativa de apagar da memória dos povos Jesus histórico, o filho de Maria, que o mesmo império, ao tempo de Tibério, manda executar em Abril do ano 30, no pior dos seus instrumentos de tortura política, a cruz. Essa mesma que hoje é apresentada como o símbolo maior do cristianismo católico e protestante. O que, só por si, constitui o absurdo dos absurdos e o sadomasoquismo elevado à máxima potência.

Os crimes, consumados ou só platónicos, de pedofilia dos clérigos são tão antigos quanto os próprios clérigos. Decorrem da natureza do ser-clérigo. Existem, desde que eles existem. E só terminam, quando eles forem definitivamente extintos.

Mas como extingui-los, se a igreja católica de Roma, desde o papa, no topo da pirâmide, ao mais ignoto pároco de aldeia, na base da pirâmide. está fundada sobre eles, todos celibatários? Os chamados leigos, elas e eles, não são igreja. Só os clérigos o são. Os próprios povos das nações, porque não clérigos, vêem-se condenados a ter de carregar sobre os ombros o peso da pirâmide clerical e a ter de ouvir e calar o que suas excelências reverendíssimas, os bispos e os párocos, suas eminências, os cardeais, e sua santidade, o papa, têm para lhes dizer, do altar para baixo. Para isso foram escolhidos por ‘deus-pai todo poderoso’, o do Credo de Niceia-Constantinopla.

É hoje público e notório que o papa polaco João Paulo II, com tudo de anti-comunista e anti-ateista primário, como de anti-Concílio Vaticano II – é um dos poucos que, enquanto bispo conciliar, vota contra a Constituição Lumen Gentium sobre a igreja – é o Grande Encobridor dos crimes de pedofilia dos clérigos. Sob o pretexto de que ‘o bom nome da igreja’ está acima de tudo o mais. Por mais que nesse então gritem as vítimas dos clérigos, os seus gritos esbarram sempre na muralha de aço do silêncio papal. Mas é assim que o Grande Encobridor adquire aura de santo e vê entrar nos cofres do Vaticano rios de dinheiro, em troca do seu silêncio. O mais aberrante dos muitos casos que então chegam ao seu conhecimento é o do fundador dos ‘Legionários de Cristo’ – só o nome já nos faz mijar de medo! – um tal clérigo católico, Marcial Maciel. É dele a instituição que, nas suas muitas casas, acolhe crianças e jovens em situação de fragilidade. E sempre que Maciel passa por cada uma delas, só tem de escolher entre todos os menores os que sexualmente mais o excitem. Uma escolha que deve ser vista pelas vítimas, não como um crime, sim como uma ‘promoção’!!!

De tudo o papa João Paulo II é sabedor. Mas os rios de dinheiro que o clérigo Maciel faz entrar no Banco do Vaticano têm o poder de tornar ‘santos’ os seus horrendos crimes. E para que tais horrores silenciados não venham a impedir, mais tarde, a sua previsível canonização pós-morte, o mesmo papa decide acabar com a figura de ‘Advogado do Diabo’, nos respectivos processos. E assim a sua canonização aconteceu quase na hora. A partir de então, deixou de haver o papa João Paulo II histórico com todos os seus crimes e há apenas o mítico ‘S. João Paulo II’.

Uma realidade que a Cimeira dos bispos com o papa Francisco ignorou de todo. Daí a inevitável pergunta, Para quando a descanonização de ‘S. João Paulo II’ e a condenação pública do papa João Paulo II? Enquanto esta imperiosa operação se não concretizar, todas as Cimeiras de bispos que o papa promova não passam de refinado fariseísmo católico romano. E são de crocodilo todas as suas lágrimas.


P.S.

Interrompo por uma semana completa as minhas actividades, também jornalísticas. Pelo que conto estar de volta ao Vosso contacto no domingo 17 de Março 2019. Uma saudável diversão de Carnaval para quem ainda o não dispensa. Por mim, prefiro águas mais profundas onde se escutam os sons do Cosmos em expansão e a Festa tem o incomparável paladar da plenitude HUMANA. A todas, todos a minha Paz.

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Os padres têm sexo

(José Pacheco Pereira, in Público, 02/03/2019)

Pacheco Pereira

É difícil mudar em muitos aspectos a moral sexual da Igreja e as suas consequências institucionais, mas sem uma mudança profunda na atitude da Igreja em relação à sexualidade tudo vai continuar na mesma.

