O declínio de Portugal

(Eugénio Rosa, in Resistir, 21/03/2023)

– numa UE em rápido e acentuado declínio
– numa UE que deixou de ser um interlocutor válido e ouvido internacionalmente
– numa UE cada vez mais dependente e atrelada aos EUA
– num mundo em rápida mudança onde estão a surgir novos blocos políticos
– num mundo em fragmentação e com uma desglobalização crescente tornando mais difíceis os fluxos internacionais


Arrisco-me a que este estudo seja considerado longo e cause a desistência do leitor, mas mesmo assim aventurei-me a publicá-lo, pois dividi-lo em partes poderia levar a que se considere o momento em que vivemos, de um confronto crescente entre grandes potencias e de fragmentação mundial, como menos perigoso do que é. Só a analise conjunta das diversas partes é que poderá dar uma ideia da gravidade da situação que se procura esconder com faits divers nos media.

É impossível compreender as graves dificuldades que o país e os portugueses enfrentam atualmente se a análise for desligada do contexto mundial como alguns fazem. Crescimento anémico, inflação, aumento vertiginoso dos preços da energia e dos produtos alimentares, subida das taxas de juro com efeitos dramáticos para as famílias e para as empresas, falências de empresas, instabilidade crescente no sistema financeiro, a perda de acesso a mercados importantes quer de exportações quer de importações devido à guerra e às sanções, o ascendente de uma Comissão Europeia, sem visão estratégica e totalmente subserviente ao poder americano o qual colocou a UE num beco sem saída, que se assume como governo da UE, como aconteceu na recente ida de Úrsula von der Leyen aos EUA onde negociou um acordo sobre matérias-primas com Biden sem conhecimento dos governos dos países europeus (só possível pelo facto destes governos serem submissos a tudo que vem de Bruxelas), a degradação da democracia em que os sintomas mais visíveis são “ quem pensa diferentemente do pensamento dominante veiculado pelo governo e pelos medias é considerado amigo do inimigo” e “a proibição de acesso a meios de comunicação que não sejam de países do ocidente alargado” (agora pretendem proibir os europeus de ter acesso ao TikTok mas não ao Facebook ou o Twitter porque são americanos). “Eles”, os “senhores” é que querem escolher o que podemos ver e ouvir como acontecia no salazarismo, com a justificação semelhante à que Salazar utilizava para impedir que os europeus sejam enganados pela propaganda inimiga como se estes fossem crianças, etc, etc. Repetindo, é impossível compreender os problemas que o país e os portugueses enfrentam se a análise for desligada do contexto internacional pois há causas internas (por ex., incompetência e paralisia do governo), mas também existem causas externas de peso que estão a afetar muito a vida dos portugueses e a causar os problemas graves ao país. A escalada de preços não resulta apenas da especulação interna como o governo e os seus defensores pretendem fazer crer.

A ADESÃO À UE NÃO TROUXE NEM MAIOR CRESCIMENTO ECONÓMICO NEM MAIOR JUSTIÇA NA REPARTIÇÃO DA RIQUEZA CRIADA NO PAÍS ENTRE O TRABALHO E O CAPITAL. AS DESIGUALDADES ESTÃO A AUMENTAR

Segundo o INE, nos 11 anos posteriores ao 25 de Abril até adesão à União Europeia (1975-1985) a média das taxas de crescimento económico do país foi de 2% ao ano, após a entrada para UE (1986-2022) caiu para 1,9%.

Mas não foi só a nível da taxa de crescimento económico que a adesão à UE não trouxe melhorias. Tão pouco isso se verificou na repartição mais justa da riqueza criada no país. Segundo dados do INE, a parcela da riqueza criada no país (PIB) que os trabalhadores recebem sob a forma de “Ordenados e salários” correspondia, em 1973, a 49,5% do PIB; em 1975 a 62% do PIB; em 1985 (véspera da adesão à UE) a 37,6%; em 2011 a 36,1%; em 2015 a 34% e em 2021, a 37,3% do PIB, ou seja, menos do que no ano anterior à adesão à UE (1985) que fora 37,6%. Portanto, também na repartição mais justa da riqueza criada no país (PIB) entre o Trabalho e o Capital, a adesão à UE não trouxe para os portugueses qualquer melhoria.

NA ÚLTIMA DECADA O CRESCIMENTO ECONÓMICO DA UE FOI ANÉMICO, MAS O DE PORTUGAL FOI PIOR

Entre 2011 e 2022, a média das taxas de crescimento económico (PIB real) da UE foi de 1,4% ao ano, enquanto a do nosso país a média das taxas de crescimento económico foi apenas 0,9%/ano. E as previsões para 2023 e 2024 são respetivamente de 0,7% e 1% para a União Europeia, e 1% e 1,8% para Portugal. Taxas que confirmam a continuação do declínio da UE e de Portugal, pois com taxas desta natureza inferiores ao crescimento mundial o declínio da UE será inevitável e o nosso país não sairá da situação de atraso em que se encontra 37 anos após ter aderido à UE.

Interessa referir que há países da UE onde o crescimento foi muito superior ao de Portugal, nomeadamente os que aderiram mais recentemente (após o ano de 2000). No período 2011-2022, a média das taxas de crescimento económico foi na Bulgária de 2,2%/ano; na Estónia 3,3%/ano; na Letónia 2,8%/ano; na Lituânia 3,5%/ano, na Roménia 3,5%/ano; na Eslovénia 2,3%/ano; na Eslováquia 2,1%/ano; e na Hungria de 2,9%/ano.

A questão que se coloca é esta: Por que razão Portugal tem tido um crescimento económico anémico, inferior mesmo ao da UE que tem sido muito inferior ao crescimento económico mundial (por ex., em 2023, prevê-se que crescimento mundial seja 2,9% e o da UE apenas 0,7%, ou seja, menos de um quarto)?

O BAIXO INVESTIMENTO EM PORTUGAL ESTÁ A CAUSAR UM AUMENTO REDUZIDO DA PRODUTIVIDADE, DA RIQUEZA CRIADA, BAIXOS SALÁRIOS E UM CRESCIMENTO ECONÓMICO QUE NÃO TIRA O PAÍS DO ATRASO

Uma das causas mais importantes para o atraso crescente do nosso país, devido a um crescimento económico anémico é o baixíssimo investimento que tem sido feito no país. Isto impediu a modernização do aparelho produtivo nacional e tem determinado o crescimento fundamentalmente de atividades de baixa produtividade, de baixo valor acrescentado e de baixos salários, de que são exemplos, o turismo, a hotelaria, o alojamento, a construção civil. O setor de alta tecnologia tem um peso muito reduzido em Portugal (quase quatro vezes menos que a média da UE).

Segundo o Eurostat, no período 2011-2022, o investimento total (FBCF) em Portugal correspondeu, em média, a 17,3% do PIB, quando a média na UE foi de 22,8%, na Estónia de 26,8%, na Letónia 22,5%, na Lituânia 20%, na Roménia 24,2%, na Eslováquia 21% do PIB. A falta de investimento privado em Portugal foi agravada pelo facto de as grandes empresas que dominam a economia portuguesa terem passado para o controlo de grandes grupos estrangeiros, através de privatizações ruinosas, os quais, ao invés de investirem em Portugal, transferem para o exterior os enormes lucros obtidos (ex. EDP, GALP, REN, Fidelidade, NOS, ALTICE, bancos, etc) a que se associaram, com o mesmo comportamento, grandes grupos ditos nacionais que criaram SGPS em países europeus de fiscalidade mais favorável ao Capital (ex. Jerónimo Martins) para reduzir os impostos pagos em Portugal.

