Os EUA vangloriam-se da sua guerra de informação contra a Rússia

(In Resistir, 15/05/2022)

Esta semana pôde assistir-se a relatos na comunicação social dos EUA admitindo abertamente que os serviços de inteligência americanos estão a semear conscientemente desinformação na comunicação social.

Uma  vez, o ex-diretor da CIA William J. Casey disse abertamente ao presidente americano Ronald Reagan e a outros assessores durante uma reunião na Casa Branca: “Saberemos que o nosso programa de desinformação está completo quando tudo aquilo em que o público americano acreditar for falso”.

Alguns viram essa observação como um aparte irreverente que não era suposto ter uma consequência real. Outros, no entanto, afirmaram que tinha conotações sinistras muito mais deliberadas, cuja escala de controle público do pensamento é um objetivo consciente.

Quando se observa como o conflito na Ucrânia e as relações ocidentais com a Rússia estão  a desenrolar-se e a forma como a comunicação social ocidental  noticia isso, as palavras de Casey parecem ser um aviso sombrio.

Esta semana apareceram alegações chocantes amplificadas na comunicação social americana e ocidental de um massacre na cidade ucraniana de Bucha supostamente realizado por tropas russas. A fonte dessas alegações foi a milícia ucraniana associada ao Batalhão Azov, infestado de nazis. O Batalhão Azov, cujos membros exibem abertamente a insígnia das Waffen-SS, foi treinado e armado pelos Estados Unidos e outros militares da NATO na última década.

Não houve nenhuma tentativa da comunicação social ocidental de verificar as alegações sensacionais feitas contra a Rússia. Foram impressas e transmitidas com entusiasmo, levando a mais sanções ocidentais e fornecimento de armas à Ucrânia em apoio ao regime de Kiev. O que é ainda mais perturbador é que a informação que pretende incriminar as tropas russas é questionável. As supostas atrocidades parecem ter ocorrido vários dias depois de as forças russas se retirarem da área.

Moscovo alegou que os assassinatos foram realizados pelo batalhão Azov, apoiado pelo Ocidente, numa provocação de bandeira falsa para culpar a Rússia. No entanto, a comunicação social ocidental rotulou em reflexo as alegações russas como “propaganda do Kremlin”. Até mesmo analistas ocidentais e fontes de comunicação social alternativa foram difamados ou censurados por ousar desafiar a narrativa de supostas atrocidades russas. Uma dessas vozes independentes é a de Scott Ritter, ex-oficial do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, que foi temporariamente banido das redes sociais esta semana por fazê-lo.

Uma ironia amarga é que esta semana também se assistiu a reportagens na comunicação social americana admitindo abertamente que os serviços de inteligência americanos estão a semear conscientemente desinformação na comunicação social. Longe de sentir vergonha ou arrependimento, as agências de inteligência e a comunicação social dos EUA estão exultantes com a prática de atribuir à Rússia a “guerra de informação”.

Algumas das histórias de desinformação admitidas incluem alegações de que a Rússia estava planear usar armas químicas na Ucrânia; que o presidente russo Vladimir Putin estava a ser enganado pelos seus generais sobre a falta de progressos na guerra; e que Moscovo estava a procurar obter suprimentos de armas da China para a guerra na Ucrânia. Todas estas histórias são agora reconhecidas como falsas. A comunicação social dos EUA está a mentir ao público e a admitir isso abertamente. Mas, supostamente, tudo bem porque é em nome da guerra de informação contra a Rússia.

Outra história de desinformação foi a alegação feita em fevereiro pelo Departamento de Estado de que a Rússia estava a preparar-se para encenar ataques de bandeira falsa para servir de pretexto para invadir a Ucrânia. Quando o porta-voz do Departamento de Estado Ned Price foi desafiado pelos repórteres na época a fornecer provas concretas, ele insinuou sarcasticamente que esses repórteres estavam a promover propaganda russa. Acontece agora que o Departamento de Estado estava a vender mentiras plantadas por seus serviços de inteligência.

Nada desse conluio chocante entre serviços de notícias supostamente independentes e o aparelho secreto de inteligência deveria ser surpreendente. Afinal, o ex-diretor da CIA Mike Pompeo estava a gabar-se em público sobre o modo como a agência “mentiu e trapaceou o tempo todo” como um distintivo de honra.

