Fox Crime — Gaza e os militares comentadores

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 07/12/2023)


O canal de televisão que vejo com maior frequência é o Fox Crime. Os episódios, muito bem filmados, apresentam um crime e a sua resolução por métodos de análise polícia científica. Os corpos das vítimas, os teatros de operações são sujeitos a provas, qual o ângulo de entrada da bala, ou da faca, que órgãos foram atingidos, qual a composição química de um vestígio, o morto, o de cujus, é antes de tudo um pretexto para exibir a parafernália dos meios da polícia, dos analistas. Os guiões apresentam retratos tão asséticos quanto possível das vítimas e dos assassinos. Os polícias científicos pretendem mostrar como foi cometido o crime e como o podem descrever ao espetador. O sucesso da série, julgo, deve-se à frieza da análise. O espetador não tem de se envolver emocionalmente. Os episódios terminam habitualmente com uma cena “aberta”, um rosto neutro. Não existe empatia, nem emoção. A conclusão: o “sistema” funcionou.

Pela hora do jantar passo pelas TVs. A rotina: Fox Crime — noticiários levou-me a associar os dois produtos. As Tvs, depois dos episódios da guerra na Ucrânia estão agora a exibir episódios da operação israelita em Gaza. O elenco é o mesmo e a lógica dos enredos também. Do elenco interessam-me os profissionais, os militares comentadores. Com exceção das exceções, que são poucas e cada vez mais afastadas do modelo Fox Crime, os militares desempenham um papel central na mensagem que o nosso mundo de bons valores pretende passar, a verdade única: desumanizar a guerra. Não há pessoas, mas populações… massas flutuantes…

O grosso do contingente de comentadores militares nas Tvs realizam a operação de desumanização da violência abordando as ações como um jogo com livro de instruções.

A Ucrânia foi apresentada como uma campanha militar convencional, com linhas de defesa e eixos de ataque, conjugação de manobra de forças terrestres, apoiadas por artilharia e meios aéreos. Vimos a guerra como um curso de tática numa Academia Militar. Alguns comentadores militares, mais excitados e mais militantes (e também menos inteligentes), passaram e passam a abarreira da falsa neutralidade da análise e assumem-se membros da claque da causa do “Ocidente”, e replicam o refrão da NATO.

Quanto a Gaza. O que está a ocorrer em Gaza é, segundo as Nações Unidas, os jornalistas presentes, as agências internacionais, aos organizações não governamentais, o Vaticano, a Amnistia Internacional, os Médicos Sem Fronteiras, a Cruz Vermelha um crime de dimensões apocalíticas.

Ora o que os comentadores militares me explicaram ontem foi que as Forças de Defesa de Israel — uma entidade cuja respeitabilidade e direito de agir nunca questionam, tal como nunca questionam a ação do Estado que as utiliza como instrumentos da sua ação criminosa — estão a realizar uma operação militar e tinham entrado na segunda fase do seu plano. Estavam a progredir por eixos do Norte para Sul, tinham tomado a cidade de Gaza, onde se encontrava o comando do terrível Hamas, que afinal se deslocara maldosamente para Sul, para onde se dirigem as forças da ordem no seu encalço. Os objetivos estabelecidos pelas forças do Estado de Israel no teatro de operações, segundo os comentadores militares, estão a ser devidamente conquistados com tropas terrestres, numa conjugação de blindados, infanteria, artilharia e apoio aéreo, tudo devidamente coordenado. Em suma, tecnicamente, a operação do exército israelita funciona com a mesma eficácia tecnológica dos melhores campos de concentração da Alemanha nazi. As câmara de gás foram substituídas pelos prédios em escombros no meio de uma coluna de fumo. Gaza é mais espetacular que Auschwitz!

Entretanto, o que os comentadores militares nos dizem é que o crime de Gaza, o genocídio, é uma mera operação militar, que em muitas ocasiões classificam como uma guerra, sabendo que estão a induzir uma falsa ideia, pois uma guerra é travada entre dois contendores com meios equivalentes, e tratam o Hamas, uma organização politico-militar do tipo dos movimentos independentistas, ou de resistência que desde tempos imemoriais utilizam a tática da guerrilha, a única opção do fraco contra o forte, como se fosse equiparável a um exército com os mais modernos e poderosos meios de combate, incluindo armas nucleares e protegido por dois porta-aviões e duas esquadras de apoio. Esquecidos destes pormenores, os comentadores militares descrevem a intervenção como os médicos legistas que observam num ecrã o percurso de uma sonda que invade o interior do corpo do cadáver, ou do moribundo.