Como consequência, segundo a AMECO (base de dados da Comissão Europeia) o stock de capital por empregado (meios de produção) em Portugal diminuiu, entre 2013 e 2022, de 124600€ para apenas 109800€ (-11,9%). Neste último ano (2022) correspondia apenas a 56,3% da média da UE (193800€) e a 49,6% da média dos países da Zona Euro (209800€) a que Portugal também pertence. Este baixíssimo investimento por trabalhador, para além de determinar uma baixa produtividade e baixo aumento da riqueza criada, associado a um baixíssimo custo da mão-de-obra (segundo o Eurostat, em 2008 correspondia a 56,5% do custo médio na UE e, em 2021, diminuiu para apenas 55%) determinou que as atividades económicas que mais se desenvolveram em Portugal fossem fundamentalmente atividades de média e baixa tecnologia e, consequentemente, de baixa produtividade, que o turismo, a hotelaria e a construção são os casos mais visíveis. Segundo um relatório divulgado em julho de 2022, pelo gabinete de estatísticas da UE, “Portugal é o país em que os setores de alta tecnologia menos representam (4,7%) no total do valor acrescentado pelas empresas de base industrial. A média comunitária ronda os 15%, embora a maior parte dos países fique abaixo dos dois dígitos, mas com a Bélgica (24,5%) e a França (18%) a deterem as maiores quotas”.

O BAIXO INVESTIMENTO EM PORTUGAL TEM COMO CAUSA PRINCIPAL O REDUZIDO INVESTIMENTO PÚBLICO DETERMINADO PELA OBSESSÃO DO DÉFICE, O QUE ESTÁ A CAUSAR UMA PROFUNDA DEGRADAÇÃO DOS EQUIPAMENTOS PUBLICOS, O QUE É CONFIRMADO PELA SITUAÇÃO DO SNS, NA ESCOLA PÚBLICA E O EPISÓDIO DRAMATICO NA MARINHA

A política de desinvestimento no país atingiu uma gravidade extrema no período 2011-2021 (não se incluiu 2022 porque não existem dados disponíveis) pois, segundo o INE, a preços correntes, o investimento (FBCF) total (privado + público) realizado no país foi 322254 milhões €, enquanto o Consumo do Capital Fixo (aquele que se gastou ou desapareceu pelo uso e obsolescência, nas empresas corresponde às amortizações para mais fácil compreensão), no mesmo período, atingiu 340862 milhões €, ou seja, o destruído pelo uso ou obsolescência foi superior a todo o investimento total realizado neste período em 18608 milhões €. Portanto, o novo investimento nem foi suficiente para compensar o que desapareceu.

A causa deste desinvestimento foi a quebra dramática do investimento público levada a cabo pelos sucessivos governos dominado pela obsessão em reduzir o défice de uma forma drástica e rapidamente. Isso é claro quando comparamos com outros países da União Europeia. Segundo o Eurostat, no período 2011-2021, a média das taxas anuais de FBCF (investimento) público na UE foi de 3,1%, do PIB, enquanto em Portugal foi de 2,5% do PIB, sendo no período 2016-2019 apenas 1,7% do PIB/ano. Nos países em que se verificou um crescimento económico superior aos de Portugal, referidos anteriormente, a riqueza interna criada (PIB) aplicada em investimento público, em percentagem do PIB, foi muito superior. Segundo o Eurostat, entre 2011 e 2021, a média das taxas de investimento público foi de 5% na Letónia, de 3,7%% na Lituânia, e 3,8% do PIB na Eslováquia.

Em 11 anos (2011-2021), o investimento (FBCF) público total realizado somou apenas 45186 milhões €, enquanto o Consumo de Capital Fixo, ou seja, o que se degradou ou desapareceu pelo uso foi apenas 59148 milhões €. O novo investimento público realizado nem compensou aquele que desapareceu ou degradou-se pelo uso (foi inferior em 13960 milhões €). Eis a razão da profunda degradação e insuficiência que se verifica nos equipamentos públicos (hospitais, Centros de saúde, escolas e transportes públicos, tribunais etc). E não deixa de ser dramático que 13 militares da Marinha tenham arriscado a carreira e a prisão para chamar a atenção para a situação a que chegaram as Forças Armadas.[NR]

UMA ECONOMIA FRAGIL NÃO PREPARADA PARA ENFRENTAR PANDEMIAS, GUERRA E SANÇÕES

Foi com uma economia frágil que o país teve de enfrentar a crise causada pela pandemia, o que determinou uma redução abrupta de 8,3% no seu PIB num único ano (2020), que levou dois anos a recuperar e que agora tem de enfrentar as consequências de uma guerra na Europa – e fundamentalmente as múltiplas sanções impostas por Bruxelas à Rússia, aprovadas por governos submissos, incapazes de defender os seus cidadão, que se têm revelado, na pratica, verdadeiras sanções contra as economias europeias e contra os europeus destruindo empresas e condições de vida, criando mais obstáculos ao crescimento económico e a ter consequências mais graves para os países da UE do que para a Rússia. Estão assim a criar de novo blocos políticos e comerciais em confronto crescente e a fragmentar a economia mundial.

O próprio FMI no seu relatório Atualização de Perspetivas da Economia Mundial de janeiro de 2023 confirma a reduzida eficácia das sanções sobre a economia russa, muito aquém das previsões dos seus defensores, pois a previsão que faz do crescimento económico na UE é de 0,7% em 2023 e de 1,8% em 2024, enquanto para a Rússia prevê um crescimento de 0,3% em 2023 e de 2,1% em 2024, portanto, um crescimento neste último ano já superior ao da UE. Jorge Costa Oliveira num artigo com o titulo “Repensar a eficácia das sanções à Rússia” publicado no Diário de Noticias de 15/3/2023 escreveu: “A medida que foram impostas mais e mais sanções à Rússia criou-se nos países ocidentais (o resto do mundo não dá relevo a esta guerra europeia) a convicção de que a economia russa sofreria uma derrocada. Faço parte dos que se juntaram a esse coro. Volvido um ano, sucede que os números não corroboram esta tese”. Este pelo menos teve a coragem e a honestidade de reconhecer o erro. Mas muitos fecham os olhos e os ouvidos e preferem a destruição da Europa, do nosso país, da vida dos europeus, a reconhecerem o erro e a procurarem uma outra solução que não sacrifique ou sacrifique menos as economias e os povos europeus. “Os srs. e as sras. de Bruxelas e do governo recusam-se a reconhecer o beco sem saída em que meteram a UE por incapacidade e falta de visão estratégica, e que a solução não seja utilizar a UE numa guerra económica a que não estavam mandatados pelos seus povos a qual está a destruir a economia dos países e a vida dos europeus pois não sentem as dificuldades da maioria. A escolha que os europeus (e os portugueses), terão de fazer é: manter e aplicar mais sanções devido ao falhanço e ter a escalada de preços e crescimento económico deprimente ou o contrário. Não se pode ter ao mesmo tempo “sol na eira e chuva no nabal”.

