Com papas e bolos…

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 04/03/2024)

Após a morte de Navalny, lamentavelmente, ninguém no ‘mainstream’ parou uns segundos para pensar, para questionar, não enganar e não ser enganado.


Após a morte de Navalny, lamentavelmente, ninguém no ‘mainstream’ parou uns segundos para pensar, para questionar, não enganar e não ser enganado.

O caso Navalny trouxe-me à memória muitos outros casos, em que as opiniões públicas, resultado da ação da designada Comunicação Estratégica são levadas a acreditar em versões enviesadas dos acontecimentos. Para se atingirem determinados objetivos políticos, versões deturpadas dos factos são apresentadas de modo a serem percebidas como verdades indiscutíveis. Falamos de manipulação das perceções.

A minha atenção para este fenómeno foi despertada por um acontecimento que relatei num livro publicado em 2016. Quando um jornalista perguntou ao responsável de uma empresa de Relações Públicas (RP), contratada por croatas e muçulmanos bósnios, para promover as suas causas, ou, se quisermos, as suas imagens públicas, qual era o feito de que mais se orgulhava, a resposta saiu pronta e sem hesitação: “Colocar a opinião pública judaica do nosso lado”, leia-se, contra os sérvios bósnios acusando-os de nazis.

Esta “tese” punha em causa toda a história da Segunda Guerra Mundial, nos Balcãs. Quem, na verdade, combateu as forças de Hitler foram os sérvios, tanto os que alinharam com os partisans como os monárquicos. Os croatas e os muçulmanos estiveram do lado errado da história, engrossando as fileiras da Wehrmacht e das SS com unidades próprias. Milhares de judeus morreram às mãos dos croatas em campos de concentração na Croácia.

Ambos os presidentes Tuđman (croata) e Izetbegović (muçulmano bósnio) tinham escrito livros onde expressavam ideias muito inconvenientes e inapropriadas. O primeiro defendia, com grande convicção, ideias antissemitas e racistas, enquanto o segundo defendia, como objetivo último da sua ação política, a criação de um Estado islâmico fundamentalista. As questões ideológicas não foram impedimento para o Ocidente se colocar do lado dos croatas e dos muçulmanos na guerra que dilacerou o país, entre 1992 e 1995.

Perante cartões de visita tão inapresentáveis, como dizia o responsável da empresa de RP, havia todas as razões para que intelectuais e organizações judaicas fossem hostis, tanto a croatas como a muçulmanos. “O nosso desafio [da empresa de RP] era reverter esta atitude. E nós fizemos isso magistralmente. Foi um tremendo golpe”. E foi mesmo. Conseguiram colocar as opiniões públicas ocidentais contra os supostos sérvios nazis. É para isto que servem as empresas de Relações Públicas. Limpar imagens, alterar perceções. Foi dinheiro bem empregue!

Apesar do Tribunal de Haia ter, em 2016, ilibado Milosevic da responsabilidade pelos crimes de que foi acusado, ficou para a história como o “carniceiro dos Balcãs”. O mal já estava feito, pouco ou nada serviu a “retificação.” A verdade histórica apurada a posteriori não produz efeitos retroativos. Não faz breaking news.

Na altura, a internet não tinha ainda a utilização generalizada que tem nos dias de hoje, nem existiam redes sociais. Como dizia o referido membro da empresa de RP, a diferença fazia-se através de uma boa base de dados, um computador e um fax. A base de dados devia conter algumas centenas de nomes de jornalistas, políticos, académicos e representantes de organizações humanitárias. Eles encarregar-se-iam de propalar e difundir as “notícias”.

Com a morte de Navalny aconteceu algo semelhante ao que acabo de contar. O Kremlin foi acusado de imediato e sem hesitações da sua morte, em várias versões. Não tenho informação para me pronunciar sobre as causas de tão trágico acontecimento. Mas a débil verosimilhança do que se conta não resiste a um apuramento dos factos, mesmo ligeiro e rápido que seja. Lamentavelmente, ninguém no mainstream parou uns segundos para pensar, para questionar, não enganar e não ser enganado.

