A melhor política é um bom negócio

(Manuel Augusto Araújo, in AbrilAbril, 17/02/2024)

Trump é um político sui generis pela imprevisibilidade que o faz saltar fora dos circuitos mais formatados da política tradicional. Tem os truques dos populistas com todo o fogo de artifício anti-sistema, quando estão bem incrustados num sistema que consolida o neoliberalismo.


As últimas e incendiárias declarações de Trump, quando diz que até aconselharia a Rússia a invadir ou fazer «o que raio quisesse» aos aliados que não gastassem 2% em defesa, colocaram em polvorosa dirigentes e comentadores políticos europeus. Por cá, a cacofonia dos nossos dirigentes e comentadores políticos acertou o passo com eles. Os democratas norte-americanos acusam-no de ser o mais anti-americano dos presidentes e candidatos a presidentes dos EUA, de se vergar aos interesses do Kremlin. Faltou muito pouco para o acusarem de ter desistido do excepcionalismo norte-americano que o fez, nos últimos séculos, promover por todo o mundo guerras, golpes de estado, revoluções coloridas, a panóplia imperialista que desde a sua fundação pôs em marcha o que mais se acentuou quando, depois da II Grande Guerra Mundial, beneficiou largamente do desfazer dos impérios coloniais europeus.

De facto, Donald Trump engrossou a voz num comício na Carolina do Sul, dizendo que iria «encorajar a Rússia a atacar qualquer nação da NATO que não cumprisse o objetivo de gastar 2% do Produto Interno Bruto (PIB) na defesa. Está a apontar para 19 dos 31 países que integram a NATO sem cumprirem esse rácio. Garante a esses países que «não, não vos protegeria. Na verdade, encorajá-los-ia (a Rússia) a fazer o que lhes apetecer. Têm de pagar. Têm de pagar as vossas contas». Acreditará Trump que a Rússia ficou estimulada a invadir esses países? Isso quererá dizer que Trump é um aliado secreto de Putin, como rapidamente circulou nos media e nas redes sociais da propaganda imperialista? As primeiras reacções russas foram  ouvir essas declarações sem surpresa, com indiferença de quem está habituado a assistir a encenações desse jaez.

Há que lembrar que, quando foi pela primeira vez candidato e depois eleito presidente, Trump tinha feito idêntico pronunciamento logo criticado duramente por Jens Stoltenberg, secretário-geral da NATO, que pós-eleições foi dos primeiros a ir ao beija-mão na Casa Branca. Espera-se que a cena se repita se os dois reocuparem os cargos que na altura exerciam.

Trump é um político sui generis pela imprevisibilidade que o faz saltar fora dos circuitos mais formatados da política tradicional. Tem os truques dos populistas com todo o fogo de artifício anti-sistema quando estão bem incrustados num sistema que consolida o neoliberalismo, beneficiando os ricos cada vez mais ricos. É um negociante parafascista agarrado à máquina de calcular dos negócios. Quando faz esses bombásticos anúncios espera cobrar dividendos tanto interna como externamente, explorando o estado de sítio que se vive e a bem visível ebulição geoestratégica.

O auge da propaganda nos areópagos europeus é papaguear uma suposta convergência Trump-Putin esquecendo-se, ou melhor, fingindo cinicamente esquecer-se que foi Trump quem rasgou os tratados entre os EUA e a União Soviética que limitavam a proliferação das armas nucleares, dos mísseis balísticos, do controlo de armamentos, atirou para o lixo os acordos com o Irão que limitavam a sua capacidade nuclear, promoveu os chamados acordos de Abraão que consolidavam a posição de Israel no Médio Oriente, mais pôs em práticas comerciais contra a China e que, como o faz novamente hoje, chantageou com algum êxito os seus aliados da NATO para que gastassem 2% do PIB em defesa, o que reduzia os investimentos norte-americanos com a aliança.

O que Trump pretendia, e de algum modo conseguiu, foi na política externa novamente ameaçar a Federação Russa e países que lhe são próximos, compelindo-os a aumentarem despesas com o armamento, internamente redirigindo as poupanças com as contribuições para a NATO para investimentos direccionados para o complexo militar-industrial-tecnológico norte-americano.

Espera que esse influentíssimo conglomerado o prefira aos democratas. Sabe, até bem demais, que essa gente vai dando suporte tanto a democratas como republicanos, mudando de canto nos combates de wrestling que estes encenam, apoiando conforme as circunstâncias uns ou outros em função dos prometidos sucessos económicos. Cotejem-se -se as contribuições para as campanhas eleitorais nos últimos decénios e a coincidência entre os eleitos e o volume desses aportes monetários. 

