Milhares de milhões de dólares de armas contra a Síria

(Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 19/07/2017)


Desde há sete anos, vários milhares de milhões de dólares de armamento entraram ilegalmente na Síria ; um facto que, só por si, basta para desmentir a narrativa segundo a qual esta guerra seria uma revolução interna democrática. Inúmeros documentos atestam que este tráfico foi organizado pelo General David Petraeus, primeiro a título público a partir da CIA da qual ele era o director, depois a título privado a partir da sociedade financeira KKR, com a ajuda de altos funcionários. Assim, o conflito, que era inicialmente uma operação imperialista dos Estados Unidos e do Reino Unido, transformou-se numa operação capitalista privada, enquanto em Washington a autoridade da Casa Branca era contestada pelo “Estado Profundo”. Novos elementos lançam luz sobre o papel secreto do Azerbaijão na evolução desta guerra.

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O ferro-velho de Tancos

(João Quadros, In Jornal de Negócios, 14/07/2017)

quadros

 

(Devo confessar que começo sempre bem os fim de semana, porque me rio à brava com as crónicas do João Quadros. Mas nesta, o homem excedeu-se. Está divinal. A não perder.

Estátua de Sal, 14/07/2017)


Depois de o especialista em coisas com balas, Nuno Rogeiro, ter dito que o assalto a Tancos era o mais grave roubo de armas desde as Guerras do Ópio de 1860, o CEMGFA, Pina Monteiro, revelou que o valor do material roubado ronda os 34 mil euros e que os lança-foguetes roubados não devem poder ser usados porque eram material destinado para abate. O “não devem ser usados” é um aviso aos ladrões, não vão eles tentar usar aquilo e magoarem-se. Ainda queriam que o Costa viesse de férias por causa de 34 mil euros em fisgas para canários. Fazendo as contas, o maior prejuízo foi a rede.

No fundo, roubaram o equivalente a dez viagens ao Euro 2016. Se as armas roubadas não funcionavam, se calhar eram lança-rockets do SIRESP. Faz-me confusão tanto trabalho para roubar 34 mil euros em armas que não funcionam. Vai ter de haver demissões entre os criminosos. Se o CEMGFA diz que o valor do material roubado ronda os 34 mil euros, mais valia terem roubado o carro do general.

Se “os lança-foguetes roubados não devem poder ser usados porque eram material destinado para abate”, se calhar, roubaram para fazer candeeiros. Começo a ficar convencido de que, afinal, as espadas que os oficiais iam entregar ao Presidente da República eram de plástico.

António Costa, depois da reunião com a tropa toda, veio dizer que, do roubo de material de guerra de Tancos, foram retirados ensinamentos. Já não bastava as armas, ainda retiraram ensinamentos. O pior é que, normalmente, em Portugal, os ensinamentos retirados acabam por nunca ser usados e vão para abate. Diz o PM que as armas roubadas não representam perigo para a Segurança Interna – qual segurança interna?! A que usa munição falsa para proteger um paiol de lança-rockets que não funcionam?! Eu acho um claro exagero chamar paiol àquilo.

No fundo, Costa veio dizer que, afinal, as armas eram de louro prensado e temos um Chefe das Forças Armadas que diz que o furto em Tancos “foi um soco no estômago”. Foi um soco no estômago – foi o que disse o meu primo quando a namorada acabou com ele. Se o Chefe das forças Armadas considera o assalto a Tancos um soco no estômago, se houver um ataque terrorista, vai sentir o quê?! “Foi como se estivesse a ter dores de parto.” “Foi como se tivesse uma pontada no pipi.”

Conclusão de toda esta baralhada: afinal, foi a austeridade que nos safou ou, a esta hora, os criminosos teriam gamado armas que funcionavam e estávamos todos em perigo. É por estas, e outras, que a Merkel merece o Nobel da Paz.


TOP 5

Sucata

1. Passos copiou discurso do Facebook do seu ex-ministro Poiares Maduro – Cristas copiou o seu discurso do Facebook de Maria Vieira.

2. A filha da Carolina Patrocínio causa escândalo nas redes sociais – Se a PSP apanha a filha da Carolina Patrocínio com aquele bronze, dá-lhe uma sova.

3. Vaticano proíbe hóstias sem glúten – E crucifixos de quinoa.

4. O rei de Espanha teve 5000 amantes – Parou nas 5000. Ao menos mais 5, para fazer capicua.

5. Poiares Maduro já confirmou à RTP que Passos lhe pediu para utilizar umas frases de uma publicação no Facebook – Copiar um discurso sobre o estado da nação é o cúmulo da austeridade. Passos foi ao paiol do Poiares.

As reações ao furto nos paióis em Tancos. Entre o grotesco e o tétrico

(Major-general Carlos Branco, in Expresso Diário, 10/07/2017)

CBRANCO

(Artigo de opinião exclusivo para o Expresso do major-general na reserva Carlos Branco, a propósito do polémico furto em Tancos.)