Eu não sou católico, nem apostólico, nem romano e sou um ateu que se classifica de agnóstico para não ofender o Popper que há dentro de mim. Mas não sou, em 2019, anticlerical, e reconheço no meu país, também em 2019, o papel muito importante da Igreja, principalmente social e cultural. Não tenho qualquer vezo contra a instituição e reconheço mesmo que numa sociedade sem valores muitos dos valores do cristianismo que transporta a Igreja são positivos para a nossa vida colectiva, mesmo quando a Igreja não dá o exemplo. Num país onde há muita pobreza, muita exclusão, sem a Igreja tudo estaria muito pior, mesmo muito pior e a Igreja é uma poderosa força cultural e intelectual. Até aqui muito bem.

A partir daqui muito mal. Não é por acaso que várias vezes datei o que penso sobre a Igreja no ano de 2019, hoje e em Portugal, porque não queria generalizar para o passado, nem tenho a certeza do que vai ser no futuro. Apenas, hoje. E hoje a crise da Igreja católica, com sucessivos casos de pedofilia e abuso sexual de menores e maiores, é gravíssima, até porque foi ocultada ao mais alto nível. Padres e bispos cometeram crimes de delito comum e encontraram na Igreja e nas suas instituições a mesma protecção que os “soldados” da Máfia tinham na organização criminosa. O Papa actual, que em muitas matérias mostrou bastante coragem, compreendeu a dimensão do problema e parece resolvido a defrontá-lo. Não é fácil.

A razão do que aconteceu é simples e não tem qualquer complexidade: o celibato dos padres, o impedimento de as mulheres acederem ao sacerdócio e a condenação pela Igreja da homossexualidade, ou seja, a moral sexual do cristianismo. Esta moral sexual não data da origem do cristianismo, mas forjou-se em confronto com a moral e costumes pagãos, quando os cristãos começaram a “conquistar” Roma. Na verdade, não é dogma de fé, embora tenha sido, com o fim das primitivas Igrejas cristãs, uma tradição identitária da Igreja quer do Ocidente quer do Oriente.  

Mas nunca foi cumprida à letra e tal está abundantemente documentado, até para Portugal. Na célebre viagem de Frei Bartolomeu dos Mártires, e no que escreveu Frei Luís de Sousa, a regra era os padres estarem “amancebados” e viverem com as suas famílias, sem particular escândalos das populações. Os conventos eram muitas vezes descritos desde o século XVIII quase como sendo lupanares e houve muitos amores de “freiras portuguesas”. Já para não falar das práticas libertinas a que os fiéis se entregavam na ida à missa, como a prática do beliscão nas senhoras, que tinham de ir almofadadas para não serem magoadas e apalpadas. Do mesmo modo, a passagem rápida pelos boletins da censura durante a ditadura do Estado Novo revela como as histórias de padres e freiras violando a regra do celibato ou os votos eram uma permanente fonte de dichotes, denúncias, poemas satíricos, notícias mais ou menos crípticas nos jornais locais, tudo fervorosamente cortado pela censura. E algumas retratavam crimes, então e hoje.

Os conflitos gerados pela moral sexual cristã têm sido uma constante da história da Igreja que se tem agudizado com a crescente laicização das sociedades ocidentais. A Igreja nunca lhes deu uma resposta consistente e agora paga um preço muito elevado em todas as frentes, controlo dos nascimentos, planeamento familiar, papel da mulher, cada vez mais casais com vida em comum sem o casamento, desvalorização da virgindade, marginalização dos homossexuais, e, no limite, abusos sexuais e pedofilia. O tronco é comum: padres e freiras têm sexo e a pressão para não o sentirem é, num certo sentido simplista, antinatura.

Um dos resultados é o risco para a Igreja de ter, em particular nos países anglo-saxónicos, mas não só, cada vez mais homossexuais, num contexto de “armário” de sete chaves, convivendo nas múltiplas instituições de carácter educativo, no serviço da missa, nos coros das igrejas, nos escuteiros, com milhares de rapazes e raparigas que acabam por abusar. Até agora a Igreja protegia-os da denúncia pública, agora presume-se que vai deixar de o fazer. Mas isso não resolve o problema, porque a repressão da sexualidade não gera felicidade. O Diabo já sabia disso há muito tempo, porque era por aí que vinham a maioria das suas mais gráficas tentações.

