Déjà vudu 

(Joseph E. Stiglitz, in Expresso, 07/10/2017)

stiglitz2

Se a desigualdade já era um problema, a aplicação da reforma fiscal proposta pelos republicanos torná-la-á muito pior

NOVA IORQUE — Depois de não terem conseguido “revogar e substituir” a Lei dos Cuidados de Saúde Acessíveis de 2010 (Obamacare), a Administração do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a maioria republicana no Congresso passaram agora à reforma fiscal. Oito meses depois de ser empossada, a Administração ofereceu apenas um esboço daquilo que tem em mente. Mas o que sabemos é suficiente para termos uma sensação profunda de alarme.

A política orçamental deveria refletir os valores de um país e fazer face aos seus problemas. E atualmente os Estados Unidos (bem como grande parte do mundo) confrontam-se com quatro problemas centrais: desigualdade crescente de rendimentos, insegurança crescente no emprego, mudanças climáticas, e crescimento anémico da produtividade. A América enfrenta, além disso, a necessidade de reconstrução das suas infraestruturas degradadas, e a melhoria do seu deficiente sistema de ensino primário e secundário.

Mas o que Trump e os republicanos estão a oferecer como resposta a estes desafios é um plano fiscal que transfere a esmagadora parte dos benefícios, não à classe média (cujos membros, em grande parte, poderão vir a pagar mais impostos), mas aos milionários e multimilionários da América. Se a desigualdade já era um problema, a aplicação da reforma fiscal proposta pelos republicanos torná-la-á muito pior.

As corporações e as empresas estarão entre os maiores beneficiados, um enviesamento justificado pelo argumento de que isso estimulará a economia. Mas os republicanos, mais do que todos, deveriam perceber que os incentivos importam: seria muito melhor reduzir os impostos para as empresas que investem e criam empregos na América, e aumentar os impostos para as que não o fazem.

Afinal, não é como se as grandes corporações da América estivessem famintas de dinheiro: atualmente têm em seu poder alguns biliões de dólares. E a falta de investimento não se deve aos lucros antes ou depois de impostos serem demasiado baixos: os lucros depois de impostos das empresas, em proporção do PIB, quase triplicaram nos últimos 30 anos.

Na verdade, como o investimento adicional é na sua maior parte financiado por dívida, e como os pagamentos de juros são dedutíveis nos impostos, o imposto sobre as empresas reduz o custo do capital e o retorno do investimento de forma proporcional. Portanto, nem a teoria nem as evidências sugerem que a benesse fiscal às empresas proposta pelos republicanos vá aumentar o investimento ou o emprego.

Os republicanos também sonham com um sistema fiscal territorial, segundo o qual as corporações americanas só são tributadas pelo rendimento que geram nos EUA. Mas isto só reduziria a receita e encorajaria ainda mais as empresas americanas a transferirem a produção para jurisdições com tributações mais leves. Só se pode evitar uma corrida para o fundo em termos de impostos sobre as empresas com a imposição de uma taxa mínima a todas as corporações que desenvolvam a sua atividade nos EUA.

Os estados e municípios da América são responsáveis pelo ensino e por partes importantes do sistema de saúde e de segurança social do país. E os impostos estaduais sobre o rendimento são a melhor forma de introduzir um mínimo de progressividade ao nível subnacional: os estados que não aplicam impostos sobre o rendimento dependem normalmente de impostos regressivos sobre as vendas, que constituem um pesado fardo para os pobres e os trabalhadores. Assim, não será talvez surpreendente que a Administração Trump, recheada de plutocratas indiferentes à desigualdade, queira eliminar da fiscalidade federal a dedutibilidade dos impostos estaduais sobre o rendimento, encorajando os estados a orientar-se para os impostos sobre as vendas.

A abordagem à panóplia de outros problemas que os EUA enfrentam obrigará a um aumento das receitas federais e não a uma diminuição. As melhorias nas condições de vida, por exemplo, resultam da inovação tecnológica, que depende por sua vez da investigação fundamental. Mas o apoio do governo federal à investigação, medido em percentagem do PIB, encontra-se hoje a um nível comparável ao de há 60 anos.

