Cabrita limpa o rabinho aos piquetes de linchamento

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 24/07/2021)

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita

A caçada ao Cabrita – depois da que fizeram ao Azeredo Lopes, e depois da que Marcelo fez a Constança Urbano de Sousa – transformou-se numa coisa muito diferente do que a pulharia desejava: tornou-se num acidente em cadeia onde a direita partidária e os seus impérios mediáticos (a que se juntam os sectários de esquerda – estatuto donde o PCP, incrivelmente, parece estar a sair) se vão enfiando como se não existisse mais nenhum alvo no Governo nem mais nenhuma questão política a congregar energias, acabando estes infelizes amontoados entre si numa pulsão imparável, quais traças a chocar de cornos contra uma lâmpada esquecida acesa no quintal. Estão cegos de raiva e atormentam-se com obsessão na conquista desse troféu, inclusive à custa de assim protegerem Costa e Medina; como se vê com o charivari à volta do relatório da IGAI em que módica inteligência eleitoral suporia levar o PSD a se concentrar ou no Governo como um todo, ou no autarca, em vez de estar a bombardear o solitário ministro que, para frustração da turbamulta, não mostra medo dos cães que ladram. Malhas que a decadência e o ódio tecem, jazem intelectualmente mortos e apodrecem.

Do outro lado da barricada, Cabrita aparece cada vez melhor, ganhando força política na perseguição que lhe fazem diariamente. Como agora com as suas declarações na Madeira, em que despacha como delirante a chicana sobre a sua responsabilidade nos festejos do Sporting e consegue acabar a declaração ao ataque à oposição. E como é que nós sabemos que o ministro está em crescendo de notoriedade e autoridade positivas? É o próprio laranjal que nos dá essa garantia – Cabrita considera “um delírio” dizer-se que validou os festejos do Sporting. É mesmo? Ouvimos juristas e as opiniões são todas diferentes – tendo o Expresso reunido três juristas que, não concordando tecnicamente entre si, são unânimes em reconhecer que só “politicamente” (leia-se, recorrendo à baixa política) dá para deturpar um caso onde o ministro não tem, de iure, responsabilidade sobre a solução adoptada e muito menos sobre a forma como foi implementada. A tutela não valida opções executivas, correntes, da Câmara e da PSP. A tutela só volta a ser responsável se for necessário abrir inquérito, como foi, daí o relatório da IGAI lhe ter sido entregue em primeira mão e pelo ministro divulgado nas condições que considerou adequadas.

A crise da direita é também a crise dos seus órgãos de comunicação social, pejada de editorialistas e comentadores que enchem os bolsos a despejar bílis e estupidez no espaço público. Não têm ideias nem líderes, vingam-se pela verborreia primária, maníaca, fétida. De facto, deliram-se capazes de derrubar ministros a golpes de títulos sacanas, artigos canalhas, caras de mauzões na televisão. E depois desesperam quando olham para as sondagens.

Porém, como não sabem fazer mais nada para além deste cu-sentadismo impotente, em que se limitam a ver os socialistas a carregar com o fardo da governação tendo o apoio mínimo mas decisivo dos comunistas, voltam à carga com mais do mesmo. Até porque não sofrem qualquer consequência e, calhando o eleitorado no seu processo caótico de decisão preferir outros partidos a governar, irão adormecer a imaginarem-se magníficos generais – generais visionários e heróicos, mas que nunca puseram o pezinho numa batalha política nem numa função de responsabilidade soberana apenas e só porque andam sempre ocupados a pensar no que irão dizer a seguir sobre os filhas da puta do PS, repetem soberbos e trôpegos para a almofada antes de fecharem a pestana.

Cabrita, sem vacilar, esmaga estas bostas com estilosa facilidade. Dá gosto ver, é uma desgraça tal acontecer.

Fonte aqui


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Clara Ferreira Alves e Fátima Bonifácio, duas oportunistas em defesa dos cantoneiros deste país e contra a esquerda

(Alfredo Barroso, in Facebook, 08/07/2021)

Alfredo Barroso, pasmado com tamanha indecência.


