A máquina da ignorância ao serviço da política que não ousa dizer o nome

 

(José Pacheco Pereira, in Público, 04/06/2016)

Autor

                      Pacheco Pereira

Muitas das polémicas políticas usando a história que se estão a dar em Portugal estão cheias de ignorância presumida.

Um dos efeitos perversos da cultura da Internet é a desvalorização do saber, do conhecimento, do estudo. Há muita gente que fica irritada quando se lhes toca no deslumbramento tecnológico e também, por arrasto, no direito de dizer alto, que é o que significa “publicar” na Internet, todas as asneiras possíveis visto que “todos têm direito à sua opinião”.

Acham que criticar isto é “presunçoso”? Então acabou a ignorância? Lá porque cada um pode colocar o que quer na Internet isso dá-lhe um atestado de sabedoria? Não, é uma doença dos tempos modernos e está-se agravar principalmente nos mais jovens que obtêm na rede quase toda a informação e não tem literacias para a mediar. A “democracia” das “redes sociais” é uma forma de populismo moderno.

Eu costumava chumbar os alunos de filosofia que, para esconder infantilmente a sua ignorância, diziam que também tinham uma “opinião pessoal” sobre Kant. Ai tem? Mas que sorte, é que eu não tenho e a esmagadora maioria das pessoas letradas do mundo também não tem, incluindo 99% dos professores de filosofia e a maioria absoluta dos especialistas em Kant, pela simples razão que ter uma “opinião pessoal”, que não seja uma repetição, ou seja, que seja “pessoal”, exige muito estudo, muito conhecimento de Kant, e muita criatividade filosófica. Se não é do domínio do génio filosófico, fica perto. Não é Habermas quem quer.

Mas a Internet está cheia disto, gente que escreve sobre um livro começando por dizer que não o leu, que escreve sobre cinema porque viu uns filmes, que se torna crítico literário porque “também pode dizer o que quiser”, ou melhor, “que tem o direito de dizer o que quiser” e só os passadistas de duvidosa democraticidade é que não querem que este “direito seja de todos”. E depois dizem “habituem-se que o mundo mudou”. Sim o mundo mudou, mas ninguém tem obrigação de aturar este ruído das “redes sociais” dos comentários, do “todos temos direito a falar, mesmo que não tenhamos nada para dizer”: “é a minha opinião pessoal sobre Kant, embora nunca o tenha lido e, se me criticam, berro que é censura e elitismo e nostalgia do mundo em que só os “sábios” (dito com desprezo) podiam falar…”.

Era só uma questão de tempo até que este tipo de “escola” chegasse à política. Muitas das polémicas políticas usando a história que se estão a dar em Portugal estão cheias deste tipo de ignorância presumida, e louvo quem se dá ao trabalho de os tomar a sério naquilo que dizem, embora a intencionalidade política já seja mais séria e justifique maior discussão. O problema é político e tem a ver com a emergência de uma direita agressiva e muito ignorante, que acha que está a escancarar uma porta ideológica que a esquerda tem cerrada a sete pés, e nem sequer percebe que essa porta está mais que aberta há muitos anos. Atiram-se à porta com denodo verbal e voam para o outro lado sem travagem.

Vejam-se os cartazes virtuais da JSD que metem dó no seu simplismo político e ignorância. Por exemplo, este particularmente simpático para Stalin.

NOGUEIRA

Nem os portugueses votaram em Stalin, nem Mário Nogueira está, nem de perto nem de longe, encafuado nas vestes de um Stalin português. Eles não percebem a diferença, só lhes interessa o epíteto. E é de um ridículo atroz dizer que o cancelamento de alguns contratos com colégios privados, que são negócios legítimos, mas negócios, tem alguma coisa a ver com o estalinismo. Bastavam estes excessos de linguagem para se perceber que quem fala de uma forte radicalização à direita tem toda a razão com que então o nosso Stalin é Mário Nogueira? A linguagem e os epítetos revelam esse radicalismo. Acresce, como já disse acima, que é boa propaganda para Stalin. Stalin não “manipulava” as pessoas, matava-as.

