A máquina de produzir políticos traidores

(Hugo Dionísio, in Facebook, 13/07/2023)

Faz-me uma impressão tremenda a facilidade com que dirigentes de países como o Japão, Alemanha ou a França (referindo apenas os mais fortes), se mostraram tão prontos a saltar rumo ao caos, sem serem capazes de esgrimir a mínima das resistências.   Mas… Como é que se chega a uma coisa destas? Em que os mais ricos, uma ínfima parte da população determina, em que medida, de forma aparentemente inevitável, todos temos de desatar a empobrecer, aceitando que, não obstante os lucros pornográficos de uma franja cada vez mais pequena de iluminados e seus servidores, a nossa vida daqui em diante só vai piorar?

Como é que gente que se diz “democraticamente eleita”, através de “voto livre”, de repente empreendem um conjunto de acções, nos mais diversos domínios da governação – energia, ambiente, habitação, segurança social, saúde e educação – cujo único resultado será o de garantir que, as próximas gerações terão uma vida pior do que a actual?

No caso português, e europeu, o sistema é tudo menos sigiloso. Todo o itinerário que transporta um determinado quadro, ao topo da hierarquia da submissão e subserviência, dos interesses do seu país, aos interesses dos EUA, está muito bem identificado. Para identificar este sistema em toda a sua grandeza bastou-me, tão só, ir à lista de participantes do Bilderberg deste ano e, estando eu a verificar a lista de participantes, deparei-me com uma CEO de uma start-up (sempre este jargão corporate) de que nunca tinha ouvido falar. Mas que tinha participado numa coisa chamada IVLP. IVLP?  

Pesquisada a sigla em causa, descobri que se tratava de um programa (International Visitor Leadership Program (IVLP)), financiado por fundos públicos do orçamento federal dos EUA, cuja apresentação, na respectiva página da internet, nos diz logo que: “os candidatos a este programa são ou poderão vir a ser potenciais líderes no governo, política, media, educação, artes e outros, sendo METICULOSAMENTE nomeados e seleccionados pela Embaixada”. Ou seja, é o IPLV que o determina e o promete, logo à partida. Não diz que é a “democracia”, a “igualdade” ou uma qualquer treta meritocrática para rico justificar o seu privilégio, como fazem os tipos da IL.  

Afinal, o objectivo, mesmo não sendo pronunciado, é muito claro: como garantir que um Durão Barroso é, de facto, um Durão Barroso neoliberal; como garantir que um Guterres é, com efeito, um Guterres liberal social? Como garantir que Montenegro se torna mesmo um Montenegro neoliberal “democrata”? Como garantir que, estejam onde estiverem, com quem estiverem, a fazer o que fizerem e a quem fizerem, no final, farão sempre o planeado? Chegando mesmo ao ponto de se colocarem todos a dizer a mesma coisa, sobre o mesmo assunto, em uníssono e sem desvios?  

Atentemos então, numa reconhecidíssima organização como a FLAD (Fundação Luso Americana de Desenvolvimento). Esta FLAD, que tantas vezes recebe as visitas de quem tem de lá ir por obrigação e dever, desde o Presidente da República ao Primeiro-ministro, desenvolve o programa IVLP, o que faz atraindo jovens promessas nas mais variadas áreas de estudo – o ensino superior tal como a defesa é uma incubadora neoliberal. Estes são seleccionados e são levados aos EUA, para aí serem introduzidos às maravilhas de Roma. É nesse espaço, em ambiente de curso intensivo que os “headhunters” (caçadores de cabeças) tomam contacto com os quadros a promover.  

Quando estas jovens promessas e candidatos a líderes internacionais retornam a Portugal, o corpo regressa, mas a alma ficou por lá. Agradando ao seleccionador, uma espécie de controleiro, a experiência começa a acelerar e a repetir-se com maior intensidade e subindo em níveis crescentes de importância. E a cada visita, conferência, curso, cada vez mais se vão sentindo americanos, como parte da civilização americana, passando a sua lealdade da nação para a civilização. Para eles, o seu país, a sua terra, a sua casa, as suas raízes, passam apenas a ser o local de partida. O de chegada fica do lado de lá do atlântico. A entrada nesse mundo, tão restrito quanto privilegiado, fá-los-á sentir-se especiais, os maiores.  

