Carter 1 – Biden 0

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 18/08/2023)

Embora com atraso, ainda é tempo de os europeus pensarem seriamente numa nova arquitetura de segurança na Europa, que integre e concilie os legítimos interesses securitários de todos os atores.


No ido ano de 1998, numa entrevista ao “Nouvel Observateur”, o antigo Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, explicava como a ajuda militar prestada aos mujahedin, em 1979, tinha levado à intervenção militar soviética no Afeganistão. Segundo Brzezinski, aquela teve o “efeito de atrair os russos para a armadilha afegã”. “Aumentámos [os EUA] a probabilidade de a URSS invadir o Afeganistão”.

Para tornar isso possível, os EUA conspiraram ativamente com a Arábia Saudita e o Paquistão, sustentaram a resistência afegã, dando-lhe dinheiro e armas, assim como aconselhamento técnico; desenvolveram, em concertação com os países islâmicos, campanhas de propaganda e de apoio. Tudo isto com a finalidade de desestabilizar a União Soviética, envolvendo-a num conflito interminável no Afeganistão.

No dia em que os soviéticos cruzaram oficialmente a fronteira afegã, Brzezinski escreveu ao presidente Carter dizendo-lhe: “Agora temos a oportunidade de dar à URSS a sua Guerra do Vietname”. O resultado dessa intervenção é conhecido. Moscovo travou um combate inglório durante quase 10 anos, que se saldou por uma derrota humilhante, contribuindo para o fim da União Soviética.

Algo semelhante está a acontecer na Ucrânia. O golpe de estado promovido por Washington, em 2014, liderado por Victoria Nuland teve por finalidade pôr fim à política externa ucraniana de neutralidade estratégica (Non Block Policy), iniciada pelo presidente Viktor Yanukovych, e voltar a abraçar uma política externa conducente à integração do país na NATO, na sequência do convite efetuado na Cimeira da Aliança em Bucareste (2008).

Durante os oito anos que se seguiram, os EUA formaram, equiparam e armaram as forças ucranianas com o intuito de as capacitar para derrotarem militarmente as repúblicas rebeldes de Donetsk e Lugansk e voltar a colocá-las sob a égide do Kiev. Como sabemos hoje, os acordos de Minsk não serviram o propósito de acomodar politicamente Kiev e as repúblicas autónomas, mas o de ganhar tempo para a Ucrânia se armar e resolver militarmente o problema.

Washington ensaiava mais uma tentativa de controlar um país com o qual a Rússia, do antecedente a União soviética, partilha fronteira, algo inadmissível para Moscovo. Por isso, não será de estranhar que as propostas avançadas pelo Kremlin no final de 2021 para baixar a tensão na Europa e resolver diplomaticamente a crise na Ucrânia através de um acordo de segurança tivessem sido liminarmente rejeitadas por Washington e Bruxelas.

Tal como o apoio norte-americano aos mujahedin no Afeganistão durante a Administração Carter foi decisivo para “atrair os russos [soviéticos] para a armadilha afegã”, também o apoio militar ao regime instaurado em Kiev em 2014 foi crucial para atrair os russos para a “armadilha ucraniana”. A grande concentração de forças ucranianas no Donbass, na segunda metade de fevereiro de 2022, denunciava uma ação iminente contra as forças rebeldes. Como em 1979, Washington antevia uma resposta de Moscovo e não fez nada para a impedir.

A impreparação russa para uma operação daquela envergadura na Ucrânia levou muitos analistas, incluindo eu, a não considerar provável aquilo que veio a acontecer. Os russos estavam preparados para enfrentar sanções, mas não contavam com o apoio do Ocidente nos moldes em que se veio a verificar.