Na ridícula imagem que a JSD tinha feito, antes da do Mário Nogueira, em que Lenine preside à coligação de esquerda com Costa no meio, também nada sabem de Lenine cuja evocação é tão despropositada que, de novo, é o anátema e não a substância que conta. São cartazes de insulto, nada mais e o resto é folclore político. Acresce que de todas as bandeiras com a foice e o martelo que podiam representar escolheram aquela que a prudência implicava não terem escolhido, uma das raras que simbolizou um acto festejado muito para além do comunismo: a bandeira soviética hasteada no Reichstag na vitória contra os nazis, com Berlim destruído em fundo. Quando começou a polémica sobre o significado ambíguo da imagem, um antigo deputado do CDS justificou-a com a seguinte frase: “se é um facto que Hitler foi derrotado no momento em que esse exército chegou a Berlim, vindo de Leste, é um reescrever da história chamar-lhe libertação ou celebrar esse dia”.

COSTA_PUBLICO

Churchill, que certamente esse deputado incluirá entre os seus heróis, explicar-lhe-ia com alguns expletivos, o que “esse dia significou”, e por que razão disse uma vez que se o Diabo resolvesse atacar Hitler, proferiria no Parlamento algumas frases simpáticas sobre o Inferno. É que Churchill não fez só o discurso de Fulton. Defendeu intransigentemente a colaboração com aquilo que o deputado do CDS chama “esse exército(…) vindo de Leste”, que foi quem num certo sentido ganhou a guerra na frente decisiva para os alemães, a de Leste.

Veja-se o caso de Rodrigues dos Santos que diz que o fascismo nasceu do marxismo e que acha que ao dizer isto descobriu alguma coisa e que incomoda muita gente. Desengana-se, não incomoda ninguém. Há nas ideias troncos comuns e derivações e, no caso do marxismo e do fascismo, genealogias, semelhanças e diferenças que são das coisas mais estudadas pela historiografia contemporânea no complexo mundo teórico e filosófico do século XIX. Já quanto ao século XX e aos movimentos que personificaram variantes políticas dessas ideias, seja o anarquismo, o anarco-sindicalismo, o sindicalismo revolucionário, o fascismo, o nacional-socialismo, o comunismo, partilham influências e acima de tudo partilham história concreta. Não é, como diz, uma verdade escondida que “pouquíssima gente” conhece, mas uma matéria abundantemente estudada, polémica no grau e na dimensão, mas consideravelmente conhecida.

Fora da teoria e das ideias, na história concreta, as coisas são muito diferentes, e é isso que estas frases bombásticas escondem. Há de facto uma coisa em comum entre comunismo e fascismo — aconteceram no mesmo tempo histórico. Na “guerra civil europeia”, fascistas e comunistas combateram-se, mas são para esta variante da “cultura” política da Internet, “duas faces da mesma moeda”. Até colaboraram, no Pacto Germano-Soviético. Mas perguntem a um comunista francês fuzilado pelos alemães, ou a um fascista francês fuzilado pelos gaullistas, se são “duas faces da mesma moeda”? Presumo que com a fúria da resposta do morto, o pelotão de fuzilamento mudará de direcção.

Historiador

A segunda parte deste texto será publicada no próximo sábado.

 

 

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4 pensamentos sobre “A máquina da ignorância ao serviço da política que não ousa dizer o nome