Foi assim que se deve ter sentido Guterres, o primeiro português da lista fornecida pela própria embaixada, a frequentar o programa, ainda em 78. Sim, António Guterres, o Secretario Geral da ONU! Pensavam que ele tinha chegado à ONU eleito pelos países do mundo? Não, essa foi apenas a confirmação, a validação de uma selecção inicial – podemos mesmo dizer “iniciática” – às coisas do poder e da civilização neoliberal.  

Isto não é segredo absolutamente nenhum! Na página do IVLP é referido que “Este programa é totalmente financiado pelo Departamento de Estado, levando aos Estados Unidos participantes oriundos de toda a parte do mundo a fim de conhecer e interagir com os seus parceiros americanos”. Mas vai mais longe: “Até à data, já participaram no International Visitor Leadership Program (IVLP) MAIS DE 200 ACTUAIS E ANTIGOS CHEFES DE ESTADO, 1.500 MINISTROS E MUITOS OUTROS LÍDERES MUNDIAIS, TANTO NO GOVERNO COMO NO SECTOR PRIVADO”.  

Outro programa também muito importante para estas coisas da traição à pátria, é o “Voluntary Visitor”. Diz então o mesmo na sua página internet: “Os programas “Voluntary Visitor” são solicitados à Embaixada por aqueles que já estão a planear visitar os Estados Unidos por motivos profissionais.” Ou seja, vais aos EUA em viagem ou de férias? Queres candidatar-te a traidor e a servidor de Roma, o Império Corporate? Avisas a embaixada, candidatas-te, eles vêem a tua vida de alto abaixo através dos sempre vigilantes olhos da CIA; NSA ou Homeland Security, e, caso sejas aprovado, incorporam-te num programa formativo com guia (“programas profissionais ao mais alto nível para um só individuo ou para grupos”), que te fecunda a alma com os melhores ensinamentos que o chip do Tio Sam tem para te dar. Quando voltas, já nem sabes a quantas andas. Só sabes que fizeste a route 66 toda e foste parar a uma Microsoft ou à União Europeia. O país de origem? Não interessa…. Só interessa o da chegada… Os EUA!  

Depois, ainda existe o programa FULLBRIGHT (brilho total), que visa atrair estudantes portugueses a estudar nos EUA. Estes nomes são sempre muito pensados do ponto de vista do marketing, visando desde logo criar uma ideia de excepção, de alguém excepcional que entra num mundo excepcional, saindo do meio do comum dos mortais. Só assim se explica tão grande desprezo pelos seus compatriotas. E de lá vêm tão embevecidos que vendem a sua mãe por 33 dinheiros.  

Mas esta é apenas a ponta de um Iceberg que é composto por uma rede imensa de organizações, todas coordenadas com a FLAD. O próprio IVLP tem dentro de si um conjunto de subprogramas que depois funcionam a partir de universidades portuguesas, a mais importante das quais, não poderia deixar de ser, a Universidade Católica Portuguesa. Trata-se de um imenso edifício destinado à formação da rede transnacional de traidores.  

A maioria destes programas é implantada pelo IIE (Institute of International Education). Uma das figuras mais importantes, a nível nacional, na exploração e coordenação desta rede subversiva, é um tal de Michael Baum, apresentando-se como “perito na criação e gestão de programas internacionais de ensino superior. Administrador e Gestor de ONG. Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).” Para quem não saiba, o fulano diz que está “activamente empenhado na criação e fortalecimento de parcerias institucionais entre Portugal e os EUA, particularmente com os IES e entre a academia e a sociedade civil. Fundador e ex-Diretor do programa Study in Portugal Network (SiPN) da Fundação Luso-Americana (FLAD).” Tudo para o bem, portanto.  