A GUERRA, MAS SOBRETUDO AS SANÇÕES, ESTÂO A IMPEDIR O ACESSO DOS PAISES EUROPEUS A MERCADOS IMPORTANTES DE ENERGIA, DE CEREAIS, DE FERTILIZANTES, ETC O QUE CONTRIBUI PARA A ESCALADA DE PREÇOS QUE É AGRAVADA PELA ESPECULAÇÃO E CRIA TAMBÉM FORTES OBSTÁCULOS AO CRESCIMENTO

Como consequência da pandemia que causou disrupções nas cadeias de abastecimentos e atrasos nos fornecimentos e depois devido à guerra na Ucrânia mas fundamentalmente causado pelo efeito “boomerang” das sanções impostas quase exclusivamente pela UE e pelos EUA e por alguns outros países à Rússia, por esta ter invadido a Ucrânia, assistiu-se a uma escalada de preços dos bens alimentares, da energia (fundamente petróleo e gás), de fertilizantes e de muitos outros produtos importados pelos países europeus – o que está a reduzir a competitividade e mesmo a destruir a economia europeia e a vida dos europeus, nomeadamente das economias mais frágeis como é a portuguesa. Esta escalada de preços começou, em primeiro lugar, nos fatores de produção importados e depois se refletiu nos preços da produção e seguidamente transferida para os consumidores, o que foi agravada pela especulação devido à falta de controlo. Querer justificar a escalada de preços só com a especulação interna como faz o governo e seus defensores é enganar os portugueses e tentar desculpabilizar os governos e a Comissão Europeia pelo beco sem saída em que meteram a Europa quando utilizaram a economia na guerra contra a Rússia. Efetivamente ao aplicarem sanções à Rússia na energia, que é um dos maiores exportadores mundiais de petróleo e gás e, na pratica, aos fertilizantes e cereais russos, que é também um grande exportador porque aplicam sanções às companhias de seguros que façam seguros a navios que transportem produtos russos, associados à russofobia que impede que alguém no ocidente se atreva a importar produtos russos pois ficará logo “marcado”, vedaram o acesso dos países da UE a mercados exportadores importantes o que contribuiu para a escalada dos preços criando fortes obstáculos ao crescimento económico (preços inflacionados da energia, falta de materiais de importação, etc). Segundo dados do INE, entre 2021 e 2022, o custo das importações agrícolas aumentou de 8461,3 milhões € para 10936 milhões € (+29,2%), a de produtos alimentares passou de 3382 milhões e para 4232,5 milhões € (+25,1%) e a de combustíveis minerais (petróleo e derivados) de 9514,4 milhões € para 18219,8 milhões € (+91,5%). Estes dados reforçam a conclusão que justificar a escalada de preços no consumidor apenas com a especulação interna, é enganar os portugueses ou revelar uma grande ignorância. O fecho de mercados importantes ao nosso país, devido às sanções, o aumento de preços imposto pelos produtores desses países que ficaram com menos concorrência (ex. EUA) associado à especulação dos grandes corretores internacionais de matérias-primas e de petróleo que se estão a aproveitar certamente da situação para embolsar enormes lucros e que a Comissão e governos parecem desconhecer (leiam o livro O mundo à venda de Javier Blas e Jack Farchy ed. Casa das Letras que entenderão) fez disparar os preços nos mercados internacionais de que se aproveitaram empresas como a GALP para obter lucros obscenos (em 2022, 881 milhões € de lucros,+ 93% que 2021)

Toda esta situação já muito difícil é agravada pelo confronto crescente entre os EUA, movido pelo desejo de manter a hegemonia mundial, e a China, cujo crescimento económico permitirá brevemente alcançar os EUA, e desejosa de criar um mundo multipolar, onde tenha uma posição também dominante. A guerra e as sanções, e o congelamento por parte dos governos ocidentais de bens (dinheiro) de outros países, nomeadamente da Rússia, criou um precedente muito grave. A ameaça de sanções dos EUA à China se esta não se dobrar as suas imposições está a destruir a ordem internacional existente e a fragmentar o comercio internacional (a globalização capitalista) criando de novo grandes blocos políticos e comerciais com consequências imprevisíveis. A dependência e submissão da economia da UE à dos EUA é cada vez maior, atrelando mais aquela aos interesses e objetivos estratégicos deste, no seu confronto, agora com a Rússia, mas, a breve prazo, com a China. E se a Europa se atrelar aos EUA no confronto com a China aplicando sanções então as consequências para o países e povos da UE serão dramáticas (os casos do 5G e brevemente do 6G da Huawei e do TikTok são emblemáticos). Só não vê quem ande cego ou não esteja atento.

A UCRANIA UM PAIS ONDE GRASSA A CORRUPÇÃO (ocupa o 116º lugar no Índice de Perceção da Corrupção ao lado da Zâmbia e das Filipinas) PARA ONDE ESTÃO A SER CANALIZADOS MILHARES DE MILHÕES DE EUROS DOS CONTRIBUINTES SEM QUALQUER FISCALIZAÇÃO INDEPENDENTE

A agravar tudo isto há ainda a acrescentar os elevados custos para assegurar o funcionamento do Estado ucraniano que estão a ser suportados fundamentalmente pelos contribuintes da UE. Só para 2023, Bruxelas atribuiu uma “ajuda” de 18.000 milhões € à Ucrânia um valor superior aos fundos comunitários disponibilizados a Portugal através do PRR para um período de cinco anos. E isto já para não falar dos custos da reconstrução da Ucrânia que , segundo as últimas previsões, deverão ser superiores a 700.000 milhões € e que certamente espera que sejam os contribuintes europeus a pagar.

É importante ter presente que a Ucrânia é um país onde impera a corrupção ocupando o 116º lugar em 2022 no Índice de Perceção da Corrupção que reúne 180 países. A confirmar que a corrupção continua neste país estão os factos noticiados recentemente por muitos órgãos de comunicação social. Na Visão de 24/1/2023 podia-se ler: “Escândalo de corrupção na Ucrânia levou a 11 demissões em menos de 24 horas” . O Diário de Notícias citando um comunicado da LUSA, na mesma altura, escrevia que “pelo menos seis responsáveis ucranianos foram esta quarta-feira demitidos de funções, juntando-se a outros 13 decisores que já tinham sido afastados na terça-feira por suspeitas de corrupção ligada a fornecimentos sobretudo de bens alimentares ao exército.” Entre os demitidos estavam Kyrylo Tymoshenko, vice-chefe do gabinete de Zelensky, Oleksiy Symonenko, vice-procurador geral da Ucrânia, Vyacheslav Negoda e Ivan Lukerya, vice-ministros do Ministério das Infraestruturas, etc. Em suma, tudo gente de confiança e próxima de Zelensky que foi forçado a demiti-los para não perder a confiança de dadores internacionais. E mais demissões certamente se verificarão pelas mesmas razões.

E é para um país com estas caraterísticas que estão a ser canalizados milhares de milhões de euros financiados pelos contribuintes europeus sem qualquer controlo eficaz por parte dos países doadores. É uma questão muito sensível, mas que não pode nem deve ser ignorada ou escondida para não haver depois surpresas, face aos enormes sacrifícios que estão a ser pedidos aos europeus (Costa envia 4 Leopardos 2 para a Ucrânia que custam milhões € mas não tem dinheiro para a manutenção do navio de vigilância Mondego, o governo reconstrói escolas na Ucrânia mas recusa-se a fazer o mesmo em Portugal; é importante a solidariedade com a Ucrânia mas não deve ser menos importante a solidariedade com os Portugal). Neste contexto, em que serão canalizados fundos enormes para Ucrânia é de prever que o PRR e o Portugal 2030 sejam os últimos “Planos Financeiros Plurianuais” que o nosso país terá. Portugal, certamente passará da condição de “beneficiário líquido” para a de “contribuinte líquido”.