Apesar de Trump, enquanto candidato, ter criticado o crescimento da dívida pública dos EUA, vem agora propor reduções fiscais que adicionarão biliões à dívida nos próximos dez anos, e não os “apenas” 1,5 biliões de dólares que os republicanos afirmam que serão acrescidos, graças a um qualquer milagre de crescimento que originará mais receitas fiscais. Porém, o principal ensinamento da economia “vudu” do lado da oferta de Ronald Reagan não se alterou: reduções fiscais como estas não levam a um crescimento mais rápido, mas apenas a rendimentos mais baixos.

Isto é particularmente verdadeiro agora, quando a taxa de desemprego está pouco acima dos 4%. Qualquer aumento significativo da procura agregada seria contrabalançado por um aumento correspondente nas taxas de juro. Desse modo, a “composição económica” da economia afastar-se-ia do investimento; e o crescimento, já de si anémico, abrandaria.

Um modelo alternativo aumentaria os rendimentos e impulsionaria o crescimento. Incluiria uma verdadeira reforma na fiscalidade das empresas, eliminando as artimanhas que permitem a algumas das maiores empresas do mundo pagar impostos irrisórios, em certos casos muito abaixo de 5% dos seus lucros, dando-lhes uma vantagem injusta sobre as pequenas empresas locais. Definiria um imposto mínimo e eliminaria o tratamento especial dos ganhos de capital e dos dividendos, obrigando os muito ricos a pagar pelo menos a mesma percentagem de impostos sobre o seu rendimento que os demais cidadãos. E introduziria uma taxa sobre o carbono, para ajudar a acelerar a transição para uma economia verde.

A política fiscal também pode ser usada para moldar a economia. Além de oferecer benefícios a quem investe, desenvolve investigação, e cria empregos, impostos mais altos sobre a especulação de terrenos e imobiliária redirecionariam o capital para o investimento na melhoria da produtividade — a chave para a melhoria das condições de vida no longo prazo.

Pode esperar-se que uma administração de plutocratas — onde a maioria enriqueceu mais com atividades geradoras de renda do que através de empreendedorismo produtivo — se recompense a si própria. Mas a reforma fiscal proposta pelos republicanos é uma dádiva às corporações e aos ultrarricos maior do que muitos previam. Evita as reformas necessárias, e deixará o país com uma montanha de dívida; as consequências (redução do investimento, paragem do crescimento da produtividade, e desigualdade gritante) demorarão décadas a serem revertidas.

Ao tomar posse, Trump prometeu “esvaziar o pântano” de Washington, D.C. Em vez disso, o pântano cresceu e tornou-se mais profundo. Com a reforma fiscal proposta pelos republicanos, ameaça engolir a economia dos EUA.


Prémio Nobel da Economia, professor universitário na Universidade de Columbia © Project Syndicate 

Para onde vai o dinheiro?

(In Expresso Diário, 19/11/2016)

stiglitz2

Joseph Stiglitz não gosta do termo “populismo”. Não é que o economista americano não esteja preocupado com a erosão do centro político dos dois lados do Atlântico e com a ascensão de fações com respostas ilusórias e simplistas para problemas complexos. O problema, diz, é que “a palavra ‘populismo’ mistura muitas coisas diferentes”. E desenvolve: “Poder-se-á chamar populista a um candidato que diz preocupar-se com os 90% de pessoas que um dado governo deixou para trás. Isso não é merecedor de crítica. O populismo até pode ser um remédio contra o elitismo.” Prefere o termo demagogia. E insurge-se contra ela, venha de onde vier.

Respostas fáceis e ineficazes são, na opinião do Prémio Nobel da Economia de 2001, números “surgidos do nada”, como o limite de 3% de défice na União Europeia. “Tenho uma opinião crítica sobre esse limite, que não resulta da teoria nem de indícios económicos, mas também sobre qualquer outro. O importante é para onde vai o dinheiro. Se for para investimento, reforça-se a economia.” É por isso que aplaude os esforços do Governo português, afirmando que devia ser “premiado”, em vez de ameaçado de sanções pela Comissão Europeia. “Temos de ter uma atitude pragmática. Deviam recompensar Portugal por estar a experimentar novas políticas para recompor a economia e criar um quadro macroeconómico mais forte. Quem falhou, de forma clara, foi a troika”, garante.

