As toupeiras também têm coração

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 27/05/2016)

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João Quadros

Um espião português foi detido, em Roma, por suspeita de estar a vender segredos a um funcionário dos serviços de informações da Rússia.

A primeira pergunta que me ocorre é: será que isto conta como exportações? Pode haver aqui um mercado a explorar. A quanto estará o barril do segredo?
Eu sou péssimo a guardar segredos. Nota-se logo que estou a esconder alguma coisa. Mesmo que essa coisa não tenha nada a ver com a pessoa que está à minha frente. Jamais conseguiria guardar o terceiro segredo de Fátima, como fez a irmã Lúcia. Haveria de acabar por contar ao oftalmologista.

Percebo, perfeitamente, que um espião tenha necessidade de desabafar. Mas, segundo percebi, este nosso espião estava a desabafar a troco de 10 mil euros do espião russo, com quem se encontrou em Roma. Espero que os 10 mil euros fossem só o sinal. Parece-me pouco por um segredo da NATO. Espiões que se vendem ao preço de um central da II Liga de futebol portuguesa. Que pena o Jorge Mendes não andar, também, metido nisto.

Diz quem o conhece (ao espião) que Frederico Carvalho Gil era “certinho” até que se divorciou. Licenciado em Filosofia, segundo os antigos colegas (espiões), “chegava a ser gozado pela sua correcção considerada excessiva”, “incapaz sequer de dizer um palavrão”. Resumindo, estavam habituados a vê-lo como intelectual e “certinho” até que o viram “de rabo-de-cavalo e a fazer vida nocturna.” Por acaso, eu associo muito os espiões à vida nocturna. Deve ser por isso que muitos espiões portugueses vêm da maçonaria. As mulheres já estavam habituadas a que eles saíssem à noite sem explicar bem onde iam.

Nos livros e filmes de espiões, alguns baseados na realidade, os espiões trocam de lado numa terrível vingança depois de terem sido traídos ou abandonados à morte numa missão. Os nosso espiões mudam de lado porque estão com uma crise de meia-idade pós-divórcio. O mais provável é o nosso espião ter ido vender um segredo da NATO aos russos para ter dinheiro para ir comprar um Porsche.

Se os amigos e colegas do espião dizem que ele, desde o divórcio, começou a usar rabo-de-cavalo, deixou de usar gravata e passou a ir para a noite, isto tem muito pouco a ver com espionagem. Estamos perante o clássico caso do recém-divorciado que quer convencer a ex-mulher que já é outra pessoa. Usa rabo-de-cavalo, sai à noite e vende segredos aos russos. Como quem diz: “Já não sou o bota de elástico com quem te casaste. Até fiz uma tatuagem a dizer Fuck e, agora, sou o bandido que todas adoram.”

A nossa espionagem é isto, muito pouco John le Carré, bastante Corín Tellado.

Os burocratas que falam demais

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 27/05/2016)

Autor

Pacheco Pereira

Um dos responsáveis do BCE, Peter Praet, veio dar uma típica entrevista ao Público, mais uma na pressão europeia contra o governo Costa e saudosa do governo Passos Coelho. Nunca toda uma falange de burocratas europeus foi tão loquaz dentro desta linha de actuação e o que dizem é quase sempre o mesmo, com pequenas variações. O governo Passos seguia o caminho certo, fez as tais “reformas estruturais”, cujo conteúdo é sempre os cortes de salários, pensões, feriados, horários, e “flexibilidade laboral”. O governo Costa está a seguir um caminho “perigoso” ao “reverter” essas “reformas”. Praet lembra que a “disciplina dos mercados está sempre presente”, e a “disciplina” é a palmatória dos juros.

Deixo de lado o aspecto muito significativo na entrevista da defesa de uma “banca pan-europeia”, concepção que está presente no modo como a questão do Banif foi gerida pelo BCE, a favor do Santander, certamente um dos bancos que sobreviverá a este caminho “pan-europeu”. As suas declarações são claras: o que interessa nos bancos é que sejam bem geridos, não que sejam detidos por nacionais. Pode sempre haver bancos locais, não é esse o problema, mas ter todo o sistema bancário exposto a uma economia local na união monetária como a nossa é uma combinação perigosa. Valia a pena perguntar também quais são os efeitos de ter uma “economia nacional” “exposta” a uma banca “pan -europeia” que seja alheia aos seus problemas e ao seu desenvolvimento.

Peter Praet é um belga cuja carreira foi toda feita entre a banca e a burocracia europeia, entre o banco Fortis e o Eurogrupo e agora o BCE. Por coincidência, o Fortis foi um dos bancos mais atingido pela crise financeira de 2008, acompanhada por vários escândalos, que acabaram pela venda do banco ao BNP Paribas. Toda a história do Fortis é paradigmática do modo como a banca e o Estado reagiram à própria crise que criaram. Praet, entre outras funções, foi economista-chefe do Fortis, e depois responsável por vários grupos de supervisão bancária, mas como se vê os desastres financeiros e da supervisão não prejudicam a carreira de ninguém.

Praet não se incomoda nada em criticar directamente a política do Governo quanto às 35 horas. Para ele é óbvio que um governo legítimo é uma coisa menor do que o que pensa a burocracia do BCE. Até uma certa prudência da reserva estes funcionários perderam.

Alguém me explica por que razão mudar os horários de trabalho na função pública de 35 para 40 horas é uma “reforma estrutural”? E alguém me explica por que razão diminuir os dias feriados é normal e repor os feriados anulados é anormal?

