Quem ama realmente a Ucrânia?

(Hugo Dionísio, in Facebook, 31/08/2023)

Daqui a uns dias, a mais absurda “contraofensiva” da história da guerra moderna completará os 3 meses de aniversário. Dezenas de milhares de homens mortos e feridos, centenas de carros de combate destruídos, esta “contraofensiva” preparada pelos “altos” padrões da NATO, comandada pela “inteligência” da NATO e armada com as míticas armas da NATO, não logrou, sequer, chegar à designada linha Surivikin, nomeadamente à primeira de uma série de barreiras fortificadas, atrás das quais aguarda uma reserva militar russa de mais de 250.000 homens que ainda não entraram, sequer, em combate. Para além de uma meia dúzia de vilarejos despovoados, localizados na zona cinzenta, não podemos, com seriedade, contabilizar um único sucesso militar da mais propalada, propagandeada e transparente “contraofensiva” da história.

Rabotino, um vilarejo que no seu esplendor pré-conflito tinha 488 residentes, foi subitamente transformado num significativo e estratégico marco geográfico. Sem qualquer casa de pé, localizado em terra de ninguém e sendo apenas o primeiro ponto de passagem de uma “contraofensiva” que deveria ter chegado há mês e meio atrás ao mar de Azov, continua a revelar-se inultrapassável para as forças do regime de Kiev. E tantas vezes a máquina de mistificação social – que designam como “comunicação social” – anunciou a tomada deste “importantíssimo” vilarejo! Há uma semana era o orgulhoso e arrogante General da NATO, Mark Milley. O tal que dizia que, sob o seu comando e sem apoio aéreo, as forças que comanda, à distância de um clique do seu rato, chegariam a Azov nuns dias (chegou a falar-se em dias!), e que se recusa a ver a sua “contraofensiva” como falhada. Há dois dias foi a vice-ministra da defesa quem o anunciou.

O que é que esta realidade tinha de inesperado? Absolutamente nada! Talvez apenas a teimosia, frieza psicopatológica e teimosia senil, por parte do regime de Kiev, em seguir os ditames dos seus mestres ocidentais e, seguindo-os, continuar a atirar para a morte certa centenas de milhares dos seus homens e mulheres. Para Mark Milley é fácil dizer “não podemos deixar-nos impressionar com as elevadas baixas humanas”. O que já não é compreensível é esta frieza encontrar-se também nos corações da oligarquia política e económica que dirige, hoje, o horrível destino do país “404”.

Se, sem mobilização total, o povo trabalhador era literalmente arrancado à sua vida, fosse na rua, em casa ou nas compras… Como será, agora que foi lançado o próximo passo da loucura? Se, até aqui, o regime tem sobrevivido porque tem enviado para a morte as camadas mais pobres do país, sem voz pública para se fazerem ouvir; daqui para a frente, será o que resta da classe média e pequeno-burguesa a serem afectadas, a não ser que paguem, aos sempre largos bolsos da corrupção, de um regime que, também pela corrupção, aceitou destruir o seu próprio país.

Segundo um estudo apresentado por Scott Ritter (actualmente censurado no Youtube, por dizer demasiadas e inconvenientes verdades) realizado a partir de dados de satélite em que se contabilizou o aumento do número e dimensão dos cemitérios Ucranianos, desde Fevereiro de 2022 estima-se que tenham morrido cerca de 1 milhão de pessoas como resultado da guerra.

Estes são os episódios que faltam na narrativa dos países NATO. Nas fontes informativas NATO, as forças russas estavam “desmoralizadas, mal equipadas, com armas antigas e em mau estado, em motim permanente e comandadas por gente incompetente, cobarde e corrupta”. A sempre prestável Ana Gomes, quando de propaganda se trata, dá-vos um curso sobre como descredibilizar, desumanizar e ridicularizar o inimigo (sem gasóleo para tanques, lembram-se?). Milhazes, sai do curso e fará o resto, escreverá livros, artigos e monólogos inflamados, desdizendo tudo o que disse até 1991. O facto é que, parece que, gente como eles, exageraram tanto na carga de combustível que, a dada altura, os próprios comandantes NATO e os seus patrocinados, começaram a acreditar nos filmes de Hollywood em que se tornaram os telejornais, confundindo-os com a própria realidade. Foi tão caricato que surgiam comentários de comandantes ucranianos afectos ao regime de Kiev, nas redes sociais, dizendo que, quando a “contraofensiva” começasse e os russos os vissem, logo desatariam a fugir e a render-se.

