Milénicos. A última geração do século XX

(Reportagem de Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 18/02/2017)

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Podiam ser apocalípticos, mas deixaram isso para a geração anterior, a individualista, sombria e hedonista X. Cresceram com a internet, levaram com a crise financeira de 2008 em cheio nas expectativas e logo a seguir com a do euro. Tanto os dizem hipernarcisistas como mais gregários, conformados ou empreendedores, apolíticos ou ativistas, alheados ou otimistas, os mais “bem preparados de sempre” ou os mais pretensiosos. Quem são afinal os milénicos?

“A minha geração”. É o nome de uma célebre canção que começa assim: “As pessoas tentam fazer-nos sentir mal / Falando da minha geração / Só porque andamos por aí / Falando da minha geração / Espero morrer antes de ficar velho/ Falando da minha geração.”

A canção tem 46 anos. O homem que a escreveu, Pete Townshend, da banda britânica The Who, tem mais de 70; não morreu antes de ficar velho. É talvez uma forma estranha de começar um texto sobre uma geração com idade para ser neta dele. Ou não: talvez seja preciso lembrar que todas as pessoas a dada altura foram a “nova geração”. Todas sentiram que aquilo que sentiam era iniciático, que vinham para mudar alguma coisa. Ou tudo. E que quem já cá estava não percebia, não podia perceber. Precisamos disso – de sentir que somos parte de uma mudança. Que somos a novidade, a estrear.

“Sentimos que tudo nos é devido”

Como Inês Herédia, de 27 anos, que fez um vídeo a falar disso – da sua geração. “Tinha ido para Londres estudar teatro entre 2012 e 2014 e quando voltei, depois de uma breve experiência com La Féria e de, por ser um pouco mais gordinha, apesar de vir de um dos melhores cursos de atores do mundo não ter sorte nenhuma nas audições, decidi procurar trabalho na área da consultoria, na qual se usa muito a criatividade. E pensei fazer um vídeo de apresentação para responder à pergunta que nos fazem nas entrevistas de emprego: porquê tu, porque te havemos de contratar a ti?”

Contra um fundo cinza, uma Inês deolhos no alvo e num inglês de impecável sotaque british traça um breve retrato das pessoas da sua idade que frisa a importância da tecnologia digital: “Sabem porque dizem que somos a geração mais criativa de sempre? Porque os nossos cérebros veem o que a internet vê. Não veem limites. Estamos neste mundo de abundância e com acesso a tudo, sedentos de conhecimento. Aceitamos as diferenças e somos especialistas em marketing. E fazemos tudo isto muito mais depressa que qualquer geração antes de nós. Temos uma perceção holística do mundo, somos esponjas a beber de tudo . (…) Isto é a minha geração. Não nos contentamos com o fácil. Estamos cá para fazer a diferença.”

Não por acaso, houve quem quisesse crismá-la de igeração – não pegou, porém. Começaram por denominá-la de Y (a letra do alfabeto que se segue ao X, de Geração X, d”après o célebre livro-retrato de Douglas Coupland) mas foi “millennials”, de milénio, que pegou. A respetiva definição temporal, variando bastante (ver texto nestas páginas), inclui seguramente os nascidos entre 1980 e 2000, como é o caso de Inês, e a ligação com a tecnologia digital e este mundo sem fronteiras, fluído e simultaneamente infinito e mais finito (porque mais abarcável, mais alcançável) que a internet criou é sem dúvida a característica mais distintiva. Com tudo o que isso traz de bem mas também de menos bom.

“Porque há o reverso”, diz Inês, que mandou tatuar nas costas “the book of disquiet” (O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa/Bernardo Soares). “A minha geração tem imensos defeitos. Não se consegue concentrar, hoje quer uma coisa amanhã outra. Acho que vem precisamente de termos acesso a tantas opções. E com o facto de termos crescido com a ideia de que vais conseguir fazer tudo aquilo que quiseres. Há um sentimento de entitlement: de que temos direito, merecemos, tudo nos é devido. Muitos amigos meus têm as mesmas oportunidades que eu e esperam que lhes caiam as coisas no colo. Ou trabalham duas horas e ficam cansados.”

Mais uma vez, Inês menciona algo que surge muito frequentemente nas caracterizações desta geração – vamos chamar-lhes milénicos – como um dos seus traços mais negativos: a ideia de merecimento automático, a expectativa de sucesso instantâneo, o não lidar bem com a frustração e com tarefas maçadoras, horários e obrigações. Assevera-se por exemplo a dificuldade de manter funcionários desta geração – estão sempre à procura de um sítio melhor, da coisa que vai mesmo interessar-lhes, fazê-los felizes. Aspetos que podem ser associados a mimalhos – há muito a ideia de que a “culpa” é dos pais, que os apaparicaram demasiado e lhes deram demasiada auto-confiança.

