Montenegro e o corte das pensões: como rescrever a história

(Daniel Oliveira, in Expresso, 19/02/2024)

Daniel Oliveira

Montenegro sabe que mente quando diz que o único governo que cortou pensões foi do PS e que Passos salvaguardou as pensões mais baixas. É verdade que Sócrates foi o primeiro a cortar pensões e que havia mais cortes inscritos no memorando. É mentira que Passos não tenha introduzido novos cortes e em escalões de rendimentos muito mais baixos. Como podem testemunhar centenas de milhares de pessoas.


Vencedor do óscar de melhor documentário de 2011, Inside Job fala-nos da corrupção moral, política e económica que nos levou à crise financeira de 2008. Especialistas universitários revelaram-se uma peça chave na construção de um modelo de desregulação bancária que nos trouxe gigantes financeiros “demasiado grandes para deixar falir”. Tão ou mais importante do que o caminho ideológico que foi traçado até ao crash bolsista, foi o movimento seguinte, reescrevendo a história da maior crise financeira do século. Três anos depois, o narrador finaliza o documentário antecipando que as vítimas passariam a ser os culpados e os responsáveis sairiam incólumes. Assim aconteceu.

Com o estimável auxilio de um sem número de académicos, os mais importantes dos quais com números martelados e comprovadamente falsos, os anos seguintes foram o da culpabilização dos Estados pelo despesismo social (com que tentaram minar as consequências devastadoras da crise financeira na economia). Do crash da banca passámos à crise das dívidas, da crise das dívidas ao despesismo do Estado e daí para o moralismo sobre os povos do sul da Europa, que “viviam acima das suas possibilidades” e gastavam o dinheiro “em vinho e mulheres”.

A história é escrita pelos vencedores e, com a máquina ideológica permitida por um mundo académico ligado ao sector financeiro e um exército de comentadores que defendem o status quo económico, tem sido possível ir reescrevendo a história das crises financeiras e económicas.

Mas há limites e um está a ser repetidamente atravessado por Luís Montenegro. Por duas vezes, uma no debate com o líder do PCP, outra na apresentação do programa eleitoral da AD, afirmou que “nos últimos anos, o único partido e único governo que cortou pensões em Portugal foi o do Partido Socialista”. No debate com Paulo Raimundo precisou o seu ponto, garantindo que, no governo de Passos Coelho, o “corte que houve e que salvaguardou todas as pensões mais baixas foi inscrito no memorando de entendimento negociado pelo PS”.

É verdade que Sócrates foi o primeiro a cortar as pensões. É verdade que havia mais cortes inscritos no memorando de entendimento. É mentira que Passos Coelho não tenha introduzido novos cortes, e em escalões de rendimentos muito mais baixos. Como a memória parece faltar aos que não estão entre as centenas de milhares de visados que ainda se lembram do que lhes aconteceu, vale a pena recapitular, com a ajuda de dois excelentes trabalhos jornalísticos do Público e Observador.

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O Orçamento do Estado para 2011, na aproximação acelerada para a troika que foram os sucessivos PEC, estabelecia uma Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), que cortava 10% do valor acima de 5000 euros às pensões mais elevadas. Congelava ainda a atualização de todas as pensões do regime geral e da Caixa Geral de Aposentações. Apenas quatro meses depois, no memorando assinado com a troika, ficou estipulado que o corte de pensões devia acompanhar o efetuado aos funcionários públicos, reduzindo o valor das pensões acima de 1500 euros por mês. Uma negociação, já agora, que a direita se vangloriou de “ser essencialmente influenciada pelo PSD”.

Se no primeiro ano de mandato, Passos Coelho descongelou as atualizações das pensões mínimas, no segundo tudo mudou. A CES passou a representar um corte de 25% no montante que excede os 5030,64 euros e 50% na parcela acima de 7545,96 euros. Mas, acima de tudo, em junho desse ano, cortou-se o pagamento do subsídio de férias e de Natal a todos os que recebiam pensões acima de 1100 euros, reduzindo-se estes subsídios a quem recebia entre os 600 e os 1100 euros.