Quando desenrolamos este novelo começam-nos a surgir figuras como Luis Amado (ex-ministro dos negócios estrangeiros), agora na FLAD, ou Martins da Costa, ex-administrador da EDP, agora na AmCham, ou seja, Câmara de Comércio Luso americana. Estas figuras são daquele patamar que já adquiriu alguma autonomia e já são responsáveis pelo desenvolvimento de determinadas frentes. Sempre no interesse…. Dos EUA, claro.  

A lógica deles é claríssima como a água. O que é bom para os EUA, é bom para a U E, logo, para Portugal. Uma espécie daqueles trabalhadores vendidos que dizem que “o que é bom para o patrão, é bom para mim”.  

A acção desta gente depois entronca nas tais ONG’s (a FLAD é a mais importante) que, em conjunto com as universidades, com dinheiros americanos e portugueses ou europeus, fazem estudos sobre democracia, direitos humanos, ideologia de género, economia, que depois vão ser usados como guiões das políticas nacionais. O facto é que esta gente constitui uma espécie de casta privilegiada, muito bem paga e subserviente, que depois todos vemos na rua a manifestar-se a arrancar cabelos quando um qualquer governo não se submete aos ditames ocidentais. Estes e os criminosos que os seus promotores contratam para partir tudo, agredir polícias e militares e fazer “revoluções coloridas”.  

Trata-se de uma rede de subversão dos interesses do povo, logo da democracia, que garante os melhores cargos para os mais bem-comportados paus mandados.   Assim, lamento desiludir os mais incautos e iludidos, mas se pensavam que isto era tudo flores, liberdade e 25 de Abril sempre…. Acordem, que a máquina de duplicar traidores já cá anda há demasiados anos.  

P.S. Numa acção em que estive sobre “Democracia” do Conselho Económico e Social; na sua intervenção final, não outro que Francisco Assis (presidente do CES), acaba a dizer que “a democracia foi inventada na Grécia antiga, pelo povo grego”.   É este tipo de larachas que visam enganar as pessoas. O povo da Grécia antiga nem sabia ler ou escrever, quanto mais intervir na política. A maioria do “povo” nem tinha direitos alguns porque eram escravos e servos. As mulheres não contavam para nada e quem pensava as coisas da política eram os ociosos aristocratas que, querendo legitimar e elevar o seu poder, imaginaram uma coisa como a democracia, mas onde apenas eles participavam e governavam. Uma espécie de conceito de “povo” muito restrito e elitista. O resto do povo, o “povo, povo”, o que queria era que aparecesse alguém que os pusesse na ordem e lhes perdoasse as dívidas que tinham para com esses “democratas”. A esses, quando surgiam, os “democratas” chamavam-lhes de tiranos e populistas. A “democracia” de uns, funcionava como tirania para os demais.  

2000 Anos depois… O engano continua!        

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O incêndio da revolta

(António Guerreiro, in Público, 07/07/2023)

António Guerreiro

A revolta que irrompe actualmente por todo o lado não é um acontecimento conjuntural, é estrutural, ainda que possa parecer efémera e a sua propagação seja intermitente.