“Vivemos vidas editadas”

Filipa Neto, 26 anos, vê outras explicações. “Acho que precisamos de mais propósito do que a geração dos nossos pais. Pensamos numa missão.” Esse aspeto está, crê, relacionado com o facto de se ter consciência da “grande volatilidade da vida”: “Há pais que estiveram na mesma empresa 20 anos e foram despedidos. Não há nada garantido. As coisas que eram tidas como verdades económicas já não são. E as pessoas pensam: “Já que o meu salário não é muito bom, e se calhar nunca vai ser, tem de haver felicidade no trabalho: fazer uma coisa de que goste ou que me diga algo.”

Por exemplo inventando de raiz: Filipa fundou, com a amiga Lara Vidreiro, da mesma idade, a empresa Chic by Choice, que aluga vestuário “para ocasiões especiais”. A ideia surgiu às duas estudantes de Gestão a partir da sua própria experiência. “Havia uma festa e queríamos uma roupa nova mas não tínhamos coragem de pedir dinheiro aos nossos pais. E ao mesmo tempo estávamos a aprender a teoria da utilidade marginal: que à primeira vez que usávamos o vestido era fantástico mas à terceira já não tinha tanto impacto. Percebemos que o ideal era poder usar e devolver.” Perceberam que esse tipo de negócio já existia no Reino Unido e resolveram lançar-se. No ano passado, certifica, cresceram 100 por cento, sobretudo a partir do mercado britânico. “O cliente escolhe entre milhares de peças, indica data do evento e tamanho, dois dias antes recebe o que escolheu em dois tamanhos – o indicado e o acima – e no dia seguinte um estafeta vai buscá-las.” Chama-se “fast fashion” e tem a ver com a ideia base da moda, a da novidade, aliada a algo que se considera uma característica (mais uma) dos milénicos: estarem mais interessados na experiência que na posse. Há até estudos que garantem que se trata de uma geração “menos consumista”.

Filipa acha que pode não ser bem assim. “As necessidades mudaram. Somos uma geração Instagram e Facebook, vemos vidas editadas, somos completamente influenciados por isso. A aspiração é: “Se o meu amigo vai a estes sítios todos eu também quero ir.” É mais importante o que outro vê de mim na rede social que o que efetivamente faço. Há uma noção muito diferente do que é o mínimo de rendimento necessário para ser autónomo, por exemplo. Vejo os meus amigos a fazer contas a quantas vezes podem sair, jantar fora, beber copos, viajar, se saírem de casa dos pais.”

Fronteiras abolidas, o mundo ao dispor

Consumistas sim, mas mais de experiências, menos de “coisas”. A não ser, claro, que sejam gadgets: o último smartphone, o último tablet – é o que acha Carlos Silva, 37 anos. “As pessoas podem ter deixado de ter carro ou de pensar em comprar casa mas querem ter o último iphone.” Situado sobre a linha temporal que separa os milénicos e a Geração X, Carlos hesita na generalização: “Tenho sempre alergia a falar de gerações, porque são compostas por indivíduos. Mas existem tendências que têm a ver com o contexto em que as pessoas crescem.” E Carlos cresceu nos computadores. Aos seis/sete anos o pai ofereceu-lhe um Spectrum. Mais tarde, perguntou-lhe se queria um leitor de CD ou um modem como presente. “Comecei a funcionar com a internet muito cedo. E acho que isso é mesmo fundamental para caracterizar esta geração. A ideia de uma sociedade não necessariamente física, amigos no mundo inteiro, acesso à informação muito imediato. Isso muda a forma como as pessoas pensam – acabou o “tirei este curso e vou fazer disto a minha vida”.”

Licenciado em engenharia informática, Carlos estava a fazer um MBA [mestrado em gestão] quando o banco americano Lehman Brothers ruiu, em setembro de 2008, desencadeando a pior crise financeira mundial desde 1929. Mas viu na catástrofe uma oportunidade. “As pessoas perceberam que as ações em que investiam e que achavam muito seguras não eram. Desenvolveu-se desconfiança em relação às instituições tradicionais.” Começou a trabalhar na ideia de uma plataforma de investimento através da net, tendo como inspiração projetos de crowdfunding para o terceiro mundo. “Somos o que se chama uma plataforma de investimento colaborativo, a primeira a nível mundial com autorização para operar.” Funciona assim: “Um empreendedor apresenta um projeto e diz de quanto precisa e qualquer pessoa pode investir. Se no final não atingir o valor o dinheiro é devolvido aos investidores.” Chama-se Seedrs e arrancou em 2012, a partir do Reino Unido. Desde então já investiu mais de 200 milhões em mais de 400 “campanhas” e abriu escritórios em Berlim e Amesterdão. O retorno financeiro, diz o presidente e co-fundador, é “interessante” mas atribui o sucesso da iniciativa também ao facto de os investidores gostarem de “alocar dinheiro a projetos que possam ter impacto .” Uma espécie de fábula: se as pessoas ganharam aversão ao que é grande e opaco e impessoal, regressar ao básico, ao essencial da ideia de investimento – e de comunidade. Um cruzamento entre ativismo e especulação, ou como derrubar fronteiras, baralhar e dar de novo.