Como dizia a RAND, num texto entretanto desaparecido da circulação, “as nossas [EUA] ações futuras neste país [Ucrânia] conduzirão inevitavelmente a uma resposta militar da Rússia”. Os russos não serão obviamente capazes de não responder à pressão militar ucraniana massiva sobre as não reconhecidas repúblicas do Donbass. Este cálculo estratégico mostrou-se correto. Para isso, contribui também o anúncio feito por Zelenski na Conferência de Munique, a 19 de fevereiro de 2022, da intenção de abandonar o Memorando de Budapeste (1994) deixando implícita a intenção de se rearmar nuclearmente. Dificilmente Moscovo poderia ficar indiferente.

Os objetivos de Washington com a guerra na Ucrânia foram formulados de diversos modos. O Secretário da Defesa Lloyd Austin afirmou que “os EUA querem a capacidade militar russa enfraquecida.” Na prática, pretendia-se infligir uma derrota estratégica a Moscovo, que numa versão maximalista poderia passar por uma de mudança de regime e instalar uma liderança dócil no Kremlin.

Embora o cálculo estratégico norte-americano fosse em ambos os casos muito semelhante e subordinado ao mesmo racional, não é claro que o plano de Biden na Ucrânia vá resultar como resultou o de Carter no Afeganistão. Não é óbvio que a tentativa de empurrar a Rússia para um pântano semelhante ao do Afeganistão esteja a atingir os objetivos pretendidos.

As analogias entre o caso afegão e ucraniano são muito interessantes. Tanto num caso como no outro, Washington socorreu-se de um proxy para atingir os seus objetivos estratégicos, sem ter de colocar soldados americanos no terreno, utilizando, assim, segundo Richard Haass e Andrzej Duda, um método barato.

Ao contrário dos mujahedin, os ucranianos não estão a conseguir prevalecer no campo de batalha. O anunciado objetivo de controlarem a Crimeia está longe de se concretizar. Uma operação de mudança de regime em Moscovo, sobretudo nos termos pretendidos por Washington, não passa de uma quimera.

Episódios como o ataque ao Capitólio ou marchas sobre Moscovo não passam de sobressaltos rocambolescos, que não colocam em causa o poder instalado. As sanções não estão a destruir a economia russa. Segundo o FMI, o PIB da Rússia contraiu 2,2% no ano passado (contra 3,4% esperado), e este ano, a organização espera que o PIB da Rússia suba 0,3% (contra queda de 2,3% esperada na previsão de outubro) e 2,1% em 2024.

Enquanto o plano gizado por Brzezinski contribuiu para criar as condições que levaram à derrota da União Soviética, e ao estabelecimento de uma Ordem unipolar, esta congeminação da RAND abraçada pelas Administrações Obama e Biden poderá não derrotar estrategicamente a Rússia e levar ao fim do momento unipolar e à afirmação de uma nova Ordem de cariz multipolar, cada vez com mais aderentes, nomeadamente, no designado “Sul Global”. A não materialização de um segundo Vietname russo poderá indiciar que a capacidade do Ocidente controlar o mundo se está a esvair.

A Europa insiste em não perceber o perigo do seu território se transformar num prolongamento do poderio militar norte-americana nas fronteiras da Rússia.

Seja na Ucrânia, na Geórgia, na Polónia ou na Roménia. Isso será sempre um fator de instabilidade. Embora com atraso, ainda é tempo de os europeus pensarem seriamente numa nova arquitetura de segurança na Europa, que integre e concilie os legítimos interesses securitários de todos os atores.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

De como as matilhas são outras

(Oxisdaquestao in Blog Oxisdaquestao, 19/08/2023)

A urbanização dos espaços agrícolas que rodeavam as cidades, os campos como dizíamos, fez desaparecer imagens de uma vida natural mesmo para os animais. Ainda recordo os grupos de cães que percorriam as ruas periféricas e limítrofes da zona rural e que em certas épocas do ano passavam o tempo a cheirar o rabo uns aos outros na tentativa de descobrirem uma fêmea com cio. (…)

Continuar a ler o artigo aqui


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXVIII

(Whale project, in Estátua de Sal, 18/08/2023)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Leonid Savin, ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, julgo, merece.

