O Império a ruir – Ray Dalio prevê um colapso, mas ainda não revela o nome do parasita

(TheIslanderNews In canal do Telegram, Sofia_Smirnov74, 15/04/2025)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

“Estou preocupado com algo pior que uma recessão.”

Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, o maior fundo de hedge do mundo, alerta para um colapso iminente da ordem financeira global. Mas, embora Dalio veja a tempestade, ele não menciona o parasita. Ele chama-lhe risco geopolítico e “ruptura tarifária”. O que ele não diz é o seguinte: o colapso não é um acidente, é o resultado inevitável de um império financeiro que esvaziou o seu núcleo produtivo e lhe chamou crescimento.

O medo de Dalio é real, mas a realidade é pior. Não se trata de uma repetição de 2008 ou 1971. Trata-se da convergência de uma falha sistémica: a enorme dívida dos EUA, o desmoronamento da hegemonia do dólar, o surgimento do comércio multipolar e o uso imprudente de armas económicas por uma classe política inepta. As tarifas de Trump, vendidas como uma forma de “trazer empregos de volta” e afirmar a soberania, nada mais são do que instrumentos contundentes manuseados por uma elite rentista que terceirizou a economia real décadas atrás.

As tarifas, isoladamente, nem sequer são o problema. É como estão a ser usadas, não como parte de uma política industrial coerente, mas como retaliação ad hoc por um império falido que tenta fazer bluff para superar o jogo final da supremacia do dólar. Os EUA já não produzem. Extraem. Não investem. Inflacionam. Não constroem. Detonam. Tarifas não vão resolver isso.

Dalio menciona 1971, o ano em que Nixon separou o dólar do ouro, mas não explica porque importa isso. Foi o momento em que os EUA abandonaram a disciplina produtiva em favor do imperialismo da dívida. A partir de então, pagaram as importações globais não com mercadorias, mas com notas promissórias do Tesouro. Forçaram o mundo a manter a sua dívida sob a mira de uma arma. E agora, depois de cinquenta anos dessa farsa, a Maioria Global está a afastar-se.

Este é o fim da era do petrodólar, do “privilégio exorbitante”. O dólar ainda é dominante, sim, mas está cada vez mais ressentido, não mais confiável, não mais neutro. E quando a moeda de reserva mundial se torna uma arma, o mundo encontra alternativas. Blocos de crédito, comércio lastreado em ouro, acordos bilaterais de compensação, toda a arquitectura das finanças multipolares se está a acelerar.

Dalio alerta sobre “lançar pedras na máquina”. Mas qual máquina? A economia americana foi desindustrializada intencionalmente. Wall Street saqueou a indústria e transformou trabalhadores em servos por dívida. Silicon Valley substituiu a inovação pela segmentação comportamental de anúncios. A BlackRock transformou casas em activos de fundos de hedge. O problema não é o método. O problema é que a máquina foi sempre criada para servir às finanças, não à sociedade.

Dalio diz que o risco é a perda de confiança no dólar como reserva de valor. Mas isso já aconteceu. Os EUA deram calote no ouro em 1971. Deram calote na sua base industrial nos anos 1990. Deram calote na classe trabalhadora quando deixaram dívidas médicas, empréstimos estudantis e moradias desabarem sob juros compostos. E agora, sob o peso de US$ 37 biliões em dívidas e os pagamentos de juros que excedem os gastos com defesa, o país está a ficar sem rumo.

O que Dalio não ousa dizer é o seguinte: os EUA não estão a administrar mal o império, estão a monetizar o colapso. Cada crise é uma nova transferência. Outro resgate. Outra guerra para lubrificar os mercados de títulos. Outra ronda de tarifas para desencadear inflação e reduzir as margens.

A tarifa universal de 10% de Trump é uma medida de pânico. Uma flexibilização simbólica. A indústria não vai voltar, porque não há política para apoiá-la. Nenhum investimento público. Nenhuma fiscalização antitruste. E nenhuma tentativa de desfinanceirizar a economia. Sem quebrar o poder do sector FIRE, finanças, seguros, imobiliário, não há recuperação, apenas mais teatro.

Dalio teme algo “pior que uma recessão”. Ele tem razão. Este é o fim de um modelo de civilização. O parasita drenou o hospedeiro. O sistema está a funcionar no limite. E, a menos que alguém quebre o feitiço, a menos que nomeemos o parasita e o arranquemos pela raiz, o futuro dos Estados Unidos pode, infelizmente, tornar-se uma Grande Depressão sem as fábricas, o ouro ou a dignidade.

Fonte aqui

Os governantes elitistas europeus estão a fazer alarde da ameaça russa e da guerra a fim de sobreviverem politicamente

(SCF, in Resistir, 15/04/2025)


– Canalhas políticos europeus, impregnados de russofobia, fogem às suas responsabilidades quando histericamente retratam a Rússia como uma ameaça para o resto da Europa.   Precisam de o fazer para justificar a sua exigência de militarizar as economias europeias, promovendo uma agenda de guerra contra a Rússia.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Os dirigentes elitistas da União Europeia são a prova do ditado consagrado pelo tempo de que a guerra e o militarismo são uma fuga conveniente aos problemas internos.