Autoconfiança demais ou resiliência?

Não, caramba, não é tudo mau. Os milénicos também são descritos como menos preconceituosos, com uma maior preocupação com a igualdade, nomeadamente de género, muito alerta em relação aos problemas ambientais e, sobretudo, empenhados em que o que fazem, profissionalmente e não só, se relacione com causas que apoiam, com um propósito “maior”. João Wengorovius, ex CEO da BBDO Portugal e agora na consultora Wengorovius & Bidarra, vê uma geração que “apanhou com muitas dificuldades mas é muito empoderada. Com a noção do eu como marca, de que estão muito expostos, muito conscientes dos seus talentos e muito empenhados em usá-los. E muito educados, claro: não basta ter o curso superior, é preciso ter um mestrado e talvez um doutoramento.” Importante também, crê, é a ideia paradoxal de que “a experiência só se vive se for partilhada.”

Jack Mackenzie, presidente de uma companhia de marketing que analisa tendências geracionais citado pelo New York Times, completa o perfil: “Desconfiam da autoridade, são genericamente tolerantes, próximos dos pais, têm vontade de estabelecer compromissos, encontrar terreno comum. E um nível de otimismo que a maioria das pessoas acha quase idiota.”

Otimismo. Como pode a geração que levou com o 11 de Setembro nas ventas mais a crise financeira mundial de 2008 (e, na Europa, com a crise do euro, materializada em Portugal na entrada da troika) ser otimista? Isto para não falar dos últimos desenvolvimentos – hecatombe das revoluções no Médio Oriente, refugiados, ascensão da extrema direita, vitória de Trump. Pode ser mesmo por isso, adverte a escritora Judith Warner, num artigo do NYT com sete anos. Intitulado “The why-worry generation” (a geração do porquê ralarmo-nos), o texto menciona um consenso arrasador de “avaliação psicológica”: “São uma geração de chalados, profundamente narcisistas e destituídos de autocontrolo pelos seus pais hiper-ansiosos e demasiado protetores.” Cita dados sobre a percentagem de empregos recusados pelos licenciados americanos numa altura de desemprego muito elevado – “Apesar de não estarem em condições de impor condições, muitos afirmam não estarem para trabalhar mais de 40 horas por semana. (…) 41% dos licenciados que procuram trabalho recusaram propostas, a mesma percentagem que o fez em 2007, antes da crise”. E dá a palavra a Jean Twenge, a professora de psicologia que escreveu Generation Me (livro de 2007, revisto em 2012, sobre, precisamente, os milénicos): “Não é confiança, é super confiança. E quando chega a este nível, é problemática.”

Uma espécie de incapacidade coletiva de lidar com a realidade? Uma patologia geracional? Warner reflete: “Entrevistei nove estudantes universitários que me foram indicados por professores. E fiquei com o retrato de jovens adultos capazes de não sucumbir à dúvida sobre si próprios e ao desencorajamento. Muitos estavam desempregados, outros estavam insatisfeitos com o seu trabalho ou com as escolhas escolares que tinham feito. Mas não se culpavam. Não punham em causa as suas opções e competências. (…) É difícil para alguém com 40 e tal anos compreender isto, esta ideia de merecimento, esta falta de humildade. Mas não estão necessariamente mal adaptados aos tempos. (…) Pode ser que esta resiliência – esta irritante e no entanto admirável capacidade de manter um espírito positivo em tempos deprimentes e assustadores – não tenha nada a ver com os pais deles e a educação que lhes deram. Talvez seja o resultado, como alguns observadores desta geração têm sugerido, de crescer numa era de ansiedade (…). Talvez a insegurança crónica tenha simplesmente aumentado a capacidade desta geração de resistir ao stress, deixando-a particularmente bem preparada para lidar com a incerteza. Talvez ter um ego super musculado sirva mesmo para enfrentar a adversidade. Exatamente como os gurus da autoestima sempre disseram.”

Geração nondescript?