O que os comentadores militares nos dizem, tal como os realizadores dos episódios do Fox Crime, é que o crime, a essência criminosa do ato e dos agentes no teatro de operações, e a desproporção de forças, de meios, dos apoios é um tema sobre o qual não nos devemos pronunciar. Esqueçam. Isso é política e eles tratam de assuntos sérios, de técnicas. A dor das vítimas nunca surge no relato. É cenário. Eles falam mesmo em cenário de guerra. A causa da ação também nunca é referida. Não existem causas, mas manobras. Estamos num jogo de xadrez. Não se fala da qualidade da ação, de ser uma vingança planeada, uma limpeza étnica, de ser um ato impune. Trata-se de uma amputação que está a ser bem-sucedida, sugerem-nos. Também nunca surge a questão da consciência dos militares israelitas colocados perante a ordem de cometer crimes, o que vale para os pilotos dos aviões que bombardeiam a esmo (a moda é justificar que nos edifícios se encontram instalações do Hamas — no Vietname foram despejados agentes químicos sobre populações e campos agrícolas, porque serviam os vietcongs), as tripulações de blindados, os atiradores. E a ação desses militares devia ser questionada por todos e pelos comentadores militares em primeiro lugar — existe o direito à recusa de cometer atos violadores da consciência e não é desculpa a invocação de obedecer a ordens.

Os comentadores militares apresentam a operação de arrasar Gaza como os antigos professores de medicina apresentavam as fases de uma autópsia aos seus alunos. Onde se abre o cadáver, com que ferramentas e, no final, onde se despejam as vísceras. Ficamos elucidados. Afinal, numa autópsia do Fox Crime, o que interessa o morto? Nos episódios, o morto tem como papel salientar o virtuosismo técnico dos analistas, a eficiência dos operacionais que o transformaram num objeto de estudo. Os comentadores desempenham a função dos técnicos de laboratório nas cenas em que os resultados são aceticamente apresentados.

Os episódios da Fox Crime e da Faixa de Gaza não devem tirar o sono nem provocar más digestões aos telespetadores que têm, isso sim, de comprar os artigos apresentados pela publicidade e, claro, um Ferrero Rocher vale mais que um palestiniano, vivo ou morto!

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Versão portuguesa de A Nova Arte da Guerra — tocar corneta e não desafinar

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/10/2023)

Tenho ouvido com surpresa alguns militares de altas patentes comentarem os atuais conflitos, o da Ucrânia e agora o de Israel. Os tudólogos e as tudólogas apresentam horóscopos. São artistas convidados por razões conhecidas das direções editorais dos meios de comunicação para convencer os clientes mais vulneráveis intelectualmente e não merecem um olhar. Pelo seu lado, os militares são (eram?) tomados como analistas racionais e metódicos. É nesta perceção que assenta a sua credibilidade e que me custa vê-los desbaratar.

A maioria dos militares convidados pronunciam-se sobre a manobra das forças, os armamentos e tomam notória posição a favor dos regimes da Ucrânia e de Israel, replicando as posições da NATO e dos Estados Unidos. O chocante dessas apresentações não é a tomada de partido, é ela não ser assumida e comunicada, como FB faz, indicando que a mensagem tem origem num meio sob controlo da Rússia. Mas, mais surpreendente, são os maus tratos que eles dão aos princípios da guerra, à relação entre a manobra tática e a organização das forças que as realizam e ainda da história das batalhas.

A opção de um analista pode ser muito parcial em termos ideológicos, mas a vontade de transmitir uma mensagem de bons de um lado e maus do outro não pode anular princípios básicos da arte da guerra, como acontece. Vi e ouvi esses militares considerarem um ato ilícito que uma população cercada num castelo (os palestinianos em Gaza) organize uma força que sai da fortaleza a coberto da noite e ataque as sentinelas do inimigo. É uma manobra comum ao longo da história. Estas operações estão tipificadas em todos os manuais de tática e organização militar como operações especiais, ou operações irregulares.

