Corso, ricorso

(José Pacheco Pereira, in Público, 12/06/2017)

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              Pacheco Pereira

O tema do dia de hoje são as eleições francesas, mas confesso que são para mim as menos interessantes das eleições recentemente ocorridas. Esta minha falta de interesse, certamente erro meu, acompanha também um desinteresse considerável com a política francesa em que nada me parece inovador e de “futuro”. Bem pelo contrário, mesmo apesar do terramoto eleitoral suscitado pelas presidenciais, que deixou numa situação de párias os grandes partidos tradicionais, nem mesmo assim saiu daí nada de muito novo. Saiu Macron, o homem de quem os conservadores, e a esquerda do “ajustamento” gostam e que, convém lembrar, vai ser um digno sucessor de Hollande.

Já todos percebemos que as eleições não eram o que costumavam ser, os partidos de governo são cada menos de governo, os partidos novos que se criam ou são “movimentos” mais do que partidos, ou são a reciclagem quase sempre não conseguida de partidos velhos. O papel do populismo é importante, mas é um chapéu demasiado grande para nele caberem todas as coisas que se querem lá meter, uma das quais é a confusão entre popular e populista e a outra é chamar populista a tudo o que não é conservador ou centrista. Outra ainda é uma flutuação entre temas de direita e de esquerda, que muitas vezes não acompanha o proselitismo das estruturas políticas tradicionais.

Em 2016, Trump enfiou um monumental barrete na opinião e no jornalismo ilustrado. Depois disso, pelo menos nos EUA, o jornalismo melhorou muito e aprendeu mais lições do que o Partido Democrático que bem precisava delas, mas o abalo ainda se faz sentir. O abalo fez-se em vários sentidos, tanto mais que ele acordou todo um movimento social e político de “resistência” como não se via na América desde a guerra do Vietnam. E Trump coloca um grande desafio á Europa que não pode ser nem residualmente “trumpista” como foi Theresa May.

Mas Trump não foi o único, Bernie Sanders fez algo de muito semelhante. Ter um candidato presidencial com considerável sucesso, que se proclamava do “socialismo”, era nos EUA uma coisa quase impensável, e a mobilização da juventude à sua volta, acaba por dar um impulso à “resistência” a Trump. Essa “resistência” vai ser mais longa do que a pressa de alguns democratas que pensam que o “impeachment” está á porta e se livram de Trump com facilidade. Não livram, mas a América vai ser muito diferente depois dele, como acontece sempre com personagens carismáticas, e Trump é-o. O panorama da política, e por arrasto da comunicação social, vai ser pela primeira vez do século XXI e não do século XX. Aqui os EUA estão à frente.

Em 2017, Corbyn fez o mesmo no Reino Unido. Maltratado até ao limite pela imprensa britânica da direita à esquerda, considerado uma excrescência ideológica dos anos sessenta, uma espécie de morto-vivo que tinha ressuscitado do passado como uma múmia amaldiçoada, humilhado pelos conservadores e pelos partidários da “terceira via”, sempre com prognósticos de que iria acabar no dia seguinte, conseguiu um excelente resultado para o Labour, no meio de uma conjuntura que May e a imprensa pensavam ser de derrota esmagadora para os trabalhistas. Não adianta dizer que “todos perderam”, porque o Labour não ganhou as eleições, mas, aquilo que agora se chama o “momentum” está do seu lado. Não se pode dizer que esse “momentum” dure sempre, mas enquanto dura condiciona toda a luta política.

Quer Bernie Sanders, quer Corbyn mobilizaram os jovens como nenhum candidato fez no passado recente e abriram caminho para que se pudessem discutir temas e políticas que foram diabolizadas nas últimas décadas. Deixou de haver uma agenda “ultrapassada” e outra “moderna”, um dos instrumentos ideológicos dos partidários do “ajustamento”, para retirarem da vida política aceitável, bem educada, “realista”, todo uma panóplia de medidas que quase foram ilegalizadas, do socialismo, da social-democracia, do keynesianismo. O “não há alternativa” é a principal vítima dos processos eleitorais recentes, mesmo na América de Trump.

É verdade que em França, também as coisas estão a mudar, mas bastante menos que no Reino Unido e nos EUA. O sistema político desagrega-se pouco a pouco, perde capacidade de, por exemplo, condicionar de forma significativa as presidenciais, mas mantem uma considerável resistência conservadora à mudança como “surpresa”, a única mudança que implica um sentido de história. O sistema eleitoral francês de duas voltas também tem um efeito de marginalização, retirando a muito eleitores a possibilidade de verem reflectida a sua força numérica no sistema político.