Mesmo depois do fracasso do lançamento da “contraofensiva” e do constante bater com a cabeça na parede… Nos EUA começaram a surgir ecos, em especial nos órgãos de enviesamento republicano, em que, envergonhadamente e sempre na lógica de “uma no cravo, outra na ferradura”, alguns articulistas, politólogos e analistas começaram a reconhecer o fracasso da coisa e a desconexão entre a realidade observada e a realidade avaliada.

Contudo, na Europa, em especial aqui no nosso burgo, todos continuaram a acordar, de manhã, com “as forças de Kiev estão a avançar”. Com excepção dos mesmos de sempre, objectividade foi coisa que continuou a não existir, nos meios mainstream. O avanço reportado é tanto que, por esta hora, as forças do regime de Kiev já deveriam ter chegado a Vladivostok.

Na semana passada a CNN Portugal chegou mesmo ao cúmulo de dizer “as forças de Kiev chegaram à Crimeia”. Um barco, com uns quantos suicidas, para efeitos de propaganda mediática, conseguiu, pela calada da noite, chegar à costa e lá colocar uma bandeira, filmar e fotografar. Morreram todos. Esta parte a CNN Portugal não contou. Aliás, mostrou mesmo imagens de veículos militares russos nas ruas de Sebastopol, apresentando-as de forma ao espectador pensar que estaria a ver a tal “unidade” das “forças especiais” de Kiev. Na mesma peça diziam que as forças de Kiev tinham atingido a “linha mais importante de defesa das forças russas”, não dizendo que se tratou de uma incursão suicida que acabou como a da Crimeia. E, por fim, ainda diziam que Kiev tinha feito o maior ataque de drones desde sempre, não dizendo que tinham sido praticamente todos detectados e abatidos ou aterrados por meios de guerra electrónica.

O mesmo tipo de análise é feito quando, numa fase já de total desespero, o regime de Kiev recorre ao terrorismo puro e duro, atirando drones e bombas contra alvos estritamente civis, perpetrando actos de pura execução terrorista, contra determinadas pessoas, cujo único pecado é o de pensarem diferente. A estes actos os órgãos da “credibilidade” e do “fact-checking” apelidam de “ataques”, ou então, fazem como o Milhazes, que os refere como “ataques terroristas”, mas nunca diz quem os perpetrou. A outra técnica é apontar sempre para o Kremlin. O NordStream? Foi o Kremlin; a barragem? Foi o Kremlin; A central nuclear? Foi o Kremlin; Prigozhin? Foi o Kremlin… Quem o diz? “Fontes” da “inteligência britânica”, “americana” ou das “forças ucranianas”!

Ninguém esperaria que, do ponto de vista editorial, estes órgãos tomassem o partido dos “inimigos” declarados. Não podemos também esperá-lo das fontes russas, iranianas, indianas, turcas, latino-americanas não-alinhadas com o Ocidente, sauditas… Mas qualquer dos órgãos de comunicação mais representativos destes países, pela minha experiência, mesmo tomando o partido de quem os domina (há sempre quem domine), faz análises mais alargadas, diversificadas e objectivas do que os órgãos ocidentais.

A comprová-lo…. Está a própria realidade. Uma das características da comunicação capitalista na sua fase neoliberal consiste em alienar o espectador da realidade histórica e factual. Não lhe contando a história, ou apenas revisitando-a de forma parcial ou enviesada, o espectador é remetido para uma realidade desconectada entre si, perdendo a capacidade de organização da informação e passando a depender, ainda mais, do emissor informativo que causa essa dependência.

Notícias surgem, todos os dias, nos nossos jornais, sobre como o sector industrial – em especial no norte do país – se prepara para enfrentar uma enorme crise, em resultado da destruição da base industrial alemã e europeia, em geral. Mais uma vez, como no caso do fracasso da “contraofensiva”, a crise inflacionária, energética, alimentar e industrial na Europa, também nada traz de novo a todos os que, a partir de certa altura (24/02/2022 foi apenas um catalisador), optaram por passar a informar-se em órgãos de comunicação alternativos, passando a integrar a informação ocidental, num leque variado de fontes, ao invés de a utilizar como “a única fonte”.