Ego em esteróides ou ganas de fazer o que dá gozo e a coragem de não transigir? Perguntemos a Joana Barrios. Aos 31 anos, grávida do segundo filho e sem aquilo a que se pode chamar “um emprego”, é tida como paradigma da geração milénica: estão sempre a convidá-la para, nessa capacidade, participar em palestras e workshops. “Chamam-me porque sou “uma mulher de sucesso com profissão indefinida e mãe, porque pertenço a uma companhia de teatro disruptiva [os Praga] e tenho um blogue [de moda, o Trashédia]”.” Ri. “A primeira coisa que faço quando lá chego é insultar quem me chama por esses motivos ridículos. E também acho sempre estranho ser a única rapariga. Os outros são sempre rapazes empreendedores, geralmente de fatinho.” Joana nasceu e viveu a adolescência no Alentejo, onde os pais estão radicados, entrou em Direito mas saiu para o Conservatório, fez um mestrado em crítica de cinema e música pop em Barcelona enquanto trabalhava em lojas vintage, foi a Paris trabalhar com um encenador num espetáculo de vaudeville, no qual se ocupou do guarda-roupa, voltou para Portugal porque “queria trabalhar em português”, entregou o currículo aos Praga e de repente “aconteceu a crise e deixou de haver dinheiro para a cultura.” Resultado? Foi trabalhar como porteira na discoteca Lux-Frágil. “Estive lá de 2010 a 2013. Foi difícil porque era quinta, sexta e sábado da meia noite às sete da manhã. Mas pelo menos assegurei que não morria de fome.” Suspira. “Uma das coisas mais cruéis como porteira foi descobrir que de mês a mês havia mais alguém que vinha fazer a festa de despedida porque ia para Paris ou Berlim. Os arquitectos, os designers, as maquilhadoras, toda a gente foi embora.”

Ela ficou, e mais que isso. Engravidou e decidiu ter a criança, uma menina hoje com dois anos: “Não fui capaz de abortar, apesar de não ser religiosa. De repente não tinha trabalho, não tinha nada, e pensei: “A parte difícil é estar feito e já está feito.” Sou uma pessoa de muita coragem, segundo dizem. Percebo que teoricamente seja muito assustador ter filhos. Mas consigo, entre tudo o que faço – o blogue também é uma fonte de rendimento – ter, em conjunto com o meu marido, que é fotógrafo, que chegue para pagar as contas, a escola, a renda.”

Joana não sabe se é exemplo, mas tem uma ideia ou duas sobre o que define a sua geração: “Em contraste com as anteriores temos pais com capacidade de perceber que houve mudanças muito drásticas na forma como funciona o trabalho – e encorajam-te a procurar aquilo de que gostas.” Um encorajamento que passa muito por apoio financeiro e por não cortar o cordão umbilical. “Regra geral as pessoas da minha idade estão a viver em casa dos pais ou precisam de ajuda porque o que ganham não lhes chega.” E outra coisa, na qual de algum modo os milénicos contrastam também com gerações anteriores: “Do ponto de vista do look uma super característica é quererem integrar-se. Passar despercebidos. Mas podes ter um exterior super normalizante e ao mesmo tempo teres um interior totalmente disruptivo.”

Quando se olha à volta num bar ou num concerto, no meio de uma mole de milénicos, o que é que se vê? A expressão certa existe em inglês: nondescript. Querendo dizer que não há nada de distintivo ou facilmente descritível, aquilo que se reconhece como “um estilo próprio”. A não ser que o estilo seja isso , o de não ser facilmente rotulado, identificado, fichado, fixado. Vera Marmelo, 32 anos, engenheira hidráulica e fotógrafa de concertos, vai por aí. “Acho hoje em dia muito mais piada a causar essa confusão. Não poderem identificar-me logo pela forma como estou vestida. Não preciso de ser classificada, encontro algum gozo em não ser encaixada.” Enquanto a liberdade em gerações anteriores passou por afirmar pela roupa, pose, cabelo, a pertença a um grupo o mais “diferente” possível da norma ou em exprimir um individualismo radical, ofensivo até, estabelecendo uma demarcação clara entre o nós e o eles, a liberdade agora pode ser isto, ser parte da multidão, não chamar a atenção – como quem guarda um segredo. Um certo ar baldas, de quem agarra a primeira coisa que aparece e que lhe é confortável.