Em 2012, os juízes do Tribunal Constitucional chumbam os cortes, mas permitiram que estes se mantivessem até ao fim desse ano. O acórdão é bem claro: “A cumulação das medidas da Lei do OE 2011, que são mantidas, com aquelas que são objeto das normas a que se reporta o presente requerimento, leva a que uma parte das pessoas atingidas possa perder até cerca de 1/4 dos montantes anuais das suas retribuições e das pensões ou reformas, e isto pelo menos em dois anos consecutivos, em contraste com o máximo de 10% que o Tribunal Constitucional estimou no Acórdão; em todos os casos, o valor total agora retirado a cada um dos atingidos representa, no mínimo, um múltiplo do que acontecia no OE anterior”.

Nada que demovesse a fúria restritiva do Governo que, no ano seguinte, defendeu o alargamento da Contribuição Especial de Solidariedade para pensões acima de 1350 euros, com um corte entre 3,5% e 10%. Repare-se que o que era uma contribuição para pensões acima de 5000 euros, no Governo Sócrates e no memorando, passou a abranger pessoas que recebiam quase quatro vezes menos. Não satisfeitos, PSD e CDS resolveram reformular os cortes dos subsídios de férias e de Natal chumbados pelo TC, dirigindo-os agora “a quem recebe pensões de valor superior a 1100 euros, que tem uma suspensão de 90% do subsídio de férias, e quem recebe entre 600 e 1100 euros também é afectado por um corte nesta prestação”. Estes novos cortes também foram chumbados pelo Tribunal Constitucional que, desta vez, obrigou o Governo a devolvê-los.

Atalhando, que a listagem de cortes e tentativa de diminuição das reformas é quase interminável, em 2013 o Governo tentou negociar com os sindicatos a convergência das pensões da Caixa Geral de Aposentações com a Segurança Social. A principal consequência, que tentou aplicar, era o corte de 10% de todas as pensões da função pública acima de 600 euros ilíquidos. Uma medida estrutural, inscrita definitivamente, e que não se encontrava circunscrita ao período de assistência internacional. Mais uma medida recusada pelo Tribunal Constitucional, considerando que se tratava de uma proposta que “visava apenas a consolidação do lado da despesa”.

Chegamos a 2014 e, com mais um ano, PSD e CDS tentam agora cortar as pensões de sobrevivência do setor público e privado para quem recebia mais de 2000 euros, numa poupança orçamental de 100 milhões de euros, pretensão novamente recusada pelo Tribunal Constitucional. Para compensar o valor negado pelo TC, ao chumbar o corte de 10% nas pensões da função pública, a CES foi mais uma vez reformulada, passando a abranger pensões acima de 1000 euros (recorde-se mais uma vez, que, no memorando, eram apenas acima de 5000 euros).

Nesse mesmo ano, já fora do período de emergência da troika, Passos Coelho revela a sua “solução duradoura” para as pensões, defendendo a criação de uma “contribuição de solidariedade (que substituirá a CES) que corta entre 2% e 3,5% nas pensões acima de 1000 euros, e pelo aumento da taxa normal do IVA (23% para 23,25%) e dos descontos dos trabalhadores para a Segurança Social (de 11% para 11,2%). Esta medida, atente-se, nada a tem a ver com o memorando, ou com a troika, ou com qualquer período de emergência. Era a visão de Passos Coelho e Paulo Portas para o futuro da Segurança Social e para garantir, diziam, a sua sustentabilidade.

A passos largos para as eleições, o Governo desiste de novas mexidas nas reformas até ter um entendimento com o PS, mas ainda vai a tempo de inscrever, em abril de 2015, uma poupança de 600 milhões de euros com a reforma dos sistemas de pensões a partir do ano seguinte.

Luís Montenegro foi líder parlamentar do PSD durante estes anos. Todos estes documentos passaram pela sua secretária e a sua aprovação dependeu do sentido de voto por si decidido. Sabe que mente. E o que aconteceu, como se vê, é simples. O Governo Passos Coelho pegou em cortes extraordinários em pensões acima de 5000 euros e foi descendo por ali abaixo até a contribuição solidária se aplicar a quem ganhava pensões de 1000 euros. O mesmo acontecendo nos cortes aos pensionistas, originalmente pensados para quem recebia mais de 1500 euros, e que tentaram abranger quem não levava mais de 600 euros para casa. Com o efeito cumulativo dos cortes e subsídios de férias e Natal, como lembrou o TC, algumas dessas pessoas perderam 25% do seu rendimento.