Um estabelecimento danificado em Montreuil, perto de Paris, durante os protestos pela morte do jovem Nahel às mãos da polícia EPA/JULIEN MATTIANa semana passada, Paris esteve novamente a arder. O fogo e a pilhagem são, desde sempre, o instrumento e a consequência das revoltas urbanas – ou “motins”, se utilizarmos a classificação dos aparelhos do Estado que obviamente não utilizam a palavra “revolta” para não atribuir ao acontecimento uma qualificação política e para não reconhecerem que estão a lutar contra quem lhes “volta a cara”, que é o que a palavra “revolta” significa quando percebida na sua etimologia.O grito de guerra dos negros do bairro de Watts, em Los Angeles, durante quatro dias de Agosto de 1965 era Burn, baby, burn, que depois serviu de título a muitas canções. Nos primeiros momentos dessa revolta – ou, para quem preferir, motins – as pilhagens seguidas de incêndios deram-se em armazéns de bebidas alcoólicas e de armas. Também agora, em Paris, houve quem apontasse motivações puramente criminosas de roubo de produtos das marcas de prestígio às esquadras juvenis que ocuparam algumas cidades francesas de maneira violenta e com o objectivo de provocar a máxima destruição.Na sequência da revolta de Los Angeles, Guy Debord escreveu um texto, publicado no número 10 da Internacional Situacionista, em 1966, que era uma defesa da revolta, interpretando-a como revolta contra a mercadoria, como o título deixava depreender: O Declínio e a Queda da Economia do Espectáculo-Mercadoria (Le déclin et la chute de l’économie spectaculaire-marchande). Disse então Debord: “A revolta de Los Angeles é uma revolta contra a mercadoria, contra o mundo da mercadoria e do trabalhador-consumidor submetido às medidas da mercadoria.” E, designando os actos dos revoltosos como “o potlatch da destruição”, viu neles “uma superioridade humana sobre as mercadorias”.Nas circunstâncias actuais, ninguém ousaria evocar o valor de fetiche próprio da mercadoria e dizer que os jovens se apropriam dos produtos para os usar e os profanar, recusando o seu valor de troca. Marx não é para aqui chamado, nesta passagem da “consommation à la consumation” (do consumo à consumação), como escreveu Debord. Pensar que a dinâmica da revolta devia ser, hoje, incompatível com a pilhagem e o consumo é tão deslocado como aquele apelo aos pais para não deixarem os meninos sair à noite de modo a evitar que eles façam distúrbios, isto é, queimem carros, autocarros e vandalizem lojas e edifícios públicos.A lógica e o tempo da revolta não é a lógica e o tempo da revolução. A revolta, que permite redescobrir o ponto de contacto entre o tempo mítico e o tempo histórico, é o “laboratório do resgaste”, a “passagem anárquica”. Quem assim a define é a filósofa italiana Donatella Di Cesare, num livro intitulado O Tempo da Revolta, que tem tradução em português nas Edições 70 (2021). Vale muito a pena ler esse livro para percebemos o que se passa nesta longa sucessão de acontecimentos revoltosos que vão de Occupy Wall Street às cidades francesas na semana passada, onde ainda ecoam uns gritos vindos de longe: Burn, baby, burn.A revolta anárquica, diz-nos Donatella Di Cesare, viola as fronteiras, desnacionaliza os supostos cidadão, confere-lhes estranheza, convida-os a considerarem-se residentes estrangeiros, ainda que tenham a nacionalidade do país de residência. Daí a sua afirmação de que há uma relação profunda entre revolta e migração, na medida em que são os migrantes que vêm das margens da arquitectura política (e “migrante”, como se pode ver, é uma condição que se herda). O título do livro, O Tempo da Revolta, remete para a tese central da autora: a revolta que irrompe actualmente por todo o lado não é um acontecimento conjuntural, é estrutural, ainda que possa parecer efémera e a sua propagação seja intermitente.

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Sabemos bem que a revolta como categoria política foi sempre desqualificada, mesmo à esquerda. A tradição da esquerda é a dos sujeitos políticos, não a do anonimato que pertence à própria forma da revolta. Este anonimato não deve ser interpretado apenas como exigência estratégica, faz parte do éthos da revolta.

Daí, o recurso à máscara e aos capuzes. Os jornalistas do Le monde, na abertura de uma reportagem, avisavam o leitor de que era impossível chegar aos revoltosos, identificá-los, retirá-los da invisibilidade e do anonimato. Não conseguiam saber alguma coisa deles senão através de mediações.Só alguém de uma esquerda muito heterodoxa e com algumas afinidades com a anarquia, como foi o mitólogo Furio Jesi, podia definir deste modo a revolta: “Se a revolução prepara o amanhã, a revolta evoca o depois de amanhã.”