A mim não me podem acusar de ser amigo e admirador do ministro Eduardo Cabrita. Não só não o conheço pessoalmente, como até o ataquei “forte e feio” no final da década de 1990, quando ele era o “comissário para a regionalização” do PS e do Governo de António Guterres, do qual sempre me considerei adversário até à vitória do “NÃO” (que eu defendi publicamente) à “regionalização politica e administrativa do país” e, depois, até ele, António Guterres, soçobrar num ‘pântano’ e fugir do poder ‘a sete pés’, até chegar a secretário-geral da ONU. Além disso, apesar de eu ser um dos fundadores do PS, em 1973, desfiliei-me do partido, há seis anos, em Fevereiro de 2015, e não estou minimamente interessado em lá voltar.

Dito isto, acho repugnante o aproveitamento político que a direita e a extrema-direita estão a fazer do trágico acidente de viação em que esteve envolvida uma viatura oficial na qual se deslocava, como seu passageiro, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. Mas considero ainda mais abomináveis dois textos escritos e assinados, na Revista do Expresso (02/07/2021) por Clara Ferreira Alves, e no Público (07/07/2021) por Maria de Fátima Bonifácio, ambas ex-esquerdistas ‘snobes’, ‘arrepesas’ e arrivistas, que se descobrem ‘condoídas’ pela família do modesto e ‘anónimo’ cantoneiro vítima mortal do acidente (CFA) – ou talvez ‘assassinado’ pelo MAI, que não estava nada atento ao conta-quilómetros da sua viatura (MFB) – e não propriamente por famílias inteiras vítimas de vários outros acidentes ocorridos em 2021, provavelmente por se tratar de famílias da pequena ou média ou alta burguesia, que essas lá se vão safando, pior ou melhor…

No artigo de Clara Ferreira Alves – ‘funcionária’, digamos assim, do grupo Impresa de Pinto Balsemão, com palcos no Expresso (‘Pluma Caprichosa’) e na SIC Notícias (‘Eixo do Mal’) – há autênticas pérolas que não devem ser desperdiçadas, como ‘incentivos’ para o futuro da ‘humanidade’ lusíada. Por um lado, se ela «atropelasse alguém [numa autoestrada]», a «consciência moral» de Clara Ferreira Alves levá-la-ia a «tentar falar com a família, e, corajosamente [auto-elogio!], consolar o melhor que pudesse essa família pedindo desculpa e oferecendo ajuda. Com voz própria». E eu já a imaginar o diálogo:

CFA: “Eh pá, desculpem lá por eu ter involuntariamente atropelado e matado o vosso ente querido!” (Evelyn Waugh?).

Família do defunto (em coro): “Paciência, deixe lá, a gente sabe que a senhora doutora não o fez por mal!” (Padre Américo?).

Família do defunto (em coro): “Ai, obrigado, senhora doutora. Tão bondosa que a senhora é! Assim fossem os Governos! Mas veja lá o que nos fez o do Passos Coelho e do Paulo Portas, que cortou nos salários e nos subsídios de Férias e de Natal do nosso ‘ente querido’ que a senhora atropelou”…

 CFA: “Mas eu sou importante e rica, ganho ‘pipas de massa’ no ‘império’ do ‘Chico’ Balsemão, e posso afetar 25 por cento do que me pagam por cada ‘Pluma Caprichosa’, durante um ano, ao fundo de auxílio à vossa família”.

Outra pérola: «As pessoas sem importância vivem as suas vidas num mundo sem importância. Anónimas, obscuras, esquecidas. Ser pobre em Portugal [não no mundo!] é uma ignomínia, uma falha pessoal e de nascimento e apelido». (Leitura implícita: “Eu, Clara Ferreira Alves, sou pessoa com importância e vivo num mundo, o Expresso e a SIC Notícias, com importância. Tenho ‘nascimento e apelido’ e, ainda por cima, sou doutora!”).