Num contexto de enorme abstenção, a vitória esmagadora do proto-partido de Macron, mostra mais a força do conservadorismo francês do que qualquer impulso de mudança. Ela será saudada pelos europeístas, que não querem nenhuma mudança na Europa e vão prosseguir a mesma via de desastre que levou à reacção do Brexit e ao esvaziamento democrático da União, com a correlativa crescente contestação das políticas europeias. Pensam que Macron vai “reformar” a União naquilo que ela precisava, mais democracia nas nações, menos burocracia em Bruxelas, mais diferença e menos “unidade” à volta da Alemanha? Não vai. Passada a novidade, corre-se o risco de, com um eixo franco-alemão com a França com mais força, prossiga a mesma política centralista.

Será também saudado pelos nostálgicos da política habitual do centrismo europeu, e pelos saudosistas da “terceira via”, como uma receita ao mesmo tempo contra o populismo e o nacionalismo, e contra aquilo que tem vindo a ser chamado o “populismo” de esquerda. Os que intimamente ficaram furiosos com a performance de Corbyn, – e muita gente nos partidos socialistas preferia a direita a “essa esquerda”, – ficam hoje felizes com Macron.

Na verdade, a França, com a implosão dos socialistas ficou no essencial com duas forças políticas organizadas e com capacidade eleitoral, os republicanos gaulistas e a FN. O “Republique en marche” é demasiadamente uma coligação de circunstância, destinada a dar uma maioria parlamentar ao Presidente Macron, No entanto, o “centrismo” de Macron pode ser um epifenómeno que subsistirá enquanto houver o perigo de Le Pen e terá muitas dificuldades em se estabilizar como um partido político, em particular, quando as políticas sociais de Macron aparecerem. Macron, como se sabe, foi o inventor da Lei do Trabalho que causou a maior reacção social nos últimos anos em França,

A destruição dos grandes partidos da esquerda francesa, o PSF e o PCF está longe de ser substituída pelos “movimentos” à volta dos grupos anticapitalistas que herdaram a tradição trotsquista, que deixam a esquerda francesa com praticamente duas forças com o mesmo peso, sendo uma delas o PS, que convém não esquecer estava no poder até há bem pouco tempo, e o “France Insoumise”, cuja performance eleitoral é razoável, mas está longe de ser um movimento próximo do que foram os jovens corbynistas no Reino Unido.

A França tem poucas forças interiores a favor da mudança em comparação com a Espanha, a Itália e o Reino Unido, e são essas forças, e só essas forças, seja pelo seu crescimento e afirmação, seja pela reacção que provocam, as únicas capazes de proceder a alterações significativas do sistema político.

Se Macron prosseguir em França a mesma política de austeridade dos últimos anos, com os mesmos alvos sociais, que tanto agrada a Berlim e ao Eurogrupo, os demónios que parece apaziguar, levantar-se-ão todos de novo. Só a ruptura com essa política pode hoje na Europa introduzir “novidade” no sistema político.

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A criminalização política da esquerda

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/05/2017)

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                                    Daniel Oliveira

Jeremy Corbyn é um mau candidato. Tem quase tudo para ser bom. Conta com uma base militante ativa, sobretudo de jovens. Posiciona-se na esquerda do Labour, propondo uma regresso do partido às suas origens depois de Thatcher, por fora, e Blair, por dentro, lhe terem partido espinha orgânica (os sindicatos), social (o apoio dos trabalhadores) e programática (a social-democracia). Corbyn vai de encontro aos movimentos que crescem em França ou nos EUA e que serão os únicos capazes de se diferenciarem das agendas neoliberal e xenófoba. O regresso à social-democracia é a única terceira via que sobra. Tem uma coisa contra ele: o Brexit, que o deixou o Labour sem um discurso claro que consiga casar as diferentes forças sociais em que tem de se basear para voltar a crescer. Esse é um problema mais geral que afeta todos os partidos social-democratas europeus, como corretamente assinalou, no “Expresso” desta semana, Pedro Adão e Silva. Mas Corbyn só é um mau candidato por causa de Corbyn. O que ele vai buscar ao passado é bom, mas, ao contrário de Bernie Sanders, não sabe adaptá-lo ao presente. Jeremy Corbyn facilita a caricatura.

Apesar de Corbyn ser o candidato errado com o rumo apontado para sítio certo, não ajuda o facto da elite do Partido Trabalhista ter passado os últimos anos a conspirar contra ele. Aliás, ele vive um problema semelhante ao do atual Partido Socialista Francês: os mesmos que descaracterizaram o centro-esquerda, pondo-o ao serviço de uma agenda que lhe é contrária e atirando-o para a oposição por muitos e bons anos, não aceitam qualquer tentativa de mudança. Não é má vontade, é impossibilidade: os interesses que defendem não o poderiam permitir. Mas a resistência não vem apenas ou sobretudo de dentro.