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O parasita da autodestruição

(Hugo Dionísio, in Facebook, 03/07/2023)

A história do “país 404” – este “404” roubei-o a Andrey Martyanov – é uma história de sucesso. A situação absolutamente trágica em que se encontra este país e o seu povo, arrastado para a morte todos os dias, aos milhares, em nome dos interesses alheios, obscuros, xenófobos e corruptos que o dominam, constituirá, no futuro, um estudo de caso sobre “métodos de contágio dos povos por doenças que os fazem operar contra os seus próprios interesses”.

Não que este país seja o único a “beneficiar” de tal intervenção. É apenas um de uma longa lista de países destruídos e autodestruídos por ação imperial. Contudo, neste caso, estamos perante uma operação de falsificação histórica de proporções monumentais. A história deste país é a história da expansão de um parasita social, que se expande de oeste para o centro, auxiliado por uma mão invisível, que cria as condições para que essa infecção se espalhe com a maior intensidade e velocidade possíveis.

Para se afastar qualquer dúvida sobre a minha visão do país “404”. A imagem que guardo deste país é constituída pelos seguintes vectores: No tempo da URSS este país era uma – senão a mais dinâmica das repúblicas, uma pujante economia (a 10ª à escala europeia); do ponto de vista social era um país diverso, avançado nos costumes e nas artes, cheio de talento no desporto (os melhores futebolistas da URSS vinham de lá) e dava guarida a algumas das mentes mais brilhantes e criativas da ida superpotência. Mesmo depois de 1991, com todas as dificuldades, este país conseguiu manter uma parte importante da estrutura industrial, militar, científica, académica e pública herdada. Um povo inteligente, criativo, combativo e lutador.

Dizem as rezas neoliberais, sociais-democratas e reaccionárias, que o povo do país “404” odeia o “comunismo”, pois foi por ele atacado na sua alma, identidade e corpo. O “Holodomor” teria deixado marcas indeléveis na alma deste povo que o fazia querer revoltar-se contra o “comunismo” e, já agora e muito convenientemente, contra o seu irmão maior, seja ele “comunista” ou já capitalista. Um ódio “visceral” a tal ponto que os levou a embarcar nos ideais nazis de Bandera, o que nem fazia mal, porque do outro lado está o “comunismo”, que tão mal lhes fez. Este é o filme criado nas mentes ocidentais. Não é o filme verdadeiro, não é o filme histórico. É o filme da propaganda inspirada em Goebbels, construído por quem deu emprego a muitos dos seus seguidores, acabada que estava a Segunda Guerra Mundial.

Para o desmascarar, mais não é necessário do que aceder aos estudos do ucraniano de seu nome Dr. Vasylchenko, (ver aqui), cujos trabalhos foram publicados pela Comissão Eleitoral Ucraniana, (ver aqui), no período em que o seu site estava em construção (até à semana passada). Embora o historial eleitoral feito, quer por Vasylshenko (em russo, veja-se bem), especialista em “geografia eleitoral”, quer pela Comissão Eleitoral, apenas remontem até às legislativas de 1998, é possível extrair de um dos textos esta ideia: “Desde o final da República Socialista Soviética da Ucrânia até 1998 (onde começa o histórico), as eleições foram sempre dominadas pelo Partido Comunista da Ucrânia”. O mais conhecido presidente, até à “revolução Laranja” foi Leonid Kuchma, que presidiu o país entre 1994 e 2005.

Sem branquear os erros que possam ter sido cometidos por Kuchma e pelo PCU neste período, embora todos saibamos quem tem por costume acusar líderes inconvenientes de corrupção e como acabam essas acusações, a verdade é que ainda em 2002 (já depois da reforma eleitoral imposta pelos EUA e aliados), o PCU continuava – em queda – a ser o mais votado da Verkhovna Rhada, com 100 deputados e liderando o Governo e controlando a presidência. A diferença de 1998 para 2002 é que o “Movimento Popular da Ucrânia” ou o bloco “a nossa Ucrânia” (partidos populistas de direita nacionalista), conseguiu aumentar a votação em Kiev e arredores, destronando o PCU para Odessa, Donbass e Kahrkov, e tudo no meio dominando quer pelo PCU (Kherson, Odessa, Dnipropetrovsk) ou pelo Partido Socialista da Ucrânia. Em 1998, o Movimento Popular da Ucrânia apenas ganhava na Galícia.