Sabemos, de há décadas atrás, como a Operação Mockingbird foi um programa ambicioso da CIA para se infiltrar em todos os meios de comunicação dos EUA com editores e repórteres obedientes como agentes.

Frank Wisner, um importante oficial de inteligência da CIA, uma vez maravilhou-se com o que ele chamou influência da agência sobre a comunicação social como o “Poderoso Wurlitzer”, uma imagem adequada de um tocador de realejo a chamar a atenção para o discurso e a perceção do público.

Num trabalho de investigação de 1977 feito por Carl Bernstein, do Washington Post, famoso pelo seu papel no Watergate, foi relatado que centenas de jornais e emissoras nos Estados Unidos foram recrutados para o serviço da CIA. Os meios de comunicação incluíam o supostamente venerando New York Times até aos jornais provinciais em estados rurais poeirentos. Curiosamente, considerando  a  visão anterior de Bernstein sobre o controle do pensamento público pelo aparelho de inteligência, ele mais tarde tornou-se  um defensor da farsa “Russiagate” inventada pela inteligência dos EUA, implicando o ex-presidente Donald Trump como um fantoche russo.

Outra formidável fonte de verdade é o ex-agente sénior da CIA John Stockwell, que deu testemunhos copiosos e escreveu livros sobre como a CIA executa campanhas de desinformação da comunicação social em escala massiva e mundial.

Na Europa, o ex-editor de jornal alemão Udo Ulfkotte escreveu uma reportagem sobre como a CIA e outras agências de inteligência ocidentais recrutam funcionários em todos os principais meios de comunicação europeus para atuar como os seus olhos, ouvidos e bocas. Sabe-se também que a emissora estatal britânica, a BBC, foi, e talvez ainda seja, censurada pelo seu serviço nacional de inteligência, o MI5.

Embora tais revelações fossem conhecidas e divulgadas, era sempre uma conversa mole para evitar amplificar o escândalo para uma profissão que se gaba de guardiã do interesse público independente, da liberdade de expressão e pensamento, crítica do poder político e todo tipo de outros nobres epítetos.

Sempre foi um conceito ocidental denegrir a propaganda estatal como algo que foi feito na União Soviética e na Rússia de hoje, na China e em outros supostos estados “autocráticos”.

Diz o roto ao nu! A comunicação social ocidental, há muito, é muito mais culpada de vender desinformação ultrajante ao serviço das suas insituições de segurança militar. A farsa das armas de destruição em massa que levou à guerra genocida no Iraque em 2003 foi talvez o ponto mais baixo entre inúmeros outros episódios desonrosos. Há mais tempo tinha havido o falso incidente do Golfo de Tonkin que levou à Guerra do Vietname. Mais recentemente, houve a suposta mas falsa campanha de violações por soldados sob o comando do líder líbio Muammar Gaddafi que levou ao bombardeio da NATO na Líbia e ao assassinato de Gaddafi em 2011. O bombardeamento da NATO à Síria foi precedido de falsas alegações generalizadas da comunicação social ocidental de atrocidades com armas químicas que foram realmente realizados por representantes da mudança de regime apoiados pela NATO.

Na Ucrânia, a guerra foi precipitada pela NATO armando um regime nazi que estava a atacar a etnia russa no Donbass. Desde que a guerra eclodiu em 24 de fevereiro, após oito anos de provocações, a comunicação social ocidental acusou os militares russos de bombardear hospitais e teatros e agora de executar civis a sangue frio.

Isto é da mesma comunicação social que agora admite abertamente ser agente da desinformação e que parece não ter vergonha disso. Na verdade, eles estão orgulhosamente a gabar-se do seu papel de mentirosos como algo nobre. Esses meios de comunicação são cúmplices em alimentar conflitos e guerras. A sua função é encher o público de ignorância e nacionalismo exacerbado contra a Rússia para fortalecer a causa das indústrias e economias belicistas. Neste clima orwelliano distorcido, falar a verdade é cometer crime de pensamento e ser vilipendiado por aqueles que se exaltam na mentira.


