(In RiseUp Portugal, in Facebook, 20/06/2026, Revisão da Estátua)

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Há um pequeno problema com a guerra dos Estados Unidos contra o Irão. Os Estados Unidos ganharam-na. Pelo menos, foi isso o que nos disseram.
O Líder Supremo iraniano foi assassinado nas primeiras horas da campanha. Grande parte da marinha convencional do Irão foi destruída. As instalações nucleares sofreram danos severos. Durante cem dias, a maior potência militar do planeta utilizou tudo aquilo que a tecnologia moderna consegue oferecer: bombardeiros furtivos B-2, grupos de ataque de porta-aviões, munições de precisão e uma superioridade aérea praticamente absoluta. À primeira vista, parece uma vitória bastante convencional. E, no entanto, bastou ler o memorando de entendimento de 14 pontos agora acordado entre Washington e Teerão para surgir uma dúvida embaraçosa. Se isto foi uma vitória americana, talvez seja altura de atualizar os dicionários.
Os objectivos anunciados, quando a Operação Epic Fury começou em coligação com Israel, a 28 de Fevereiro de 2026, eram claros. Destruir permanentemente o programa nuclear iraniano, eliminar a capacidade de produção de mísseis balísticos, neutralizar o apoio de Teerão aos grupos aliados na região e, embora ninguém o admitisse publicamente, criar condições para uma mudança de regime. Não eram objectivos particularmente subtis. Eram resultados de quem pretende remodelar profundamente um adversário e redefinir o equilíbrio de forças numa região inteira.
Por isso, é interessante observar aquilo que consta do acordo final. Os Estados Unidos comprometem-se a respeitar a soberania iraniana e a não interferir nos assuntos internos do país. Suspendem as sanções ao petróleo e aos petroquímicos. Levantam o bloqueio naval. Retiram forças da região. Descongelam 24 mil milhões de dólares em ativos iranianos. E comprometem-se, juntamente com os seus aliados, a financiar planos de reconstrução avaliados em pelo menos 300 mil milhões de dólares. O acordo é fascinante porque parece ter sido redigido por alguém que não assistiu ao início da guerra. À medida que se percorrem os seus termos, surge até uma sensação ligeiramente desconfortável. A certa altura, o leitor sente necessidade de confirmar qual dos dois países foi efetivamente atacado, porque a distribuição de concessões parece pouco compatível com aquilo que normalmente se associa a uma vitória total e esmagadora.
Naturalmente, a expressão utilizada é “fundo de reconstrução”, porque a diplomacia existe em grande medida para evitar palavras desconfortáveis. Mas a História tende a ser menos delicada. Quando um país destrói infraestruturas noutro e depois paga para as reconstruir, existe uma designação tradicional para esse fenómeno: Reparações. E as reparações possuem uma característica curiosa. Costumam ser pagas pelos derrotados. Foi assim após as Guerras napoleónicas. Foi assim com a Alemanha após as duas Guerras Mundiais. Foi assim com o Japão depois de 1945. Foi assim com o Iraque após a invasão do Kuwait. Agora, aparentemente, os Estados Unidos são convidados a participar nessa tradição histórica. Talvez exista uma explicação perfeitamente razoável para isto, mas é difícil ignorar o facto de que, em toda a história moderna, os países raramente celebram as suas grandes vitórias pagando centenas de milhares de milhões de dólares ao adversário.
A situação torna-se ainda mais intrigante quando se observa aquilo que desapareceu das negociações. O programa de mísseis iraniano deixou de estar em discussão, e mais, Donald Trump admitiu em direto na TV que afinal é injusto e o Irão deve ter mísseis balísticos. O apoio a grupos como o Hamas, o Hezbollah e os Houthis deixou de estar em discussão. Em suma, alguns dos principais motivos apresentados para justificar a guerra deixaram simplesmente de fazer parte da conversa. Vale a pena refletir sobre o significado disto. Os Estados Unidos gastaram oficialmente cerca de 30 mil milhões de dólares em apenas três meses, embora algumas estimativas elevem o valor para perto dos 200 mil milhões. Consumiram munições a um ritmo que vários analistas consideram insustentável, prevendo entre três e cinco anos para a reposição dos arsenais. Contribuíram para uma crise energética global. E, no final, os mísseis iranianos nem sequer estiveram em cima da mesa. É um resultado peculiar. É como contratar uma empresa para demolir uma garagem, destruir metade da casa e terminar a obra explicando que a garagem afinal nunca foi a questão principal.
Entretanto, Donald Trump passou de proclamar uma vitória total para celebrar o facto de ter assinado um acordo de paz com o Irão numa guerra que ele próprio iniciou. A mudança é compreensível. Quando os acontecimentos se recusam a colaborar com a narrativa, normalmente é a narrativa que acaba por se adaptar. A dificuldade agravou-se quando uma avaliação confidencial da Agência de Informações da Defesa norte-americana sugeriu que grande parte do urânio enriquecido tinha sido transferida antes dos ataques. As instalações subterrâneas não colapsaram. O programa nuclear sofreu atrasos de meses, não de anos. Trump falou em destruição completa e total. A Agência de Informações descreveu algo substancialmente diferente. É uma distinção importante, sobretudo porque um dos inconvenientes da realidade é continuar a existir mesmo quando contradiz uma conferência de imprensa.