Esse falhanço pode sair caro à Europa, alerta Stiglitz, que falou com o Expresso em Barcelona. Aos 73 anos, o homem que já foi vice-presidente do Banco Mundial e conselheiro do Presidente americano Bill Clinton (entre inúmeros dirigentes globais) foi à cidade espanhola para inaugurar o ano letivo da Escola Europeia de Humanidades e apresentar o seu mais recente livro, “O Euro” (Bertrand). A obra, com o subtítulo “Como uma moeda comum ameaça o futuro da Europa”, analisa as debilidades que ficaram a nu com a crise global de 2008 e propõe caminhos para reformar a zona euro.

A atuação das instituições europeias nos anos da austeridade merece chumbo severo ao também professor da Universidade de Columbia. “Vemos governos a serem castigados pelos erros dos governos que os antecederam. Isso é mau, porque aumenta a probabilidade de regresso ao poder de quem cometeu esses mesmos erros. Foi o que aconteceu na Grécia: ao castigar os socialistas [PASOK], favoreceu-se a direita [Nova Democracia], que governara mal.” Stiglitz desconfia mesmo que haja, em Bruxelas, a vontade de impor uma ideia particular da Europa, da sociedade, da economia. “Houve, até, uma entrevista em que o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, sugeria que o Estado-providência não era compatível com uma boa política económica. Ora, a Suécia e a Noruega já demonstraram que é.”

União pelo medo não serve

Em relação à ‘geringonça’, e mesmo sem ter “conhecimento detalhado” sobre as medidas de António Costa, parece-lhe que o Governo faz bem em “manter um Orçamento equilibrado e respeitar os limites do défice ao mesmo tempo que aumenta certos gastos, indo buscar dinheiro aos impostos dos mais ricos”. Para Stiglitz, “é exatamente a política a adotar”. É que, explica, “aumentar os impostos ao mesmo tempo que se aumenta a despesa tem, regra geral, o efeito de fazer subir o PIB”. Acredita, portanto, nos “multiplicadores” tão defendidos pelo ministro das Finanças, Mário Centeno.

Atribui as reticências que isto gera a preconceito político e à “escassa experiência” deste tipo de políticas, mas insiste: “Quando se taxa as pessoas mais ricas, o efeito de contração é muito menor do que o efeito expansionista conseguido ao apoiar as pessoas com rendimentos mais baixos. E este último pode ser ainda mais forte se se gastar o dinheiro em bens públicos essenciais, como educação, saúde ou infraestruturas”.

Revolta-o que as “ameaças inaceitáveis” dirigidas a países como Portugal, Espanha ou Grécia não se verifiquem em relação à França — “por ser a França”, como admitiu o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker — ou, por outros motivos, à Polónia ou à Hungria, cujos dirigentes colocam em causa princípios como a separação de poderes ou a liberdade de imprensa. “Já ultrapassaram a linha do admissível. No mínimo devia haver um inquérito. Bruxelas devia dizer-lhes: quando entraram para a UE, comprometeram-se com determinados valores”, indigna-se.

Estes dois pesos e duas medidas, aplicados por burocratas não-eleitos, foram, reconhece Stiglitz, uma das causas que levaram os britânicos a votar pela saída da UE no passado mês de junho. “Não me descansou nada a primeira reação de Juncker, a dizer que a Europa tem de ser dura para evitar que outros países saiam. É a antítese do que devia ter dito! Não o ouvi dizer que temos de ‘vender’ melhor a UE aos cidadãos, que temos de garantir que funciona para todos. Deseja manter a UE unida através do medo. Ora, se ela só se mantiver unida por medo das consequências de uma saída, não lhe auguro grande futuro”, diz o economista.

É do interesse da Europa, garante, “procurar o mais alto grau de integração possível” com o Reino Unido após a saída deste, agendada para março de 2019, o mais tardar. Recorre ao seu país para ilustrar o que pensa: “Os Estados Unidos e o Canadá têm muito boas relações económicas sem moeda comum, migração livre e mercado único. Ninguém propõe isso. Pode haver prosperidade e parceria comercial sem esses instrumentos.” O maior custo do ‘Brexit’, alvitra, será político e simbólico, além do precedente que estabelece. “Se o euro continuar a funcionar tão mal, vão crescer os sentimentos contra a UE. O Reino Unido não está na zona euro, mas a mensagem é a mesma: quando nos disseram que não havia alternativa, estavam errados.”

