A que velocidade vamos ao Pote?

(Carlos Matos Gomes, 04/12/2021)

A mentira política instalou-se quase constitucionalmente e o dano moral tem sido incalculável, alcançando zonas muito profundas do nosso ser. Movemo-nos na mentira com naturalidade. Octávio Paz


Por motivos pessoais tive hoje a oportunidade de estar cerca de 4 horas diante de um televisor sintonizado na SIC Notícias. Quatro horas de ministro Cabrita e de Governo. Uma sinfonia de ação política sob a forma de informação, da relação da moral e da política. Uma insidiosa aula prática sobre o atual estado da arte dos onze princípios da propaganda sistematizados por Goebels, o ministro do nazismo. No caso o terceiro princípio — da Transposição — transladar todos os males sociais a este inimigo, quinto, o da Vulgarização — Transformar tudo o que for possível numa coisa torpe e de má índole — e o sexto, o da Orquestração — Fazer ressoar os boatos até se transformarem em notícias sendo estas replicadas pela “imprensa oficial”.

Esta é a cartilha pela qual o caso foi tratado nas televisões. O que prova existir gente que sabe da matéria por detrás dos ecrãs.

No caso não se tratou, do que ouvi, de verdade ou mentira, tratou-se de desvio do foco do caso, como quando os SS diziam aos judeus que iam tomar banho quando os mandavam entrar para as câmara de gás. Salvas as devidas proporções a técnica é a mesma.

Jacques Derrida, em Fim de Século, afirmava que nas sociedades pré-modernas a mentira estava ligada à política de maneira aceite no que dizia respeito à razão de Estado, a mutação pós-moderna da mentira é que esses limites deixaram de existir. A mentira atingiu uma espécie de absoluto incontrolável. O cume da arte da mentira política é a “mentira totalitária”, que varreu qualquer resquício de pudor, escrúpulo ou reserva de verdade.

Foi a uma mentira totalitária que assisti isso durante quatro horas na estação de televisão do dr Pinto Balsemão, nas outras, do Correio da Manhã e do empresário do Douro deve ter sido o mesmo porque as televisões são meios de manipulação de massas que servem os propósitos de lucro dos seus acionistas.

A barragem de fogo lançada hoje sobre o ministro Cabrita a propósito do acidente com a viatura do Estado que o transportava é um ataque de preparação em forma para diminuir as defesas do governo em exercício e facilitar o assalto final, que permita aos grupos de interesses que sustentam as televisões terem acesso privilegiado ao Pote dos fundos europeus.

É disto que se trata.

Quem primeiro demonstrou a utilidade da mentira na arte de conquistar e manter o poder foi o pensador italiano Nicolau Maquiavel. Essa demonstração representou uma mudança radical na forma de encarar a política, antes vista como uma extensão pública da ética ou da religião. Nada mais estranho ao mundo contemporâneo. Como os blocos de propaganda televisivos demonstraram à saciedade.

A estratégia atual é apostar que as massas passarão a duvidar da falsidade da mentira pela insistência e, numa segunda etapa, vão considerá-la verdadeira. A mentira deixou de ser vista como uma ofensa ao princípio ético da veracidade e mentir, deturpar, ou descontextualizar passou direito um direito do manipulador — no caso os grandes interesses económicos. O direito do cidadão a uma “informação exata e honesta da parte dos órgãos de comunicação passou a ser um direito abstrato.

O caso do acidente com a viatura onde seguia o ministro Cabrita é uma exuberante demonstração de farisaísmo das classes possidentes que detêm o poder da manipulação através dos meios de comunicação de massas. A ideia que pretendem transmitir é, em resumo, a de um político insensível, que atropelou um pobre trabalhador que executava as suas tarefas no seu posto de trabalho e que não quer assumir a responsabilidade pela sua morte.

A preocupação dos patrões portugueses com as condições de segurança no trabalho é comovente. Durante anos os patrões portugueses foram responsáveis por uma das mais altas taxas de acidentes no trabalho na Europa. Minas, Pesca, Construção Civil, Transportes eram áreas críticas e os patrões resistiram sempre a investir na proteção física e social dos trabalhadores. Agora gritam aqui del rei e colocam as suas trombetas a fazer de carpideiras!

Pela primeira vez os patrões choram por um trabalhador. Há quem acredite na sua sinceridade. Acontece que o patrão do infeliz trabalhador não é como os patrões das televisões e se interessou pela situação do seu trabalhador. Fez o mesmo que os patrões das televisões: passou a responsabilidade para o ministro! Boas almas! Quem quiser que os louve.