A mesma atitude, diz Vera, em relação à música: “Quando éramos mais novos éramos mais dedicados a uma cena específica. Agora, as pessoas que me rodeiam ouvem coisas muito diferentes.” Muito entrosada no meio musical português, Vera reconhece, nos últimos dez anos, um boom de projetos interessantes. “Comecei a fotografar mais a sério em 2006. Foi o ano em que conheci o B Fachada, que acho que tem feito um trabalho incrível na revelação de temas que têm a ver connosco como geração. E houve a viragem do cantar em inglês para o cantar em português e isso ser fixe.” Cita também os Linda Martini e a Capicua: “Sinto que fala por mim e revejo-me nas suas palavras.” Tem uma explicação para esta explosão: “Em 2005 toda a gente que faz música consegue libertar-se de uma editora porque tem computadores em que consegue gravar e plataformas, como o Myspace [que, criada em 2003, em 2008 ultrapassou os 100 milhões de utilizadores], para partilhar o que grava. Tornou-se muito mais fácil encontrar pessoas que são os teus pares, de quem gostas.”

“A política vai ter de regressar”

Luís Nunes, 30 anos, músico, tempera o entusiasmo: “Somos a última geração a lembrar-se de um mundo sem internet e sem telemóveis. E obviamente que a internet é fantástica mas mudou completamente a noção do tempo. Imprime ao mundo um ritmo alucinante. Toda a gente está sempre a fazer montes de coisas ao mesmo tempo, e também te é exigido que o faças. É uma coisa que muda o chip – para a minha avó,por exemplo, é uma coisa mística – e que criou várias assimetrias. Destruiu a indústria discográfica, a indústria do jornalismo e está a destruir a dos táxis.”

Mais conhecido como Benjamim (o nome da sua banda desde 2014, quando começou a cantar em português -antes cantava em inglês e era Walter Benjamin), Luís, que em várias entrevistas afirmou querer “fazer uma banda sonora para a minha geração”, beneficiou muito dessa mudança de planeta. “Um tipo como eu pode competir no mesmo trabalho com um inglês. É muito bom para um país periférico. Mas tem outros lados: além de escrever canções e de tocar instrumentos, tens de saber gravar a tua música. E fazer o teu próprio marketing, o que não é nada evidente.”

O acesso a tudo, sem guias nem intermediários, é um bem inestimável mas pode também significar uma espécie de equalização sem espessura nem noção histórica: “A grande coisa foi quando surgiu o Napster [serviço de streaming de música lançado em 1999]; com a ajuda de um amigo, sacava os discos todos. Mas isso permite coisas como o Kanye West [rapper americano] ter feito em 2015 uma música com o Paul McCartney [dos Beatles] e haver comentários a dizer que não sabiam quem era o McCartney mas que ele tinha futuro.” Ri. “Antigamente as pessoas podiam ser ignorantes, tinham desculpa. Agora não sabem porque não querem. Teres a biblioteca não quer dizer que leias os livros. O acesso à informação não impede a ignorância.” Pelo contrário, acha; há um efeito paradoxal. “A minha geração tem muitas distrações, muitas comodidades. É mole. Já nascemos no planeta democracia e é assustador ver pessoas que nasceram nele a pôr a hipótese de voltar para um sistema não democrático. E a quantidade de malta da minha idade que acha normal haver gente a morrer a dar à costa no Mediterrâneo, sem sequer refletir sobre os motivos? Tinham obrigação de ter estudado melhor história. Toda a gente que nasceu depois da segunda guerra mundial tem essa obrigação.”

Ah, a história. Houve até quem tivesse anunciado o seu fim. “Surgimos quando parecia que se tinham resolvido todos os problemas”, conclui Luís. “Daí sermos uma geração tão desinteressada em termos políticos. Havia a ideia de que a política tinha morrido. Mas vai ter de regressar.” E à bruta, parece.

A máquina da ignorância ao serviço da política que não ousa dizer o nome

 

(José Pacheco Pereira, in Público, 04/06/2016)

Autor

                      Pacheco Pereira

Muitas das polémicas políticas usando a história que se estão a dar em Portugal estão cheias de ignorância presumida.

Um dos efeitos perversos da cultura da Internet é a desvalorização do saber, do conhecimento, do estudo. Há muita gente que fica irritada quando se lhes toca no deslumbramento tecnológico e também, por arrasto, no direito de dizer alto, que é o que significa “publicar” na Internet, todas as asneiras possíveis visto que “todos têm direito à sua opinião”.

Acham que criticar isto é “presunçoso”? Então acabou a ignorância? Lá porque cada um pode colocar o que quer na Internet isso dá-lhe um atestado de sabedoria? Não, é uma doença dos tempos modernos e está-se agravar principalmente nos mais jovens que obtêm na rede quase toda a informação e não tem literacias para a mediar. A “democracia” das “redes sociais” é uma forma de populismo moderno.

Eu costumava chumbar os alunos de filosofia que, para esconder infantilmente a sua ignorância, diziam que também tinham uma “opinião pessoal” sobre Kant. Ai tem? Mas que sorte, é que eu não tenho e a esmagadora maioria das pessoas letradas do mundo também não tem, incluindo 99% dos professores de filosofia e a maioria absoluta dos especialistas em Kant, pela simples razão que ter uma “opinião pessoal”, que não seja uma repetição, ou seja, que seja “pessoal”, exige muito estudo, muito conhecimento de Kant, e muita criatividade filosófica. Se não é do domínio do génio filosófico, fica perto. Não é Habermas quem quer.