É por isso que Stiglitz aconselha a UE a usar mais a cenoura do que o chicote, que, aliás, pode nem ter grande força. “O custo de sair do mercado único não é dramático se se mantiverem boas relações económicas. No pior cenário, se o Reino Unido ficar sujeito às tarifas que vigoram na Organização Mundial do Comércio, falamos de uma média de 5%. A desvalorização da libra já é maior do que isso, o que mostra como os mecanismos cambiais são relevantes.” Admite que haja mais inquietação na banca, mas não duvida da continuidade de Londres como praça financeira, até porque “muitos bancos americanos na Europa já funcionam sem passaporte [licença para operar em todos os Estados-membros se estiverem licenciados num deles] e, além disso, os bancos britânicos vão continuar a ter clientes no Médio Oriente e na Commonwealth”.

Se é claro que o Reino Unido sobreviverá, então e o resto da União? Flexibilidade, recomenda o professor. “Há muitas formas e níveis diferentes de integração económica e política. A UE começou por ser uma comunidade do carvão e do aço. E tem sido suficientemente criativa para permitir diferentes graus de integração”, recorda, para exemplificar: “A Suíça faz parte do acordo de Schengen sem ser da UE. A Noruega e a Islândia também estão em Schengen e no Espaço Económico Europeu, mas não na UE. Estão sujeitos a regras, a tribunais. Esta aliança tem uma dimensão política e jurídica, não é só económica. De um vasto menu, cada país europeu escolhe algumas coisas.” O erro residiu, repete, no colete de forças da moeda única. Do lado das proezas, sublinha proezas como o programa Erasmus, que permite “que os alunos possam estudar mais facilmente noutros países da Europa”.

Acordos pelos grandes interesses

Stiglitz não inclui nos acordos comerciais que incentiva e aplaude a famigerada — e opaca e, para já, estagnada — Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, mais conhecida pela sigla inglesa TTIP. “Está a ser vendido como acordo comercial, mas é outra coisa”, garante. Critica a negociação feita à porta fechada e vê no TTIP uma versão gravada da Parceria Trans-Pacífica [TPP, na sigla inglesa]. “Nessas conversações participam as grandes empresas, mas não o cidadão comum. Nem os membros do Congresso americano conheciam a posição do país, até a WikiLeaks a revelar. Isso não é lá muito democrático”, ataca. Garante, aliás, que os benefícios comerciais foram “minúsculos”: impacto de 0,15% no PIB americano ao fim de 15 a 20 anos, segundo a avaliação do Governo, “que tende a ser otimista”; efeito nulo ou negativo, a crer em análises como a da Universidade Tufts, que Stiglitz considera “mais fiável”.

Estes grandes acordos intercontinentais não visam o livre comércio, acusa, mas sim a defesa de interesses empresariais, como o das farmacêuticas contra os medicamentos genéricos. “Não querendo travar essa guerra no Congresso, porque perderiam, travam-na à porta fechada e ganham.” O pior aspeto tanto do TPP como do TTIP, ou da também adiada parceria Canadá-UE, é a chamada resolução de conflitos entre investidores e Estados [ISDS na sigla inglesa], que permite que empresas processem governos por decisões para as quais o povo os mandatou, se afetarem os seus lucros. “Não é uma possibilidade teórica. O Canadá já perdeu muitos processos. E o mero receio de ser processado leva os governos a ceder aos grandes grupos”, alerta. Acredita, em todo o caso, que “o TTIP não vai acontecer”.

Levando a conversa para o outro lado do oceano, aplaude a abordagem da Administração Obama à crise global, “mais keynesiana” do que a europeia. “Via-se à distância”, diz, assegurando que era algo que as suas previsões anunciavam. Destaca a recapitalização dos bancos, mais conseguida na América do que por cá. “Torna-se óbvio ao olhar para o Deutsche Bank. Deve ter ativos no valor de um bilião de dólares [910 mil milhões de euros] e receia-se que uma multa de 14 mil milhões de dólares [12.740 milhões de euros], por fraudes que cometeu, o atire para o abismo!”, admira-se. Um dos maiores bancos do Velho Continente “está tão subcapitalizado que afirma poder pagar sete mil milhões [6370 milhões de euros], mas não 14 mil milhões”. “E passa-se isto na Alemanha, que é um dos países onde as coisas correm melhor!”, acrescenta.