Não viola a fé cristã, nem os fundamentos do cristianismo, nem sequer é particularmente recusado pelo povo cristão, que não vê grandes problemas em os padres se casarem. É difícil mudar em muitos aspectos a moral sexual da Igreja e as suas consequências institucionais, como os anglicanos perceberam quando decidiram fazer entrar no sacerdócio mulheres. Mas, sem uma mudança profunda na atitude da Igreja em relação à sexualidade, tudo vai continuar na mesma.

Crimes que não têm reparação

(Francisco Louçã, in Expresso, 23/02/2019)

LOUCA3

A Igreja não pode continuar misógina nem machista. Onde é que está que as mulheres não podem presidir à Eucaristia?


Se alguma das leitoras ou leitores desta coluna alguma vez abriu um livro de David Lodge, e até adivinho que muitas pessoas o fizeram com gosto, terá encontrado a amarga ironia de um casal de católicos ingleses a quem era proibido o uso de contracetivos nos anos de 1950 e de 1960, pelos dizeres das suas autoridades religiosas, aliás contra o que já era norma para a maioria da população, menos exposta a poderes tão fanatizados. A ginástica do registo das temperaturas para tentar adivinhar o ciclo da mulher e a restrição sexual adivinhatória deram a Lodge algumas das suas melhores páginas, mas certamente também muitas frustrações ao longo da vida do casal. Com bonomia e um humor avassalador, o escritor descreve esse mundo de voyeurismo dos padres sobre a sua vida, com as punições, confissões e castigos contra a prevaricação, e de proibição terminante do maior de todos os males, o princípio da tentação, a contraceção.

Ao concentrar tanta da sua energia no controlo estrito sobre a sexualidade dos seus paroquianos, a Igreja Católica chamou sobre si a atenção que agora revela a dupla hipocrisia do crime e da proteção ao crime contra as crianças (e freiras, acrescenta o papa Francisco) que foram sendo vítimas de abusos sistemáticos ao longo de gerações e porventura em todos os países. É para responder a esse manto de crime e de vergonha que se reúnem por estes dias, em Roma, os presidentes das conferências episcopais, forçados a encarar as vítimas.

AI DE QUEM

Citando palavras da Bíblia, o teólogo Anselmo Borges lembra a condenação por Jesus: “Ai de quem escandalizar uma criança. Era preferível atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. O hediondo destes crimes não é só o acontecimento em si ou a sua repetição, com o cortejo de vítimas que foi deixando pelo caminho. É também o encobrimento que permitiu a sua banalização, ou até o fechamento que manteve o poder de instituições em que a prática do crime era liberalizada. Por isso, é de facto a Igreja Católica que está em julgamento e Francisco assume-o com honestidade.

E é aqui que entra a tristeza escondida no humor de David Lodge. Ele não escreve sobre crimes e abusos. Escreve sobre o mal-estar, sobre a prepotência, sobre a vigilância sexual, um exercício que as regras da Igreja foram indicando aos seus sacerdotes, que as impuseram com devoção aos paroquianos. Ou seja, milhões de pessoas conheceram este tormento da confissão sobre a sua vida sexual e perceberam a obsessão de tantos sacerdotes com esses pecados. Há portanto duas razões poderosas que atualmente multiplicam o escândalo, além do crime contra as crianças e mulheres: a prosápia de pureza que protegia a abominação e a forma como a instituição salvaguardou os seus da acusação de abuso, se é que não criou mesmo uma cultura de culpa para calar as vítimas.

NÃO ESTÁ RELACIONADO?

Com essa cultura, o crime estendeu-se a muitos casos e serão bastantes os padres da Igreja Católica no banco dos réus, até se adivinhando que muitos mais virão a lá chegar. Em Portugal, só duas condenações, incluindo a do ex-vice-reitor do seminário do Fundão, a dez anos de prisão por abuso sexual, em 2013. Mas a pergunta que se impõe é esta: eram só as regras da inquisição no confessionário ou da punição da vida sexual como pecado que levavam a este sentimento de poder por parte de tantos padres?

Anselmo Borges responde que não. Diz ele, numa entrevista desta semana ao “Público”: “Já escrevi, citando um grande sociólogo, Javier Elzo, professor numa universidade jesuíta, que 80% ou mais do clero, padres e bispos em África estão a ter uma vida sexual aberta. Não esqueçamos que Jesus entregou o celibato a uma opção, à liberdade; portanto, a Igreja não pode impor isso como lei. E o abuso das freiras que agora o Papa também denunciou é a prova de que o celibato leva a vidas duplas. (…) Como a recusa da ordenação das mulheres, o celibato não faz sentido. Jesus tinha discípulos e discípulas. A Igreja não pode continuar misógina nem machista. Onde é que está que as mulheres não podem presidir à Eucaristia? O cardeal D. José Policarpo chegou a dizer isto, simplesmente foi chamado ao Vaticano”. Se assim for, o celibato e a assunção de um poder social que considera as mulheres como subordinadas contribuirá, em muitos casos, para projetar uma vida tormentosa, incapaz de lidar com a pulsão sexual.