Ver também:
La intoxicación lingüística. El uso perverso de la lengua, de Vicente Romano

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/news/2022/04/08/us-media-boast-of-waging-information-war-against-russia/ e a tradução em pelosocialismo.blogs.sapo.pt/os-estados-unidos-vangloriam-se-de-196725


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Comunicação amarela

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 08/04/2022)

Nos casos aqui referidos, a atribuição de culpas ocorre rapidamente após um sumaríssimo processo de apuramento dos factos, uma vez pretender-se obter um efeito político. Mesmo que se venha a comprovar o contrário, o resultado pretendido já foi atingido.


A expressão “jornalismo amarelo” surgiu nos finais do século XIX, nos Estados Unidos. Tratava-se de uma forma de jornalismo que privilegiava o sensacionalismo sobre os factos. Contribuiu decisivamente para mobilizar a opinião pública norte-americana a abraçar a causa da guerra hispano-americana, em Cuba e nas Filipinas, acontecimento que marcou o início da expansão americana overseas.

O catalisador específico dessa guerra foi o afundamento do Maine, um navio da marinha de guerra norte-americana, que se encontrava fundeado no porto de Havana. Os promotores da designada imprensa amarela, que atribuíram a culpa à Espanha, desencadearam uma feroz campanha mediática responsável por criar as emoções propícias à aceitação da guerra. Hoje, conhecem-se as causas do afundamento do Maine, que não têm nada a ver com a versão na altura aceite. O afundamento tornou-se num conveniente pretexto instrumental para desencadear a guerra.

A História está repleta de casos semelhantes. Foram vários no Teatro de Operações da antiga Jugoslávia: o bombardeamento do mercado de Sarajevo, em agosto de 1995; o massacre de 45 alegados aldeãos albaneses kosovares, na aldeia de Račak, em janeiro de 1999. Ambos contribuíram para moldar psicologicamente a opinião pública internacional para aceitar, no primeiro caso, o bombardeamento dos bósnios sérvios e, no segundo, da Jugoslávia.

Ainda hoje subsistem muitas dúvidas quanto aos autores dos massacres. No caso de Sarajevo, é tremendamente questionável atribuir aos sérvios a autoria dos disparos, dado o ângulo com que os projéteis atingiram o solo. Apesar da pressão do quartel-general, em Nova Iorque, para garantir que não se estavam a cometer erros de avaliação, a responsabilidade foi atribuída ainda sem certezas quanto aos autores da desgraça.

No caso de Račak, William Walker, chefe da Kosovo Verification Mission, da OSCE, decidiu logo no local onde foram encontrados os corpos que tinham sido os sérvios os autores das mortes, algo imediatamente por eles contestado, acusando as vítimas de serem membros do Exército de Libertação do Kosovo, e, portanto, combatentes e não civis inocentes. Na análise forense verificou-se que os corpos tinham pólvora nos dedos indicadores, o que indiciava serem combatentes.

Em todos estes casos, a atribuição de culpas ocorre rapidamente após um sumaríssimo processo de apuramento dos factos, uma vez pretender-se obter um efeito político. Mesmo que se venha a comprovar o contrário, o resultado pretendido já foi atingido. Por isso, nalguns casos, por perceberem que podiam obter vantagens políticas, as fações não se inibiam de alvejar as próprias populações. Para tal, contaram com o trabalho de empresas de relações públicas e spin doctors encartados. Fui simultaneamente testemunha e alvo de casos destes. Algo impensável para cidadãos que nunca participaram nestas ‘andanças’.

O massacre em Bucha, um subúrbio de Kiev, fustigado pelos combates entre russos e ucranianos, não está isento de dúvidas, que urge esclarecer com celeridade. Como nas situações anteriormente mencionadas, mesmo que se faça uma investigação, ela será sempre tardia porque o acusado já foi identificado, para lá de qualquer dúvida razoável.

Afinal temos aprendido muito pouco. Continuamos a sobrepor as emoções à razão, e a ver o mundo a preto e branco. As nossas mentes continuam a ser moldadas de modo a aceitarmos visões simplicistas de realidades complexas. Perceções maniqueístas dão-nos mais conforto por confirmarem os nossos preconceitos e as nossas “certezas”. Bons e imaculados de um lado, maus e intragáveis do outro. Os bons nunca cometeriam crimes de guerra ou contra a humanidade, apenas porque são bons. O fact checking encontra-se missing in action..