Esses incendiários pregões dirigem-se mais para o interior dos EUA que para o exterior, pouco se preocupando com o efeito do seu ribombar na Europa que se arrasta numa crise económica por cega vassalagem de que os principais beneficiários são os norte-americanos. Democratas e republicanos estão alinhados com os princípios de política externa definida pelos straussianos, sintetizados por Wolfowitz, que preconizam o enfraquecimento da União Europeia quando hipoteticamente se poderia perfilar como concorrente dos interesses dos EUA. Quer é ser ouvido, como o tinha feito anteriormente quando concorreu com Hillary Clinton, pela média e pequena burguesia, pelos negros e hispânicos cada vez mais empurrados para os limites de sobrevivência pelas políticas económicas dos democratas, políticas que Michael Hudson e Radhika Desai escalpelizam e classificam como de «apartheid económico» num bem documentado texto – ver aqui.

Donald Trump, como bom populista, explora esse mal-estar generalizado da sociedade norte-americana aprontando-se para cavar um fosso ainda maior entre os super-ricos, os remediados e os pobres, acenando com medidas de incentivo ao investimento privado como ultraliberal que é, mascarando os seus propósitos. Joga com a falta de memória, a desinformação e a intoxicação da opinião pública, os grandes trunfos dos novos fascistas neoliberais e ultraliberais em todo o mundo.

Atente-se na Argentina de Millei, na Itália de Melloni, por cá na Iniciativa Liberal e no Chega, nas derivas de direita por toda a Europa que o seu amigo e conselheiro Steve Bannon tem oleado. O truque é acenar com uma redução dos gastos na NATO reorientando-nos para a economia interna, o que num país muito fechado sobre si próprio funciona perfeitamente, sobretudo quando Biden a tem afundado. 

A NATO para Trump é tão instrumental como o tem sido desde a sua fundação para os EUA. A diferença é que quer extrair o máximo lucro com o menor investimento. Espalha o pânico numa frágil Europa esperando que além dos reclamados 2% de contribuições o alarme provocado na UE a levem a reforçar o denominado Mecanismo Europeu para a Paz, a armadura guerreira da União Europeia, com que muito está a lucrar o complexo-militar-tecnológico norte-americano. O mecanismo é simples, mesmo primário, os antigos países do Pacto de Varsóvia, actualmente membros da NATO, têm-se desfeito dos arsenais herdados da União Soviética enviando-os para a Ucrânia enquanto os modernizam adquirindo-os aos EUA, utilizando os dinheiros desse fundo. A Polónia é o melhor exemplo dessa engrenagem que está a desenhar na Europa um novo eixo Washington-Londres-Varsóvia que se aproveita dos desvalimentos da Alemanha e da França para se ir impondo, substituindo o de Berlim-Paris, que desde a fundação da UE era dominante.

Paralelamente, os EUA incentivando as sanções contra a Rússia aceleraram a crise económica na Europa tornando-a incapaz de se revitalizar, garroteando-a com os preços de energia que impôs, tornando-se o principal fornecedor em substituição dos muito mais baratos russos, praticando agressivas políticas proteccionistas de incentivo à produção e consumo internos que encurralam a Europa, desviando investimento directo estrangeiro, fazendo-a perder quotas de exportação para os EUA, debilitando a sua competitividade nos mercados internacionais, o que é bem visível, sobretudo, na Alemanha que era o seu motor, em que a deslocalização de empresas e a recessão técnica é uma realidade. 

Trump o que anuncia é o agravamento dessa situação exigindo que os cada vez mais escassos recursos europeus sejam aplicados numa política de defesa que só beneficia os EUA. Simultaneamente, afirma que com ele a guerra na Ucrânia acaba em dois dias. Fá-lo bem ancorado nos seus princípios de caixeiro viajante da política que olha para o fim dessa guerra como um bom negócio para os EUA.

Não é melhor nem pior que os democratas que farisaicamente afirmam altissonantemente que estão a defender a democracia e a liberdade, uma intrujice com que travestem as ferramentas do expansionismo norte-americano. Pragmaticamente Trump considera que mais aplicações de capital na Ucrânia deixaram de ser necessárias, devem começar a ser rentabilizadas, daí a sua urgência na paz. Sabe que a direcção, a orientação, a captação de fundos, nomeadamente europeus, para o grande negócio da sua reconstrução vai ser comandada por um conglomerado administrado pelo fundo abutre de investimentos Blackrock e pelo JP Morgan Chase que já o apresentaram em Londres aos investidores prometendo chorudos lucros.