Montenegro sabe que mente, mas percebe o dano eleitoral que estas medidas implicaram junto do eleitorado mais velho. Confia no efeito anestesiador do plano inclinado do comentário político e televisivo. Apesar da falsidade descarada, que centenas de milhares de pessoas podem testemunhar, haverá sempre quem defenda a sua mentira se ela for repetida muitas vezes com convicção, até se tornar verdade. Esperemos que não a tente repetir no debate de hoje.


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Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte V e última

(José Catarino Soares, 21/02/2024)

8 de Novembro de 2022. Num gesto cheio de ironia involuntária, o excelente Sean Penn oferece um dos seus dois Óscares ao melhor actor desse ano…  

9. Cinco conclusões

Da reconstrução pormenorizada que aqui foi feita (ver 1.ª, 2.ª, 3.ª, 4.ª partes deste artigo) dos esforços feitos (com êxito) pela Rússia e pela Ucrânia, em Março-Abril de 2022, para chegar a um acordo de paz, e dos esforços feitos (ainda com maior êxito) pelos seus inimigos para torpedearem esse acordo e continuarem a guerra, emergem cinco conclusões:

1)  Apenas um mês após o início da intervenção militar russa na Ucrânia, os negociadores ucranianos e russos ‒ incluindo Zelensky e Putin em primeiro lugar ‒ tinham chegado a um acordo para um cessar-fogo e para uma solução de paz abrangente para o conflito.

2) Ao contrário do que aconteceu posteriormente e ao contrário do que acontece actualmente, o Presidente Zelensky e o seu governo fizeram, durante esse curto período, grandes esforços para negociar a paz com a Rússia e pôr rapidamente termo à guerra.

3) Contrariamente às interpretações ocidentais dominantes, a Ucrânia e a Rússia concordaram, na altura, que a expansão planeada e constante da OTAN (/NATO) em direcção às fronteiras da Rússia era uma das duas causas da guerra (a outra era o estatuto jurídico-político das Repúblicas Populares da Donbass [RPD e RPL] e da República da Crimeia) e também a mais fácil de remover. Por conseguinte, centraram as suas negociações de paz na neutralidade da Ucrânia e na sua renúncia à adesão à OTAN.

4) Não subsistem quaisquer dúvidas de que estas negociações de paz falharam devido à oposição dos EUA, do Reino Unido e dos Estados-membros mais poderosos da UE (Alemanha e França) [18]; os quais, por sua vez, garantiram a concordância dos outros membros da OTAN. A única excepção foi a Turquia, que, porém, nestas questões de geopolítica, joga quase sempre com um pau de dois bicos. A razão para tal oposição é que um tal acordo de paz teria sido equivalente a um revés para os EUA, ao fim da expansão da OTAN para o Leste da Europa e, por conseguinte, à derrocada mais acelerada da “ordem internacional baseada em regras” — uma ordem internacional unipolar, cujas regras são estabelecidas, violadas, anuladas ou restabelecidas unilateralmente pelos EUA, consoante os seus interesses e as suas conveniências de grande potência, e a sua avaliação das circunstâncias em cada conjuntura.

5) O acordo de Istambuldeita completamente por terra a narrativa oficial do “Ocidente alargado” sobre o “expansionismo russo”, a “ameaça territorial russa”, a “ambição de Putin de alargar as fronteiras da Rússia às fronteiras da ex-União soviética” ou, inclusive, até “às fronteiras dos países europeus que foram outrora membros do Pacto de Varsóvia”, reduzindo-a ao que é: uma série de chavões cretinizantes destinados a persuadir a opinião pública da bondade do desígnio que o director da CIA, William Burns, explicou tão cruamente na “Foreign Affairs” (cf. a parte IV deste artigo).  

10. Consequências e implicações

Por comodidade de exposição, vou numerar as consequências (abreviadas para Con) e as implicações (abreviadas para Im) do malogro das negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia que tiveram lugar em Istambul em Março-Abril de 2022.

Con1) O malogro da negociações de Istambul conduziu a uma perigosa intensificação da guerra que contém o risco de escalar para o patamar da guerra nuclear (com tudo o que isso implicaria inevitavelmente: o dobre a finados para a humanidade); que custou já a vida a dezenas de milhares de soldados russos e a centenas de milhares de soldados ucranianos, especialmente jovens, e que traumatizou profundamente todas as gerações de ucranianos, infligindo-lhes graves feridas e múltiplos transtornos sociais e mentais.