Esta semana, através duma fuga para a imprensa, ficaram a conhecer-se algumas das propostas do líder trabalhista. As medidas que têm lançado mais debate são a renacionalização dos transportes ferroviários, dos correios e de uma parte do sistema de distribuição de energia; a abolição progressiva das propinas universitárias; e o aumento do orçamento do serviço nacional de saúde financiado através da subida de impostos sobre as grandes empresas e os maiores rendimentos.

O programa do Labour foi pintado de vermelho forte pela imprensa britânica. A renacionalização de comboios é apoiada por 58% dos britânicos e a dos correios por 67%, mas o ambiente de criminalização política de qualquer medida social-democrata está instalado nos media

Estas medidas, que correspondem ao que de mais tradicional pode haver num programa social-democrática, foram pintadas de vermelho forte pela imprensa britânica, consideradas uma nota de suicídio e vendidas como um regresso aos anos 70 ou mesmo ao pós-guerra. Na realidade, a renacionalização de comboios é apoiada por 58% dos britânicos e a dos correios por 67%. Não é o povo que fica chocado com estas propostas – Corbyn até subiu ligeiramente nas sondagens, que lhe garantem derrota mais que certa. Mas o ambiente de criminalização política de qualquer medida social-democrata, incluindo aquelas que passam pela correção de opções que se revelaram negativas para a generalidade da população, está instalado nos media. Ao ponto de se decretar como inaceitável o que respeita as regras democráticas, corresponde à tradição do centro-esquerda europeu e é desejado pela maioria da população.

Os próximos meses servirão para se explicar porque não devem os britânicos desejar o que desejam. Começando por ridicularizar a resposta à vontade da maioria. O “Daily Mail” já começou, fazendo uma manchete sugestiva sobre o programa trabalhista: “Corbyn’s Fantasy Land”. O editor de economia do “The Guardian”, Larry Elliott, resumiu bem a coisa: “Os rendimentos reais estão em queda. A desigualdade aumenta. O SNS está numa situação desesperada. A economia pouco cresce apesar de mais de oito anos de estímulos sem precedentes do Banco da Inglaterra. A dívida privada está a regressar aos seus níveis recorde anteriores. Há um profundo desencontro entre os mercados financeiros e o estado da economia real. Se o que escrevi acima é verdadeiro, qual é a verdadeira fantasia: a ideia do Partido Trabalhista de que o rendimento, a riqueza e o poder devem ser distribuídos de forma um pouco mais equilibrada ou a ideia de que o atual estado de coisas é sustentável por muito mais tempo?” Esta voz no deserto terá pouco eco. Os próximos meses serão de esmagamento das propostas “radicais”, “irrealistas” e “populistas” de Corbyn.

Não é só no Reino Unido que assistimos a este processo de criminalização política de qualquer programa de esquerda. Depois de semanas a acusar a esquerda francesa de ser responsável por uma possível vitória de Marine Le Pen e de tal não ter sucedido, voltámos à colagem de Mélenchon a Le Pen. Aqueles que há uma semana tinham o dever histórico de se unir contra o fascismo (dever que obviamente cumpriram), passaram a ser de novo tratados como parentes próximos dos fascistas. Chegámos ao ponto de que quem não teça loas a Macron é suspeito de amizade com a extrema-direita. Mesmo depois da votação.

Por um qualquer malabarismo político, todos os que não se revejam na União Europeia passaram a ser tratados como inimigos da democracia. Mesmo que a sua crítica à União seja, acima de tudo, uma critica democrática. Os tempos estão difíceis e serram-se fileiras. Não, não são fileiras contra a xenofobia. São fileiras que pretendem reduzir a democracia a uma escolha do pessoal político que continuará a impor o mesmo programa, tornando qualquer alternativa ou risível ou autoritária. A TINA (There Is No Alternative) instituiu-se como discurso político oficial. Sobretudo nos media, onde o sinónimo de “alternativa” passou a ser, na melhor das hipóteses, “populismo”. Na pior, “fascismo”.