Conclusão: o povo Ucraniano odiava tanto o “comunismo” que elegeu sempre os seus quadros políticos até 2002, e não só. Ainda em 2014, a Região de Odessa era governada pelo PCU. Era este o ódio que o povo Ucraniano tinha ao “comunismo”. E porque não elegia o PCU na região da Galícia? É aqui que a treta do Holodomor cumpriu o seu papel. A 5ª e última grande fome que o Império russo e a URSS sofreram em 30 anos, foi revista pelos EUA como uma “fome provocada para punir a Ucrânia”. Nunca explicaram onde estão as provas dessa intenção, nem porque razão só no século XX tenham ocorrido outras 4 fomes do mesmo tipo, ou porque razão morreram tantos russos e bielorussos como morreram ucranianos. Mas foi na região menos ucraniana, mais vulnerável, portanto, à propaganda russófoba e xenófoba fabricada por impérios que sempre quiseram pilhar os recursos naturais russos, que a aldrabice mais pegou. O resto, foi uma questão de tempo.

A Galícia, região mais a oeste da Ucrânia e considerada hoje o berço do nacionalismo ucraniano é a única que nunca foi ucraniana. Afinal, Ucrânia era o nome a que os russos, o Império Russo, davam à região fronteiriça entre o Império Otomano, o Austro-húngaro, a Comunidade Polaco Lituana, e o Húngaro. De todas as partes que hoje compõem a Ucrânia, a Galícia é a única que nunca foi ucraniana, portanto, ou seja, do Império russo que batizou a região. A Galícia foi sempre Polaco-lituana, Húngara ou Austro-Húngara, apenas se tornando Ucraniana entre 1939 e 1945. Ou seja, foram os “comunistas” que tornaram a Galícia ucraniana. Querem “descomunizar” a Ucrânia? Então devolvam a Galícia à Polónia, a Crimeia à Turquia e do Donbass até à Transnístria à Rússia, incluindo Kharkov. Entre 1654 e 1917 apenas a região de Kiev e toda a região de fronteira com a Bielorrússia era considerada Ucrânia. Mas a Ucrânia não era sequer uma província, era uma região russa. Daí que, querem “descomunizar” a Ucrânia? Acabem, com ela, porque quem criou o país, como país autónomo foi Lenine e os bolcheviques.

Mas voltando ao parasita. Começando como um pequeno movimento na Galícia, logo o Partido nacionalista, que foi assumindo vários nomes acabou por dominar toda a Ucrânia com excepção do Donbass, que em 2018 já não votava. O PCU foi perdendo influência, dando espaço à reacção, que descamba na Revolução Laranja e na vitória de Yushenko. Nesta altura o país já estava dividido em dois, o movimento nacionalista ocidental e o partido das regiões que tinha absorvido o eleitorado do PCU e o PSU.

O Partido das Regiões de Yanukovich que se propunha a “defender os interesses dos russos na Ucrânia”, volta a ganhar as eleições legislativas a partir de 2008 (4 anos após a Revolução Laranja), o que prova o imenso ódio aos russos que os ucranianos tinham e as presidenciais em 2010. Em 2014 dá-se o EuroMaidan, cuja instabilização já vinha de 2012. Em 2014, já com o partido das regiões destruído e desmobilizado e sem a força do PCU e PSU, foi fácil a Poroshenko voltar a ganhar. Zelinsky, que agora diz não ir fazer eleições tão cedo (para quê?), ganhou com o país já refém apenas de partidos de direita e extrema-direita.