Con2) A Ucrânia foi exposta a uma enorme destruição material, a grandes deslocações populacionais internas (3,7 milhões de pessoas), ao empobrecimento abrupto de grande parte da população e à saída em massa de outra parte (6,8 milhões de pessoas), sobretudo de mulheres e crianças que se refugiaram noutros países europeus, incluindo a Rússia. Esta situação é acompanhada por um despovoamento em grande escala no Norte, Oeste e Centro do país, que prolonga e acentua uma tendência demográfica que já vinha de trás.

Im1) Para as elites dirigentes dos EUA e do “Ocidente alargado” (um eufemismo caro a Zbigniew Brzezinsky para denominar os EUA e os seu aliados-clientes na América do Norte, Europa, Ásia e Australásia), a Rússia e o seu presidente Putin (ou a Rússia de Putin) são os principais ou únicos responsáveis por esta catástrofe humana [19]. Mas isso não é verdade. A maior quota-parte de responsabilidade divide-se, em partes iguais, pelo “Ocidente alargado” (em particular, o seu chefe incontestado e o seu vértice institucional: os EUA) e pelo regime ucraniano (parlamento, governo, Conselho Nacional de Segurança e Defesa, ministério público, tribunais) e, em particular, o seu vértice institucional: o Presidente Zelensky.

Analisei pormenorizadamente noutro lugar [20] a responsabilidade que cabe ao “Ocidente alargado”, e completei-a com a análise feita nas quatro partes anteriores deste artigo, que trouxeram novos factos à colação. Por isso, não é necessário voltar ao assunto. A responsabilidade ucraniana desdobra-se em duas componentes: (x) o regime ucraniano e (y) Zelensky, o seu vértice institucional. Examinemo-las uma por uma.  

(x) Foi o regime ucraniano em bloco, e não apenas Zelensky, quem apoiou e aplicou a política de guerra contra a Rússia “até ao último soldado ucraniano” que Boris Johnson veio anunciar na sua visita-surpresa a Kiev em 9 de Abril de 2023 como sendo a única consentânea com a defesa dos “valores ocidentais”. Foi também o regime ucraniano no seu todo, e não apenas Zelensky, que potenciou o elevado número de baixas civis sofridas pela Ucrânia (7.967 mortos e 15.294 feridos até 31 de Dezembro de 2023, segundo o Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários) ao aprovar a política dita de “defesa total”. Esta política aboliu a distinção basilar do Direito Internacional Humanitário ou jus in bello (vulgo, as “leis da guerra”) entre combatentes e civis e transformou os civis ucranianos das cidades e outros aglomerados urbanos em escudos humanos das tropas e das instalações militares ucranianas.

(y) Quanto à responsabilidade específica do presidente Zelensky, começo por dar a palavra a Michael Von Der Schulenberg, ex-Secretário-Geral Adjunto da ONU, para um juízo bem menos severo do que o meu:

«O Presidente Zelensky esforçou-se muito por encontrar uma solução rápida e pacífica para a guerra que tinha rebentado. Pediu ao Primeiro-Ministro israelita Bennett para mediar com a Rússia e foi ele que aprovou as negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia. Em 27 de Março de 2022, Zelensky teve a coragem de defender publicamente os resultados das negociações de paz ucraniano-russas perante jornalistas russos, apesar de a OTAN já ter decidido, numa cimeira especial realizada em 24 de Março de 2022, não apoiar essas negociações de paz. Em última análise, Zelensky cedeu à pressão da OTAN e decidiu continuar a guerra» [21].