Tudo está a correr maravilhosamente nos carris até porque a Blackrock é actualmente quem de facto controla e dirige as finanças ucranianas, todos os investimentos passam pelo seu crivo. Simultaneamente, a camarilha Zelensky introduziu uma alteração constitucional que permitiu que os férteis terrenos agrícolas que anteriormente só poderiam ser detidos por pessoas singulares ou colectivas aborígenes pudessem ser propriedade de estrangeiros. A resultante é que hoje mais de 65% desses terrenos são propriedade de multinacionais como a Bayer/Monsanto e Cargill que estão prontas para abocanhar mais uns milhares de hectares. Os oligarcas norte-americanos esfregam as mãos com essas perspectivas de mui frutuosos negócios, ainda para mais agilizados pela corrupção que cavalga à rédea solta por aquelas paragens. 

As políticas preconizadas por Trump têm esses objectivos no horizonte. Nenhum princípio o trava, aliás não tem princípios, tudo para ele é um negócio. O Make American Great é uma barganha que, no interior dos EUA, aprofunda as diferenças entre os ricos e a restante população, no plano internacional coloca os aliados a reboque, enfraquecendo-os e tornando-os mais dependentes dos interesses norte-americanos, imaginando que os torna mais robustos e capazes de enfrentar a concorrência dos países mais desenvolvidos e em crescimento que se abrigam nos BRICS. Os ventos da história não correm a seu favor, excepto no rufar dos tambores da demagogia pelos estados da união que parecem estar a ecoar mais fortes que o dos democratas. O grande dilema do povo norte-americano, não é de agora, é o de escolher entre dois males, escolher o mal menor, o que promete prolongar por mais tempo o actual estado comatoso do american way of life antes da máquina ser desligada, empenhamento em que os populistas são eficazes.

Nós, por cá, tudo mal enquanto o jardim do Borrell for o pântano em que nos vamos afundando sem qualquer expectação.

Faz parte da propaganda uma quase aliança entre Trump e Putin, o que é difundido pelos falcões e neo-cons democratas, atirando para o limbo da memória, mas que deve-se sempre recordar, que foi Trump quem rasgou os acordos entre a União Soviética e os EUA, a que a Federação Russa tinha dado continuidade, sobre armas nucleares, mísseis balísticos nucleares e convencionais, sobre limitações de armamento que acabaram por dar novo impulso ao complexo militar-industrial-tecnológico dos EUA . Não esquecer que não foi Trump mas Clinton e depois Obama que puseram fim às leis anti-monopolistas da lei Glass-Seagall, escancarando as portas para a actual financeirização da economia norte-americana para a ascensão dos fundos de investimento que adquiriram a preponderância, para a submissão a uma dívida sempre em aceleração que a tornam impagável mas ainda sustentada por um dólar ainda dominante mas cada vez mais irrelevante nas transacções internacionais.

O que os comentários esquecem é que são poucas as diferenças entre um Steve Bannon e uma Victória «que se foda a Europa» Nuland, ambos pondo em prática de forma diversa as políticas dos neo-cons democratas e republicanos. Houve de facto um reduzir da actividade de golpes de estado, bombardeamentos a outros países, revoluções coloridas durante o período de Trump o que se deveu unicamente a outras prioridades económicas. Isso é aproveitado pela desvairada propaganda dos falcões democratas para inventar uma suposta aliança entre Putin e Trump e para dar um novo furor ao complexo militar-industrial e tecnológico, sobretudo com a guerra na Ucrânia que estamos todos a pagar.

A idiotia generalizada nem sequer percebe que o chamado fundo para o Mecanismo Europeu para a Paz o financia, de que a Polónia, não sendo o único é o melhor exemplo, quando envia armas do tempo do Pacto de Varsóvia para a Ucrânia e compra novas armas aos EUA. Na realidade Biden, Trump, Putin trabalham e são apoiados pelas suas oligarquias locais o que provoca as variáveis políticas de todos conhecida. O alvoroço dos comentários emitidos ignoram, a mais das vezes malevolamente, toda essa realidade só possível pela intoxicação promovida pela comunicação social mercenária ao serviço do pensamento dominante dos grandes interesses económico e financeiros, não distinguindo a ponta do icebergue do muito que está oculto. Mas esse é o estado de sítio que vivemos.