Já agora, uma pequena e sóbria contradição: por um lado, «ninguém pagou o funeral [do cantoneiro], ou quis saber se a família tinha dinheiro para pagar o funeral» (que vergonha, não é?!); mas, por outro lado, «a viúva do ucraniano assassinado no aeroporto [porventura pelo malvado Eduardo Cabrita] recebeu quase um milhão de euros, pagos pelos contribuintes, porque o Estado somos nós» (ai que vergonha, e não é que essa ucraniana, só por ser viúva, ficou rica à minha custa, é que eu também sou Estado!).

Clara Ferreira Alves – cheia de ódio a António Costa e ao seu Governo de esquerda – diz, em suma: «Cabrita fica. Num Governo com vários incompetentes, ele é apenas mais um, o mais grave». É que o Cabrita «tem sobre a cabeça ungida a mão protetora do amigo e primeiro-ministro, que fez da personagem um exemplo da teimosia que ele toma por vigor e decisão». Pois pudera, pensa a Clara: «Quem manda neste país, política, social, financeira ou dinasticamente, não quer saber de cantoneiros». E remata ela, em grande estilo: «Claro que o Chega já organizou um ‘crowdfunding’»…

Quanto a Fátima Bonifácio, muito sucintamente, ela considera que: «Casos como este desacreditam a democracia». Mais concretamente: «Acidentes destes só ocorrem quando se circula a uma velocidade desvairada, e o ministro tinha toda a obrigação de mandar o seu motorista respeitar o Código da Estrada, que justamente proíbe semelhantes desvarios»…

E aqui temos, pois, um solene aviso que não terá sido levado em conta, desde o 25 de Abril de 1974, por todos os Presidentes da República, ministros, secretários e subsecretários de Estado. É que eles devem comportar-se, mais ou menos, como os “navegadores” dos pilotos de ralis, e olhar sempre para os conta-quilómetros das viaturas oficiais que os transportam. Aconselha-se, aliás, que usem um ponteiro ou mesmo uma moca para chamarem à razão os motoristas…

Enfim, lamenta a Bonifácio: «Os políticos vivem num mundo à parte, com regras próprias, encobrindo-se uns aos outros, [o] que leva o cidadão comum a desistir de colaborar na ‘res publica’». E ainda pior: «Os golpes de Estado passaram de moda. Hoje em dia, a democracia destrói-se por dentro. E o recente caso Cabrita é mais uma acha para a fogueira». Por isso é que a Bonifácio confessa isto: «Pessoalmente, votarei sempre por alguma coisa muito grande, a Liberdade»… Ora, como já não há golpes de Estado para nos devolver o Estado Novo – perdão, “a Liberdade” – e como a Bonifácio já elogiou o CHEGA, por ser uma ‘lufada’ de dinheiro fresco – perdão, de ar fresco – no universo da direita que temos, é mesmo possível que ela vote no partido neofascista e racista do André Ventura…

Tão tristes que são estas duas mulheres, pessoalmente ressabiadas, ressentidas, mal-amadas e justamente desprezadas pelas esquerdas que elas desprezam. Essas malvadas esquerdas a que ambas, Clara & Fátima, já pertenceram, mas se envergonham de o confessar…

Campo d’Ourique, 8 de Julho de 2021


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Ai remodela, remodela!

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 06/07/2021)

Daniel Oliveira

Sobre a situação de Eduardo Cabrita já escrevi na semana passada. Tenho dificuldade em responsabilizar por um acidente com uma vítima mortal quem não vai ao volante. Tratando-se de um acidente de viação, que não é a temática de um comentador político, tenho dificuldade em envolver-me nesse debate sem dados seguros da investigação. Para mim, o tema é um comunicado oficial que pode conter uma mentira para responsabilizar a vítima e o silêncio do ministro durante duas semanas que, para além de revelar insensibilidade humana e política, foi deslegitimado pelo próprio comunicado que o antecedeu.

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De uma coisa tenho forte convicção: se o envolvido não fosse Eduardo Cabrita este assunto não ganharia as mesmas proporções políticas. Porque este ministro é desprezado e desrespeitado pela generalidade da população. E, no entanto, é o ministério que mais depende da autoridade de quem lá está.