Estamos a viver momentos de grandes mudanças a nível mundial, que envolvem grandes riscos, mas que colocam grandes desafios para os quais os líderes europeus parecem não estar preparados. A guerra na Ucrânia veio apenas agravar as contradições e acelerar as mudanças. Estamos a assistir a perda de hegemonia por parte dos EUA e à criação de um mundo multipolar. A fragmentação e o recuo da globalização capitalista serão inevitáveis. Mas tem custos e riscos elevados.

OS RISCOS QUE SE ESTÃO A ACUMULAR NA BANCA PODEM PÔR EM CAUSA A ESTABILIDADE DO SISTEMA FINANCEIRO PORTUGUÊS CAUSADO PELO AUMENTO RÁPIDO DA TAXA DE JURO PELO BCE AGRAVANDO ENORMEMENTE A SITUAÇÃO DAS FAMILIAS E DAS EMPRESAS, ASSIM COMO A FALTA DE VERGONHA E DE SENSIBILIDADE DE LAGARDE QUE EXIGE AOS GOVERNOS QUE ACABEM COM OS APOIOS ÀS FAMILIAS E ÀS EMPRESAS

As declarações de Medina, reforçadas pelas de Lagarde no mesmo sentido, de que “o sistema está muito mais robusto desde a crise financeira de 2008”, visando incutir a ideia de que não haverá problemas na UE, embora haja diferenças entre a banca em 2008 e a atual, faz lembrar as declarações de Cavaco antes da queda do BES de que os portugueses podiam confiar no banco, e é desmentida pelos factos. É necessário analisar a situação concreta dos bancos no nosso país.

Segundo as contas dos bancos de 2022, ainda não auditadas, em dez/2022, a CGD tinha aplicado em títulos 18689 milhões € (18,2% do seu ativo total); o BCP 13035,5 milhões € (14,5% do ativo total); o Novo Banco 8183,2 milhões € (17,8% do ativo total); o Santander-Totta 8235 milhões € (13,9% do ativo total); o BPI 5123 milhões € (12,8% do ativo total); e Banco Montepio 4119 milhões € (21,6% do ativo total, a exposição mais elevada que comporta mais riscos). Somando obtém-se 57385 milhões €. Se calcularmos os juros anuais com base na taxa média do stock de divida publica do IGCP (o banco do Estado) – 1,8% – obtém-se para este montante de divida publica um rendimento (juros) de 1033 milhões €/ano. No entanto, o IGCP tem pago atualmente nas emissões a 10 anos uma taxa de juro superior a 3% ,mas vamos considerar esta nos nossos cálculos. Com uma taxa de juro de 3% são apenas necessários 34431 milhões € para obter o mesmo rendimento que se obtém com os 57385 milhões € à taxa de 1,8%. Isto significa que se este total de divida fosse vendido no mercado regulado os seus detentores teriam um prejuízo estimado em 22954 milhões € que não foi registado ainda.

Portanto, se a taxa de juro média da divida publica detida por estes cinco bancos for de 1,8% e se no mercado regulado para essa divida com o prazo que tem estiver a ser praticada a taxa de 3%,os bancos teriam de registar nas suas contas prejuízos no montante de 22954 milhões € o que não foi feito e, se fosse, criaria graves problemas e desequilíbrios à banca nomeadamente a nível dos rácios de capital. A forma de evitar que se tenha de registar já esses prejuízos potenciais nas suas contas de resultados é transferir os títulos das contas onde estão nos balanços para uma outra conta denominada “ativos financeiros ao custo amortizado”, o que significa que não serão negociados e que se manterão na carteira de títulos dos bancos até a data de amortização. Foi isso que já fizeram o BCP, o Novo Banco, o BPI, e o Banco Montepio e também a CGD (em jun/2022, tinha registado nesta conta 13883 milhões €). O inconveniente desta “solução” é que dezenas de milhares de milhões € dos bancos que podiam estar a render 3% estão a render apenas a 1,8%, mas assim o prejuízo potencial não aparece, porque não foi contabilizado nos resultados dos bancos. Mas ele existe porque o valor dos títulos de divida publica está certamente contabilizado nos balanços dos bancos a um valor muito superior ao que atualmente obteriam se a vendessem para obter liquidez como fez o SVB. E se o BCE subir as taxas de juros, maiores serão os prejuízos potenciais dos bancos com a divida publica. Mas para calcular com rigor o montante de prejuízos potenciais era necessários que os bancos divulgassem o valor dos títulos e o tipo de títulos que possuem em carteira, a taxa de juro que têm associada, assim como a taxa de juro a que esses títulos estão a ser transacionados no mercado regulado, o que se recusam a fazer, mas que deviam fazer por uma questão de transparência e de segurança para quem deposita o seu dinheiro na banca. O regulador nada diz. Mas não é só por esta razão que os riscos para a banca estão a aumentar.

Os bancos ao aumentar também de forma significativa os juros do crédito à habitação e às empresas a quem concederam crédito, porque estão a taxa variável indexados a taxa Euribor, e esta tem subido muito pelos efeitos da do BCE, causam o aumento do incumprimento das famílias e das empresas, nomeadamente PMEs, o que significa prejuízos que podem ser elevados para a banca e mais miséria e falências. Pretender fazer crer que a banca na Europa , e também em Portugal não enfrenta riscos, é revelar ignorância ou então tentar iludir. A desmentir essas afirmações estão já o colapso de três bancos nos EUA – SVB, Silvergate Bank e o Signature Bank – e ainda recentemente o First Republic Bank teve de ser apoiado por outros bancos, a juntar às dificuldades do Credit Suisse que, já na Europa, obrigou o Banco Central Suíço a apoiar com 51000 milhões € para evitar o seu colapso, e a compra da subsidiária do SVB por outro banco na Inglaterra para evitar a contaminação aos bancos ingleses. Mas o SVB como o Credit Suisse podem ter mais ramificações em muitos bancos europeus, que não foram reveladas, o que poderá ter efeitos graves em outros bancos. Um banco colapsa não é por ter prejuízos, mas sim pela falta de liquidez que sucede quando os depositantes perdem a confiança e acorrem em massa a levantar os seus deposito e o banco não é capaz de pagar. Foi o que aconteceu no SVB e no BANIF e nenhum está imune.

O BCE, para fazer face à escalada da inflação, a única coisa que sabe fazer é aumentar as taxas de juro, o que leva os bancos comerciais a aumentarem os juros cobrados pelo crédito às empresas e às famílias contribuindo assim para a escalada de preços e agravando ainda mais a crise económica e social, e determinando a insolvência de milhares de famílias e a falência de muitas empresas, causando uma redução na procura agregada o que agrava ainda mais a situação de milhares de empresas. E a presidente do BCE ainda tem o descaramento e a insensibilidade para exigir aos governos que acabem com as ajudas às famílias e às empresas em dificuldades. O dramático é que o aumento dos juros pelo BCE não vai resolver o problema da escalada de preços na UE pois esta não é causada por um excesso de procura, mas sim pelas sanções, pela disrupção da cadeia de fornecimentos causada pela guerra, e pela especulação nos mercados externos de fornecedores que ficaram sem concorrentes, por corretores e também, em certa medida, pela especulação interna e pelos lucros obscenos de certas empresas em Portugal.