Lamentavelmente, muita gente bem intencionada não consegue ultrapassar o nevoeiro das balelas da comunicação social mercenária que tem até o aspecto curioso de jornais norte-americanos, que são caixas de ressonância da Casa Branca, Pentágono, CIA, NSA, FED, sistema económico-financeiro darem notícias mais críticas da realidade que se vive do que os da caduca Europa. 


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O Jovem Conservador de Direita comenta os debates

(Por Jovem Conservador de Direita, in Facebook, 16/02/2024)

Não vi o primeiro debate. Já estou farto de ouvir a esquerda radical. É uma questão de saúde mental.

Infelizmente, não perguntaram à Dra. Mariana Mortágua acerca da usurpação de direitos de autor e propriedade intelectual do Dr. Pedro Abrunhosa daquela frase que não é igual à dele, mas que se nota que só podia ser dele: fazer o que nunca foi feito.

A esquerda a nacionalizar uma frase que nunca tinha sido dita antes do Dr. Pedro Abrunhosa a enunciar. Ele merece receber direitos de autor por dizer o que nunca foi dito.

Depois tivemos o debate do dia, entre um candidato extremista totalitário e um candidato da direita conservadora ligeiramente autoritária.

O Dr. Cabeça de Geleia hoje lambeu-se menos. Nota-se que tem ouvido as minhas críticas e devem estar a dar-lhe moscas antes do debate para que a língua dele não se perca à procura delas na atmosfera.

Foi um debate muito agressivo. O Dr. Pedro Frazão foi mencionado pela primeira vez e não foi para discutir zoofilia. Foi por um motivo mais nojento.

O Dr. Rui Tavares denunciou que, entre outros trolls da internet, o Dr. Pedro Frazão pôs a segurança da sua filha em risco. Nomeadamente através da partilha de fotografias tiradas no pátio da escola.

O Dr. Cabeça de Geleia esteve muito bem a fingir que não sabia de que é que o Dr. Rui Tavares estava a acusar o Dr. Pedro Frazão. Dá sempre jeito ter alguém que masturbe os cavalos para que ele não tenha de o fazer.

Apesar de fingir não conhecer o trabalho sujo do Dr. Pedro Frazão e seus seguidores, o Dr. Cabeça de Geleia aproveitou para reforçar a acusação de hipocrisia associada à devassa da vida privada de crianças denunciada. Já consigo vislumbrar o génio que tanta gente vê. Ele não masturbou o cavalo propriamente dito, mas não teve nenhum problema em utilizar o frasco de sémen extraído para inseminar as mentes dos seus seguidores.

A conclusão aqui é “deixem as crianças em paz desde que não sejam filhas de políticos de esquerda.”

A seguir, o Dr. Cabeça de Geleia acusa o Dr. Rui Tavares de querer encher as ruas de v1olad0res, assasssinos e bandidagem. Mas os fotógrafos de crianças estão no partido dele.

A seguir vou citar uma frase que ele disse mesmo:

“Crimes sexuais, que eu acho que nos dizem a todos alguma coisa.”

Não sei o que é que ele quer dizer com isto, mas deveria ser investigado.

O Dr. Rui Tavares confronta o Dr. Cabeça de Geleia com o facto de ser amigo do político mais corrupto do Mundo o Dr. Órban. Isto é inveja do Dr. Rui Tavares porque não tem amigos de sucesso. Era difícil o Dr. Viktor Órban não beneficiar os seus quando está há tanto tempo no poder na Hungria. Acham mesmo que tantas pessoas de sucesso financiam o CHEGA porque gostam das ideias do CHEGA? Não. São visionários que sabem aproveitar oportunidades.

Aqui o Dr. Cabeça de Geleia passou-se. Começou a lamber-se mais do que três labradores numa churrasqueira e disse tipo metralhadora: Venezuela, Cuba, Lula, Hamas, Soros. Foi um home run de argumentos imbatíveis.

É interessante que o Dr. Soros tenha sido mencionado nos debates antes de zoofilia.

Acusou o Dr. Rui Tavares de ser financiado pelo Dr. Soros e disse que o Dr. Soros, um bilionário, é de esquerda radical. Toda a gente sabe disso. E foi um excelente piscar de olhos aos fãs do CHEGA que não se sentem muito confortáveis com (((eles))).

O Dr. Cabeça de Geleia ficou tão nervoso por atacarem os seus amigos Dr. Órban e Dr. Bolsonaro que até defendem refugiados. Eram refugiados ucranianos, logo dos bons, mas já é um passo. Quando está nervoso torna-se mais moderado.