Mas a Internet está cheia disto, gente que escreve sobre um livro começando por dizer que não o leu, que escreve sobre cinema porque viu uns filmes, que se torna crítico literário porque “também pode dizer o que quiser”, ou melhor, “que tem o direito de dizer o que quiser” e só os passadistas de duvidosa democraticidade é que não querem que este “direito seja de todos”. E depois dizem “habituem-se que o mundo mudou”. Sim o mundo mudou, mas ninguém tem obrigação de aturar este ruído das “redes sociais” dos comentários, do “todos temos direito a falar, mesmo que não tenhamos nada para dizer”: “é a minha opinião pessoal sobre Kant, embora nunca o tenha lido e, se me criticam, berro que é censura e elitismo e nostalgia do mundo em que só os “sábios” (dito com desprezo) podiam falar…”.

Era só uma questão de tempo até que este tipo de “escola” chegasse à política. Muitas das polémicas políticas usando a história que se estão a dar em Portugal estão cheias deste tipo de ignorância presumida, e louvo quem se dá ao trabalho de os tomar a sério naquilo que dizem, embora a intencionalidade política já seja mais séria e justifique maior discussão. O problema é político e tem a ver com a emergência de uma direita agressiva e muito ignorante, que acha que está a escancarar uma porta ideológica que a esquerda tem cerrada a sete pés, e nem sequer percebe que essa porta está mais que aberta há muitos anos. Atiram-se à porta com denodo verbal e voam para o outro lado sem travagem.

Vejam-se os cartazes virtuais da JSD que metem dó no seu simplismo político e ignorância. Por exemplo, este particularmente simpático para Stalin.

NOGUEIRA

Nem os portugueses votaram em Stalin, nem Mário Nogueira está, nem de perto nem de longe, encafuado nas vestes de um Stalin português. Eles não percebem a diferença, só lhes interessa o epíteto. E é de um ridículo atroz dizer que o cancelamento de alguns contratos com colégios privados, que são negócios legítimos, mas negócios, tem alguma coisa a ver com o estalinismo. Bastavam estes excessos de linguagem para se perceber que quem fala de uma forte radicalização à direita tem toda a razão com que então o nosso Stalin é Mário Nogueira? A linguagem e os epítetos revelam esse radicalismo. Acresce, como já disse acima, que é boa propaganda para Stalin. Stalin não “manipulava” as pessoas, matava-as.

Na ridícula imagem que a JSD tinha feito, antes da do Mário Nogueira, em que Lenine preside à coligação de esquerda com Costa no meio, também nada sabem de Lenine cuja evocação é tão despropositada que, de novo, é o anátema e não a substância que conta. São cartazes de insulto, nada mais e o resto é folclore político. Acresce que de todas as bandeiras com a foice e o martelo que podiam representar escolheram aquela que a prudência implicava não terem escolhido, uma das raras que simbolizou um acto festejado muito para além do comunismo: a bandeira soviética hasteada no Reichstag na vitória contra os nazis, com Berlim destruído em fundo. Quando começou a polémica sobre o significado ambíguo da imagem, um antigo deputado do CDS justificou-a com a seguinte frase: “se é um facto que Hitler foi derrotado no momento em que esse exército chegou a Berlim, vindo de Leste, é um reescrever da história chamar-lhe libertação ou celebrar esse dia”.

COSTA_PUBLICO

Churchill, que certamente esse deputado incluirá entre os seus heróis, explicar-lhe-ia com alguns expletivos, o que “esse dia significou”, e por que razão disse uma vez que se o Diabo resolvesse atacar Hitler, proferiria no Parlamento algumas frases simpáticas sobre o Inferno. É que Churchill não fez só o discurso de Fulton. Defendeu intransigentemente a colaboração com aquilo que o deputado do CDS chama “esse exército(…) vindo de Leste”, que foi quem num certo sentido ganhou a guerra na frente decisiva para os alemães, a de Leste.

Veja-se o caso de Rodrigues dos Santos que diz que o fascismo nasceu do marxismo e que acha que ao dizer isto descobriu alguma coisa e que incomoda muita gente. Desengana-se, não incomoda ninguém. Há nas ideias troncos comuns e derivações e, no caso do marxismo e do fascismo, genealogias, semelhanças e diferenças que são das coisas mais estudadas pela historiografia contemporânea no complexo mundo teórico e filosófico do século XIX. Já quanto ao século XX e aos movimentos que personificaram variantes políticas dessas ideias, seja o anarquismo, o anarco-sindicalismo, o sindicalismo revolucionário, o fascismo, o nacional-socialismo, o comunismo, partilham influências e acima de tudo partilham história concreta. Não é, como diz, uma verdade escondida que “pouquíssima gente” conhece, mas uma matéria abundantemente estudada, polémica no grau e na dimensão, mas consideravelmente conhecida.