O GOVERNO TEM A OBRIGAÇÃO DE DEFENDER O PAÍS E OS PORTUGUESES E DE NÃO SER SUBSERVIENTE NEM SER UM SIMPLES ALUNO OBEDIENTE A BRUXELAS E, ATRAVÉS DA CE, AOS EUA

Perante um governo que se carateriza pela inação e que é incapaz de compreender a nova situação mundial e de ter a coragem de tomar uma posição que defenda os interesses dos portugueses e do país e de responder com medidas adequadas aos desafios e dificuldades que Portugal enfrenta, é urgente que portugueses se interessem em debater os princípios que deverão orientar uma estratégia de defesa dos interesses nacionais e de posicionamento internacional em que os interesses dos portugueses e do País sejam respeitados e defendidos.

Deixo alguns contributos para a reflexão:

(1) Colocar acima dos ditames e interesses de Bruxelas os interesses do país e dos portugueses não aceitando a utilização de sanções cujo efeito “boomerang” está a destruir o país e a vida dos portugueses pois impedem o acesso a mercados importantes de matérias-primas e energia pois só assim se consegue reduzir os preços aos consumidores;
(2) Recusar ser atrelado a qualquer das partes no confronto pela hegemonia mundial ou por um mundo multipolar;
(3) No comercio internacional o país deverá ter uma política independente que lhe permita ter acesso aos mercados que sejam mais favoráveis ao seu desenvolvimento e à melhoria das condições de vida dos portugueses;
(4) Internamente o país deverá promover o desenvolvimento da agricultura, para reduzir a quase total dependência em bens de primeira necessidade, e da indústria, nomeadamente, de produtos de média e alta tecnologia, e não ficar circunscrito a setores de baixa tecnologia, de baixa produtividade, de baixo valor acrescentado e de baixos salários, como são o turismo, a hotelaria o alojamento, a construção. O governo promete, mas não faz nada – é por isso que não está cansado, como se gaba sorrindo Antonio Costa respondendo ao Presidente da República;
(5) Para concretização desta política é indispensável o fortalecimento e modernização da Administração Pública, que passa não só por mais investimentos (os que têm sido realizados nem têm compensado o que tem desaparecido pelo uso e obsolescência como provamos) mas também por assegurar aos seus profissionais remunerações e condições dignas de trabalho, para atrair trabalhados com elevadas competências, pois uma Administração Publica moderna e eficiente é um instrumento fundamental para promover o crescimento económicos e o desenvolvimento do país – e Portugal não o possui o que põe em risco o PPR e [o programa] Portugal 2030;
(6) Abandonar a política de baixos salários, que está a transformar Portugal num país de salários mínimos, o que pressupõe o aumento de produtividade que exige maior investimento, o aumento significativo do “stock” de capital por empregado que é inferior à metade da média dos países da Zona euro a que Portugal pertence, pois sem aumento da produtividade os baixos salários continuarão a imperar e a fuga dos mais qualificados para o estrangeiro continuará;
(7) É previsível que Portugal não receba mais fundos comunitários – o PRR e o Portugal 2030 deverão ser os últimos – por isso exige-se uma utilização atempada e eficiente dos fundos disponibilizados, o que não está a acontecer. É de prever que seja solicitado ao nosso país, estando na UE, contribuições líquidas para ajudar outros países menos desenvolvidos do que Portugal, a Ucrânia e sua reconstrução e países do leste europeu, o que agravará as nossas dificuldades.

19/Março/2023

[NR] Acerca do episódio dos 13 marinheiros do Mondego ver Gouveia e Melo, o almirante com pés de barro.

Inocentes crianças!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 20/03/2023)

Donetsk? Mariupol? Belgorod? Pequim? Teerão? Caracas? Pyongyang? Havana? Não! Não! Não! Para o TPI, é crime, contra a Humanidade: retirar crianças órfãs de um local de guerra, afastando-as de milhares de minas antipessoais e ilegais armadas, pelas forças do regime banderista; dar-lhes alojamento digno, comida, cuidados de saúde e, mais importante, educação de qualidade. Já, para o mesmo TPI, apreendê-las numa fronteira, separá-las dos seus pais, enjaulá-las por tempo indeterminado, apenas com água e alimentação, para, no final, as deportar, à sua sorte, para o país de origem… é um ato humanitário e de grande solidariedade com os povos oprimidos!

Estas fotos foram tiradas na fronteira dos Estados Unidos com o México, num dos inúmeros centros de detenção para crianças “desacompanhadas”, criados, a partir de 2009, não por Trump, não por Bush, mas pelo “democrata”, “humanista” e “pacifista” Barack Obama, cujo vice-presidente se chamava Joe Biden.

De acordo com alguns relatórios americanos, como o do Council for Foreign Relations, foram mais de 150.000 as crianças detidas, em 2021, 24% com idade inferior a 15 anos (Ver aqui), sendo o facto mais relevante que: se o número de casos pendentes diminuiu sob o governo Biden; já o número de detenções aumentou a pique, sendo mais do dobro do que eram aquando da chapelada vitoriosa de Biden sobre Trump, nas sempre irregulares eleições dos EUA.

Estas crianças podem ser detidas em qualquer altura, não sendo necessária uma guerra, a não ser a que opõe ricos a pobres. A esmagadora maioria são deportadas para o país de origem sem qualquer garantia de acompanhamento (72%) e, aquando da sua “estadia” nos campos de concentração (mascarados de “detenção”) criados para o efeito, estas apenas têm direito a água, alimentação e cuidados médicos, à americana, claro. De resto, têm um chão duro para dormir, uma manta para se tapar e nada mais.

Dá vontade de perguntar onde andam, então, os defensores dos direitos humanos, aqueles “honrados” juízes do morto TPI? Bem…. Esses defensores, tempos a fio e, já sob o governo férreo de Biden – e da sua reduzida cúpula de plenipotenciários -, manifestaram-se, denunciaram e queixaram-se, até que o executivo que diz liderar as democracias contra as autocracias, emitiu uma lei a prever a possibilidade de pena de prisão, por atividade subversiva contra os interesses do Estado – e sabemos que garantísticas são tais leis. A partir de então, problema resolvido. Nem mais um jornalista pôde captar tais imagens. Diria eu, que, fosse sob o reinado de Trump e tal nunca teria acontecido…. Contraditório? Nem por isso.

O braço político da NATO que é hoje a UE, encarregou-se de fazer o que Bush (e mais tarde Trump) tinha ameaçado fazer, em 2002, quando o TPI (Tribunal Penal Internacional) revelou a intenção de prosseguir as investigações de violação de direitos humanos – e que tão bárbaras foram, a fazer corar um qualquer exército medieval -, de que eram acusadas as forças militares americanas. A UE, literalmente, bombardeou o TPI… E bombardeou-o de tal forma que, a explosão não incidiu sobre a sua estrutura física, mas antes, sobre a sua credibilidade, a qual já estava pelos dias da morte. A UE e seus vice-governadores mataram, de vez, o TPI.

Se o “American Service-Members Protection Act” de Bush, revelou em toda a sua extensão, a dualidade de critérios relativamente à actuação do TPI, cuja acção, apenas incidindo, quase maioritariamente, sobre “criminosos” de países pobres da África, ou, como sucedeu com Milosevic, com países tomados por traidores à sua pátria; a ameaça de Trump em bombardear as instalações do tribunal, a propósito da intenção de investigação de figuras de proa do apartheid israelita, retirou-lhe qualquer margem de prestígio, transformando-o num mero instrumento publicitário. Diga-se que, até a televisão francesa tinha financiado uma série televisiva sobre esta dualidade do TPI (Crossing Lines).