No pós-debate os comentadores foram todos unânimes em dizer que o Dr. Rui Tavares perdeu. O Dr. Sebastião Bugalho tinha de dar vitória ao Dr. Cabeça de Geleia. Os amigos são para as ocasiões.

Criticou o Dr. Rui Tavares porque denunciar o aproveitamento da devassa da privacidade de crianças por parte de um partido político é segundo o Dr. Bugalho “uma palhaçada.”

Acusou o Dr. Rui Tavares de não conseguir provar que a partilha das fotos dos filhos foram feitas por pessoas do CHEGA. É como a questão do Dr. Pacheco Amorim e do terrorismo. Se calhar o Dr. Pedro Frazão também é só membro da organização Dr. Pedro Frazão e não comete actos de Dr. Pedro Frazão.

Tenho visto muita gente a criticar o Dr. Bugalho e tenho de o defender. Muita gente diz que ele não tem talento nenhum e só está onde está por causa de nepotismo. É verdade. E não há nada de errado em aproveitar oportunidades, nem que essas oportunidades surjam de nepotismo.

Mas não quer dizer que não seja talentoso. O talento dele é falar à velho. E os velhos gostam muito de promover jovens que falam à velho. Porque faz com que não se sintam tão velhos.


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Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte IV

(José Catarino Soares, 17/02/2024)

Kiev, 9 de Abril de 2022. Boris Johnson, no papel de deus Mercúrio, encontra-se com Volodymyr Zelensky e outros dignitários ucranianos. Foto:Twitter @AndriyYermak.

7. As incompreensões, erros e omissões de Arestovych

A alegação de Arestovych de que os acontecimentos de Bucha poderão ter sido a razão pela qual Zelensky fez abortar o acordo de Istambul não tem fundamento empírico. A notícia seguinte da Associated Press (AP), datada de 10 de Abril de 2022, intitulada A entrevista da AP: Zelensky procura a Paz apesar das atrocidades, refuta essa alegação:

«Kiev, Ucrânia (AP) – O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse no sábado [dia 9 de Abril de 2022] que está empenhado em fazer força pela paz, apesar dos ataques russos a civis que surpreenderam o mundo, e renovou o seu apelo por mais armas antes de um aumento esperado nos combates no Leste do país. O Presidente fez estes comentários numa entrevista à Associated Press, um dia depois de 52 pessoas, pelo menos, terem sido mortas num ataque a uma estação de comboios na cidade de Kramatorsk, no Leste do país, e quando surgiram provas de assassinatos de civis [em Bucha, n.e.], depois de as tropas russas não terem conseguido tomar a capital, Quieve, onde o Presidente se encontra encurralado. “Ninguém quer negociar com uma pessoa ou pessoas que torturaram esta nação. É tudo compreensível. E como homem, como pai, compreendo-o muito bem”, disse Zelensky. Mas “não queremos perder oportunidades, se as tivermos, para uma solução diplomática”. /…/ [n.e. = nota editorial].

Zelensky disse estar confiante que os ucranianos aceitarão a paz, apesar dos horrores que testemunharam durante a guerra de mais de seis semanas. Entre elas, incluem-se imagens horríveis de corpos de civis encontrados em quintais, parques e praças da cidade e enterrados em valas comuns nos subúrbios de Bucha, em Quieve, após a retirada das tropas russas. Os dirigentes ucranianos e ocidentais acusaram Moscovo de crimes de guerra» [12].

Assim, em 9 de Abril de 2022, à hora que deu a sua entrevista à AP, Zelensky ainda estava firmemente decidido a levar por diante o acordo de Istambul, malgrado o alegado ataque russo a Kramatorsk em 8 de Abril e as alegadas descobertas macabras de civis alegadamente assassinados pelas tropas russas em Bucha.

A verdadeira razão que levou Zelensky a abortar o acordo com a Rússia que tinha sido alcançado em Istambul é outra (que o próprio Arestovych não descarta quando se refereao papel de Boris Johnson) e convém expô-la, uma vez mais, para que não possa desaparecer sem deixar rasto num “buraco da memória” do Ministério da Belicosidade Perpétua (OTAN, em Novilíngua) dos EUA e dos seus aliados-clientes em quatro grandes regiões do planeta (“Ocidente alargado” em Novilíngua).