Foi dilacerante ver como ideias estúpidas conseguiram ganhar tração e prevalecer. Os difusores da “verdade” podiam ter-se interrogado, por exemplo, qual seria o interesse do Kremlin em aniquilar um opositor irrelevante – considerado no Ocidente o grande opositor de Putin, vá lá saber-se porquê –, quem fez essa avaliação e com que métrica, quando estavam em curso negociações para ser trocado por um agente russo. Por outro lado, só um ignorante pode acreditar na morte de Navalny causada por envenenamento com Novichok.

Para tornar a situação ainda mais absurda, o insuspeito general Budanov, chefe dos serviços de intelligence ucranianos, veio confirmar a tese russa, afirmando que Navalny teria morrido de morte natural. Dispensaremos da análise muitos outros temas igualmente merecedores de atenção, mas que poderão ser considerados menos ponderosos para o caso (consumo frequente de narcóticos, a visita do advogado na véspera da morte, a coincidência da morte com a inauguração da Conferência de Segurança de Munique, a defesa da ocupação da Crimeia e, simultaneamente, a oposição à operação militar russa na Ucrânia, xenofobia, ligação comprovada a organizações neonazis, etc.).

É muito preocupante que um acontecimento desta natureza, com as implicações políticas conhecidas, não tenha sido objeto de maior escrutínio, ou, se quisermos, de escrutínio tout court. Se é compreensível que as massas não o tivessem feito, o mesmo não se poderá dizer de outros segmentos da sociedade, enquadráveis naquilo que poderemos designar por elites (académicos, fazedores de opinião, intelectuais, etc.). Terá sido desleixo? Não parece credível.

A ausência de interrogações sobre o assunto leva-me a introduzir dois temas na discussão, transportando-a para um outro patamar: o conceito de socialização e poder hegemónico, desenvolvido por John Ikenberry e Charles Kupchan, dois académicos liberais norte-americanos; e o conceito de Comunicação Estratégica.

Ikenberry e Kupchan publicaram, em 1990, na International Organization, um artigo fabuloso, onde explicam como as potências hegemónicas se devem comportar para afirmarem o seu controlo sobre os outros Estados, entenda-se os Estados subordinados. As suas propostas têm como referência aquilo que os EUA devem fazer para o conseguir.

Segundo eles, a cooperação dos Estados secundários com a potência hegemónica exige a adesão a crenças substantivas. A aquiescência advém da socialização dos líderes dos estados secundários; das suas elites aceitarem e interiorizarem as normas articuladas pelo poder hegemónico e, portanto, seguirem políticas consistentes com a sua noção de ordem internacional.

Este processo exige que os líderes e elites dos Estados secundários interiorizem as orientações, e aceitem a normatividade dos valores propostos pela potência hegemónica. Para o processo de socialização resultar, é essencial a recetividade daqueles dois segmentos da sociedade às normas articuladas “superiormente.”

A Comunicação Estratégica desempenha um papel crucial no processo de socialização dos líderes e das elites das nações secundárias. Trata-se de um conceito aglutinador de conceitos, como sejam, as relações públicas, a diplomacia pública, as operações de informações e as operações psicológicas. É o veículo utilizado para moldar atitudes e comportamentos dos diferentes segmentos da sociedade.

Sem entrarmos em grandes considerações conceptuais, diremos que abre as portas ao exercício de operações psicológicas sobre as populações amigas, coisa que o conceito isolado de operações psicológicas proíbe, criando uma barreira conceptual muito ténue entre o permitido e o não permitido. Com a criação do conceito de Comunicação Estratégica as fronteiras esbateram-se. O que não se podia efetuar sobre as populações amigas, acaba por se fazer sob a capa da Comunicação Estratégica. Abrem-se as portas à desinformação sob um manto límpido e assético.

A socialização ajudou a produzir elites que aceitam sem reticências e discussão as crenças básicas propostas pela potência hegemónica, e que agem e pensam em conformidade e de modo normalizado; a Comunicação Estratégica amplifica e difunde essas crenças, através de uma seleção criteriosa de temas e mensagens. A “não normatividade” é penalizada com a ostracização (e não só). É para aí que caminhamos.

Se fosse vivo, George Orwell teria nas democracias liberais de hoje muita matéria para fazer uma revisão alargada do seu “1984”.