Im2) Julgo que não seria justo encerrar a avaliação de Zelensky neste ponto. Zelensky não se limitou a capitular perante as exigências belicistas dos EUA, do Reino Unido, da Alemanha e da França e a capitular pelos motivos mais mesquinhos — procurar enfraquecer a Rússia militar e economicamente à custa das vidas e do bem-estar de milhões de ucranianos. Depois de ter capitulado, Zelensky mudou completamente o seu comportamento e o seu discurso. De pacifista convicto passou, num abrir e fechar de olhos, a belicista convicto. Recorrendo aos seus dotes histriónicos de comediante traquejado, criou uma nova personagem condizente com os imperativos decorrentes da mensagem que Boris Johnson lhe veio transmitir. Nascia assim a personagem do intransigente guerreiro patriota, empenhado em destruir pela força das armas as Repúblicas secessionistas da Donbass (cujos habitantes foram de novo apelidados de “terroristas pró-russos” para poderem ser mortos extrajudicialmente ou perseguidos judicialmente como tal), em conquistar a Crimeia à Rússia e em cobrar aos seus compatriotas do Norte, Centro e Oeste da Ucrânia o preço de sangue e os sofrimentos necessários para cumprir esse alucinante desiderato.  

Con3) Foi este novo Zelensky, vestido de verde-azeitona e acrescido de uma barba, que o “Ocidente alargado” e o seu sistema mediático de comunicação social acolheram com entusiasmo e puseram nos píncaros da lua, apresentando-o como um novo Churchill. Os parlamentos da Europa, dos EUA e do Canadá convidaram-no a vir discursar e aplaudiram-no de pé em cada discurso, apesar de ele ter proibido onze (11) partidos políticos no seu país, entre quais dois partidos ‒ Plataforma de Oposição: pela Vida e Bloco da Oposição ‒ que dispunham de grupos parlamentares constituídos por 43 e 6 deputados, respectivamente.

Con4) O sistema mediático dominante de comunicação social do “Ocidente alargado” continuou a aplaudi-lo mesmo depois de ele ter dado palco a dois neonazis do regimento Azove (como sucedeu quando discursou por teleconferência perante o parlamento grego), e de ter aplaudido de pé um sobrevivente ucraniano da Divisão Waffen SS-Galicia (como sucedeu quando se deslocou ao parlamento canadiano). E continuou a ser aplaudido e incensado mesmo depois de ter incentivado a feitura e promulgado leis restritivas da liberdade de culto dos crentes e de perseguição da actividade religiosa dos clérigos da Igreja Ortodoxa Ucraniana ‒ um ramo autónomo do Patriarcado de Moscovo desde 1657‒ que é a religião maioritária entre os ucranianos. Chegou mesmo ao cúmulo, imagine-se, de promulgar legislação destinada a criar uma “Igreja Ortodoxa Ucraniana-bis” que esteja organicamente vinculada ao Estado ucraniano, que se declare adepta do nacionalismo banderista e que se preste a obedecer e reverenciar os seus dignitários. Para encontrarmos precedentes na Europa, temos de recuar até à “Deutsche Evangelische Kirche” (1933-1945) da Alemanha nazi, e, em seguida, até ao rei Henrique VIII (1509-1547) da Inglaterra e Irlanda, fundador e chefe supremo da Igreja Anglicana (uma cisão da Igreja Católica Apostólica Romana).

Con5) Estes feitos de Zelensky granjearam-lhe não só apoios, aplausos e elogios, mas também galardões.O jornal britânico Financial Times elegeu-o como «Pessoa do Ano [2022]» por «se ter tornado o porta-estandarte da democracia liberal» (!!). A revista semanal americana Time elegeu-o também como «Pessoa do Ano [2022]» — um galardão atribuído, diz a Time, «à pessoa que mais influenciou os acontecimentos dos últimos 12 meses, para o bem ou para o mal…». Em Portugal, o jornal Diário de Notícias, a estação pública de televisão RTP-1 e a revista Visão escolheram-no também como a «Figura Internacional do Ano». O presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, deslocou-se a Kiev para o condecorar com a “Ordem da Liberdade” — a “Ordem da Liberdade” para um liberticida patenteado!

Con6) Para agradecer o êxito extraordinário alcançado com esta sua nova personagem e mostrar-se digno da confiança em si depositada pelos seus admiradores, Zelensky chegou ao ponto de promulgar, em 4 de Outubro de 2022, um decreto proibindo (a si próprio) quaisquer negociações com a Rússia enquanto Putin estiver no poder! É caso para dizer que nesta espantosa decisão a fanfarronice pede meças à estupidez.