Na cimeira extraordinária da OTAN de 24 de Março de 2022, em Bruxelas, na qual Joe Biden fez questão em participar, os Estados-membros desta aliança belicista decidem não apoiar a proposta de Zelensky de neutralidade militar e renúncia ao objectivo de aderir à OTAN. Como noticiou o Washington Post de 5 de Abril de 2022:

(A) «Para alguns membros da OTAN, vale mais que os ucranianos continuem a combater e a morrer do que chegar a uma paz demasiado precoce ou demasiado dispendiosa para Kiev e o resto da Europa» [13].

O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Çavuşoğlu, que organizou as reuniões negociais entre a Rússia e a Ucrânia em Istambul, foi ainda mais explícito. Em 20 de Maio de 2022, numa entrevista à CNN-Turquia, ao comentar o malogro do Acordo de paz finalizado em Istambul no fim de Março de 2022, Çavuşoğlu afirmou que nunca lhe tinha passado pela cabeça, nessa altura, que a guerra entre a Ucrânia e a Rússia pudesse continuar tanto tempo depois dessas conversações de paz. Mas mudou de ideias mais tarde, porque, acrescentou:

(B) «Após a reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da OTAN, ficou a impressão de que há, entre os países membros da OTAN, quem queira que a guerra continue para conseguir enfraquecer a Rússia» [14].

Não é possível interpretar (A) e (B) se não for desta maneira: para os altos dignitários da OTAN sacrificar centenas de milhares de vidas ucranianas numa guerra para enfraquecer a Rússia não é “demasiado “dispendioso”. Pelo contrário, é um negócio extremamente lucrativo, como o director da CIA, William Burns, nos fez o favor de explicar há poucos dias com um cinismo imbatível:

«A chave do êxito reside na preservação da ajuda ocidental à Ucrânia. Representando menos de cinco por cento do orçamento de defesa dos EUA, é um investimento relativamente modesto com retornos geopolíticos significativos para os Estados Unidos e retornos notáveis para a indústria americana» (“Spycraft and Statecraft”. Foreign Affairs, January 30, 2024).

No entanto, em 27 de Março de 2022, três dias depois da cimeira extraordinária da OTAN, Zelensky defende publicamente a sua proposta de acordo — a mesma proposta que tinha feito à Rússia no início de Março, por intermédio de Naftali Bennett, e que a Rússia tinha aceitado. No dia seguinte, 28 de Março, num gesto de apoio a esse esforço, Putin afrouxa a pressão militar sobre Quieve e Cherniguive, e retira as suas tropas deste sector. Em 9 de Abril, como vimos, Zelensky reitera o seu apoio ao acordo que foi alcançado na Turquia em 3 de Abril (consignado no “Comunicado de Istambul”) e que incorpora a sua proposta inicial. Depois, nesse mesmo dia, ao fim da tarde, Boris Johnson chega a Quieve numa visita-surpresa. A partir daí, tudo muda, como foi já analisado na primeira parte deste artigo, em 12 de Dezembro de 2023.

Em 5 de Maio de 2022, os jornalistas ucranianos Iryna Balachuk e Roman Romaniuk, do jornal ucraniano Ukrayinska Pravda, escreveram:

«De acordo com fontes do Ukrayinska Pravda próximas de Zelensky, o Primeiro-Ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que apareceu na capital quase sem aviso prévio, trouxe duas mensagens simples: a primeira é que Putin é um criminoso de guerra, deve ser pressionado e não trazido para negociações; e a segunda é que, mesmo que a Ucrânia esteja pronta para assinar alguns acordos de garantias com Putin, eles [os membros do “Ocidente alargado”, n.e.] não estão.

A posição de Johnson era a de que o Ocidente alargado, que em Fevereiro tinha sugerido que Zelensky se rendesse e fugisse, sentia agora que Putin não era tão poderoso quanto imaginavam e que esta era uma oportunidade para o “pressionar”. Três dias depois de Johnson ter partido para a Grã-Bretanha, Putin veio a público dizer que as conversações com a Ucrânia “tinham-se transformado num beco sem saída”» [15]

Numa entrevista que deu à jornalista Natalia Moseichuk, em Novembro de 2023, o chefe da delegação de negociadores ucranianos nas negociações da Turquia, Davyd Arakhamia, corroborou inteiramente este relato dos jornalistas da Ukraisnka Pravda 18 meses antes.  