No caso da SIC, que foi a estação que vi, o seu patrão era vice-primeiro ministro de Sá Carneiro quando este morreu na queda do avião em Camarate. Balsemão considerou que Sá Carneiro foi responsável pela queda do avião? Que devia ter verificado se os pilotos cumpriam os protocolos de descolagem, velocidades, e tudo o resto? Dirão os mais ferrenhos adeptos da caça ao Cabrita: pilotar um avião não é o mesmo que guiar um automóvel. Tecnicamente não, mas do ponto de vista da relação do passageiro com o operador da máquina, sim. O passageiro pressupõe que o operador está qualificado para operar a máquina de acordo com as normas.

Por razões que não interessa conheci Manuel dos Santos, um grande toureiro português dos anos 50. Morreu num acidente de automóvel, conduzido por um motorista. Ninguém se lembrou de acusar Manuel dos Santos de responsável pelo acidente.

Um ministro do Estado Novo. Duarte Pacheco, ministro das obras públicas, morreu num acidente perto de Vendas Novas quando seguia numa viatura do Estado. Ninguém responsabilizou Duarte Pacheco, que até tem estátua e viaduto com o seu nome, como responsável pelo acidente.

No acidente da viatura do ministro Cabrita morreu um trabalhador. Então porque não atribuir culpas e responsabilidades a quem dirigia os trabalhos, com a mesma certeza e intensidade das exigidas ao ministro, pelo menos?

Esse alvo, o patrão do trabalhador, não vende audiências e não abre a porta a um novo poder que facilite os negócios dos patrões das televisões. Trata-se do pote dos fundos europeus, entre eles, a ligação de alta velocidade a Espanha, o novo aeroporto, a maior abertura do negócio da saúde aos privados… Mais PPP, mais concessões, mais obras, mais perdões de dívidas e imparidades…

Em resumo, estamos na clássica situação que levou Virgílio a afirmar na Eneida: Aura Sacra Fames — A execrável fome do ouro.

É disto que se trata. Moral de algibeira, ou de off shore, já agora.


Fonte aqui


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Eucaliptos, avozinhas e exibição dos foragidos capturados

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 23/10/2018)

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O novo normal tem destas coisas: tem duas faces como Janus, é simultaneamente apocalíptico e banalizador, não poderia ser uma coisa sem a outra. Tem que assustar e anestesiar, mostrando um mundo tremendo a que não podemos resistir e entretendo quem desvia o olhar. Esse mundo é ameaçador, Bolsonaro radicaliza a ameaça de prisão dos seus adversários no Brasil, Trump questiona trinta anos de contenção no desarmamento nuclear, um jornalista é assassinado de encomenda num consulado da Arábia Saudita, nada é hoje impossível ou sequer improvável. E o novo normal é ao mesmo tempo rasteirinho, parecendo até que, nestes últimos dias, essa banalidade tomou conta de Portugal: o que se discute é o transcendente assunto dos beijos dos avós, que já deu em prosas várias de tudólogos encartados, ou se o Presidente arruinou a pátria ao arrancar uns eucaliptos infestantes, o que suscitou uma reação magoada dos defensores do “petróleo verde”, ou se uma dirigente política tem um relógio de vinte e um milhões de euros, uma das mais delirantes efabulações de um aprendiz de fakista que, adorador de Bolsonaro, reconhece brejeiramente que nem sempre escreve “a verdade a 100%”. Não é fácil, mas é a vida, parafraseando um célebre dito, é melhor que nos habituemos.

Há nisto uma decadência de normas comuns de respeito pelo espaço público que parece irreversível. É aliás impulsionada por instituições que o deviam guardar: uma associação de polícias divulga fotografias forjadas para desse modo criticar um ministro, e a falsificação parece-lhes um ato legítimo. Aqui, o que é mais revelador é que são polícias e que têm por certo que o efeito da condenação pública da mentira é menos grave do que o ganho imediato com o insulto ao governante. Na mesma espiral, uma associação de militares da GNR sugere que os “criminosos” têm que ser tratados como se estivessem condenados e como se parte da pena ainda não lavrada fosse um antecipado enxovalhamento público e linchamento mediático.