  1. Pois é pacheco. O passado, a história, tem uma força gigantesca na nossa mente, nos nossos processos mentais, pois é o conhecimento do passado que precede o pensamento actual e o projecta no futuro por associações lógicas racionais.
    O passado, a história, foi, aconteceu, e perante os acontecimentos que são agora textos lidos, relidos e treslidos cada um faz interpretações segundo seu ponto de vista ideológico e, portanto, os bebés do teu psd e outros presumidos que só têm passado porque ter/ler futuro é que é difícil. Todos podemos dizer, com certeza confirmada, eu vi e eu fiz assim e deu certo, e foi bom, e teve sucesso mas, ninguém pode afirmar com certeza; amanhã, eu vejo e sei, vou fazer como já fiz uma vez e vai dar certo novamente.
    O historiador pacheco, ou outro qualquer, pode fazer as lucubrações que entender acerca do passado que mesmo sobre o passado não obtém uma verdade categórica mas, acerca do futuro só pode sonhar ou dedicar-se a imitar Tirésias e nunca passará de uma endoidecida Cassandra.
    E o problema de pacheco é esse mesmo, como historiador julga que conhece o passado na versão “certa” e desta parte para prever o futuro e depois engana-se parva e lamentavelmente.
    Ainda na última “quadratura” partia da acção errática dos franceses, ingleses e Europa como os culpados do que acontecia hoje no médio oriente, guerra, refugiados, mortos, miséria, etc. Claro, fez batota ao pretender que o que se passava actualmente naquela área tinha começado com a intervenção de tentativa do derrube do regime Sírio para, precisamente, esconder o início de tudo que foi a invasão do Iraque que ele apoiou ao lado de durão, aznar, blair e bush.
    pacheco tem e lê muitos livros e alinhava pensamentos atrás uns dos outros numa literatura bem cerzida que lhe dão ares de mente profunda capaz de ler tanto o passado como o futuro. Mas falta-lhe faculdades para saber usar o conhecimento do passado para o projectar correctamente no futuro. É por isso que foi sempre um dedicado apoiante de cavaco e depois de durão, de manuela e de rio e sabenos nós que qualquer um deles se lhe falarem em livros e cultura são capazes de puxar logo da pistola.

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  2. caro estatuadesal,
    Digo o que penso fundamentado na observação atenta do que tem sido e feito pacheco desde o cavaquismo de que foi apoiante puro e duro; um permanente estar duvidoso na política.
    Um recém publicado livro lançou polémica com os historiadores acerca do “achamento” do Brasil porque um antepassado de 5 ou 6 gerações do nosso pacheco, o nobre Duarte Pacheco Pereira, deixou um documento duvidoso sobre se teria ele aportado ao Brasil em 1498 ou teria aportado a outro porto qualquer. O autor do livro serve-se da dúvida para lançar o livro e os historiadores, que já esmiuçaram histórica e academicamente a questão são contra tal hipótese do achamento do Brasil antes de Alvares Cabral.
    Como vê caro estatuadesal, a génese de ser ambíguo, de ter comportamento duvidoso já vem de longe. A nobre geração dos pachecos, certamente, há séculos que usam desta patine intelectual.
    Senão vejamos;
    De qual boa ideia política, deixada por pacheco ao país, citam ou se lembram os portugueses e estatuadesal?
    De que causa nacional ou internacional, na ordem política, de grandeza ética e humana nos lembramos de merecer a defesa de pacheco?
    Que feito político ou social podemos atribuir a pacheco em prol do bem dos portugueses?
    Zero, caro estatuadesal.
    E pelo contrário, podemos atribuir a pacheco o apoio sem reservas, ao serviço de cavavo, de um escroque do calibre de duarte lima.
    E, desde então, em termos políticos foi sempre mais ou menos do mesmo quilate. Mas recentemente teve mais um momento delirante à pacheco quando veio fazer a apologia do ignóbil jornal “cm”.
    E repito, um dos grandes males do país não são os catroga, os belmiro, os pingo-doce, os barreto, os medina, o balsemão, os do “observador” pois esses todos sabemos bem quem são e o que querem, Pior são os “esquerdistas literários” como pacheco, mst, clarinha, fedorentos & semelhantes que são profissionais ao serviço das ideias de direita muito bem embrulhadas em luzidias tiradas literárias e, sobretudo, em grandes oratórias políticas em defesa de causas de costumes e também morais.
    pacheco é um fel amargo para os portugueses e jamais será abelha.

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