Não sou defensor de demissões como pensos-rápidos para resolver cada problema. Acho, pelo contrário, que muitas vezes são atalhos para que mude alguma coisa e tudo fique na mesma. Uma oposição que vive concentrada na exigência de demissões de ministros revela incapacidade de atingir o primeiro-ministro, que compensa com o ataque à peça, como lhe chamou Jerónimo de Sousa.

Apesar disto, Eduardo Cabrita já se deveria ter demitido depois do seu silêncio no caso da morte do imigrante ucraniano. Não como castigo, mas porque rapidamente se percebeu que aquele episódio iria minar irremediavelmente a sua autoridade. Tudo o que sucedeu depois, da ida de Magina da Silva a Belém para apresentar a “sua reforma” do SEF ao desafio público à lei por parte do Movimento Zero, tornaram isso evidente. O primeiro-ministro pode achar que trava o vento com as mãos, dizendo que não há remodelação ou que o ministro é excelente mas os casos com Eduardo Cabrita vão-se repetir. Quando a imagem de um ministro chega a este ponto de degradação e todos percebem que ele é o calcanhar de Aquiles de um governo ele passa a ser um íman para todos os problemas, dando-lhes dimensões desproporcionadas. É até uma crueldade Costa manter o seu amigo Cabrita no lugar. E quanto mais o segura mais será responsável por tudo o que aconteça com e ao o seu ministro.

A falta de oposição à direita tem oferecido excesso de autoconfiança a António Costa. Acredita controlar todos os ciclos políticos. E é por isso que decidiu, contra a opinião de muita gente dentro do Partido Socialista, que não aproveitará a insustentabilidade do seu ministro da Administração Interna e a vontade pública de sair do ministro dos Negócios Estrageiros para fazer uma remodelação.

Poderia compreender o argumento de que não pode mexer na cúpula das estruturas de segurança nas vésperas de entrarmos na época dos fogos, quando todos os serviços do Estado foram fragilizados por ano e meio de pandemia. Mas é certo que qualquer problema ligado aos incêndios será politicamente agigantado por ser este o ministro. Poderia compreender que Costa não queira fazer uma remodelação antes do Orçamento de Estado, para ter nos seus postos quem conhece as necessidades a prepará-lo. Mas pergunto-me se será justo entregar a quem venha de novo a casa toda desenhada.

A remodelação acabará por vir, disso tenho a certeza absoluta. Mas quando fontes do governo atiram a remodelação para 2022, podem estar a dizer duas coisas muito diferentes, porque o próximo ano político será longo. Ou estamos a falar do início do ano, e confirma-se a escolha de o fazer depois do Orçamento de Estado; ou estão a empurrar os problemas com a barriga durante um ano e o objetivo não é tornar este governo mais funcional para a fase de recuperação económica, mas prepará-lo para o combate eleitoral, em 2023.

Qualquer governo, ainda mais minoritário, está exausto ao fim de ano e meio de pandemia. E, com o futuro incerto, é impossível esperar pelo fim da pandemia para remodelar. Dos ministros mais envolvidos neste combate, dois não estão desgastados. Marta Temido passou o teste impossível para quem chegou ao ministério sem experiência política e hoje é a ministra mais popular do governo. E Siza Vieira não tem estado no centro das polémicas. Restam três problemas: Administração Interna, Segurança Social e Educação, três ministérios sem liderança e que tutelam áreas fundamentais para o Estado lidar com as consequências desta longa crise sanitária.

As remodelações têm momentos para serem feitas. O fim de presidências europeias costuma ser politicamente propício, porque o argumento para as adiar é muitas vezes esse mesmo. António Costa até pode acreditar que faz passar Cabrita sobre o braseiro do verão sem o assar. Até pode acreditar que aguentará o processo negocial do Orçamento com um governo que deixa cair peças na sua marcha. Mas não é possível que acredite, porque é um político astuto, que aguenta Cabrita e um governo exausto pela pandemia mais um ano. Quer dizer: aguentar, até aguenta. Mas que custos terá isso para o país?


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