Ora, com a recente acusação, ao Presidente da federação russa (como se fosse, sequer, ele, o responsável directo por tais actos), coloca-se uma questão muito importante, a respeito da imparcialidade, objectividade e ponderação a que está sujeito o funcionamento deste “tribunal”. Se os EUA não reconhecem a sua jurisdição e tal argumento funcionou para que os casos fossem arquivados… Porque não foi tal lógica aplicada a respeito da recente acusação? Mas a jurisdição dos EUA tem um valor distinto da russa? Como pode um órgão que pretende ser respeitado como “tribunal”, distinguir níveis de soberania, níveis de liberdade jurisdicional e diferentes motivos de exclusão da responsabilidade criminal, consoante os casos, as encomendas ou as disposições?

Sabermos que o Juiz presidente do TPI é um cidadão polaco, de seu nome Piotr Hofmański, não deixa de ser relevante para o caso. A decisão de funcionar como lança rockets contra o seu próprio tribunal, não estará desligada da sua nacionalidade e da natureza dos critérios que presidiram à sua selecção, promoção e eleição. Mas o que mudou, então? Por que razão os EUA, que não pretendiam, sequer, a investigação do ICC no âmbito da “Operação Militar Especial”, agora permitiram precisamente isso?

Bem, para além do costumeiro e desusado complexo de superioridade, arrogância e prepotência, o que aconteceu é que, quando olhamos para o Ocidente destes dias, ficamos com dúvidas se não terá havido, aqui, alguma troca geográfica, sem que, de tal, nos apercebêssemos. O facto é que, as sanções do “inferno”, visavam:

  • Criar o pânico nos mercados financeiros, o que está a acontecer, precisamente, com a banca, toda em queda, já tendo o SVB rebentado com mais três bancos e continuando a corrida ao dinheiro; segundo relatos diversos, num só dia foram levantados mais de 8,8 mil milhões de dólares do DB – na sexta-feira, os mercados fecharam com o Deutche Bank a valer 18 vezes menos do que o JP Morgan;
  • Criar o pânico nos mercados de bens e serviços, o que, com a subida da inflação e a desvalorização da moeda, faria os preços aumentarem e começarem a escassear determinados bens de primeira necessidade, como sucede, em Inglaterra, com o racionamento dos vegetais;
  • Com as dificuldades económicas viria a turbulência social, de que é um exemplo o que se está a passar em Paris, com a repressão e a prisão de centenas de manifestantes, ou em Lisboa, com uma manifestação de largas dezenas de milhares de trabalhadores, bem como na Holanda, Alemanha, Bélgica, republica Checa, Itália ou Espanha;
  • A instabilidade levaria à repressão, bem repercutida na intenção de se prender um líder da oposição (Donald Trump), não pelos crimes cometidos pela CIA, NSA, ICE ou FBI, mas por ter estado com prostitutas, quando no caso de Biden se esconde, censura e omitem as provas – factuais e documentadas – de corrupção, especialmente no âmbito do território ocupado pelos EUA, que é, hoje, a Ucrânia;
  • Com a repressão viria o autoritarismo, como sucedeu com o reizete tirano Macron, cuja “democraticidade” o levou a sobrepor-se ao parlamento e, sabendo que perderia a votação, optou por fazer sair a lei sob a forma de decreto, não cumprindo os requisitos da consulta pública, para, desta forma, aplicar uma medida que sabe ser contrária às pretensões de quem o elegeu; não contente, o empregado dos Rothschild, ainda proibiu as manifestações, em Paris, relacionadas com o sistema de pensões – em “democracia” temos de aprender a comer e a calar;
  • No calor da conflituosidade social, viria a censura dos canais de comunicação externos – casos da RT, Sputnik e todas as TV’s do “inimigo” ou da perseguição à cadeia PRESS iraniana -, o condicionamento da opinião nas redes sociais, com a perseguição das figuras que se opõem ao regime – qualquer um que hoje vá ao Twitter, pode constatar a autêntica perseguição de opinião a que os bernardotes “liberais” sujeitam todos os que pensam de modo diferente;
  • Com a repressão e a opressão, viriam as quedas de governos, sendo já longa a lista de malditos governantes em queda por causa da “maldição” de Z, e, ainda mais longa, aqueles “governantes”, meros funcionários servidores, cujos povos, já não podem ver à frente, por incapacidade total destes em resolverem os reais problemas (ainda hoje, num tribunal, um funcionário judicial me disse, a respeito da Ministra da Justiça: é uma funcionária, com uma missão encomendada, e só lá está para isso mesmo e não para tomar decisões políticas);
  • Com o andamento da guerra, viria a crise de munições, aviões e outras armas pesadas, bem como a mortandade em catadupa, cada vez mais difícil de esconder…

Ora, toda esta factualidade, absolutamente apocalíptica, fazem-me perguntar onde, afinal, se situa o Ocidente e o Oriente, e se não terá havido aqui alguma troca nas placas tectónicas, com o sismo na Turquia e na Síria. É que, parece que, no Ocidente, é que está a ocorrer o “inferno”, o mesmo que eles queriam que ocorresse na Rússia.

Ao contrário, na economia russa, tudo corre como se fosse este país a sancionar e não o inverso. A economia cresce desde Julho passado, no segundo trimestre, deste ano, o PIB já vai crescer de forma efectiva; o comércio exterior cresceu 8% em 2022 e em 2023 ainda será maior o salto, ao passo que, por causa das sanções, os países ocidentais estão com as balanças comerciais desequilibradas; a procura interna russa está a crescer e de forma sustentável, prevendo-se que o crescimento homólogo, em Abril, será de 5%; o superavit comercial em 2022 foi de 332 biliões de dólares; a inflação, em 2023, já será de 4%, o défice de 2% e a dívida pública externa nos 17 ou 18%.

Nesta realidade invertida temos a explicação última da acusação do TPI. Uma bomba de areia para os nossos olhos. A verdade, é que é preciso retirar os olhares da crise profunda e estrutural que se desenvolve no Ocidente coletivo e, para cujas elites corruptoras e genocidas, a pilhagem da Rússia é vista como a salvação, pois detém as reservas naturais que permitiriam catapultar uma nova reindustrialização à base de matérias-primas ao preço da uva mijona. Daí que, a ministra canadiana dos Negócios Estrangeiros, Melanie Joly, continue a dizer que, a queda do “regime”, constitui a principal aposta (ver aqui). A ver pelas poles e pela recepção ao presidente russo, em Mariupol – cidade em aceleradíssima reconstrução -, bem que pode ir esperando deitada.

Parecendo que, esta gente é tão inteligente e capaz que, todas as macumbas que concatenam, simplesmente funcionam ao contrário, eis que, esta acusação do TPI, não deixará de ter, também, o mesmo destino.

Primeiro, se o que pretendiam era usar este facto para atrair atenções, retirando-as da crise que atravessamos, já perderam este assalto, pois a ridicularização deste acto, tanto por cá, como por lá, como pelo mundo todo, foi visto como uma farsa risível.

Segundo, porque, se o que pretendem é, apresentar ao mundo, o presidente russo, como um bandido, uma espécie de pilha galinhas, um intocável, deixem-me trazer-vos à realidade: hoje, para 87% da humanidade, tudo o que o Ocidente faz é ridículo, e apenas contribui para valorizar, como heróis, as figuras atingidas.