Muitas pessoas comparam esta situação ao Vietname, mas a comparação talvez não seja inteiramente justa. No Vietname, os Estados Unidos perderam após anos de combate terrestre, dezenas de milhares de mortos e um desgaste contínuo que acabou por esgotar a vontade política do país. No Irão, estamos a falar de apenas cem dias. Cem dias durante os quais os Estados Unidos utilizaram aquilo que possuem de mais avançado, mais sofisticado e mais devastador. Se o Vietname foi uma derrota por desgaste, o caso iraniano parece mais próximo de uma demonstração involuntária dos limites do poder militar. Porque o Irão nunca precisou de vencer militarmente. Precisava apenas de evitar uma derrota política e preservar aquilo que considerava essencial. Olhando para os termos do acordo, é difícil não concluir que o conseguiu.
Apesar dos danos sofridos, a República Islâmica emerge com a sua soberania reafirmada, as suas alianças preservadas, o seu programa estratégico protegido, a economia desbloqueada e a reconstrução garantida. Depois de todo o fogo, toda a retórica e toda a demonstração de força, os americanos parecem ser os mais ansiosos por encerrar o assunto e regressar a casa.
É aqui que a questão deixa de ser apenas iraniana. Durante sete décadas, a influência dos Estados Unidos no Médio Oriente assentou numa ideia extremamente simples: Washington podia impor resultados através da força militar. Todos os cálculos feitos em Riade, Amã, Cairo, Ancara ou Telavive partiam dessa premissa. As bases militares espalhadas pela região não eram apenas instalações militares. Eram símbolos físicos dessa capacidade. Representavam uma mensagem simples: estamos aqui e decidimos.
Mas essa mensagem torna-se mais difícil de sustentar quando o país que deveria ser intimidado termina a guerra com os seus mísseis protegidos, os seus aliados preservados e um plano de reconstrução financiado pelo adversário. As bases podem continuar onde estão. Os porta-aviões podem continuar a navegar. Os bombardeiros podem continuar a voar. O problema é que a credibilidade não funciona como uma pista de aterragem. Quando desaparece, não pode ser reconstruída apenas porque existe orçamento para isso.
É assim que os impérios costumam encontrar os seus limites. Não necessariamente quando deixam de ser poderosos, mas quando o resto do mundo começa a suspeitar que esse poder já não produz os resultados prometidos. Quando aliados e adversários começam a recalcular expectativas. Quando países mais pequenos observam atentamente aquilo que aconteceu e retiram as suas próprias conclusões.
O Irão não derrotou militarmente os Estados Unidos. Ninguém está seriamente a argumentar isso. O que fez foi algo potencialmente mais importante: demonstrou que a maior potência militar do mundo pode vencer quase todas as batalhas e, ainda assim, perder a única que realmente importa. A batalha pelos objectivos políticos que justificaram a guerra.
Demonstrou a todo o Sul Global, a todas as nações que vivem sob a sombra da coerção americana, que a resistência é possível, que a soberania pode ser defendida e que a máquina militar mais poderosa do mundo pode ser derrotada politicamente mesmo quando vence todas as batalhas.
Talvez seja cedo para declarar o fim da hegemonia americana no Médio Oriente. Mas é difícil ignorar que, pela primeira vez em muitas décadas, a questão deixou de ser impensável.
A História registará este momento como aquele em que o século americano encontrou os seus limites da forma mais direta possível. Não nas selvas do Sudeste Asiático. Não nas montanhas do Afeganistão. Mas no Golfo Pérsico, numa guerra que durou 100 dias e terminou com Washington a concordar reconstruir aquilo que destruiu. O Irão até exigiu que seja em dinheiro líquido, e não aceitará quaisquer auditorias estrangeiras ou permitirá empresas de construção ocidentais no processo.
Se uma guerra começa com promessas de mudança de regime e termina com a reconstrução financiada pelo agressor, então pelo menos uma coisa parece evidente: alguém saiu desta história convencido de que venceu. E é difícil argumentar que foi quem enviou os porta-aviões.
A cronologia dos acontecimentos torna tudo ainda mais curiosamente simbólico.
A 9 de Março, Donald Trump garantia que os Estados Unidos eram agora totalmente independentes do Médio Oriente e que não precisavam do seu petróleo.
A 1 de Abril, assegurava que o país possuía muito mais petróleo do que aquele de que necessitava.
A 17 de Junho, porém, explicava que, sem o memorando de entendimento, os Estados Unidos ficariam sem reservas dentro de cerca de quatro semanas.
A História está cheia destas pequenas ironias. Não porque provem alguma coisa, mas porque ajudam a ilustrar a distância que por vezes separa a retórica da realidade.
E existe ainda uma última coincidência. Trump assinou o memorando de entendimento no Palácio de Versalhes. O mesmo edifício que deu o nome ao Tratado de Versalhes, assinado em 1919 após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial. Naturalmente, há algo de involuntariamente cómico em terminar uma guerra cuja vitória foi proclamada como total, assinando um acordo que prevê o levantamento de sanções, o descongelamento de ativos, a reconstrução do país atacado e o reconhecimento da sua soberania precisamente no local mais associado da história moderna às consequências impostas aos derrotados.
Não é uma posição confortável para um império. Sobretudo porque é exatamente neste momento que as pessoas começam a olhar para o Imperador. E a reparar que talvez ele esteja nu.