Fora da teoria e das ideias, na história concreta, as coisas são muito diferentes, e é isso que estas frases bombásticas escondem. Há de facto uma coisa em comum entre comunismo e fascismo — aconteceram no mesmo tempo histórico. Na “guerra civil europeia”, fascistas e comunistas combateram-se, mas são para esta variante da “cultura” política da Internet, “duas faces da mesma moeda”. Até colaboraram, no Pacto Germano-Soviético. Mas perguntem a um comunista francês fuzilado pelos alemães, ou a um fascista francês fuzilado pelos gaullistas, se são “duas faces da mesma moeda”? Presumo que com a fúria da resposta do morto, o pelotão de fuzilamento mudará de direcção.

Historiador

A segunda parte deste texto será publicada no próximo sábado.

 

 

Quero ser um ditador

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/05/2016)

Autor

                     Daniel Oliveira

Uma motorista da Florida, ligada à plataforma Uber, não permitia, no estrito cumprimento da lei, que os clientes entrassem no seu carro com uma bebida alcoólica. Como conduzia à noite, isso custou-lhe suficientes más avaliações de suficientes clientes para lhe baixar o rating até ter sido desativada, o que quer dizer que perdeu o seu emprego. Teve de pagar 100 dólares para ter aulas de treino de como se relacionar com os clientes, aprovadas pela Uber. Hoje trabalha de dia, o que dá menos dinheiro.

Um motorista muçulmano de Tampa queixa-se que o seu rating está nuns perigosos 4,78. Sendo ele simpático e tendo um bom carro, e comparando-se a outros colegas que conduzem como maníacos e são seguramente menos atenciosos mas têm um rating mais alto, não teve dificuldade em encontrar uma relação entre o facto de ter deixado crescer a barba (que denuncia com maior facilidade a sua religião) e a descida do seu rating. Convicção que foi confirmada por um estudo recente entre ratings e preços praticados dependendo da raça dos anfitriões das casas do Airbnb, por exemplo.

Como acontece com alguma frequência neste tipo de debates, muita gente não percebeu que o que está em causa na discussão em torno do Uber não são apenas os táxis e aquela multinacional. O que está em debate são algumas alterações importantes na organização das nossas economias e nas relações laborais. Encolher os ombros, porque o futuro é mesmo assim, é uma atitude apolítica e absurda, mas disso tratarei noutro texto, talvez amanhã. Em torno da Uber decidi concentrar-me na questão da regulação. Porque é, na realidade, o problema central que as empresas e pessoas que a ela aderem levantam neste momento. Mas há um outro debate, que tem a ver com as relações laborais. Uma parte prende-se com a mesmíssima regulação e já está tratado. Outro não se levanta apenas com a Uber. Existe igualmente em aplicações como o myTaxi e outras que funcionam em Portugal, que sendo em tudo semelhantes à Uber, trabalham apenas com taxistas credenciados e carros licenciados. E existem em cada vez mais serviços, como Airbnb. Têm, no entanto, repercussões diferentes quando se aplicam ao conjunto de um serviço ou quando servem para avaliar trabalhadores individualmente.

O sistema de rating dá ao cliente um papel absoluto. Ele torna-se, na realidade, um patrão com poderes quase ilimitados. As suas vontades, por mais absurdas e ilegítimas que sejam, valem tanto como uma avaliação razoável do desempenho de uma função. Imagine-se o sistema de rating aplicado a um médico, a um professor, a um jornalista ou a um engenheiro. Ele tenderia, como tende com os motoristas, a sobrevalorizar a simpatia, a apresentação, o conforto e a subvalorizar a segurança e outros fatores que, sendo objetivamente mais importantes, são menos percetíveis para o cliente. Como se viu pelas histórias que relatei no início deste texto, que recolhi num excelente artigo da publicação norte-americana “The Verge”, que aconselho a todos a leitura, o sistema de rating permite que cada trabalhador viva debaixo de um despotismo sem limites de um patrão caprichoso, omnipresente e omnipotente. Leva ao extremo a lógica do mercado aplicada a seres humanos. Os trabalhadores já não procuram apenas dinheiro. Procuram pontos que têm como principal função conservarem o seu emprego.