Olhando para trás, percebe-se o absurdo destas proibições, como a do celibato, só proclamada mil anos depois de Jesus, no Concílio de Latrão, em 1123, e reafirmada no século XVI no de Trento (mas tinha havido pelo menos um Papa casado entre as duas reuniões). No caso do sacerdócio das mulheres, é “sentença definitiva”, determinava João Paulo II (e Francisco repete-o), é mesmo um dos “delitos mais graves” segundo a lista da Congregação para a Doutrina da Fé.

Bem sei que um ateu que se mete nestes assuntos será maltratado por isto ser exclusivo de quem professa obediência. Mas até onde é que levou a obediência a estas regras?


 O sortilégio da eu-sociedade

O Facebook já inclui 2200 milhões de pessoas. Nos Estados Unidos, 72% da população entre os 30 e 44 anos usa-o todos os dias (a menor percentagem é dos mais de 65 anos, ainda assim 54%). No mundo, o YouTube é usado por um pouco menos, 1900 milhões, o WhatsApp por 1500 milhões. Em Portugal, usam o Facebook mais de 50% dos residentes entre os 15 e os 64 anos. Ou seja, não é para amanhã, o modo de comunicação entre as pessoas já mudou. Mudou para a política, como se descobriu com o sucesso das campanhas de Trump e de Boslonaro, ou como ainda só começa a ser ensaiado em Portugal, mudou com a Cambridge Analytica a capturar e a usar 90 milhões de perfis em promoções eleitorais, mudou com o uso de exércitos de robôs que criam a ilusão de consenso em torno de notícias e de argumentos, policiando a internet com palavras-chave e tiros de canhão, mudou com a sensação de que, no mundo da mentira, todo o sucesso é possível. A isto alguns têm chamado a eu-conomia, atentos às suas potencialidades para a publicidade, mas é mais a eu-sociedade que se está a construir — só que sem o eu.

Segundo as análises da Common Social Media, a maioria dos adolescentes diz ter sido assediada no FB. Mas do que não se dão conta é do que acontece quando não são ameaçados: vivem uma sociabilidade intensa mas sem relação face a face com outros (em 2012 metade dos jovens entre os 13-17 anos dos EUA preferia a interação direta, agora só 32% a desejam). O que significa que perdem a capacidade de aprendizagem emocional em circunstâncias diversas e perante pessoas, mesmo que comuniquem com perfis, que podem ser verdadeiros ou falsos. Esta é uma sociedade virtual no rigoroso sentido da palavra. Mas há ainda outra consequência: é que estes adolescentes, e mesmo os outros adultos ou idosos que mergulham neste meandro, e são muitos, passam a aceder exclusivamente a um mundo de informações sem qualquer intermediação que não seja a da tecnologia de criar emoção e, portanto, de efabular. Se, em Portugal, um youtuber de sucesso já tem mais visualizações do que o telejornal mais visto, aqui está um incentivo poderoso a multiplicar a emotividade de cada prestação: ela deve chocar e impressionar. Para que esse youtuber mantenha a sua carreira de sucesso, tem de ser espampanante e criar hábito de consumo. Um dos efeitos deste sucesso, aliás, é que alguma comunicação social está a imitar o modelo, e já temos até um programa em canal de grande audiência que segue precisamente este padrão, a que alguns antiquados chamariam populista.

Assim, talvez sem darmos conta, se vai formando uma nova sociedade. Dentro de cinco anos, haverá jovens a chegar à universidade que nunca abriram um jornal nem olharam um telejornal. Mas terão muita comunicação, a do boato, a da intriga, a dos ódios e dos amores de fulano de tal (a coisa é ainda mais complicada, dado não ser seguro que, se costumarem ver alguma comunicação social tradicional, não alcancem o mesmo hábito). Para a economia de mercado, é uma oportunidade de ouro e adivinho que a publicidade vá mudar para narrativas tremendas que formem clãs em torno de produtos. Para a política, é a ameaça da feudalização dos sentimentos. Para a vida, que ainda importa mais, esta economia da solidão é uma fantasia viciante e perigosa. Chama-se mundo novo.