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O nazi Navalny

(Joana Amaral Dias, in Sol, 01/03/2024)

(Apesar de já termos publicado dois longos textos sobre a campanha de intoxicação “Navalny” no Ocidente, não resisti a revisitar o tema. Por vezes, há contributos de qualidade que vêm de onde não se espera que viessem, seja quanto à autoria, seja quanto ao local da sua publicação. É o que sucede com este texto. Por acaso, a Estátua estava atenta… 🙂

Estátua de Sal, 04/03/2024)


É insuportável ver o Governo e tanta nata bem-pensante a darem o nazi-Navalny como democrata.


O branqueamento e a idealização que têm sido conduzidos sobre Navalny seriam patéticos se não fossem tão perigosos. Um herói?! Alexei debutou na política como organizador de marchas neonazis na Rússia e, de resto, manteve até ao final da sua vida que os imigrantes são baratas que devem ser eliminadas a tiro. Foi expulso do primeiro partido onde militou por ideias ultra nacionalistas e espalhou ódio que desembocou em assassinatos xenófobos. Esses grupelhos foram ilegalizados na Rússia só que o santo do ocidente manteve sempre a sua sanha e, por exemplo, numa entrevista ao Guardian em 2017, dizia não se arrepender do seu racismo primário. 

Também não se trata de um modelo de combate à corrupção. Em 2013, foi condenado a cinco anos de pena suspensa por peculato e desvio de fundos. Em 2014, foi dado como culpado, juntamente com o irmão, de outro peculato. Ou seja, inicialmente não foi detido por motivos políticos mas por crimes como, de resto, também foi na altura reconhecido pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e pela própria Amnistia Internacional. De facto, pelo meio lançou a ‘Fundação Anticorrupção’ largamente financiada pelos EUA e pelo RU. De resto, as suas ligações ao Ocidente e até aos seus serviços secretos sempre foram mais fortes do que as suas ligações à própria Rússia, onde não goza nem de um décimo da popularidade que granjeia por aqui. Aliás, nem nunca sequer foi ‘o maior opositor de Putin’ como bale a carneirada. O maior opositor é o partido Comunista. Aliás, o seu braço direito nessa Fundação foi filmado a tentar sacar milhões a um membro da embaixada do Reino Unido em Moscovo. Já Navalny esteve em 2010 na prestigiada Yale a fazer um curso de liderança que tem preparado vários protagonistas para revoluções nos seus países. Contudo, convém não esquecer que apoiou a operação na Crimeia em 2014 e as intervenções militares na Abecásia e na Ossétia do Sul. Jogou em vários tabuleiros e estava pejado de contradições.

Sobretudo, Navalny lembra aquela velha tática estado-unidense popularizada pelo secretário norte-americano Cordell Hull. Esse diplomata diria sobre o ditador Rafael Trujillo da República Dominicana (que deixou um rasto de de milhares de mortes): «Ele é um filho da p», mas é o nosso filho da ‘p*’. O que confrange nesta história não é apenas a hipócrita deificação de Navalny mas o facto dos EUA, frustrados com o sucesso de Putin em manter a federação russa, não terem conseguido recrutar um ‘fdp’ mais eficiente. De resto, que ganharia o presidente russo com a morte de Navalny? Até o timing parece deslocado e contra producente. 

Por fim, talvez o Ocidente pudesse carpir e lutar por Assange ou por Gonzalo Lira. Pelo menos não ficaria acusado de dois pesos e duas medidas. E se os EUA têm tantas dificuldades em explicar mortes como as de Jeffrey Epstein, talvez pudessem prestar atenção ao que está a ser difundido pelo Chefe de espionagem da Ucrânia-Kyrylo Budanov diz que Navalny morreu de coágulo sanguíneo, indo de encontro ao que chegou a ser divulgado pela própria equipa de Alexei.

Enfim, é insuportável ver o Governo português e tanta nata bem-pensante a darem o nazi-Navalny como um democrata, ecoando a narrativa da União Europeia. Essa mesmo que elegeu como prioridade o combate às fake news.


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Morto, Navalny, ainda rende para a 5ª coluna, a CIA e os babosos do jornalixo: Ámen!