Terceiro, eu gostaria de questionar esta trupe de governadores de quinta categoria, sobre o que eles pensariam que aconteceria se, um qualquer país, tentasse deter o presidente russo. Se não sabem, fazê-lo, seria equiparado a uma declaração de guerra, pois o mandato para a Rússia não é, sequer, ilegal. É ineficaz, é inexistente, pois juridicamente, o TPI não tem autoridade nos países que não aderiram à sua jurisdição.

Quando, na África do Sul, no G20 deste ano, o presidente russo não for detido, tal constituirá a última machadada no TPI e um passo fundamental na libertação de África, do jugo ocidental.  Diremos que, na AS acontecerá o mesmo que aconteceu aqui, quando Gouveia e Melo decidiu obrigar 13 militares a usar um barco furado e sem motores, para perseguir um navio civil, de um país, com o qual NÃO ESTAMOS em guerra. Missão por cumprir, ridículo total. Neste caso, do barco, tantos milhões para incendiar um conflito, contra um país que nos ajudou, tantas vezes, com meios anti-incêndios, até antes dos europeus amigalhaços do peito, “apoiando” um outro com o qual não temos qualquer laço e, tão poucos milhões, para tratar do que é realmente nosso.

E esta situação é uma ótima metáfora para o que se passa na UE, nestes dias. A tripulação é de tal qualidade, que o barco anda totalmente à deriva, perdendo peças pelo caminho e estando cada vez menos à tona d’água. E a cada bomba que lança, é mais um bocado que perde. Na era histórica em que vivemos, pelo que nos é possível constatar, estamos em acelerada velocidade cruzeiro rumo à destruição de todas as organizações internacionais que tiveram o Ocidente coletivo como parceiro fundamental. Assistir ao enxovalho que Macronette levou do Presidente (com P grande!) do Congo, tratou-se de um espectáculo tão impagável, como demonstrativo da era absolutamente especial que estamos a viver. O mundo está em acelerada transformação e os conservadores – sim… são conservadores – tentam segurar-se a todas as tábuas que surgem neste imenso mar revoltoso.

Depois da recepção indecorosa a que Berbock foi sujeita na India, do ato de destratar público que Trudeau sofreu de Xi Ji Ping ou, da comitiva minúscula, que os sauditas tinham à espera de Biden… Todos podemos constatar como o Sul Global, em processo de libertação, olha para esta “elite” corporativa ocidental – como meros moçoilos de recados do grande capital financeiro e do complexo militar industrial dos EUA. Não lhes dirigem um qualquer sinal de deferência.

Se a ONU se transformou num campo de batalha entre blocos beligerantes, a UE está em desagregação acelerada, pois, transformada no braço político da NATO, deixa de ter qualquer fundamento para existir. A promessa de uma vida digna, que anunciava, é algo cada vez mais remoto, sendo o Euro, hoje, uma âncora para países como Portugal. Os últimos 23 anos, foram um período de atroz perda de soberania, liberdade e de distanciamento dos níveis de vida dos países mais ricos. Se a situação deste país já era periférica, agora, encontra-se efectivamente à deriva e alguém tem de conseguir explicar a esta gente que, dentro da UE, do Euro ou da NATO, este país não tem futuro. O futuro passa, precisamente, por uma nova abertura ao mundo. Ao mundo que vale, ao mundo que cresce, ao mundo que se liberta. Esqueçam lá os tempos da pilhagem a troco de contas de vidro. Hoje, nem temos vidro nem sequer poder para pilhar.

A própria NATO, após a mais do que anunciada derrota no leste europeu, ficará como uma organização ineficaz para defender os países europeus. Afinal, se os exércitos europeus estão depauperados pela esperança depositada na “Roma Imperial”, o facto é  que o estado militar da “Nova Roma” não está muito melhor. O que se passa no Ocidente são 30 anos de capitalismo selvagem desenfreado, que mostrou ao mundo a sua verdadeira face. Tudo o que diz, é contrário do que faz, deixando os seus próprios países no estado em que está a linha de comboio do Ohio, ou seja, em descarrilamento contínuo.

Do outro lado, na ofensiva, estão países autossuficientes, cada vez mais soberanos e independentes. Mas isto, só por si, valeria de pouco, se os seus povos não vivessem cada vez melhor, em países cada vez mais desenvolvidos e com a esperança de melhorar, a cada dia que passa. Há quantos anos não temos, nós, a sensação que tem um russo ou um chinês médio, de que o futuro vai ser melhor do que o passado? Não era esse o objectivo da tão propalada versão de “liberdade individual ocidental”?

Afinal, o que é a “liberdade”, a “democracia” e para que servem?  Que interesses servem e que interesses delas se servem? A democracia tem de ser um factor de desenvolvimento e não um ritual religioso desprovido de sentido, apenas usado para legitimar formalmente sempre os mesmos, em nome dos mesmos interesses.

E esta realidade, dúplice, bem evidente, leva-me à última conclusão: alguma coisa de muito bem anda esta gente a fazer, para ser tão atacado por tão incompetente e incapaz bando de energúmenos!

Se para alguma coisa serve esta acusação do TPI, é para confirmar que, hoje, os nossos países, estão efetivamente no caminho errado. No caminho da aparência, da superficialidade e da inconsequência.

Nós, o povo, incapaz, na sua maioria, de perceber o que nos aconteceu, somos a criança na jaula! Está na hora de fugir e crescer!


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Mistérios que o capital tece

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 17/03/2023)

Miguel Sousa Tavares

Suspendam a respiração enquanto nos garantem que o Silicon Valley Bank não tem nada a ver com o Lehman Brothers, que a Califórnia fica muito longe daqui e que o sistema bancário europeu de hoje não tem nada a ver com o de 2008. Suspendam a respiração porque já ouvimos isto antes e sabemos o que se passou depois, quando tudo desabou num instante como um castelo de cartas minado pelo mais simples e devastador dos males: a falta de confiança. A falta de confiança dos depositantes dos bancos e o pânico que rapidamente lhe sobrevém é justamente aquilo que, sobretudo depois de 2008, nos garantiram que não voltaria a acontecer, pois a lição fora aprendida e os reguladores nunca mais iriam afrouxar a guarda sobre essa imprevisível classe profissional dos banqueiros. Mas eis que ouvimos Biden dizer agora que ia apertar o controlo e a regulação, porque afinal ainda persistem zonas livres à disposição da imaginação e do aventureirismo dos banqueiros. As explicações técnicas e científicas para a falência do Silicon Valley Bank — certíssimas e lógicas a posteriori, como sempre — assentam na mesma raiz do mal tantas vezes vista antes: cobiça, risco desmedido, apostas num céu sempre azul, irresponsabilidade da gestão… Nada que não fosse previsível, pois essa é a natureza infalível dos banqueiros dos tempos modernos, aqueles a quem confiamos as nossas poupanças e que, na hora do desastre, temos de socorrer com os nossos impostos. Deve haver outra forma de fazer banca, mas, por alguma misteriosa razão, nem eles a cultivam nem os governos a ela os obrigam. Enfim, suspendamos a respiração a ver se desta vez os salvamos do desastre. Aliás, não há nada mais que possamos fazer.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Os tempos estão cheios de cavaleiros andantes de tristes aventuras destas. Ao mais alto nível, chamam-se Bezos, Musk, Zuckerberg e apresentam-se à Humanidade como génios dos tempos modernos, donos e detentores de um poder nunca antes detido por ninguém: a tecnologia e o capital necessário para deles fazer depender quatro quintos do planeta. Uma vez por ano reúnem-se em Davos, rodeados pela sua corte de clientes (governantes), de promotores (académicos e jornalistas) e de bobos da corte (cantores e “animadores” variados). Quando as acções das suas empresas escalam na Bolsa, permitem-se dar algumas lições de visão económica e de gestão ao mundo basbaque; quando as coisas correm mal, por falta de visão ou excesso de vaidade, despedem aos 10 mil de cada vez e a vida segue.