Tem corrido tudo mal, ou quase. São poucos os intervenientes que ficam bem na fotografia. Os desenvolvimentos que se seguiram ao furto apenas vieram agravar a situação. O Ministro da Defesa assumiu inicialmente a responsabilidade política do furto – sem explicar o que isso significava – para uma semana mais tarde (muito tarde) afirmar na comissão parlamentar de Defesa que se tratava de um problema operacional militar. Aproveitando a gafe, a oposição reforçou os pedidos de demissão, quando na verdade as falhas de segurança apenas aos militares diziam respeito. As associações profissionais juntaram-se ao coro, tentando explicar aquelas falhas com o desinvestimento efetuado na defesa pelas sucessivos governos, apontando o dedo ao poder político. Ninguém conseguirá explicar ao país que a videovigilância estava avariada havia cinco anos, a rede sem eletrificação, e a iluminação (holofotes) inexistente, etc. devido à falta de investimento nas Forças Armadas. Não é claramente um problema dos políticos, mas sim dos militares. Independentemente de especulações legítimas que se possam fazer, não restava ao CEME (Chefe do Estado-Maior do Exército) outra alternativa que não fosse a contrição. O que fez bem.

Entre várias opções, o CEME escolheu uma particularmente injusta e desajeitada – a exoneração de cinco comandantes – criando um problema desnecessário, dando argumento a quem o acusava de ter cedido às pressões do ministro. Esta falta de esclarecimento foi aproveitada por dois tenentes-generais para um ajuste de contas, sob o pretexto do seu compromisso com elevados valores éticos. Era a oportunidade, após terem conspirado, traído e sabotado de uma forma constante e consciente a ação de comando do CEME – nunca aceitaram terem sido preteridos na escolha para CEME – e apoiado discretamente os promotores de uma manifestação sediciosa de entrega de espadas nas suas exortações à revolta, sobretudo depois de saberem que nenhum deles seria escolhido para vice-chefe. Igualmente insólito é a incoerência do anúncio público antecipado de demissão, depois de terem criticado o CEME de ter feito algo semelhante relativamente à exoneração dos cinco comandantes, contrariando um compromisso assumido com os restantes generais do Conselho Superior do Exército.

Assim como a flauta de Hamelin, as palavras “paióis” e “Tancos” atraíram para o espaço mediático especialistas formados à pressa e com conhecimento colado com cuspo. O espetáculo tem sido degradante, dada a despudorada ignorância dos intervenientes.

As manchetes dos jornais insistem no roubo de armamento, quando parece não terem ainda percebido que não foram furtadas armas, mas sim munições, explosivos e outros artefactos militares; um conhecido canal de televisão explicou-nos que uma granada defensiva funcionava por vácuo; o diretor de um reputado jornal, tão conhecedor do pensamento de Sun Tzu, passada uma semana não sabia ainda que o CEME tinha comunicado a exoneração aos visados antes de a anunciar publicamente; um proeminente economista da nossa praça, reciclado em especialista de defesa, em prime time televisivo, não perdeu oportunidade de alardear a sua ignorância questionando a necessidade da existência de tantos paióis, esclarecendo as hostes que “deveria haver uma concentração do armazenamento”. Terá de explicar essa teoria aos iletrados da NATO, e já agora arranjar uma avença para explicar essas ideias geniais nas escolas militares. O seu colega de debate chamava “carregamento” a “carregadores”. Outros eruditos atribuíam um papel decisivo ao atraso na disponibilização de verbas para arranjar a rede do paiol, quando esse assunto é absolutamente irrelevante para explicar o sucedido. Ficamos por aqui em matéria de comunicação social.

A PGR não comunicou ao gabinete do Ministro da Defesa Nacional (MDN) a suspeita de roubos de armas e ainda ninguém colocou o cargo à disposição. A inqualificável baixeza ética dos deputados da comissão parlamentar de Defesa que passaram para a comunicação social informação sobre o que se estava a discutir à porta fechada não terá sido o melhor exemplo de responsabilidade democrática (não será difícil adivinhar de que bancada terá vindo).

Parece que, para além do presidente da Comissão, mais ninguém condenou a ocorrência. A falta de respeito pelas regras, sem consequências, tornou-se trivial. Entretanto, afirmando estar no limite das suas responsabilidades, o Presidente da República tomou a iniciativa e foi a Tancos inteirar-se da situação rebocando o contrariado MDN, enquanto o primeiro-ministro está a banhos.

No meio disto tudo, as unidades continuarão a ter a segurança nos mínimos, nalguns casos abaixo dos mínimos; e os comandantes a terem de desviar verbas destinadas para a instrução e o treino operacional para pagar a água, luz e gás, evitando o seu fecho; continuará a incapacidade dos dirigentes do ministério da defesa em encontrar soluções para resolver os problemas do recrutamento, e evitar o definhamento em que se encontra a Instituição Militar. A atuação medíocre da maioria dos intervenientes nesta comédia sinistra é um bom retrato do país.


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