Racismo é batalha para décadas

Dinheiro à parte, Stiglitz não foge a problemas que são tão ou mais graves no seu país. Dado que aponta Martin Luther King como inspirador na sua ação pública, é inevitável querermos saber como crê que o arauto dos direitos cívicos encararia as tensões raciais que ainda predominam nos Estados Unidos. “Ficaria triste, mas não surpreso”, responde. Observa que o racismo é muito profundo em partes da América. “Pode-se adotar leis a favor do emprego, contra a discriminação, mas não se pode acabar com o racismo por via legislativa”, diz.

Lembra, também, que a marcha que King promoveu em Washington não era só pela justiça racial, mas também pela justiça económica. “Ele percebeu que uma não existia sem a outra”, explica, para em seguida considerar que nem uma nem outra foram, ainda, alcançadas. “Um dos nossos maiores bancos, o Wells Fargo, recentemente acusado de ter criado contas fictícias, foi também multado por discriminação racial na concessão de crédito. A discriminação está impregnada nas maiores instituições dos Estados Unidos. É uma batalha para décadas.” Ainda assim, contrapõe, King “estaria contente com os avanços que houve. Elegemos um Presidente negro, coisa inimaginável no tempo dele. É algo com grande simbolismo”.

Guterres era o melhor para a ONU

Na manhã em que o Expresso falou com Stiglitz, no modernista Palau Macaya, sede da Fundação La Caixa em Barcelona, surgiu a notícia de que o Presidente da Colômbia ganhara o Nobel da Paz, apesar de o povo ter rejeitado em referendo o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). “Acho que ele fez um trabalho extraordinário”, reagiu Stiglitz à notícia. Confessando-se “desiludido” com o resultado da consulta popular [vitória do “não” ao acordo por 50 mil votos], louva “a liderança e o empenho” de Santos.

Outra escolha feita na semana em que se deu este encontro foi a de António Guterres para futuro secretário-geral das Nações Unidas. Stiglitz vê mais do que um motivo para celebrar. A nível pessoal, e sublinhando que conhece bem o ex-primeiro-ministro português, classifica-o de “grande líder” e elogia o trabalho que fez no Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados, considerando-o um conhecedor da organização. Isto pode ser relevante “num mundo com tantos conflitos entre a Rússia e os Estados Unidos, em que o Conselho de Segurança fica bloqueado em tantos assuntos e em que tantos problemas globais passam pela questão dos refugiados e das migrações”.

A eleição de Guterres tem, todavia, outra mais-valia. “É um êxito histórico por ter quebrado o sistema de rotação regional, em que a escolha não era baseada no mérito”, explica Stiglitz, crítico do sistema de nomeação do presidente do Banco Mundial, “onde o presidente é sempre americano”, sinal de que “a governança global não funciona”. Na ONU, ela funcionou, garante o professor. E explica porquê: “Houve um debate aberto com todos os candidatos, entrevistas, um processo transparente. No fim, ganhou o mais qualificado.”

O otimismo de Stiglitz

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/09/2016)

Autor

                       Daniel Oliveira

Em Portugal, muito mais do que noutros países, as palavras dos estrangeiros sobre nós dão sempre notícia. E isso é absurdo. Mas às vezes as coisas óbvias, quando são ditas de fora, tornam-se mais evidentes aos olhos de todos. E com as coisas acertadíssimas que o Nobel da Economia norte-americano Joseph Stiglitz tem dito sobre a Europa, é interessante ouvir o que pensa sobre como Portugal pode sair do “pântano” em que está.

Na entrevista que deu à Antena 1, a propósito do seu livro “The Euro: How a Common Currency Threatens the Future of Europe”, Joseph Stiglitz foi arrasador para a União Europeia e as suas instituições e poderes. E, no entanto, só disse coisas que todos temos o dever de saber. Que o euro retirou aos Estados mecanismos de ajustamento – as taxas de câmbio e as taxas de juro – e que a Europa contou que tudo poderia depender de políticas orçamentais. Que foram impostos limites cegos ao défice que impedem políticas em contraciclo que favoreçam o crescimento económico em tempo de crise. Que o euro nasceu num determinado momento, em que as convicções ideológicas ditaram a lógica a que hoje está presa. Que as políticas monetárias do BCE, que se teria de concentrar mais na inflação do que com o emprego, não chegam para tirar a Europa da beira do precipício, onde brinca há mais de cinco anos arriscando-se a uma nova crise de dimensões arrasadoras.