Vejamos, uma vez mais, o caso ucraniano, para percebermos como diverge a realidade da narrativa que passa nas TV’s, jornais e livros ocidentais. Diz a narrativa oficial, marcada a letras de ouro nos instrumentos legais da UE, que a Ucrânia sempre foi muito maltratada pelos russos e, ainda pior, pelos bolcheviques. Tal é a narrativa que, até se inventou um genocídio alimentar programado só por vingança. Segundo a narrativa, nunca a Ucrânia, ligada à Rússia, poderia almejar qualquer tipo de liberdade e desenvolvimento. Diz a narrativa que, a história soviética da Ucrânia foi um desastre para o povo ucraniano.

O que nos dizem os factos, a realidade? Primeiro que o ódio ao comunismo era tal que o Presidente Kuschma, do PCU, ganhou todas as eleições até à “revolução Laranja”, fomentada pelos EUA, em 2004. E a “revolução laranja” tratou-se de uma artimanha engenhosa e inconstitucional (eleições presidenciais com uma 3ª volta) fomentada pela CIA, para fazer eleger um presidente que lhe fosse simpático, uma vez que já haviam perdido as esperanças em destronar Putin na Rússia.

Segundo, os pais da República ucraniana são os bolcheviques. Até à fundação da República Socialista Soviética da Ucrânia em 25/11/1917, a Ucrânia era uma região do império russo. Era a “ucrânia (fronteira) da Rússia”, território disputado pelos vários impérios adjacentes ao longo de séculos. Para agravar ainda mais o “ódio” bolchevique à Ucrânia, foi Lenine e não outro que, em 1918 lhe junta o Donbass. Porquê? Porque a “odiava” tanto que queria juntar regiões industrializadas russas, para que, com estas, o território ucraniano, como um todo, se pudesse desenvolver. E como se desenvolveu. 

Com um “ódio” ainda mais doentio, Krushev, em 1954, para reforçar a amizade entre russos e ucranianos, fez integrar o oblast da Crimeia (região autónoma da Rússia), na república ucraniana. Afinal, a água e electricidade da Crimeia vinha da Ucrânia.

O ódio era tão grande e irracional que a evolução demográfica da RSSU diz tudo: Em 1922 tinha 26,2 milhões de habitantes; em 1940 tinha já 41 milhões (e tantos que o “Holodomor” fantasiosamente matou); 31,4 em 1946, graças a Bandera; 51,6 milhões em 1990. Em 1991 já passavam dos 52 milhões. Um ódio tão grande que a população duplicou em menos de 70 anos. Parece a Portuguesa e a da Europa ocidental, não é? Era um território tão mau para se viver que a população duplicou em 69 anos!

Depois, de acordo com a narrativa NATO, veio o amor ocidental. E o amor ocidental foi um sucesso. Mas não para o povo ucraniano. Se na URSS a Ucrânia chegou a ser a 5ª economia europeia e a 10ª do mundo, de 1991 a 2004 era um país com indústria de aviação, aeroespacial, gás, petróleo, uma potência agrícola, mineira, um país letrado, de gente inteligente, culta e com todo o potencial para, mesmo após o colapso da URSS, poder continuar como um potentado europeu. Tudo produzia a Ucrânia, naquele conceito “ultrapassado” de soberania e independência nacional, de que os comunistas tanto gostam, mas que é indispensável para sermos livres nas nossas escolhas e destino colectivo e individual. Mesmo vítima da corrupção crescente, assim mesmo, em 2001, a Ucrânia tinha ainda 48,5 milhões de pessoas.

O “amor” ocidental, o “apoio” e a “cooperação” fizeram cair a população do país para 45,2 milhões em 2014; 39,4 em 2015 (saída da Crimeia); 37,3 em 2022 e 26,5 em 2023. Este país deveria ter, continuando o seu ritmo normal de 1990, cerca de 55,6 milhões…. Tem metade! De revolução “democrática” em revolução “democrática”, tornou-se tão bom aí viver que, entre 2001 e 2023, o país perdeu mais de 22 milhões de pessoas. Um sucesso, esta “cooperação” com o Ocidente.