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Objectos destinados a vencer

(António Guerreiro, in Público, 11/06/2021)

António Guerreiro

Uma regra de prudência e de reflexão auto-crítica convida-me a uma prévia advertência: este texto cai na armadilha que ele próprio pretende nomear e analisar. O objecto armadilhado é um livro do jornalista José Gomes Ferreira intitulado Factos Escondidos da História de Portugal. Nem precisamos de avançar para além do título — igual a tantos outros animados pela mesma intenção — para percebermos que se trata de matéria fraudulenta. Noutro tempo, não muito afastado do nosso, este livro existiria apenas no seu lugar próprio, não conseguiria transpor o seu território e suscitar qualquer olhar — muito menos um discurso crítico de denúncia — por parte de historiadores e gente da ciência e da crítica. Ainda mais: à sua volta, os colegas do autor ergueriam à volta do livro um cerco para defenderem o seu capital mais preciso, o prestígio e a credibilidade. Ora, hoje, tal livro consegue mobilizar os esforços críticos de historiadores (neste jornal, Rui Tavares dedicou-lhe uma crónica no dia 2 de Junho), mobiliza notas de divulgação crítica nas páginas dos jornais “de referência” (como se diz actualmente), e aqui estou eu, em flagrante contradição, a dissertar sobre as suas manifestações sintomáticas e de tudo o que o rodeia.

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Trata-se de um exemplo eloquente dos mecanismos culturais e dos efeitos dos actos mediáticos, para os quais não há nenhuma resposta crítica eficaz: se os historiadores sentiram necessidade de descer ao mundo demasiado profano desse livro é porque sentiram que são fracas as defesas que temos contra este objecto (como demonstra a velocidade e a eficácia com que se difundem hoje as teorias da conspiração), que tem as características viscosas que permitem a sua irradiação. Uma dessas características, a principal, é a sua matéria esotérica, as ideias e os factos que não precisam de verificação para suscitar a adesão de círculos de adeptos. O seu discurso é o das superstições, das verdades ocultas e ocultadas por poderosos complots (assim se alimenta um neo-fascismo esotérico). O ocultismo, escreveu Adorno com muita pertinência num dos fragmentos de Minima Moralia, é a metafísica dos imbecis.

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Mas porque é que é hoje tão difícil lidar com objectos como este? Porque num tempo de completo hibridismo cultural, quando a cultura de massas se tornou detentora dos mais poderosos mecanismos de difusão, declarar a falsidade ou apostar na inexistência de um dos seus produtos tem sempre como resultado confirmá-lo. Não há saída para isto: um livro chamado Factos Escondidos da História de Portugal, da autoria de um jornalista que tem ao seu serviço a máquina mediática que, por sua vez, se serve dele, tem um enorme poder de difusão. Não se confronta com o silêncio nem tem de se preocupar com a autenticidade das suas teses. Está sempre a ganhar, quer se diga que elas são falsas ou verdadeiras. Basta-lhes estarem impregnadas de uma visão da história para crentes e satisfazer preconceitos que reenviam para a dimensão do segredo. Quem acredita nos Protocolos dos sábios de Sião também não quer saber de questões de verdade e falsidade. Os complots não precisam de ser confirmados, só têm de ser colocados numa perspectiva que os torna uma eventualidade plausível para um público sempre em construção. Eis a prova de que vivemos, em geral, sob um regime mediático que, nas suas características fundamentais, tem um funcionamento que o aproxima das sociedades mafiosas.

Funcionamento semelhante, no sentido em que também não há defesas eficazes que permitam neutralizá-la, é o da estupidez. É muito difícil combatê-la porque tem a resistência das duras protuberâncias. Declarar-lhe guerra, como já Flaubert percebeu, é chocar contra uma pedra dura de onde não saímos ilesos. Ou cheios de sangue, ou impregnados de estupidez — aquela, precisamente, que queremos combater.

Tal como acaba por ser estúpido denunciar a estupidez, também se presta um bom serviço aos Factos Escondidos da História de Portugal dizendo que é uma fraude. Expor o funcionamento desta máquina fraudulenta que não conseguimos deter, apreendê-la em flagrante delito nas suas várias extensões e cumplicidades, é o máximo que podemos fazer.