“Teoria da internet morta”: já aconteceu, e está a matar a web como a conhecemos

(Notícias Zap in Zap.aeiou, 01/08/2026)


A teoria da internet morta circula online desde a década de 2010, e a ideia de que a web é dominada por atividades não humanas era muitas vezes descartada como uma conspiração marginal. Agora, tornou-se um facto comprovado. E as máquinas já não se limitam a visitar. Estão a transacionar.


A certa altura de junho de 2026, sem cerimónia, os seres humanos tornaram-se minoria na internet que construíram.

Segundo a Fortune, a Cloudflare, que gere o tráfego de milhões de sites, revelou que os bots geram agora 57,5% dos pedidos de páginas web.  Em março, o presidente executivo da empresa, Matthew Prince, tinha previsto que esse cruzamento só chegaria no final de 2027.

Chegou mais de um ano antes.

A Thales, gigante mundial da defesa e da tecnologia, defende no seu relatório anual, o “Bad Bot Report“, que as máquinas passaram a ser maioria dos “utilizadores” da internet já em 2023.

As empresas divergem sobre quando se deu a inversão. Nenhuma discorda de que ela aconteceu.

A “teoria da internet morta“, a velha conspiração dos fóruns segundo a qual a maior parte da atividade online não é humana, é real. A única coisa que se disputa agora é como essa atividade é medida.

E escondida dentro dessa disputa está uma história bem maior: o modelo de negócio que financiou a web durante 30 anos acabou de apagar o pressuposto que lhe deu origem, escreve Rita McGrath, professora da Columbia University Business School, num artigo na Fast Company.

O pecado original foi uma escolha, não uma lei da natureza

Já nos esquecemos disto, mas quando a internet comercial começou a descolar, nos anos 1990, a forma de a monetizar estava genuinamente em aberto.

Houve quem propusesse a sério os micropagamentos. Debateram-se as subscrições. Chegaram a ser aventados modelos de financiamento público. Venceu a publicidade.

Não venceu por ser inevitável, mas por ser fácil. A atenção podia medir-se; os pagamentos, na altura, não se conseguiam tornar isentos de atrito.

Assim, fixámo-nos num grande pacto: os conteúdos seriam “gratuitos”, e o preço sairia da nossa atenção e, mais tarde, dos nossos dados. Como diz a velha máxima: “Se não pagas pelo produto, o produto és tu“.

Os efeitos de segunda ordem dessa escolha definiram uma era. A vigilância tornou-se o motor económico da web: quanto melhor se conhecia o humano do outro lado do ecrã, mais se podia cobrar para lhe pôr coisas à frente.

A imprensa tradicional, que tinha financiado o jornalismo com publicidade vendida em pacote, ficou esvaziada. Aceitámos como termos de serviço perdas de privacidade que teriam gerado indignação se um governo as tivesse imposto.

Todo um edifício de um bilião de dólares, feito de custos por clique, impressões de anúncios, funis de conversão, analítica de visualizações de página e modelos de atribuição, assentava num pressuposto: o de que o visitante é um ser humano a quem se pode convencer a comprar algo.

Esse pressuposto é hoje mais vezes falso do que verdadeiro.

As máquinas não se limitam a visitar. Estão a transacionar.

O que torna este momento diferente do tráfego de bots de outros tempos é o que as máquinas fazem.

Segundo o relatório de 2026 da Human Security, o tráfego de agentes de IA que executam ações na web, como clicar em ligações, preencher formulários e concluir tarefas, cresceu 7.851% em termos homólogos.

Não a extrair dados. A agir.

A plataforma fintech Stripe indica que cerca de 70% dos comandos que chegam às suas APIs de dados vêm agora de agentes, e não de pessoas.

A plataforma de negociação Alpaca viu as chamadas às APIs feitas por agentes saltar de valores de menos de 10% para 30% do seu volume num único trimestre. Hoje, 25% dos programadores concebem interfaces de programação de aplicações a pensar nos agentes, e não nos humanos, como cliente principal.

Rudy Yang, o analista da PitchBook que assinou o relatório de julho da empresa sobre aquilo a que chama a “economia das máquinas“, disse à Fortune que os agentes “consomem a web de forma completamente diferente da dos humanos”.

É, na prática, uma categoria de clientes totalmente nova. E nenhuma empresa quer fechar-se a um segmento inteiro de clientes.

Nos últimos meses, empresas como a Visa, a Stripe, a DoorDash, a Coinbase e a Ramp lançaram interfaces viradas para agentes. O ponto de inflexão é inconfundível.

Eis a realidade que os anunciantes têm agora de encarar. Os agentes não têm olhos. Não se demoram num banner publicitário, não sentem um lampejo de desejo perante a sapatilha que os persegue em anúncios, nem clicam em conteúdo patrocinado por mera curiosidade.

Não se consegue vigiar um agente até o empurrar para uma compra por impulso.