E a União Europeia, bem como os seus seguidores, como os valentes britânicos, têm uma abundância de problemas intrínsecos e estruturais que equivalem a um colapso político. Ao longo de décadas, o bloco europeu de 27 membros evoluiu para uma estrutura super-estatal centralizada, em que as decisões políticas se tornaram totalmente dissociadas das preferências democráticas dos seus 450 milhões de cidadãos.

Ler artigo completo aqui.

A Europa, de novo: a cultura da paz e a cultura da guerra

(José Sócrates, in Diário de Notícias, 14/04/2025)

E é isto a Europa…

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O que vejo de pior no recente discurso sobre o rearmamento da Europa é a forma como ele é apresentado — simples questão de bom senso, dizem. Não é uma escolha, não é uma opção política, é apenas bom senso. E sendo uma questão de bom senso, não é necessário debate, nem boas razões — a coisa é autoexplicativa: a invasão russa da Ucrânia e o abandono americano da guerra não deixam alternativa. Assim se constrói o pensamento único — chamando-lhe bom senso.

A pressão do jornalismo pela política de rearmamento é tão forte que qualquer personagem que a ponha em causa é imediatamente banida para o espaço marginal que as democracias reservam aos doidos e aos hereges — não devem ser levados a sério. Eis, portanto, a nova cultura política europeia: o discurso da paz é radical, o da violência é normal. A paz é a retórica dos fracos.

O discurso nas televisões europeias aparece dominado por aquilo a que alguém chamou de fenômeno da “estupidez estruturalmente induzida”. Bem observado: se a proposta de produzir mais armas tem como principal razão de ser a ameaça russa, ela é realmente muito estúpida. Salvo melhor opinião, que não estou a ver qual seja no domínio dos fatos, a invasão da Ucrânia não aumentou a ameaça russa, mas revelou, isso sim, a sua fraqueza. Se o exército russo não conseguiu em três anos derrotar a Ucrânia, não estou a ver como poderia invadir com sucesso a Europa ocidental.

Depois, o argumento do abandono americano. É certo que a atual administração fragilizou a aliança transatlântica e afetou a confiança em que se baseia o artigo 5º da OTAN (um ataque a um é um ataque a todos). Estou de acordo. No entanto, a guerra da Ucrânia veio derrubar um mito de décadas — o de que a Europa precisa dos Estados Unidos para se defender. Há muito que isso deixou de ser verdade.

A Europa tem mais homens, mais tanques e mais jatos de combate que a Rússia. A Europa gasta mais em defesa do que a Rússia (os membros europeus da OTAN gastaram 476 bilhões de dólares em 2024 enquanto a Rússia gastou cerca de 140 bilhões). Estes dois indicadores parecem-me suficientes para contrariar o argumento base da corrida aos armamentos.

Temos ainda o argumento do regime: a ideia implícita de que o regime russo se funda numa necessidade incontrolável de expansão. O perigo russo, dizem os novos belicistas europeus, o verdadeiro perigo russo, é a sua memória histórica imperial. É essa condição que torna a vizinhança com a Rússia perigosa e que obriga os seus vizinhos a prepararem-se para a guerra. Este discurso tem raízes antigas — o perigo eslavo como razão militar. No entanto, nunca houve imperialismo sem força militar e a Rússia não a tem. E se não a tem não constitui uma ameaça.

Por outro lado, se queremos falar de pulsões primárias coletivas, convirá lembrar que os séculos 19 e 20 foram os séculos dos impérios europeus. E, assim sendo, se a história molda a atitude dos países, não se percebe por que razão a Rússia é mais perigosa que a Europa ocidental. O argumento não faz sentido, ou melhor, só faz sentido para quem julga a Rússia como inimigo eterno e os russos como pessoas não dotadas de razão.

Finalmente: o que significa realmente o rearmamento europeu? O que é que se pretende? Por mim, só vejo uma mudança critica — a do rearmamento alemão. Essa será a mudança essencial, tudo o resto será insignificante face ao que agora existe. É isso que a Europa deseja? Fazer regressar os jogos da balança de poder ao interior da Europa? Fazer regressar as desconfianças e os medos? Quantos anos passarão até que a França comece a temer o poder militar do seu vizinho alemão? Quando tempo demorará até que a Inglaterra comece de novo a fazer contas sobre como evitar o domínio do continente por uma única potência militar?

Há uns anos ouvia os dirigentes políticos sul-americanos elogiar a combinação de políticas de economia de mercado e de proteção social do estado a que demos um nome que nos orgulhava — o modelo social europeu. Ouvia-os falar com admiração do projeto de partilha de soberania que inspirou o Mercosul. Nessa altura o projeto europeu irradiava para o mundo como um projeto de paz, um projeto de defesa dos direitos humanos e de respeito pelo direito internacional.

Agora, a Europa está reduzida a isto — a falar de guerra, de armas e de inimigos existenciais. Como se a paz fosse impossível e a guerra eterna. O que está a acontecer na Europa não é apenas uma mudança de prioridades políticas, mas uma séria e profunda mudança de cultura política — a cultura da paz pela cultura da guerra.