É estranho a ignorância do que é uma sortida. As fortalezas dispunham quase sempre de uma saída secreta, de um túnel ou de uma vala disfarçada para estas ações. Considerar uma ação tão antiga como esta como um ato bárbaro e fora das leis da guerra é, ou uma grosseira manobra de manipulação para enganar o público em geral, ou uma prova de ignorância de história tanto da antiga como da recente. As forças portuguesas realizaram ações deste tipo, de grande violência, contra forças que as cercavam ou atacavam, ou mantinham reféns portugueses. Fizeram-no em várias ocasiões, as operações Mar Verde, de ataque às prisões do PAIGC em Conacri é uma delas e não foi sem sangue e com bons modos. A operação Ametista Real, de ataque a uma base do PAIGC no Casamance, no Senegal, e que cercava a guarnição de Guidaje, foi outro exemplo, violento e sangrento. O assalto à aldeia de Wiriamu, em Moçambique, é ainda outro. Seria de boa norma que os oficiais comentadores conhecessem estes exemplos de operações irregulares levadas a cabo pelos militares portugueses, antes de seguirem a narrativa americana e israelita, o que evitaria apresentarem uma sortida de um grupo de guerreiros de uma população encerrada no último baluarte, que mata sentinelas inimiga, como um ato de terrorismo e não como uma ação militar legítima, e, mais, que as ações de bombardeamento com catapultas de bolas incandescentes, ou de animais infetados com vírus, como o faz a artilharia, a aviação e a marinha israelita, são atos legítimos de defesa dos atacantes!

Regressando às análises de especialistas militares que têm surgido nos grandes meios de comunicação, eles trazem a público uma nova teoria militar que substitui A Arte da Guerra, de Sun Tzu , e Da Guerra, de Clausewitz, mas também o desenvolvimento de uma nova da Lógica, que substitui o uso do raciocínio, da proporcionalidade entre argumentos, da correta e equilibrada relação entre todos os termos de uma situação.

Há, na argumentação dos profetas do novo Ocidente alargado para justificar a defesa dos regimes de Zelenski e de Netanyahu, da Ucrânia e de Israel, defensores da superioridade étnica e religiosa, uma nova Lógica que substitui a que foi estudada em várias civilizações da Antiguidade, desde a Índia, onde a recursão silogística, Nyaya remonta há 1900 anos, à China, com o Moísmo e, por fim e mais próximo de nós, na Grécia Antiga em que a lógica foi estabelecida como disciplina por Aristóteles. Não é coisa pouca a obra destes comentadores sem obra, mas com currículo e carreira!

A invocação do direito de defesa quer na Ucrânia, quer em Israel escapa à Lógica como ela tem sido entendida, não porque não tenham esse direito, mas porque o tomaram como um direito de que se apropriaram, negando o direito de defesa dos outros. É uma corrupção do conceito vulgar entre “porta vozes” contratados à peça, como meio de manipular a realidade para a dobrar aos interesses dos manipuladores.

Quanto aos militares, há (havia?) um capital de respeito por eles que está a ser desbaratado ao vê-los integrar o coro que alguns fazem na orquestra que tenta ensurdecer as opiniões públicas ocidentais. Que se salvasse, ao menos, a teoria, o conhecimento da arte da guerra, a honra! Mas não, temos músicos de orquestra, ou cornetas que tocam afinadas e à ordem.


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Sobre as possibilidades das FA’s ucranianas

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 11/09/2023)

Usamos com demasiada frequência a frase “até ao último ucraniano” para enfatizar e reforçar o argumento que as FA’s Ucranianas estão a ter demasiadas perdas e sempre combinámos isso com a sua ininterrupta mobilização e, agora, também, com a mobilização daqueles que estão inaptos para o serviço militar. No entanto, tendemos a esquecer algo crucial. Em Bahmut, muitos dos que lutaram pelas FAU pertenciam a unidades de defesa territorial, com pouca ou nenhuma instrução. Tinham sido enviados, juntamente com tropas mais bem treinadas e equipadas, para tentar manter a cidade. Como conclusão lógica da sua participação, a sua maior parte foi exterminada até aos últimos homens, ou tornada ineficaz devido às terríveis perdas sofridas. Ninguém contesta esse facto, porque é verdade e está bem referenciado. Nesta ação o grupo Wagner teve sucesso. Mas também devemos ter presente que muitas dessas unidades eram de defesa territorial. Apenas alguns meses depois, as FAU atacaram com forças mais poderosas em Zaporozhye e, recentemente, em Donetsk. E ainda mantêm na sua posse Marinka, Avdeevka e Ugledar, estando a recuar lentamente na região de Kupyansk.