Que o euro foi criando com base na fezada de que a própria união monetária criaria uma dinâmica política que levaria ao surgimento dos instrumentos necessários ao seu funcionamento. Isso não sucedeu, houve uma crise que demonstrou a enorme fragilidade da moeda única e o ambiente foi o oposto. Hoje, não há um clima político para mudar seja o que o que for a Europa limita-se a arrastar a indecisão até ao limite e no último segundo faz o mínimo dos mínimos para não cair no buraco. Que os alemães insistem na ideia de que a crise europeia resultou de défices orçamentais quando os factos demonstram que isso não é verdade. Que apesar dos números mostrarem o oposto, os alemães continuam a acreditar que os povos do sul são preguiçosos e por isso não estão disponíveis para a solidariedade que lhes é exigida. Que insistem na austeridade quando já toda a gente percebeu que ela não resulta. E que falhando no diagnóstico continuarão a falar na cura. E que a na sua convicção e determinação a Alemanha está agora em desencontro com o resto do mundo (até com o FMI) e impõe este absurdo a toda a zona euro.

Que os alemães têm beneficiado desta moeda e que isso se faz, ao contrário do que se gosta de repetir, à custa do sacrifício dos países mais periféricos. Que as coisas não vão mudar e começa a não fazer sentido esperar que mudem. Que quando e se a Alemanha acordar todas as falências, todos os que emigraram, tudo o que se perdeu dificilmente será reconstruído. Que esta moeda significou uma década perdida para Portugal e pelo menos um quarto de século perdido para a Grécia. E que os países periféricos não deixarão de viver em crise, com crescimentos anémicos, uma dívida crescente e impagável e sem qualquer possibilidade de inverter a queda enquanto se mantiverem neste euro. E que, apesar das “propostas modestas” que faz, bem longe do federalismo norte-americano, lhe falta otimismo para acreditar que venha a haver outro.

Tudo certo, assim como está certa a conclusão a que Stiglitz chega sobre a decisão que Portugal devia tomar. Sair do euro teria efeitos muito negativos, mas ficar no euro será ainda pior. É a escolha entre uma forte crise que cria as condições para um crescimento futuro ou uma crise que não terá fim. Será um modo de vida. Assim, o Nobel da economia diz o que sempre que é dito cá leva a dedos em riste com acusações de radicalismo irresponsável: Portugal deve sair do euro. Essa saída deve ser negociada e não inclui apenas os portugueses.

É quando Stiglitz fala de negociações para sair do euro que percebemos o seu excesso de otimismo. Percebemos que lhe falta um entendimento pleno da situação política que se vive hoje na Europa (é comum acontecer aos economistas). Ao primeiro sinal de vontade de sair do euro a Alemanha, com o apoio dos seus aliados, o silêncio dos mais fracos e a verborreia inconsequente de França e Itália, faria a Portugal o que fez aos gregos. A parte que Stiglitz não compreendeu, e é natural que não compreenda, é que a zona euro já não é uma união voluntária de Estados, mas uma armadilha de onde não se sai vivo. E é por o saber que os portugueses nem se atrevem a pensar no assunto e os gregos ficaram num beco sem saída. Porque ninguém, nem mesmo Stiglitz, sabe como isso se faz sem ser aniquilado pelos nossos supostos aliados.

Há cada vez mais gente a perceber que Stiglitz tem toda a razão: esta moeda será a nossa morte. Não querendo a morte lenta e temendo o revólver que nos apontam à cabeça e que dispararão ao primeiro movimento para fugir dela. Estamos num dilema: ou a coragem de arriscar a morte súbita, ou a cobardia de aceitar a morte lenta.

De nada valem nacionalismos fanfarrões, para nada servem tontas paixões europeístas. Teremos de encontrar uma forma de sair deste buraco onde, de boa-fé, nos enfiámos. Temos o dever de não deixar aos nossos filhos o legado de miséria que significaria a permanência numa moeda que nos mata aos poucos. A questão é como sair. E ninguém, nem Stiglitz nem quem defende esta saída em Portugal, o sabe. Mal se descubra, é começar.