A criminalização política da esquerda

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/05/2017)

Autor

                                    Daniel Oliveira

Jeremy Corbyn é um mau candidato. Tem quase tudo para ser bom. Conta com uma base militante ativa, sobretudo de jovens. Posiciona-se na esquerda do Labour, propondo uma regresso do partido às suas origens depois de Thatcher, por fora, e Blair, por dentro, lhe terem partido espinha orgânica (os sindicatos), social (o apoio dos trabalhadores) e programática (a social-democracia). Corbyn vai de encontro aos movimentos que crescem em França ou nos EUA e que serão os únicos capazes de se diferenciarem das agendas neoliberal e xenófoba. O regresso à social-democracia é a única terceira via que sobra. Tem uma coisa contra ele: o Brexit, que o deixou o Labour sem um discurso claro que consiga casar as diferentes forças sociais em que tem de se basear para voltar a crescer. Esse é um problema mais geral que afeta todos os partidos social-democratas europeus, como corretamente assinalou, no “Expresso” desta semana, Pedro Adão e Silva. Mas Corbyn só é um mau candidato por causa de Corbyn. O que ele vai buscar ao passado é bom, mas, ao contrário de Bernie Sanders, não sabe adaptá-lo ao presente. Jeremy Corbyn facilita a caricatura.

Apesar de Corbyn ser o candidato errado com o rumo apontado para sítio certo, não ajuda o facto da elite do Partido Trabalhista ter passado os últimos anos a conspirar contra ele. Aliás, ele vive um problema semelhante ao do atual Partido Socialista Francês: os mesmos que descaracterizaram o centro-esquerda, pondo-o ao serviço de uma agenda que lhe é contrária e atirando-o para a oposição por muitos e bons anos, não aceitam qualquer tentativa de mudança. Não é má vontade, é impossibilidade: os interesses que defendem não o poderiam permitir. Mas a resistência não vem apenas ou sobretudo de dentro.

Esta semana, através duma fuga para a imprensa, ficaram a conhecer-se algumas das propostas do líder trabalhista. As medidas que têm lançado mais debate são a renacionalização dos transportes ferroviários, dos correios e de uma parte do sistema de distribuição de energia; a abolição progressiva das propinas universitárias; e o aumento do orçamento do serviço nacional de saúde financiado através da subida de impostos sobre as grandes empresas e os maiores rendimentos.

O programa do Labour foi pintado de vermelho forte pela imprensa britânica. A renacionalização de comboios é apoiada por 58% dos britânicos e a dos correios por 67%, mas o ambiente de criminalização política de qualquer medida social-democrata está instalado nos media

Estas medidas, que correspondem ao que de mais tradicional pode haver num programa social-democrática, foram pintadas de vermelho forte pela imprensa britânica, consideradas uma nota de suicídio e vendidas como um regresso aos anos 70 ou mesmo ao pós-guerra. Na realidade, a renacionalização de comboios é apoiada por 58% dos britânicos e a dos correios por 67%. Não é o povo que fica chocado com estas propostas – Corbyn até subiu ligeiramente nas sondagens, que lhe garantem derrota mais que certa. Mas o ambiente de criminalização política de qualquer medida social-democrata, incluindo aquelas que passam pela correção de opções que se revelaram negativas para a generalidade da população, está instalado nos media. Ao ponto de se decretar como inaceitável o que respeita as regras democráticas, corresponde à tradição do centro-esquerda europeu e é desejado pela maioria da população.

Os próximos meses servirão para se explicar porque não devem os britânicos desejar o que desejam. Começando por ridicularizar a resposta à vontade da maioria. O “Daily Mail” já começou, fazendo uma manchete sugestiva sobre o programa trabalhista: “Corbyn’s Fantasy Land”. O editor de economia do “The Guardian”, Larry Elliott, resumiu bem a coisa: “Os rendimentos reais estão em queda. A desigualdade aumenta. O SNS está numa situação desesperada. A economia pouco cresce apesar de mais de oito anos de estímulos sem precedentes do Banco da Inglaterra. A dívida privada está a regressar aos seus níveis recorde anteriores. Há um profundo desencontro entre os mercados financeiros e o estado da economia real. Se o que escrevi acima é verdadeiro, qual é a verdadeira fantasia: a ideia do Partido Trabalhista de que o rendimento, a riqueza e o poder devem ser distribuídos de forma um pouco mais equilibrada ou a ideia de que o atual estado de coisas é sustentável por muito mais tempo?” Esta voz no deserto terá pouco eco. Os próximos meses serão de esmagamento das propostas “radicais”, “irrealistas” e “populistas” de Corbyn.