«Arakhamia: Eles [os membros da delegação russa, n.e.] estavam esperançados, e mantiveram essa esperança até quase ao último momento, que nos obrigariam a assinar um acordo desse género para que assumíssemos a neutralidade. Era o mais importante para eles. Estavam dispostos a acabar com a guerra se nós concordássemos com a neutralidade — como outrora fez a Finlândia — e nos comprometêssemos a não aderir à NATO [= OTAN, n.e.]. De facto, esse era o ponto-chave. Tudo o resto era apenas retórica e “tempero político” sobre a desnazificação, a população de língua russa e blá-blá-blá» [o realce, por meio de traço grosso, foi acrescentado ao original, n.e.]

Arakhamia acrescentou que os “parceiros ocidentais” estavam a par das negociações e que leram os rascunhos dos documentos que foram redigidos enquanto as negociações duraram [17 ou 18 rascunhos sucessivos, segundo confidenciou Bennett na sua entrevista], mas que não tentaram substituir-se à Ucrânia tomando uma decisão por ela. O que fizeram, isso sim, foi dar conselhos, disse.

«Arakhamia: Na verdade, aconselharam-nos a não aceitar garantias de segurança efémeras [da parte dos russos — nota editorial da Ukrainska Pravda], que não poderiam de modo nenhum ser dadas nessa altura».

Mas, logo a seguir, acabou por confidenciar que, vindos de quem vêm, os conselhos desta natureza são ordens para os “Serventes do Povo”:

«Arakhamia: Além disso, quando regressámos de Istambul, Boris Johnson veio a Quieve e disse que nãoíamos assinar com eles [os russos, n.e.] coisíssima nenhuma, vamos mas é lutar contra eles» [o realce, por meio de traço grosso, foi acrescentado ao original, n.e.] [16]

E foi assim que o acordo de Istambul entre a Ucrânia e a Rússia morreu na praia. Foi esse documento que Vladimir Putin mostrou à delegação africana com quem se reuniu em 17 de Junho de 2023. O presidente russo disse nessa ocasião:

«Gostaria de chamar a vossa atenção para o facto de que, com a ajuda do Presidente Erdogan, como sabem, teve lugar na Turquia uma série de conversações entre a Rússia e a Ucrânia, a fim de elaborar tanto as medidas de reforço da confiança que mencionaram, como o texto do acordo. Não acordámos com a parte ucraniana que este tratado seria confidencial, mas também nunca o apresentámos [publicamente], nem o comentámos [publicamente]. Este projecto de acordo foi avalizado pelo chefe da equipa de negociação de Quieve [Davyd Arakhamia, n.e.]. Ele colocou nele a sua assinatura. Aqui está ela» — disse o Presidente russo, mostrando o documento à delegação africana.

De acordo com Putin, o projecto de acordo sobre a neutralidade militar permanente da Ucrânia (incluindo a componente nuclear) e as garantias de segurança da Ucrânia continha 18 artigos, com um anexo onde «tudo está especificado, desde o número de unidades de equipamento militar até ao pessoal das Forças Armadas», disse.

«Assim que a Rússia, conforme tinha prometido, retirou as suas tropas das cercanias de Quieve [num gesto de boa vontade demonstrativo do seu empenho no êxito do acordo, n.e.], a Ucrânia atirou o acordo para o caixote do lixo da história» — acrescentou Putin

(A intervenção completa de Putin nesta ocasião, com legendas em Inglês, pode ser vista e ouvida aqui).

8. As alegadas atrocidades de Bucha e o morticínio de Kramatorsk

Tendo ficado esclarecido, no essencial, o modo como o Acordo de Istambul foi torpedeado e quem o torpedeou, a recomendação de Arestovych («os historiadores terão de encontrar uma resposta para o que aconteceu» na Ucrânia entre 4 e 9 de Abril de 2022) perde grande parte da sua acuidade.

Ficam apenas por averiguar, cabalmente, os acontecimentos que muitos procuraram invocar como explicação para o Acordo de Istambul ter ido por água abaixo: os morticínios de civis em Bucha e Kramatorsk [17]. Mas já tivemos ocasião de ver que se trata de uma pseudo-explicação. Assim sendo, o que resta esclarecer a este respeito não tem que ver com o Acordo de Istambul, mas com a memória dos civis inocentes que poderão, eventualmente, ter morrido inutilmente como pretexto para tentar impedir que ele fosse celebrado. Essa é, de facto, uma tarefa para os historiadores.