Con7) A posição negocial da Ucrânia é hoje muitíssimo pior do que era em Março de 2022. Segundo analistas militares muito argutos, cultos e competentes [22], a Ucrânia não tem qualquer hipótese de vencer a guerra. As suas Forças Armadas estão muito depauperadas. A sua base de recrutamento militar exauriu-se. A economia da Ucrânia está de rastos e as finanças do seu Estado totalmente dependentes da ajuda externa. A corrupção é endémica, inclusive no Ministério da Defesa e nas empresas do complexo militar-industrial. A superioridade militar da Rússia (e a robustez industrial, financeira e comercial que a sustenta) relativamente à Ucrânia é muito grande e insuperável, mesmo com a ajuda maciça que lhe tem sido fornecida pelos EUA, Reino Unido, OTAN, UE e o resto do “Ocidente alargado”, agora em decréscimo.

Im3) Assim sendo, a permanência da RPD e da RPL ‒ assim como de outros oblasti russófonos e russófilos (como os de Zaporójia e Quérson) ‒ no âmbito da Ucrânia, mediante um estatuto autonómico semelhante ao do Tirol do Sul ou outro do mesmo género (que era uma solução muito possível em Março de 2022), está agora definitivamente posta de lado pela Rússia. A desmilitarização da Ucrânia (que tinha sido abandonada pela Rússia em 4 de Março de 2022, no encontro de Bennett com Putin), voltou a ser um objectivo importante da Rússia. A sua concretização poderá, inclusive ‒ anunciou Putin em 31 de Janeiro de 2024 ‒ passar pela criação de uma zona-tampão em torno dos oblasti que foram incorporados na Federação Russa, de forma a pôr a sua população ao abrigo de armas de longo alcance que a Ucrânia venha a receber — como, por exemplo, as bombas-foguetes GLSDB (Ground Launched Small Diameter Bomb) que lhe foram prometidas pelos EUA e que têm um alcance de 150km.

Con8) O malogro das negociações de paz de Março-Abril de 2022 prejudicou gravemente muita gente e muitos países: a Rússia (impelida a travar uma guerra que não desejava, cujo início procurou evitar [23] e cuja continuação procurou interromper quanto antes, como vimos); os países e povos da Europa (a braços com os efeitos boomerang muito negativos das sanções económicas impostas à Rússia pelo “Ocidente alargado”) e, sobretudo, o povo da Ucrânia, que está a pagar com o seu sangue e incontáveis agruras o preço exorbitante da pusilanimidade e subserviência da sua oligarquia dirigente e das vis ambições de supremacia geopolítica e coerção económica dos EUA, secundado pelos seus aliados-clientes da OTAN e da UE.

Im4) Não é arriscar muito vaticinar que a Ucrânia que vier a sair das ruínas da guerra em curso, se ela se prolongar durante mais um ano, será um “Estado falhado” — ainda mais falhado do que a Ucrânia que saiu da implosão da União Soviética. A sua prometida integração na União Europeia é uma miragem, não uma passagem para outra paisagem.

Im5) A única solução que poderá evitar esse desfecho é um cessar-fogo imediato e o regresso imediato à mesa das negociações com base na plataforma acordada, em 5 de Março de 2022, por intermédio de Bennett, entre Zelensky e Putin:

― a Ucrânia renuncia ao objectivo de adesão à OTAN e ao fabrico e/ou instalação de armas nucleares no seu território; proíbe o estabelecimento de bases militares e/ou tropas estrangeiras no seu território e adopta um estatuto de neutralidade militar permanente semelhante aquele que vigora na Áustria ou na Suíça;

― a Rússia renuncia ao objectivo de desmilitarização da Ucrânia pela via (autofágica para ambos os beligerantes) da continuação da guerra.