Abaixo do top existem, é claro, muitos outros níveis e subníveis: os salteadores da ex-União Soviética, os príncipes árabes, os milionários do comunismo chinês, os vendedores de armas e os barões da droga sul-americanos. Depois de devidamente reciclados e branqueados, tudo gente respeitável. Alguns feitos Sir, outros membros da Légion d’Honneur, cavaleiros disto e daquilo, professores honorários e até um rei emérito.

Entre nós, no fim da escala, tudo se passa a um nível lusitanamente provinciano. Num país desesperadamente à procura de heróis, os Presidentes ocupam boa parte do seu ocioso tempo a carregar o peito dos nossos “empreendedores” com comendas a que o tempo se encarrega de tirar todo o lustre: boa parte dos comendadores já levou as empresas à falência ou já acabou a prestar contas à Justiça. Temos, por exemplo, o caso do comendador Joe Berardo, o homem que, entre outras, conseguiu a proeza de ver o Estado emprestar-lhe em exclusivo o único centro cultural decente do país para ele armazenar a sua colecção de pintura. Depois da sua inesquecível prestação numa comissão de inquérito parlamentar, fiquei agora a saber que o Ministério Público desconfia que o comendador terá obtido um atestado médico falso a certificar que tem “dificuldades cognitivas” que o impedem de se defender capazmente em tribunal. Francamente, não percebo porque é que ele precisará de um atestado falso para certificar uma coisa evidente para todos. Quem precisaria de um atestado desses são aqueles que tanta confiança lhe deram.

3 Uma boa anedota é a versão que os americanos puseram a correr sobre a autoria da sabotagem dos gasodutos Nord Stream I e II. Teria sido então um grupo de seis aventureiros e patriotas ucranianos que, à revelia e com o desconhecimento das autoridades de Kiev, embarcaram num simples veleiro e mergulharam depois a 100 metros de profundidade para colocar os explosivos nos gasodutos, em quatro lugares diferentes, zarpando em seguida à vela Báltico fora. A comissão que há meses é suposto estar a investigar o caso — e da qual, obviamente, foi excluída a Rússia, co-proprietária dos gasodutos — ficou em silêncio sobre esta revelação. E o pobre chanceler Scholz, o outro co-proprietário, e que em Dezembro de 2021 ouviu da boca de Biden que o Nord Stream II nunca entraria em funcionamento, resolveu acolher esta versão: ele que antes declarara que a sabotagem só podia ter sido obra de um Estado com meios para tal. No Direito Internacional e nos meios políticos e de informação ocidentais, aquilo que aconteceu com os gasodutos chama-se terrorismo. Mas, nos tempos que correm e de acordo com as novas regras, parece que isso depende de quem o faz e a quem o faz.

4 Um relatório da OCDE agora divulgado, na parte referente à agricultura e ambiente, diz que o Sul do país perdeu 20% das suas reservas aquíferas na última década e que a agricultura superintensiva, responsável pelo problema, está ainda a contribuir para a erosão dos solos e, a prazo, para deixar o Alentejo e o Algarve sem água. Nada que algumas pessoas com juízo e um mínimo de preocupação não andem há anos a dizer à ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes. Mas a ministra, a quem nunca ouvi uma frase que fosse sobre o futuro da agricultura em Portugal, está-se borrifando para a OCDE ou para a falta de água: o problema é complicado demais para a sua cabeça e a solução demasiado arriscada para o seu futuro político. Esta semana, aliás, ela deu-me mais uma prova da sua estonteante incompetência ao falar sobre a escalada de preços nos supermercados e não só. Disse a senhora que está tão atenta ao problema que, inspirando-se no que havia sido feito em Espanha, tinha tratado, logo em Outubro, de constituir um Observatório Alimentar, para, justamente, ir observando a evolução dos preços e, supõe-se, agir depois em caso de necessidade ou estranheza. Previdente, hem? Pois, o problema é que o Observatório da senhora ministra, criado no dia 19 de Outubro de 2022… nunca saiu do papel. Ou seja, à boa maneira deste Governo, existe mas não existe. E, enquanto não existe existindo, os preços alimentares por cá subiram num ano 20%, três vezes o valor da inflação. E a ministra não sabe dizer porquê: está à espera do Observatório para saber.

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Entretanto, para sentir na carne o preço dos legumes, resolvi meter-me no carro e ir a Espanha ver como se passavam as coisas por lá. De onde eu vivo até Ayamonte são 45 quilómetros, logo compensados pelo preço do gasóleo: 20 cêntimos a menos por litro, 12 euros de poupança por 60 litros. Depois fui ao Mercadona, cujo dono disse esta semana que não era possível fixar os preços administrativamente. Pois, talvez não, mas ele não vive em Portugal, apenas vende aqui e deve estar bem satisfeito com isso. No seu supermercado de Ayamonte, por um cabaz de compras que aqui me teria custado entre 90 a 100 euros, paguei lá 62. E, passe a publicidade, a qualidade e a apresentação está muito além daquilo que estamos habituados e ver aqui nos nossos supermercados, desprovidos de qualquer brio e imaginação. No meio de toda esta controvérsia, falta-me informação (e um Observatório) para poder dizer quem é o responsável principal pela escalada de preços na alimentação entre nós, mas desconfio que os produtores não são.

Além de tudo isto, há um mistério que me intriga: temos dos vencimentos mais baixos da Europa a par dos mais altos impostos sobre o trabalho, mas pagamos mais do que quase todos os outros pela habitação, automóveis, energia, comunicações e, agora, alimentação. Portugal pode ser pobre, mas para alguns é um excelente negócio.

P.S. — Já depois de escrito e enviado este texto, caiu a bomba da crise no Credit Suisse, o equivalente a uma declaração de incêndio numa central nuclear. Trata-se de um dos 50 maiores bancos do mundo e o segundo maior do supostamente inabalável sistema bancário suíço. Quando já nem os suíços conseguem controlar os seus bancos, o mundo está definitivamente um lugar perigoso. Para agravar ainda mais os sinais de alarme, a crise é desenca­deada pelo maior accionista do banco, o Fundo Soberano da Arábia Saudita — um país outrora também garantido para a esfera americana e ocidental mas que na semana passada fechou um acordo estratégico de cooperação com a China e o Irão. Completamente cega ao que se passa e se pensa fora do seu mundo de influência e de informação controlada, a Europa, a reboque dos Estados Unidos, continua engajada naquilo que um dos seus responsáveis chamou há dias entusiasticamente uma “economia de guerra”, para manter activo e eterno o conflito na Ucrânia, desprezando quaisquer iniciativas de paz como alternativa.

A pior geração de políticos europeus dos últimos 100 anos não consegue ver o que está diante dos seus olhos e, enquanto se compraz em declarações grandiloquentes, assiste à destruição sistemática da Ucrânia e arrasta-nos a todos para o abismo. A diferença entre Putin e eles é que Putin é perigoso porque é louco e inteligente e eles são perigosos porque são todos sãos mas idiotas.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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