A palavra “estrutural” é uma das mais abusadas e violadas do nosso vocabulário político. Mas pode ser que alguém explique o carácter “estrutural” de medidas que os próprios que as impuseram apresentaram como temporárias ou de “crise” e destinadas a serem “revertidas” a prazo. Nós sabíamos que não ia ser assim e que mesmo as “reversões” de medidas consideradas ilegais pelo Tribunal Constitucional foi protelada por várias habilidades, mas pelo menos esse era o discurso. Pelos vistos quando outros as “revertem”, já as medidas temporárias, ou seja apresentadas como conjunturais, passam a “estruturais” por milagre.

Partidos cujos líderes são eleitos com mais de 90% estão em crise?

 Quer Pedro Passos Coelho, quer António Costa foram eleitos no PSD e no PS, respectivamente, por maiorias acima dos 90%. É um dos sinais menos saudáveis da profunda crise interior dos grandes partidos portugueses, aqui mais grave do que acontece com partidos congéneres na Europa. No PS não há opositores à experiência de uma maioria de esquerda? No PSD não há opositores à forte viragem à direita de Passos? Haver há, mas estão fora das estruturas interiores desses partidos, mais no PSD do que no PS.

Ambos os partidos conhecem fenómenos aparelhísticos cada vez mais acentuados, em que a vida interna de um partido é controlada pelos “permanentes”, vindos da burocracia partidária, que comunica quer com cargos autárquicos, quer com cargos como os de deputados que duplicam e estendem essa burocracia. A dependência interior para as nomeações e para os jobs for the boys de lideranças, muito pouco tolerantes porque frágeis e dependentes de fidelidades de grupo, faz com que os partidos se fechem a qualquer competição interna.

O controlo das secções faz parte do “património” dos seus dirigentes e isso explica estes resultados anómalos. A competitividade interior acaba por ser apenas por lugares e influência e não tem bases em diferenças políticas nem ideológicas. Apenas o PS deu um passo no sentido de abertura ao exterior nas últimas eleições que opuseram Costa a Seguro, mas logo a seguir fechou-se de novo.

Não quero ser alemão

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 27/05/2016)

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Baptista Bastos

É preciso acentuar que a União Europeia já o não é. O egoísmo sobrepôs-se aos grandes princípios do humanismo e da solidariedade (…) e hoje, o nosso continente mais não é do que um condomínio fechado e cercado de arame farpado.


É extremamente preocupante a ausência da comunicação social portuguesa ante o descalabro europeu. É preciso acentuar que a União Europeia já o não é. O egoísmo sobrepôs-se aos grandes princípios do humanismo e da solidariedade que fundamentaram o seu nascimento, e, hoje, o nosso continente mais não é do que um condomínio fechado e cercado de arame farpado. As “reportagens” apresentadas pelas televisões portuguesas são gemidos mal-enjorcados em que a verdadeira natureza dos factos fica encoberta pelo horror dos acampamentos de refugiados, com miúdos a olhar-nos já sem lágrimas, mulheres cobertas de espanto e de medo, e homens encerrados na sua própria tragédia.

A matança de inocentes não pára, enquanto senhores muito consideráveis discutem, nos areópagos internacionais, banalidades e ineficácias. Já o disse e repito: não preciso desta falaciosa União para ser europeu; mais: não quero ser europeu desta União, mandada pela Alemanha da finança e dos negócios. Não quero ser alemão. Estou preocupado, na minha velha pele portuguesa, pelo descalabro moral, político e económico em que o continente todos os dias se apresenta.

Os motins em que se transformam manifestações populares e cívicas já não podem ser apagados ou minimizados. Na Bélgica, em França, em Espanha, na Grécia, o descontentamento contra a soberba de uma hegemonia alemã que nada aprendeu com a História, e tem os cofres a abarrotar de dinheiro, avulta de modo perturbador. Esta organização económica e política em que se converteu uma ideia generosa e humanista, constitui o estopim de qualquer coisa de medonho que, inevitavelmente, vai acontecer. Há semanas, numa entrevista ornada de banalidades, a SIC (sempre ela!) colocou o Ricardo Costa a “falazar” com o Durão Barroso num deprimente diálogo em que este senhor, obeso e feliz, fez o elogio vergonhoso dos “benefícios” que Portugal tinha recebido da União. Como tenho boa memória, relembrei o moço repórter, autor do comentário “Estou no reino do Cavaquistão”, por ele atribuído a uma região do País simpática a um político felizmente já “obituado” na geografia política.

Agora, Bruxelas parece ameaçar com sanções disciplinares o Governo de António Costa, manifestamente hostilizado pelo Partido Popular Europeu, uma espécie de albergue espanhol onde se acoita o piorio da direita e da extrema-direita fascistóide.

Porém, ao que consta, Costa tem-se desenvencilhado dos ardis e das armadilhas montados com desvelo pelos inimigos (não são adversários, são inimigos pela natureza ideológica do instituído), por desacordo central com as decisões anómalas de Bruxelas.

Não quero ser alemão. Sou português de uma antiga estirpe, e honro-me por isso. Viajei muito, de olhos abertos e coração escancarado. Pertenço a uma cultura que reúne Goethe e Stendhal, Camões e Carlos de Oliveira, e José Gomes Ferreira, aquele que vale a pena; Maler, Beethoven e Penderecki; Valle-Inclán e Gabriel Miró, Cervantes e Camilo Castelo Branco, Eça e Padre Vieira, a quem Fernando Pessoa chamou o imperador da língua portuguesa. Tenho-os ali, a eles e a muitíssimo mais deles, frequento-os com paixão e aprazimento. E também Jorge Palma, Sérgio Godinho, Zeca, Tordo, Carlos Mendes, companheiros de tudo o que há de melhor.

Não gosto e não quero pertencer a esta Alemanha de Merkel e do desprezo. Não gosto e não quero. É uma luta desigual. Eu sei; mas estou onde sempre estive e devo estar. Eis.