Notas e Referências

[18] Sabemos que só estes dois Estados da UE é que estavam no segredo dos deuses porque são eles os únicos que constam do excelente e muito informativo memorando que o general Harald Kujat e o professor Hajo Funke escreveram sobre o processo negocial russo-ucraniano de Março-Abril de 2022. Estes autores descrevem, a páginas tantas, a sequência dos telefonemas e reuniões de alto nível que ocorreram sobre este assunto «durante o período compreendido entre o início de Março e, pelo menos, meados de Março. Em 4 de Março, Scholz e Putin falaram ao telefone; em 5 de Março, Bennett encontrou-se com Putin em Moscovo; em 6 de Março, Bennett e Scholz encontraram-se em Berlim; em 7 de Março, os Estados Unidos, o Reino Unido, França e Alemanha discutiram a questão numa videoconferência; em 8 de Março, Macron e Scholz falaram ao telefone; em 10 de Março, o Ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano Kuleba e o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo Lavrov reuniram-se em Ancara; em 12 de Março, Scholz e Zelensky e Scholz e Macron falaram ao telefone; e a 14 de Março, Scholz e Erdogan encontraram-se em Ancara. (Cf. Petra Erler Re: Review March 2022: Who did not want a quick end to the war in Ukraine, in: “News of a Lighthouse Keeper,” Sept. 1, 2023) » (Michael von der Schulenburg, Hajo Funke, Harald Kujat, “Peace for Ukraine.” Brave New Europe, November 10, 2023).

[19] É sabido que a elite dirigente dos EUA elegeu a Rússia como o seu arqui-inimigo (e Putin como a sua Némesis) a partir do momento em que se convenceu definitivamente que não poderia continuar a metê-la no bolso, como tinha sido capaz de o fazer durante o consulado de Boris Ieltsin. A viragem para essa nova orientação estratégica perante a Rússia ocorreu depois do famoso discurso que o presidente russo, Vladimir Putin, proferiu na Alemanha, em 10 de Fevereiro de 2007, na Conferência de Segurança de Munique. Nesse discurso, Putin denunciou o que chamou de “domínio unipolar dos Estados Unidos” nas relações internacionais e o seu «hiperuso quase incontido da força ‒ a força militar ‒nas relações internacionais, uma força que está a mergulhar o mundo num abismo de conflitos permanentes». E afirmou que, como resultado de tal domínio unipolar e da expansão da OTAN para o leste da Europa, «ninguém se sente seguro! Porque ninguém pode sentir que o direito internacional é como um muro de pedra que os protegerá. É claro que tal política estimula uma corrida armamentista». Como Putin continua a ser presidente da Rússia quase 17 anos depois, o seu nome tornou-se sinónimo de tudo o que a oligarquia dirigente dos EUA encara como um execrável e inaceitável desafio às suas pretensões de chefe supremo da ordem internacional. Daí a sua demonização pelo sistema mediático dominante da comunicação social do “Ocidente alargado” e a russofobia cretinizante que grassa em tantos países desse mesmo “Ocidente”.  

[20] José Catarino Soares, Dissipando a Névoa Artificial da Guerra: um roteiro para o fim das guerras na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal (Editora Primeiro Capítulo, Julho 2023).

[21] Michael Von Der Schulenburg, “UN Charter: Negotiations!”. Emma, March 4, 2022.

[22] Refiro-me, nomeadamente, aos seguintes analistas militares: generais Raul Cunha, Carlos Branco, Agostinho Costa (Portugal); coronel Jacques Baud (Suíça); coronel Hervé Carresse, general Olivier Kempf (França); coronel Doug McGregor, major Scott Ritter, Simplicius The Thinker (EUA); comandante Robinson Farinazzo (Brasil).

[23] Sobre este assunto ver as secções 9.1 e 9.2 do meu livro Dissipando a Névoa Artificial da Guerra.

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As lágrimas de crocodilo dos dignitários do “Ocidente alargado” por Alexei Navalny

(José Catarino Soares, in Tertúlia Orwelliana, 18/02/2024)

Alexei Navalny. Foto extraída do primeiro vídeo indicado mais abaixo

1. As reacções à morte de Alexei Navalny

As reacções à morte de Alexei Navalny dos altos dignitários do chamado “Ocidente alargado” foram unânimes. Joe Biden, Antony Blinken, Kamala Harris, Olaf Scholtz, Rishi Sunak, Emmanuel Macron, Ursula von der Leyen, Charles Michel, Josep Borrell, Roberta Metsola, Jens Stoltenberg, Hillary Clinton, etc., todos lamentaram a morte do “grande paladino da liberdade e da democracia na Rússia” e  “grande opositor de Putin”. E todos apontaram o dedo a Putin porque ‒ como disseram Biden e Zelensky, esses conhecidos poços de virtudes ‒ “é óbvio” que foi Putin quem o mandou matar.

2. A lógica e os factos

Esta gente não se enxerga. Para eles a lógica é uma redonda batata e o respeito pelos factos uma gargalhada. Contam, como sempre, com a credulidade e a ignorância do grande público. Se não vejamos.