Cada dólar da economia da atenção partiu do princípio de que havia um primata distraível do outro lado da ligação. Os primatas estão a sair do edifício e a mandar o software no seu lugar.

Já vimos este filme

A economista Carlota Perez mostrou que todas as revoluções tecnológicas passam por um ponto de viragem. É um período de crise institucional, em que os modelos de negócio, as regulações e os pactos sociais da era de instalação se desmoronam, e é preciso inventar outros para a era de implantação.

O período febril de instalação constrói a infraestrutura. O ponto de viragem é quando descobrimos que as regras que escrevemos para o jogo antigo já não funcionam.

modelo de publicidade e vigilância é um artefacto da era de instalação da revolução digital. Foi montado à pressa nos anos 1990, hipertrofiou-se na década de 2010 e está agora a desfazer-se.

Não porque os reguladores tenham finalmente agido ou os consumidores se tenham finalmente revoltado, mas porque o próprio tráfego mudou de espécie.

Os pontos de viragem são precisamente o momento em que os pressupostos mais profundos vêm ao de cima. “O visitante é humano” era, afinal, um dos mais profundos de todos.

E antes que alguém declare a economia das máquinas a nova corrida ao ouro, aqui fica alguma perspetiva: a PitchBook estima que apenas cerca de 1% dos cerca de 20 biliões de dólares (cerca de 17,5 biliões de euros) em trabalho que poderiam plausivelmente passar por agentes de IA passam de facto por eles hoje.

A startup de IA Forsy estima o “PIB dos agentes” total em cerca de 36 mil milhões de dólares por ano (cerca de 31 mil milhões de euros).

É minúsculo, em comparação. As regras para o próximo modelo de negócio da internet escrevem-se agora mesmo, por quem aparecer para as escrever. É este o aspeto de um ponto de viragem visto por dentro.

O que vem depois da atenção

Se não é possível monetizar a atenção humana, o que é que se monetiza? Já se veem os contornos de vários modelos candidatos.

acesso passa a ser o produto. A Cloudflare e outras empresas estão a experimentar acordos de pagamento por rastreio (pay-per-crawl), em que as empresas de IA compensam os editores pelos conteúdos que os seus sistemas consomem.

O conteúdo deixa de ser isco para olhos e passa a ser matéria-prima licenciada, vendida ao token, não à impressão. Para os editores que passaram duas décadas a dar tudo de graça para atrair anunciantes, isto é uma inversão completa da cadeia de valor.

API passa a ser a montra. Quando 25% dos programadores já constroem para os agentes enquanto consumidor principal, a interface virada para as máquinas deixa de ser canalização. Passa a ser a montra, o motor de preços e a experiência de marca, tudo num só.

As empresas que tratarem o acesso dos agentes como um canal monetizável, com escalões, níveis de serviço e condições, vão encontrar receita onde outras só veem custos de servidor.

intenção substitui a atenção. Um agente chega com um mandato: encontrar a tarifa mais baixa, reabastecer o armazém, agendar a marcação. Não se deixa distrair, mas pode conquistar-se, por atributos como o preço, a fiabilidade, a qualidade dos dados estruturados e a confiança que inspira.

A economia da sedução dá lugar a uma economia da qualificação. Ser escolhido por um algoritmo pelo mérito é um jogo muito diferente de ser notado por um humano num feed, e vai recompensar capacidades muito diferentes.

humanidade verificada torna-se escassa. E valiosa. Quando a maior parte do tráfego é sintética, a prova de que se é uma pessoa real passa a ser um produto premium.

É de esperar que comunidades humanas autenticadas, avaliações verificadas por humanos e experiências “com humano certificado” atinjam preços que o espaço comum, gratuito e inundado de bots, nunca conseguirá.

A agenda dos líderes

Para os líderes, a tentação vai ser tratar isto como um problema de informática.

Seria um erro. Quando um pressuposto fundador se quebra, não se remenda. Replaneia-se à volta dele. Há agora três movimentos que importam.

Em primeiro lugar, reveja os seus instrumentos e métricas. As suas métricas de envolvimento já estão contaminadas.

Os navegadores agênticos inflacionam as sessões e reduzem as taxas de rejeição de formas que a analítica corrente não deteta. Descubra que fatia dos seus “clientes” são máquinas antes de tomar outra decisão com base em dados de tráfego.

Em segundo lugar, trate os agentes como um segmento, com o seu próprio percurso a mapear, as suas próprias necessidades a servir e os seus próprios preços a pagar. Algures na sua organização, alguém deve ser responsável pelo cliente-agente, tal como alguém é responsável pelo cliente empresarial.

Finalmente, conduza a transição como um conjunto de pressupostos a testar, não como um plano a executar. Ninguém sabe qual dos modelos pós-publicidade vai vencer. Isso aconselha uma abordagem orientada para a descoberta.