O país passou de ser uma potência económica, para se tornar o mais pobre da europa, estando hoje ligado à máquina de dólares, para não morrer. Literalmente. A Blackrock, Monsanto e outras corporações “amigas” têm comprado, a preço de saldo, tudo o que resta, a indústria está destruída e, em virtude das “vitoriosas” aventuras militares em que se empenharam, estão prestes a perder a ligação ao mar. Ou seja, a paixão do Ocidente pela Ucrânia é de uma toxicidade mortal. É uma espécie de “atracção pelo o abismo”. Ao contrário do que se propagandeia, o país não tem liberdade de expressão, cultural, étnica ou política. Neste país, a única garantia que existe é, ou pagar-se ou ir para à linha da frente, contra os russos, porque o tio Sam manda. Foi para isso que EUA e Inglaterra boicotaram o acordo de Istambul, em Março de 2022. Em cima disto tudo, o país deve mais de 100 biliões aos seus “credores” americanos e europeus. Mais de metade em armas que, ou já queimaram, ou ainda faltam queimar. E como ardem as “wondewaffe” ocidentais, quando levam com os ultrapassados mísseis, drones e projéteis russos.

Seja pela guerra, pela anexação do Donbass e Crimeia pela Rússia ou pela destruição da rede social, económica e cultural existente, este país só está onde está por causa da sua aproximação ao Ocidente e da engenharia social a que a CIA o submeteu, em especial, a partir de 2001. Uma vez mais, esta realidade contrasta totalmente com a narrativa ocidental. Contudo, e também uma vez mais, é corroborada por tantos e tantos países aos quais aconteceu o mesmo. Letónia, Estónia e Lituânia, têm hoje metade da população que tinham em 1991 e das mais baixas taxas de fertilidade do mundo. Qualquer um deles, a ver pelos gastos militares (os mais altos da NATO em % do PIB) e em conjunto com a Polónia, já tirou a senha para se atirar à Rússia, quando a Ucrânia estiver humanamente esgotada. O que, pelas palavras do próprio NYTimes, já acontece. Eis o sucesso do “amor” ocidental.

Assim, três meses após o início de uma contraofensiva que se anunciava falhada, vale a pena relembrar que, quando se tornar, por força das circunstâncias, impossível ao regime de Kiev continuar a acreditar que pode vencer a guerra, há quem o tenha visto, dito e escrito desde o início da “aventura”. E não são poucos… Não passam é na TV!

Quando a Europa se encontrar em pior situação do que aquela em que já se encontra, houve quem o tenha dito, visto e anunciado logo que se instalou a tentação para o abismo. Não se trata de adivinhação: trata-se de diversificação das fontes de informação, sem preconceitos e fugindo à bolha comunicacional que Google, Facebook e Youtube nos colocam à frente.

Nenhuma narrativa substitui a realidade. Apenas a pode esconder por algum tempo. E a realidade diz-nos que a Ucrânia está a morrer e quem a está a matar não são os que, supostamente, aí estão a combater. São os que a “ajudam”, “apoiam” e “suportam”!

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Truanismo — o regime de falsificação da história e dos valores

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 27/08/2023)

A propósito da atuação de Marcelo Rebelo de Sousa na presidência da República, António Barreto escreveu na sua coluna no Público (26/08/23) — Grande angular: «O regime está mudar». “O Presidente vetou tudo. Não por motivos constitucionais, jurídicos e constitucionais, mas por razões políticas e programáticas.” (…) “Além do tradicional, o Presidente parece agora desempenhar vários papéis. O de fiscal da ação política, provedor do cidadão, colegislador, responsável pelas políticas públicas.” (…) “ Estamos a assistir a uma mudança de regime” E exalta como exemplo da virtuosidade da ação de Marcelo Rebelo de Sousa e da mudança de regime a patética visita a Kiev para marcar o ponto: “ O Presidente da República desempenhou na Ucrânia, com garbo (hirto a marchar com os braços colados ao corpo em direção ao mural de Bucha) e competência (sic), cultural (sic — deve ter sido quando falou ucraniano) e afetuosamente (é um distribuidor de afetos ambulante, sabe-se), com brilho e distinção” (é uma nota de um examinador amigo).

A António Barreto salta a boca para a verdade e para a contradição quando afirma (para fazer a quadratura do círculo): “Ultrapassou (sic) as tradições de cerimónia. Dentro das margens estabelecidas pela Constituição (definidas por Barreto), foi um verdadeiro Chefe de Estado (uma figura não contemplada na Constituição) e chefe da política externa” (outro pé fora da Constituição).