Estátua de Sal, 18/08/2023)


Claro, a Constituição dos Estados Unidos tinha tudo o que de mais progressivo havia na Europa, mantendo alguma coisinha muito pouco progressiva como a escravatura e o racismo mais cruel, que chegou a classificar as populações nativas como combatentes estrangeiros hostis, a serem varridos a todo o custo.

 E sim, os EUA foram povoados pelo melhorzinho dos europeus. Primeiro, por criminosos – tudo bem que a progressista Inglaterra não precisava de muito para considerar um pobre, que não tinha mais remédio que roubar nem que fosse pão, ou um trabalhador revoltoso, um perigoso criminoso a merecer ser pendurado na ponta de uma corda ou, em alternativa, mandado para lá do sol-posto, onde havia terras para desbravar e populações nativas para matar. Na América foram aqueles a que a besta do Cristóvão Colombo chamou índios por pensar que tinha chegado à Índia, na Austrália os aborígenes, também bestas selvagens a exterminar.

Chegaram lá também um bom número de fanáticos religiosos, como os puritanos, ou anabatistas e outros que a Europa já tinha pelos cabelos. Depois, entre as vagas de deserdados da Europa que para lá foram, também foi muito camelo. Como o avô do Trump, deportado para a Alemanha por explorar casas de putas na rota das corridas ao ouro e novamente mandado pela sua própria terra de volta para os EUA. Tal era a rica encomenda. E a exportação de mafiosos italianos e outros está bem documentada. Quem tinha a polícia à perna era arranjar lugar numa Barquinha.

De toda esta caldeirada do pior que a Europa tinha, despejada numa terra de grandes recursos naturais – e com vizinhos a Sul prontos a explorar -, se fez uma nação que é hoje uma verdadeira praga para o mundo, onde meteram nos cornos que são a única nação imprescindível e que devem dominar todos os outros não importa se metade da população mundial tiver de morrer no processo.

Porque é que, a Europa embarca nisto? Porque aqui também estão as tais elites corruptas que a nível de desprezar os seus próprios povos não fica a dever grande coisa às elites africanas. Outros acham boa ideia tentar acabar o que o Hitler começou e acham que a América pode ajudar.

E, claro, outros ainda não esquecem o Aldo Moro, encontrado na bagageira de um carro com um tiro na cabeça, alegadamente morto por umas tais Brigadas Vermelhas que mais tarde se soube terem sido a fachada de um bom número de ataques de falsa bandeira. Como também não esquecem o Olof Palme, abatido em plena rua como um cão, com arma de caça grossa, nem o sangue do desgraçado sobre a neve. Por isso vale mais fazer-lhes o frete e termos a certeza que não nos acontece nada, não temos um acidente estranho.

Claro que qualquer destas atitudes é rasteira. Os racistas e fascistas estão a cometer um crime porque racismo é crime. Os corruptos deviam estar na cadeia. E os medrosos deviam comprar um cão preto, tipo cão de água algarvio, que dizem que é bom para o medo.

Sim, os nossos políticos, por um motivo ou outro puseram-nos a todos coleira e trela, andamos atrás de uma cambada de criminosos que destroem a Europa sem sujar as botas e nem protegem a sua própria gente como as vítimas de catástrofes naturais aprendem à sua custa.

 E por cá ainda há quem idolatre a tal nação excecional e na realidade genocida e rapinante. Tivessem-lhe as vacinas do Covid corrido mal que eles logo endeusavam quem terceirizou a produção de um verdadeiro veneno ganhando milhões; primeiro com a venda do meimendro, depois com o tratamento dos sequelados. E continuam a tentar convencer a gente a ir tomar aquilo e ninguém os leva presos. Vão tomar vacinas vão, que agora até já podem ir à farmácia.

Podiam estas criaturas, que não acordam, ao menos deixar de insultar os outros e ir ver se o mar dá choco.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.