Não é só no Reino Unido que assistimos a este processo de criminalização política de qualquer programa de esquerda. Depois de semanas a acusar a esquerda francesa de ser responsável por uma possível vitória de Marine Le Pen e de tal não ter sucedido, voltámos à colagem de Mélenchon a Le Pen. Aqueles que há uma semana tinham o dever histórico de se unir contra o fascismo (dever que obviamente cumpriram), passaram a ser de novo tratados como parentes próximos dos fascistas. Chegámos ao ponto de que quem não teça loas a Macron é suspeito de amizade com a extrema-direita. Mesmo depois da votação.

Por um qualquer malabarismo político, todos os que não se revejam na União Europeia passaram a ser tratados como inimigos da democracia. Mesmo que a sua crítica à União seja, acima de tudo, uma critica democrática. Os tempos estão difíceis e serram-se fileiras. Não, não são fileiras contra a xenofobia. São fileiras que pretendem reduzir a democracia a uma escolha do pessoal político que continuará a impor o mesmo programa, tornando qualquer alternativa ou risível ou autoritária. A TINA (There Is No Alternative) instituiu-se como discurso político oficial. Sobretudo nos media, onde o sinónimo de “alternativa” passou a ser, na melhor das hipóteses, “populismo”. Na pior, “fascismo”.


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4 pensamentos sobre “A criminalização política da esquerda

  1. Éverdade : o criminoso em França é o Jean-Luc Mélenchon, e também em parte (para os “elefantes” do PS sobretudo como Valls ou Hollande) Benoît Hamon…

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  2. O que Daniel Oliveira não refere é que o mesmo Larry Elliot fez lembrar que as propostas de Corbyn não contemplam recursos para pagar o custo das renacionalizações (https://www.theguardian.com/politics/2017/may/16/labour-tax-and-spend-public-back-jeremy-corbyn). Zero. Puro e simples. Aliás, Andrew Rawnsley, também no Guardian lembrava que, infelizmente, contrariamente ao programa de um Blair em 1997 (não são só os líderes de Esquerda que são vítimas da caricatura e da demagogia), o de Corbyn é tudo menos radical (ver https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/may/13/scary-jeremy-corbyn-not-radical-at-all-labour-manifesto). Não, o principal problema da Esquerda não é sobretudo de má propaganda por parte do ‘sistema’. É mesmo incompetência. É por isso que o liberal Centeno é mesmo o mais radical dos economistas entre nós. Sabem que mais? Façam o trabalho de casa (sim, as continhas, que são uma chatice), cresçam, apareçam e sobretudo façam menos birras…

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  3. Continuo à espera (confortavelmente sentado…) que haja os senhores da «esquerda democrática e moderna» que se apercebam de que qualquer combate ao capitalismo (selvagem sempre foi, embora pudesse ter sido algo domesticado durante umas brevíssimas décadas e só em alguns países…) numa mesma frente de batalha (ou no mesmo terreno) e com armas iguais, do estilo «uma outra globalização é possível» ou (no nosso caso) «uma outra UE é possível»), está condenado – esse combate – ao fracasso… A relação de forças é demasiadamente desfavorável aos trabalhadores de todo o mundo e que disso têm consciência (de que são trabalhadores…).
    É nesse contexto que os adeptos da «esquerda democrática e moderna» talvez fizessem melhor se deixassem de falar em xenofobia quando alguém fala em patriotismo. É que, num plano de uma Pátria (ou de cada Pátria…) o combate e a relação de forças já pode ser menos desfavorável. Estou aqui a pensar nos movimentos de libertação nacional que só temporariamente perderam o sentido….

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