Mais imediatamente, caberia a uma equipa internacional multidisciplinar de peritos forenses independentes, competentes e isentos, deslindar (A1) a identidade das vítimas do bombardeamento da estação ferroviária de Kramatorsk e (A2) a autoria do bombardeamento; (B1) a identidade das pessoas assassinadas em Bucha, (B2) quando e como foram assassinadas e porquê, e (B3) a identidade dos assassinos. 

Até lá, remeto os leitores interessados nas respostas a estas questões para a investigação que Michel Collon, com a ajuda do colectivo Test Media International, fez destes dois casos, que qualificou (juntamente com outros 48) de “exemplos de desinformação”. No seu livro, Ukraine, La guerre de Images: 50 exemples de desinformation (Investig’Action, 2023), Michel Collon analisa minuciosamente o caso de Bucha (pp. 182-219) e o caso de Kramatorsk (pp.270-273).  A sua investigação e análise corroboram as de outros autores, portugueses e estrangeiros (todos altamente habilitados pela sua formação escolar e experiência profissional para se pronunciarem sobre casos desta natureza) que tinham analisado esses casos à distância e imediatamente a seguir à sua ocorrência — especialmente o caso de Bucha, que causou uma grande comoção internacional [18].

[continua]


Notas e Referências

[12] Adam Schreck & Mstyslav Chernov, “The AP Interview: Zelenskyy seeks peace despite atrocities”. Associated Press, April 10, 2022.

[13] Michael Birnbaum & Missy Ryan, “NATO says Ukraine to decide on peace deal with Russia — within

limits”. The Washington Post, 5 April 2022.

[14] Handan Kansaci & Rabia Iclal Turan,Some NATO states want war in Ukraine to continue”. AA, 20/04/2022. Ver aqui..

[15] “Possibility of talks between Zelensky come to an halt after Johnson’s visit”. Ukrainska Pravda, 5 May 2022).

[16] A entrevista a Arakhamia pode ser vista aqui [https://www.youtube.com/watch?v=6lt4E0DiJts] para quem saiba ucraniano. Os trechos citados das declarações feitas por Arakhamia durante essa entrevista foram extraídos da transcrição feita pelo jornal ucraniano Ukrayinska Pravda na sua edição inglesa, em 24 de Novembro de 2023.

[17] Nos dias 5 e 6 de Abril de 2022, a Rússia negou a autoria destes morticínios. «Num vídeo publicado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov argumenta que as alegações de atrocidades russas em Bucha e noutros municípios ucranianos estão a ser fabricadas para sabotar o processo de negociação. Lavrov afirma: “Estamos inclinados a pensar que a razão é o desejo de encontrar um pretexto para interromper as negociações que estão a ser conduzidas” e afirma que a Ucrânia “tentou interromper completamente o processo de negociação” depois de os meios de comunicação social internacionais terem divulgado alegações de crimes de guerra» (“Ukraine-Russia Ceasefire Negotiations: Chapter II”. Parley Policy Initiative, May 24, 2022). [18] Refiro-me, entre outros, aos seguintes artigos: Raul Cunha, “Desinformação e perfídia, é o que temos na comunicação social” (Estátua de Sal,3/04/022);); Joe Lauria,“Questions abound About Bucha Massacre” (Consortium News, April 4, 2022); Scott Ritter, “The truth about Bucha is out there, but perhaps too inconvenient to be discovered” (RT, April 4, 2022); “Interview with Scott Ritter, by Don Bar”(YouTube, April 6, 2022, https://www.youtube.com/watch?v=kfHohl6gCJY); Jason Michael McCann, “The Bucha Massacre” (Standpoint Zero, 4 April 2022, https://standpointzero.com/2022/04/04/the-bucha-massacre/);   Jason Michael McCann, “The Anatomy of a Russian Massacre” (StandPoint Zero, 7 April 2022, https:// standpointzero.com/2022/04/07/the-anatomy-of-a-russian-massacre/);Carlos Branco, “As inteligências inúteis e as interrogações necessárias” (Público,15/04/2022); Tony Kevin, “Lies, truth, and forensics in Ukraine. The case of Bucha” (The Floutist, 16/04/2022, https://thefloutist.substack.com/p/lies-truth-and-forensics-in-ukraine); Jean Neige, “Retour sur les allégations de crimes de guerre russes en Ukraine: Boutcha (3/6)”(France Soir, 7 septembre 2022); Alexandre Guerreiro,“Valas comuns” ? Não. Fake news que nem 24h duraram” (Estátua de Sal, 16/09/2022); Scott Ritter, “Bucha, Revisited” (Scott Ritter Extra, 21 October 2022, https://www.scottritterextra.com

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