As contradições no raciocínio de A Barreto são antigas e evidentes. É evidente que Marcelo Rebelo de Sousa subverte a natureza do regime que foi votado pelos portugueses e que está fixado na Constituição. A primeira conclusão a tirar é a de que estamos perante um abuso de poder exercido por quem se arroga do exercício de um cargo em seu proveito e à margem da lei. A António Barreto não interessa referir o pormenor de que a mudança de regime que ele diz estar em curso coloca a velha e decisiva questão de todos os regimes de saber quem julga os juízes! Nos Estados Unidos os presidentes vão a tribunal!

Estes casos de abuso de poder são tão mais perversos e de chocante desonestidade porquanto são praticados pelos que foram eleitos para respeitar os limites dos outros poderes, o que implica serem particularmente exigentes consigo e com os seus. Não é, manifestamente o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, nem do seu apoiante António Barreto, que interpretam a lei segundo o seu interesse, sem limites. Que se colocam permanentemente na posição do soberano atrevido e do truão irresponsável.

A importância e o foco da mudança de regime que o artigo de António Barreto evoca no título não reside, contudo, apenas na corrupção constitucional e no abuso de poder de Marcelo Rebelo de Sousa que, sendo graves, são uma consequência de uma prática que se tem vindo a impor nas chamadas democracias liberais do Ocidente, cada vez menos democracias, menos liberais e mais totalitárias, iliberais e populistas.

Regimes que têm sido definidos, à falta de melhor, por democracias iliberais — em que os cidadãos votam para uma assembleia que os devia representar, mas em que o poder de facto reside noutras instâncias, capturado por “presidentes”, presidentes de estados, de corporações financeiras e da indústria, de instituições, por manipuladores de opinião, civis e religiosos.

Marcelo Rebelo de Sousa é mais um na linha desse tipo de políticos populistas que incluem personagens como Reagan, como Bush jr, Obama, Blair, Boris Johnson, como João Paulo II ou o bispo da IURD, como Trump, ou, recentemente, como Ursula Von Den Leyen e Zelenski.

É o surgimento destas novas personagens como figuras de efetivo e real poder que carateriza os regimes políticos no espaço civilizacional que reuniu a tradição e a filosofia grega, inglesa e francesa que eram, sublinhe-se, regimes aristocráticos, em que o soberano (mesmo que formalmente presidente de uma república) se deificava, exercia o seu magistério de forma distante, raramente sujava as mãos e se expressava através de vassalos, o mais eficaz dos quais era o truão. O truão, uma palavra de origem provençal, era sustentado pelos reis, pago para fazer passar com zombarias e bobagens, sem tumulto e de forma indolor, as ações mais subtis e perversas do exercício do poder real.

Os novos poderes, os novos regimes a que A. Barreto associa Marcelo Rebelo de Sousa, têm como novidade essencial a tomada do poder pelos truões. Os truões deixaram de ter um soberano para quem trabalhavam e passaram a ter eles o poder. Um processo que já havia sido previsto por George Orwell em O Triunfo dos Porcos e que tem levado vários atores ao poder real, Reagan, Trump, Johnson, Zelenski. Marcelo Rebelo de Sousa era, recorde-se, um popular comentador político nas televisões!

O truanismo de Marcelo Rebelo de Sousa manifestou-se em pelos menos três casos exemplares. O primeiro na triste viagem de salamaleques a Londres para celebrar o Tratado de Aliança Luso-Britânico. O tratado é tudo menos merecedor de hinos e cortesias de dobra da espinha por parte de Portugal. O tratado serviu os interesses dos ingleses, que utilizaram Portugal continental como base de combate a Napoleão e passaram a ter direito ao comércio do Brasil. O tratado transformou (ou oficializou) Portugal numa colónia inglesa, o que não é motivo para os ademanes de Marcelo Rebelo de Sousa perante uma outra figura de decoração, Carlos III, ademanes, vénias e sorrisos que transmitem a mensagem que Portugal e os portugueses se sentem muito bem, felizes, como fiéis servidores e vassalos de suas majestades britanicas. Marcelo Rebelo de Sousa pode ter o dorso moldado para servir de montada, mas não essa atitude não consta do cartão do cidadão.

A segunda exibição truanesca ocorreu com a visita do Papa, durante a Jornada da Juventude: ver um Presidente a fazer de sacristão não é um bom estímulo para nós, enquanto portugueses, nos interrogarmos sobre o papel das várias instituições na nossa sociedade. A beatice de Marcelo pode ser-lhe confortável, mas revela falta de respeito pela responsabilidade individual dos portugueses que decidem por si, segundo o seu livre arbítrio. Os que não pertencem a um rebanho e dispensam pastores não se revêm nestas atitudes.