Em todo este discurso catastrofista há um gosto pelo superlativo, uma vontade de chamar a atenção pelos propósitos mais extravagantes, uma forma de confrontação que adote o apoplético como norma, um culto do susto e, portanto, várias explorações dos sentimentos mais assustadores. O tremendismo é, em si próprio, uma linguagem. Um exemplo: um editorial de um jornal, esta segunda.feira, afirma que o acesso à aposentação “se tornou uma palhaçada”. Isto não acontece num jornal de escândalos. Uma “palhaçada”? No discurso político, aliás parente próximo deste jornalismo justiceiro, à medida que nos aproximamos das eleições de 2019 mais sobressairá a mesma atitude.

O ponto é este: a barreira das regras civilizadas, a tal da presunção de inocência, do predomínio da lei igual para todos, das obrigações que uma farda deve respeitar, o princípio da objetividade e contenção da comunicação social, tudo cede perante esta avalanche.

A banalidade, como o debate dos beijinhos ou dos eucaliptos, só narcotiza, o que já é grave, sobretudo quando a tensão está noutro lado, na ecologia do insulto e da mentira. No novo normal, a verdade não vai ser mesmo a 100%, como diz, feliz, o homem do relógio.

SAIA AÍ UM PSICÓLOGO PRÓ PASSOS!

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 26/06/2017)

 

Passos_no_Coelho

E com urgência! É que eu temo pelo seu futuro. Não político, porque desse estou-me completamente nas tintas, mas psicológico! Temo pelo Passos, mas temo mesmo. E isto é sério: ou o Estado lhe fornece já um psicólogo ou não há mesmo “Estado” que lhe valha.

Porque, na verdade, havendo para o Passos três tipos de “Estados”, por falta de apoio psicológico, ele já não se consegue reconhecer em nenhum. Senão vejamos: Primeiramente o Estado, o Estado propriamente dito, o tal Estado a que ele pertence, nem que seja como Conselheiro ou suposto líder da oposição, mas ao qual não pertence, nem se lembra de ter pertencido; depois há o chamado “Estado das coisas”, das quais demonstra não fazer a mínima ideia e, por fim, o seu “Estado”. E aqui é que está o verdadeiro “busílis” da questão!

Tornando-se um “aproveitador” de um boato que um Provedor lhe soltou ao ouvido, não requerendo a ajuda imediata de um psicólogo, ele disse saber de fonte segura que havia pessoas a suicidarem-se (depois na forma de tentativa apenas) porque o “Estado” não lhes garantia o apoio psicológico necessário. E que o “Estado” tinha falhado.

E não olhou para si mesmo, como que dizendo: Eu, Psicólogo? Eu não preciso, eu sempre levanto a cabeça e sempre sigo em frente…

Porque, no fundo, no emaranhado de laços que deverão ir lá pela sua cabeça, ele lá pensará e bem: Mas para que diabo serve um psicólogo, se ele só me manda erguer a cabeça e seguir em frente? Isso já eu faço, pensará ele…

Mas lá está, ele é como aqueles animais de raça asinina, que também erguem a cabeça, seguem em frente e coiso mas, com uma pequena diferença: enquanto estes, mesmo que com palas, em enfrentando uma parede arretam, o Passos não: o Passos vai contra ela!

Porquê? Porque em vez de se tornar num “aproveitador” de um Provedor e sem conselheiros argutos ao dispor, que lhe dissessem que, em vez de ir em frente, podia virar à esquerda ou mesmo à direita à mão, ele deveria ter consigo, e sempre, isso sim, um Psicólogo!

Que até, em última análise, dada a precariedade da sua cabeça, por tantos nós entrelaçada, lhe poderia aconselhar uma baixa à Caixa de modo a evitar assim a tal tentada tentativa de esmurraço na parede.

Mas o seu “Estado” falhou, o Psicólogo não lhe enviou e contra a parede o estrepou!

Maldito este “Estado”, diz ele, mas englobando os três: o de todos, o das coisas e o dele! E o Estado desse Costa que tudo açambarcou e só o Provedor boateiro lhe deixou!

De modos que eu só tenho um conselho, um último conselho a dar-lhe: vá uns tempos para umas Caldas!

E “ele” há por aí muitas Caldas: As da Saúde, as do Gerês, as de Vizela, as das Taipas, isto só para falar aqui para norte porque, lá mais para o centro, tem umas famosas: as Caldas da Rainha!

Arranje, portanto, e de uma vez por todas, umas Caldas à medida, mas acompanhado de um psicólogo à séria,

A sério Dr. Passos, é importante que vá uns tempos para uma Caldas, mas…nunca se esqueça do respectivo acompanhamento psicológico!

Mas tudo isto à séria!


Fonte aqui