A bifurcação

(Daniel Oliveira, in Expresso, 04/06/2016)

Autor

                         Daniel Oliveira

É provável que o único debate no congresso do PS resulte das posição de Francisco Assis. Não pela sua relevância interna, que se resumiu a meia dúzia de pessoas à volta de um leitão, mas porque as suas críticas à geringonça permitem uma clarificação. Francisco Assis tem razão quando diz que há uma alteração de rumo no PS. Não a tem quando se apresenta como defensor da tradição do PS. Dar continuidade aos antigos entendimentos entre o PS e o PSD obrigaria o PS a refundar-se politicamente. Por isso é que, para o defender, Assis foi obrigado a negar um radicalismo ideológico que até os militantes históricos do PSD reconhecem em Passos Coelho. Ou a continuar a falar de reformas estruturais sem nunca explicitar o seu conteúdo. Isso revelaria o fosso que divide os dois partidos.

Houve um tempo em que os entendimentos ao centro se faziam, na Europa, em torno de quatro objetivos fundamentais: a construção do Estado Social numa economia de mercado; a concertação social em vez da luta de classes; a aposta numa união da Europa para a convergência económica e social entre os Estados; e a oposição ao bloco soviético. Pelo menos as três últimas separavam os socialistas dos partidos revolucionários e todas elas aproximavam o centro-esquerda do centro-direita. Mas tudo mudou.

Como se tem visto na polémica em torno dos contratos de associação, a agenda da direita passa por criar um mercado privado de serviços públicos de saúde, de educação e de segurança social financiados pelo Estado. O que é a negação daquilo em que qualquer social-democrata acredita. Com o ocaso do sindicalismo e a desregulação laboral, a concertação social é hoje uma ruína que a direita não gastará um minuto a tentar reconstruir. O euro é um dos principais instrumentos de divergência económica e social entre países e o europeísmo de esquerda, se existe, é o inverso do consenso de Bruxelas e Berlim. E o bloco comunista morreu. Os socialistas deixaram de ter qualquer ponto de convergência com a direita. E se não querem ficar a carpir as mágoas pelas derrotas das últimas duas décadas têm de passar à ofensiva e encontrar entre alguns adversários do passado os seus novos aliados. A política sempre se fez destes encontros e desencontros, dependentes das circunstâncias da história.

O debate a ser feito pelo PS é o que está a dividir os partidos socialistas europeus, do Labour ao PSF. Os socialistas franceses continuaram o caminho iniciado por Blair e Schroeder e transformaram-se nos promotores da liberalização radical da economia, dos serviço públicos e das relações laborais. Sofrem uma brutal contestação nas ruas que se vai repetir nas urnas. O SPD alemão remeteu-se para o papel de muleta de Merkel e está abaixo dos 20% nas sondagens. Num e noutro caso, perdem votos para a extrema-direita. Por cá, António Costa compreendeu que insistir na incomunicabilidade com a esquerda era ficar refém de uma agenda que, além de ser a antítese do socialismo moderado, o condenaria a perder votos para o Bloco e para a abstenção e a ter de contar sempre com o PSD para governar. O PS seria o parceiro mais ou menos contrariado da destruição do seu próprio património. Ter alguém a bater-se por esta capitulação é uma oportunidade para o PS clarificar a sua estratégia. E para Costa mostrar que é mais do que um negociador talentoso.

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3 pensamentos sobre “A bifurcação

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