(Por oxisdaquestão in blog oxisdaquestao, 02/03/2024)

Pessoas reúnem-se no exterior da igreja para o funeral de Alexei Navalny

Se o homem não morresse a propaganda da NATO-CIA estava agora com pouco que fazer. Assim, rejubila e está-se a marimbar para o falecido, que só lhe interessa na medida em que lhe dá azo a espalhar a sua porcaria sobre nós.

Quantos russos e que russos desafiaram V. Putin? Não se diz. Terão sido 10 mil? 100 Mil? 1 Milhão? Navalny representa para o espírito russo o desprezo pela pátria que suportou 28 milhões de mortos, para resistir e derrotar o nazismo de Hitler-Churchill-Pétain. A população russa é de 146 milhões de pessoas e, pelo que se vê, não é homogénea em relação a sentimentos de pertença, patriotismo e soberania. Na Rússia, a CIA sempre cultivou os dissidentes e escolheu-os entre os intelectuais e escritores. Passada esta fase virou-se para a criação e promoção de uma 5ª coluna de anti pátrias, gente que suspira ser como os gringos e viverem num país psicótico como os EUA. Dos escritores passou aos blogueiros e gerentes de ONG’s.

Estes episódios servem para medir a força desta coluna de indivíduos que não se sentem pertencentes à sua pátria, recusam a sua história e aspiram a ser tratados como indígenas colonizados pelos neoliberais de além Atlântico. Serão 10 Mil, 100 Mil, 1 Milhão ? Ou mais?

Há aspetos curiosos neste caso. Afinal na Rússia são permitidos funerais públicos de figuras antipatrióticas. Não há impedimento à comparência das pessoas, elas são livres de optarem pela sua presença ou não. Só comportamentos anormais são proibidos e combatidos. Os dissidentes podem expressar-se, desde que não usem a violência, não causem distúrbios nem alarme. Tudo sereno e os manejadores à espera de tumultos que não existiram. O desafio ficou esvaziado: quem quis foi ao enterro e teve que assumir a postura necessária à cerimónia, senão ficava a pintura borrada. A 5ª coluna deu-se por satisfeita, atuou mais uma vez contra a sua Pátria e mostrou-se recetiva aos intentos da CIA-MI6/EUA-INGLATERRA, como uma cadela com cio. E, as autoridades tranquilas mas atentas, porque, o país, está a sofrer uma guerra gerida e praticada pela NATO, ao seu jeito terrorista e canino.

Estranho foi ver que nem Napoleão nem Hitler se prestaram a estar presentes em pessoa no enterro. Andariam, sobrevoando, os seus fantasmas por ali. Mas nem foram encarregados de fazer as imagens aéreas que mostrariam as presenças efetivas: 10 Mil, 100 Mil, 1 Milhão? Que influência deixaram as, ONG’s, na população? E quem financia o jogo político e psicológico contra o país, que se corporiza nesta gente que tem um escroque como herói? Como o sistema educativo, copiado do Ocidente, vai permitindo um estado de alma que prefere apoiar interesses estrangeiros e adversários aos do próprio povo russo? Como há gente que esquece os sacrifícios da vitória sobre o nazismo na grande guerra Pátria?

Oração fúnebre

 Navalny era um traidor. Tinha sido acusado e condenado por roubo-peculato e corrupção. Era xenófobo e antimuçulmano (”matá-los como baratas”). Foi agente da CIA (e do MI6?) com um curso tirado nos EUA sobre desestabilização e acesso ao poder no processo de revoluções coloridas. Era pago por ser a reserva de Washington para, possivelmente, assumir a presidência, retalhar o território e entregar as riquezas do país ao capital estrangeiro. Tinha mais visibilidade no Ocidente inimigo da Rússia que no seu país. Constituía-se como uma ponta da 5ª coluna atlantista, anti pátria, que o usava como títere para os seus desígnios. A sua morte teve o proveito efémero de títulos e fotos de capa dos jornais enfeudados à NATO, a Washington, à CEE-UE. O jornalixo teve nele uma mais-valia para o seu negócio na hora da sua morte. 

Sabe-se, e é cruel dizê-lo, que foi um corno manso. Assim sendo, e por tudo, não há paz para a sua alma. Ámen.


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