Assim, a história recente do tornado país “404” (designação de página vazia ou buraco na Internet), é a história de um parasita pró-ocidental, reaccionário que implanta uma farsa nacionalista, baseada em Bandera, que combatia pelos nazis. E a farsa é tão grande que, nem a Galícia algum dia foi ucraniana até Estaline derrotar o nazismo, nem Bandera se sentia ucraniano, pois, afinal, matou muitos e muitos. E matou-os porque era russófobo, tal como os seus seguidores de hoje.

A história da Ucrânia é a vitória do parasita fascista sobre as forças democráticas. Mais uma vez, os EUA implantaram o fascismo para dominar um território.

E como foi possível a infecção? Bem, existem várias fases. Kuchma, cedendo às pressões pró-ocidentais vindas do Oeste, acabou a aproximar-se das instituições internacionais ocidentais, que logo fizeram exigências eleitorais e outras. Com a sua saída de cena e com a “Revolução Laranja” da CIA, é o próprio sistema de educação que começa a sofrer mudanças que foram integrando nos programas um manancial de informação anti russa. A xenofobia começa a ganhar força e é desse processo que surge a resposta russófona, o partido das regiões. Ou seja, a história deste parasita é também a história da divisão étnica e consequente purificação.

Perante esta história ninguém se pode admirar da criação das repúblicas populares no Donbass. Uma parte da população deixou de acreditar no estado sob o qual existiam. E esta desconfiança é o resultado de um processo de luta entre duas forças opostas, uma implantada a partir de oeste, que se vai estendendo e com o dinheiro da CIA e das ONG’s ocidentais, vai ganhando força e condições de disputar o poder com as forças políticas tradicionais. Os jovens, como se vê pela matança em nome do Tio Sam, são os mais infectados, pois são os que menos conhecem a história. E entre 2004 e 2014, a história eleitoral é um “tu cá – tu lá” até à erradicação, pela força e pela repressão, de uma das partes do país, concretamente, a russófona, órfã de uma intervenção russa que competisse com a aposta ocidental. Vladimir Putin a tudo isto assistiu até ser tarde de mais para remediar o que quer que fosse. Não foi por falta de aviso do povo russo e do PCFR.

E porque razão, apenas em 2004, se faz a Revolução Laranja? Primeiro, porque as condições não estavam reunidas, uma vez que a força do PCU era, ainda, muito grande. Com excepção da nunca ucraniana Galícia. É de facto uma farsa enorme um país ter como berço ideológico uma região que nunca foi desse território. Uma peça de engenharia social excepcional.

Afinal, entre 1991 e 1999 os EUA e a UE consideravam que tinham a Rússia nas mãos. O aparelho de estado estava em processo pilhagem compulsivo e a CIA tinha assessores nos gabinetes ministeriais. Com a entrada de Putin, os EUA não demoraram a perder a esperança no controlo directo e é aí que tiram a carta “404” do bolso. Já que não conseguimos destruir a Rússia por dentro, vamos seguir a teoria de Brezinsky, ou seja, a de que o controlo da Ucrânia é a chave para o controlo do continente Euroasiático. Instabilizando a Ucrânia, instabiliza-se a Rússia, esta entra em colapso e cai às nossas mãos.

O facto é que o osso é tão duro de roer como quantas as vezes o Ocidente tentou tomar o país. Desde o século XII, todos os séculos e alguns duas vezes. Ou seja, quem paga é o povo ucraniano, porque, hoje, os EUA são tão cobardes e torpes que usam outros povos para fazerem as suas lutas. Daí que a contra-ofensiva esteja a ser mais um genocídio brutal, mas os EUA, a Zaluzny, apenas responderam: “já sabíamos que ia ser assim”, “mas é para continuar”. Pois, não são os filhos deles, e até ao último ucraniano ainda faltam uns quantos.

É este tipo de gente que o rebanho apoia! Este tipo de parasitas! Parasitas capazes de colocarem sociedades inteiras num processo de autodestruição. E ainda lhe chamam “democracia”!

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