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Redesenhando a TINA (There is no alternative)

(J. Nascimento Rodrigues, in Facebook, 06/04/2017)

TINA

Moral da história abaixo: Em todas, meus caros. Tem de ser em todas mesmo. Não só em uma.
1- A gente apanhou com a exportacionite aguda como solução milagrosa no tempo do protetorado dos liberalocheviques. Venderam aquela coisa dos “transacionáveis” (um palavrão que faz até pele de galinha ao cidadão comum) como creme de tecnicalês para poderem fazer a “desvalorização interna” e o esmagamento do consumo interno (para restringir importações).
É verdade que as exportações de bens e serviços subiram para 40,3% do PIB no final de 2015 (para citar o último número oficial), e que, em janeiro de 2017, aumentaram quase 20% em termos homólogos. Mas, a dinâmica de crescimento nos bens esteve nos voláteis da energia e em sectores muito ligados às cadeias mundiais de fornecedores (automóveis, componentes, bens intermédios), sensíveis ao ir e vir da globalização.
A ideia vigarista que se faria a “revolução do tecido económico” portuga em três anos de protetorado (com a tal imposição de fora anexa ao resgate) ou mesmo em dois mandatos legislativos para ir na direção, digamos, da Irlanda ou de Singapura, não passava disso mesmo, vigarice pegada.

2- Um país com uma matriz desde o final do século XV de capitalismo rentista, que perdeu as revoluções financeira e industrial no momento certo, que vegetou na exploração geopolítica das colónias (um mercado cativo também e para truques cambiais) e dos Açores no tempo da ditadura, que agarrou a Europa como nova árvore das patacas, não se muda à la bolchevique (mesmo que seja com creme liberalóide).

Houve um esforço de voluntarismo empresarial? Houve — e bem; e, aliás, desde há alguns anos continuadamente. E o exemplo tem mesmo de ser aquele: pegar no voo e ir aos sítios farejar, e não só em feiras; ter uma radar digital permanente para rastrear oportunidades e agarrar nelas “fisicamente falando”. É algo que tem de se tornar uma rotina para mais sectores do que os case studies e reportagens habituais: vestuário; sapatos; vinhos e alguns outros produtos do território; TIs (particularmente as empresas metanacionais no ADN que têm produtos ou serviços que encaixam nesses mercados promissores). E não só para essa coisa agora fina que chamam de unicórnios (que raio de nome).
3- A gente até precisa de ir na direção daqueles dois casos extremos de Irlanda e Singapura. Mas eles têm uma estratégia mais ampla do que apenas exportação, apostam, também, na reexportação ou em alguns truques. Jogam, de facto, em vários tabuleiros. Os portugas até têm aeroportos e portos que poderiam ser hubs para isso; até poderíamos apostar em espaços de carimbar valor acrescentado nas áreas aeroportuárias ou portuárias adjacentes. O milagre da exportação para o contentor, tout court, tem limites. O voluntarismo não chega. E, também, é preciso algum tempo e sorte.
4- Depois disse-se que tinha de se acelerar o consumo doméstico. A estratégia (temporária, naturalmente) era basicamente dar uma justificação «técnica» para devolver o que foi roubado a vários segmentos de rendimentos no tempo do protetorado.
Mas, quanto ao fundo, e à parte táticas políticas, o consumo doméstico até merece um empurrão — o tecido dos não transacionáveis não é uma coisa para liquidar; uma espécie de aberração dos tempos modernos. O que é para liquidar é o rentismo e capitalismo de compadrio (nacional e transnacional) que lhe esteja associado. No próprio consumo doméstico se pode testar inovação que depois se pode internacionalizar, e até atrair inovadores de fora para testarem a sorte cá. Começar cá dentro, testar bens e serviços em segmentos de consumo interno específicos e depois ir para fora, não é nada de novo. É do ABC. E ter um mercado interno dinâmico, mesmo que pequenino; é bom, não é mau, estúpidos!
5- Valeu, no entretanto, um cisne cor de rosa, o de Portugal ficar na moda, e cair-nos no regaço a expansão surpresa do turismo. O turismo não é nenhuma peçonha, uma chatice para aqueles autóctones que suspiram pelo quarteirão como uma aldeia em redoma — é uma das nossa especializações (e antiga), e até aí há, ainda, muita, muita, muita oportunidade para explorar e muita muita boa prática e ideias lá de fora para “copiar” — criativamente, já agora. Dar 150% no turismo não quer dizer entrar de cabeça numa monocultura e repetir as asneiras todas que se fizeram em seu nome. Mas uma coisa é certa: ou se aproveita agora o balanço e se alavanca o sector para um nível mais elevado e com fluxo sustentado, ou a janela fecha-se depois.
6- Em suma, é preciso jogar em VÁRIOS tabuleiros. Não os antagonizar, uns em relação aos outros, com vigarices falsamente “ideológicas”. Parece uma maluqueira, né? Uma coisa que só vai dar stress e acaba em sobreextenção dos esforços? Mas é a vida. Não há alternativa (a tal TINA).