Navalny estava a cumprir 19 anos de prisão numa colónia penal no Árctico por várias acusações, incluindo reabilitação do nazismo e atracção de menores de idade para participar em acções perigosas.

Deixemos de lado, por agora, a questão (importante) de saber se essas acusações eram justas ou injustas. Concentremo-nos numa única questão: “Cui bono?” Que ganharia Putin em mandá-lo matar na prisão, eliminando assim o assustador aviso que a longa pena de prisão e a dura condição prisional de Navalny (no Árctico a temperatura média no Inverno pode baixar até aos -40.° C) constituíam para todos quantos o quisessem imitar?

Não parece mais plausível aceitar o que declarou o Serviço Penitenciário Federal russo? Cito: «Navalny sentiu-se mal depois de uma caminhada, perdendo quase imediatamente a consciência». Momentos depois, foi chamada uma ambulância e «todas as medidas de reanimação necessárias foram realizadas, mas não tiveram resultados positivos». Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, garantiu que a morte será investigada, em declarações citadas pela Reuters. Deixemos, então, esse ponto para os médicos-legistas e façamos a pergunta fundamental.

3. Quem era Navalny?

Quem era realmente Navalny? Quem queira saber a resposta a esta pergunta tem à sua disposição o excelente livro do coronel Jacques Baud (ex-agente dos Serviços Secretos suíços): “L’affaire Navalny: le complotisme au service de la politique étrangère” (Éditions Max Milo, Julho de 2021) [tradução inglesa: The Navalny case: conspiracy to serve foreign policy [Max Milo Editions, February 10, 2023].

O livro baseia-se em documentos oficiais americanos, britânicos, russos, franceses e alemães para mostrar, por a+b, que Navalny era um advogado corrupto e sem escrúpulos, de ideologia neonazi, que a CIA aliciou ‒ pelo menos a partir de 2010 ‒ para ser o seu cavalo de corrida na Rússia.

Mas não é preciso sequer ler Jacques Baud, para chegar à conclusão que Navalny era tudo menos “o mais acérrimo defensor da democracia russa” (Rishi Sunak) ou um “resistente” [à opressão] (Daniel Oliveira, um jornalista português). Basta ver, por exemplo, os dois vídeos indicados mais abaixo que evocam os seus tempos de confesso entusiasta neonazi, numa época em que não tinha qualquer pejo em incitar os seus simpatizantes a matarem os imigrantes e compatriotas muçulmanos (os chechenos, por exemplo, são muçulmanos) com uma pistola e a esmagá-los como baratas. 

Não admira, pois, que as mesmas carpideiras que choram Navalny não tenham vertido nenhuma lágrima pelo cidadão e jornalista  americano Gonzalo Lira, que morreu há poucas semanas numa prisão ucraniana aonde foi parar sem ter cometido qualquer crime e onde permaneceu sem qualquer julgamento até morrer; nem vertam nenhuma lágrima  pelo cidadão e jornalista australiano Julian Assange, que está há quase cinco anos a apodrecer numa prisão britânica por ter denunciado crimes de guerra cometidos por tropas americanas no Iraque.

Vídeo abaixo com legendas em francês:

Outro vídeo com legendas em inglês:

Adenda.

 Não foi apenas a CIA que investiu em Navalny. O MI6 também o fez.

«Há muito tempo que há suspeitas que a ONG [Organização Não-Governamental] de Navalny, a Fundação Anti-Corrupção (FAC), trabalha para os serviços secretos britânicos. O diplomata britânico James Ford, que o FSB [o Serviço de Segurança Federal da Rússia] afirma ser um agente do MI6 [serviços secretos do Reino Unido], foi apanhado numa escuta-vídeo com Vladimir Ashurkov, o braço direito de Navalny e director-executivo da FAC, em que este lhe pedia 10 ou 20 milhões de dólares americanos para financiar a campanha de Navalny. Ashurkov também, pediu a Ford que  lhe fornecesse qualquer material comprometedor que os Britânicos pudessem ter sobre governantes russos». (Glenn Diesen, The Think Tank Racket: Managing the Information War with Russia. Clarity Press, 2023). 

A escuta-vídeo referida acima pode ser vista e ouvida a seguir:


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