Neste momento, as forças que atacam em Zaporozhye e Donetsk são tropas treinadas no ocidente e internamente, fortemente armadas e em quantidades significativas, com bastantes armas ocidentais. Deve ter-se presente que em Bahmut se estava a desenvolver uma ação retardadora que foi paga de uma forma exagerada pelas FAU. O comando das forças ucranianas decidiu ganhar ali tempo em troca de sangue (de certo modo, não o poderiam ter feito de outra forma), mas enviou aqueles que tinham menor valor em termos de capacidade de combate, de forma a poupar as melhores tropas para o futuro ataque principal. Agora e depois de todo este tempo, o ataque principal não foi nem decisivo nem letal, como alguns previam. Mas no QG das FAU, não existem idiotas, eles foram formados nas mesmas escolas que os generais russos. Se alguém acreditar no contrário, estará errado. Provavelmente sob a influência dos generais da OTAN foi tentada uma manobra do tipo guerra relâmpago, que se veio a revelar inútil. No entanto, ainda continuam a atacar. E nesse caso resulta uma questão lógica. Por que razão estão a atacar? Não será o momento de cancelar essa ação?

A maior parte das vezes a resposta que aparece é: 1) Não o podem fazer, porque a OTAN não permite; 2) É por ordem do presidente; 3) O ataque é a melhor defesa. Enquanto o grupo de forças que actualmente está a ser consumido (neste momento, já são mais de 100.000 KIA/WIA/MIA), as FAU estão a fazer a mesma coisa que fizeram em Bahmut – ou seja: formar, treinar e equipar outro corpo de forças de combate principal, e ao mesmo tempo criar, novamente, um corpo secundário que será composto por unidades de defesa territorial. A tarefa deste último será aguentar, amortecer e tentar absorver o contra-ataque russo tanto quanto possível, sem que seja necessário sacrificar demasiado o corpo de forças de combate principal, em termos de homens e equipamento. A ideia é parecida com a dos russos, permitir que o inimigo ataque, desacelerá-lo, desgastá-lo o máximo possível e quando chegar a hora adequada, atacar novamente com um corpo de forças de combate principal recém-criado. E, se necessário, repeti-lo em seguida. Entenda-se que o comando das FAU reclama do pessoal, mas talvez não por causa do que se pensa.

Os centros de recrutamento estavam sob pressão para cumprir as quotas. Sendo corruptos, deixaram muitos escapar. Kiev e as maiores cidades estão cheias de homens com capacidade militar. O problema está na ineficiência dos recrutadores. Todos os aptos irão receber uma melhor instrução para formar um novo corpo de forças de combate principal. Todos aqueles inaptos, jovens, velhos, mulheres (talvez), previstos para conter o ataque russo receberão um treino mínimo. Não precisam de nada melhor, excepto saber atirar, porque estarão sentados nas trincheiras e fortificações, à espera que o exército russo os expulse, mas ao mesmo tempo fique desgastado nesse processo. Tudo o que foi visto até agora, desde o início da guerra em diante, nos leva a considerar que um tal desenvolvimento não só é possível como já foi utilizado em diversas ocasiões. Uma tal abordagem tem um custo elevado em termos de vidas humanas e não é muito digna, mas quem pretende combater e vencer mantendo a dignidade, obviamente nunca esteve numa guerra.

Na realidade, podemos encontrar exemplos semelhantes nos anais de outras guerras e em antigos manuais e registos históricos da era soviética, alguns oriundos diretamente dos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial contra os alemães, onde algumas divisões de baixa qualidade foram colocadas na primeira linha, para tentar enfraquecer os alemães, permitindo assim o sucesso de tropas soviéticas mais capazes para capitalizar o enfraquecimento do inimigo. Ambos os lados deste conflito sabem disso.

Em relação às perdas de armamento e viaturas de combate, de facto as perdas em hardware são enormes para as FAU, mas estas ainda têm muitas ao seu dispor. Há que ter presente que as armas para a Ucrânia fluem sem parar. A notícia, de há poucos dias, que os EUA estão a enviar 190 MRAPs, passou quase despercebida. Existem muitos casos assim. Portanto, não, a Ucrânia não ficará sem armas tão cedo.

Pessoalmente, acredito que o caminho escolhido por Moscovo, para obter a vitória neste conflito, é acabar com a possibilidade das FAU em travarem uma guerra nas gerações vindouras. A solução que foi optada consiste na degradação, exaustão, quebra de vontade e derrota total, uma espécie de guerra de desgaste, mas numa escala muito maior.

De forma semelhante também assim estava definido na doutrina estratégica soviética. E isso significa que a guerra não terminará tão cedo. Depois disso, não haverá mais Ucrânia.

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