As empresas que ficaram presas na última transição de modelo de negócio foram as que apostaram tudo na hipótese de o mundo ficar quieto.

Há trinta anos, deixámos que um modelo de negócio nos escolhesse, e passámos décadas a viver com as consequências: a vigilância, a erosão da privacidade, o colapso das instituições que outrora pagavam o jornalismo sério. Agora o modelo está a morrer de causas naturais, morto não pelo nosso bom senso, mas pelo nosso próprio software.

Temos uma segunda oportunidade perante uma decisão que mal demos conta de estar a tomar da primeira vez. Seria uma pena voltar a atravessá-la a dormir.

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Pavel Durov adverte: “Um mundo sombrio e distópico aproxima-se rapidamente, enquanto dormimos.”

(Media in ContraCultura, 13/10/2025)


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O CEO do Telegram, Pavel Durov, publicou na quarta-feira passada um poderoso e arrepiante manifesto, por ocasião do seu 41º aniversário, que pode ficar para a história como uma espécie de ‘célebres e últimas palavras’; uma elegia por um modelo civilizacional que está claramente em estado comático.

Durov diz que estamos a ficar sem tempo. Mas será que ainda vamos a tempo?

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Não há notícias falsas…

(Carlos Esperança, 22/10/2018)

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Há notícias e mentiras, tendo as últimas mais rápida divulgação e melhor acolhimento. Poucos se lembram da central de intoxicação que levou o ora catedrático Passos Coelho a líder do PSD e, depois, a PM, com as redes sociais ao serviço dos desígnios de Miguel Relvas, Marco António e Paulo Júlio, primeiro na disputa com Paulo Rangel e, a seguir, contra a esquerda, em geral, e o PS, em particular.

O carácter artesanal é agora sofisticado e dispõe dos mais talentosos peritos dos serviços secretos de grandes potências e do apoio financeiro dos maiores grupos económicos. As redes sociais levaram Trump ao poder, um arrivista impreparado e perigoso. Bolsonaro, com a conivência da IURD e a cobarde abstenção do ex-presidente Fernando Henriques Cardoso, será o próximo PR do Brasil, graças às mentiras difundidas nas redes sociais, depois da conjura judicial e partidária no golpe constitucional da destituição de Dilma.

Tal como Hitler e Mussolini que, felizmente, continuam mortos, ou Duterte e Erdogan, ambos perigosamente vivos, Trump e Bolsonaro são produto da manipulação e mentira que escorre pelos esgotos a céu aberto das redes sociais da Internet.

No Brasil, os crentes da IURD e outros bandos de malfeitores convenceram milhões de incautos de que o homem que tentou matar Bolsonaro era do PT, que Haddad defende o incesto e o comunismo e pretende legalizar a pedofilia, e divulgaram a imagem de uma mulher agredida pelo PT, a atriz Beatriz Segall, falecida no hospital, em setembro, aos 92 anos, por insuficiência respiratória, mesmo depois de desmascarados.

Em Portugal, segundo a denúncia do DN semanal, de ontem, num excelente trabalho de Paulo Pena, o dono de uma empresa informática de Santo Tirso, tem diversos ‘sites’, todos com o mesmo IP, domiciliados no Canadá: Direita Política, A voz da Razão, Não Queremos Um Governo de Esquerda em Portugal, Vídeo Divertido e Aceleras.

A empresa de João Pedro Rosas Fernandes, apoiante de Trump e Bolsonaro, chama-se Forsaken. Dos esgotos referidos saíram, entre outras, duas ignóbeis mentiras: o relógio de Catarina Martins, no valor de 21 milhões de euros, numa montagem da sua foto e do relógio, encimada pela frase “A maior fraude da política portuguesa” e outra, em baixo, que completava a mensagem “…a seguir a António Costa”. A outra mentira foi a foto de um jantar em casa de José Sócrates, onde uma das pessoas era referida como a atual PGR, mentira que também me chegou e o PSD de Serpa logo divulgou, o que obrigou o partido a pedir desculpa, que não chegou a todos.

Do Brexit à eleição de Trump, as mentiras foram decisivas, assim como na composição partidária atual de Itália, Áustria, Polónia, Chéquia, Eslováquia ou Hungria e alterações de pendor fascista de outros países que vêm alterar o espetro político europeu.

Tal como Relvas e Passos Coelho ficaram impunes, relativamente à fraude de 6.747.462 euros, apurada pelo Organismo Europeu de Luta Antifraude, que o DCIAP arquivou, ignorando a investigação de Bruxelas, também de Marco António, Luís Filipe Meneses e outros autarcas do PSD do Norte, não se conhece qualquer investigação, e nem se crê que aconteça, depois da denúncia da revista Visão sobre a alegada rede de corrupção.

João Pedro Rosas Fernandes, o dono de sites referidos para a difusão de mentiras contra políticos de esquerda, parece beneficiar do vazio legal em relação aos crimes praticados.