Sobrevalorizando as qualidades sociais dos trabalhadores e subvalorizando as suas qualidades técnicas, o sistema de rating promove uma relação servil entre empregado e cliente. Como cliente, eu ficarei seguramente a ganhar. Saio de casa, entro no café e só tenho gente sorridente e bonita, nunca maldisposta ou acabrunhada, sempre pronta para responder a todos os meus desejos. Entro no táxi e sou atendido por gente igualmente bonita, preferencialmente jovem e bem vestida, que me proporcionará uma experiência de conforto e boa disposição. E os meus dias serão todos assim. Os motoristas, os empregados de café, os vendedores de jornais, os bancários, os médicos e todas as pessoas que comigo contactam não se limitam a ter de cumprir bem a sua função: transportar-me, servir-me o pequeno almoço, vender-me o jornal, aceitar o meu depósito, tratar da minha doença. Elas dão-me, quotidianamente, o direito a nunca sentir a frustração da contrariedade. Se me contrariarem pagarão no seu rating e, com uma facilidade avassaladora, podem perder o seu trabalho.

Um dos maiores elogios que vou ouvindo a qualquer alternativa aos taxistas é não terem de ouvir conversas inconvenientes. Aliás, é estarem, a não ser que lhes seja de alguma forma solicitado que falem, calados. Porque pagamos. É ouvirem a rádio que pedimos e não a do seu gosto. Porque pagamos. É apagarem todos os traços da sua existência para lá da função de nos servir. Porque pagamos. Criamos em todos os trabalhadores o espírito subserviente do mordomo que encontra na satisfação do seu patrão o sentido da sua própria existência. É verdade que nunca mais teremos de aturar taxistas e empregados de café rudes. Mas, como trabalhadores, teremos de aceitar sem qualquer possibilidade de fuga a infinita rudeza de qualquer cliente. Porque ele tem o poder não apenas de deixar de ser cliente mas de nos avaliar publicamente. Passaremos a estar totalmente dependentes de milhares de terríveis e caprichosos patrões. Como podem compreender pelo artigo que aqui vos deixei linkado, o rating de clientes não resolve o problema.

Poderemos viver numa redoma assética onde tudo cumpre a função de nos proteger de qualquer contrariedade. Incluindo a contrariedade de ouvir opiniões que nos desagradam (os motoristas do Uber são aconselhados a evitar assuntos controversos), ver pessoas com um aspeto que nos incomoda, sentir coisas que nos contrariam, num exercício quotidiano e quase infantil de autocentramento e comodismo. E poderemos conseguir isto sem grande esforço. Citando o artigo da “The Verge”, criaremos um monstruoso grupo de clientes que espera ter “o serviço do Ritz Carlton ao preço da McDonald’s”. Democratizamos finalmente o direito a ser um déspota.

Há, claro está, um problema. Saídos do café, do táxi, do banco, da livraria, temos de ir nós próprios trabalhar. E aí seremos nós servis com os outros que, cansados da sua posição subalterna, sentirão eles mesmos o prazer de ser uns pequenos ditadores. Não discuto que, do ponto de vista do mercado, esta forma de nos relacionarmos com os serviços que nos são oferecidos é de uma enorme eficácia. A questão, que hoje é quase sempre ignorada em todos os debates sobre a economia on-demand, é se queremos viver numa sociedade em que todos somos, à vez, ditadores e servos, senhores absolutos do nosso quotidiano, quando não estamos a trabalhar, e trabalhadores amputados de personalidade quando servimos os outros. Dirão que sou conservador, mas acredito numa negociação mais suave da contrariedade, onde as pessoas que me aparecem à frente não são todas bonitas, jovens e agradáveis e em que eu, para sobreviver, não tenho de me sujeitar à vontade despótica do cliente.

O problema dos ratings não é a possibilidade de estranhos partilharem entre si uma avaliação que, aos olhos do otimismo tecnológico dominante, tenderá a encaminhar-se para a justiça. É que essa avaliação, por ser espontânea, não se rege por princípios técnicos, éticos, legais ou de razoabilidade. Enquanto isso servir para coisas pouco relevantes não me tira o sono. O problema é quando o nosso trabalho e a nossa sobrevivência dependem disso.

A confiança na justiça e equilíbrio da espontaneidade das massas não é apenas um disparate otimista a que nenhum adulto medianamente culto se deveria permitir. Põe em causa muito mais adquiridos civilizacionais do que imaginamos. Se quisermos resumir de forma brutal e extremada, é isto: continuamos a preferir o julgamento feito por juízes ao linchamento feito pela turba? Com as devidas distâncias, é isto que está em causa. Não no Uber ou nos ratings, mas na confiança cega nas novas dinâmicas coletivas e não mediadas, de mercado ou outras, possibilitadas pela Internet.