Por fim, esta risível (talvez seja o melhor qualificativo) visita a Kiev. Em termos políticos é uma prova de vassalagem, de truanismo: o presidente de Portugal está com os Estados Unidos, como Durão Barroso já estivera com Bush na invasão do Iraque e Santos Silva havia estado com Trump a apoiar Guiadó na Venezuela. A visita está nessa linha de vassalagem de um truão. E, não satisfeito com essa tarefa, Marcelo Rebelo de Sousa atribui o colar da Ordem da Liberdade a Zelenski! O qual, suprema ironia, recusa porque é modesto e não quer ficar como único responsável pelo desastre que se prevê venha a ser o futuro da Ucrânia. Nem com a glória, na versão otimista. Por fim, declara que as suas palavras e atitudes comprometem Portugal e os portugueses no seu todo e para sempre! Assim nega o presidente que exerce a função num regime de liberdade, logo de pluralidade, o direito à diferença. A mudança de regime detetada por António Barreto não parece trazer nem liberdade, nem responsabilidade, nem senso das realidades, nem respeito pelos direitos dos cidadãos.

Mas o truanismo, a farsa da atribuição da Ordem da Liberdade a Zelenski nem assenta na personagem Zelenski, nem no processo que o levou ao poder, e que ali o mantém, nem na natureza do regime ucraniano, mas sim na corrupção feita por Marcelo Rebelo de Sousa do conceito de Liberdade que a atribuição (falhada ou não) da Ordem significa a vários títulos. O primeiro dos quais é o presidente da República Portuguesa, professor doutor, constitucionalista e político de relevo desde a mais tenra idade, confundir Liberdade — um valor ético — com Independência — um valor político.

Na Ucrânia o regime no poder luta pelo que entende ser a Independência política e pelos interesses a ela associada. Não luta pela Liberdade. O regime ucraniano e os seus dirigentes não clamam por liberdade (que abafaram): clamam por integração em instituições multinacionais que lhe retiram liberdade sob a forma de parcelas de soberania. Em última estância, o presidente português ofende os ucranianos (não colocando como exigência da perda de soberania que eles se pronunciem livremente) e confunde os portugueses com o abuso da entrega da Ordem da Liberdade a quem pede sujeição, mesmo com o pretexto de se defender de uma invasão, esquecendo o que fez ou não fez para a provocar ou para a evitar. As causas da guerra são não temas para os fiéis que cumprem o seu dever de presença.

A contradição final: Quem impede que a Ucrânia e Zelenski entrem para NATO e para a União Europeia não é a Rússia, são a NATO e a União Europeia que negam a liberdade da Ucrânia, não a recebendo. Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de um Estado membro da NATO e da U E, outorga a Ordem da Liberdade a um Estado a que os seus parceiros negam a liberdade de aderir a esses dois esteios da Liberdade! E depois ri-se tira uma selfie. Em que gaveta, caixote ou armário ucraniano estará metido neste momento o colar da Ordem da Liberdade?

O truanismo segue impante e sem se deter com ninharias.


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Zelensky compra vivenda de luxo no Egipto enquanto os seus soldados morrem na linha da frente

(Por Lucas Leiroz, in Infobrics, 24/08/2023)


(Este artigo deixou-me enojado. Temos um Presidente que vai ao beija-mão de um bandido corrupto que está a vender a vida de milhares de ucranianos, cumprindo os desígnios da NATO/EUA, a troco de milhões dos quais ele desvia uma parte para o seu bolso, e compra mansões luxuosas em paragens paradisíacas. Temos um Primeiro Ministro que concorda e que já mandou uns milhões de euros para a conta bancária do palhaço pedinte. Ao que nós chegámos.

Estátua de Sal, 28/08/2023)


Uma reportagem jornalística recente revelou que o presidente ucraniano comprou uma vivenda de luxo no Egipto, na região de El Gouna, também conhecida como a “cidade dos milionários”. Mais do que isso, as provas indicam que Zelensky utilizou dinheiro ocidental para a compra, gastando em luxo pessoal uma parte significativa dos montantes que recebe dos países da NATO.

Os dados foram publicados pelo jornalista de investigação egípcio Mohammed-Al-Alawi. Após uma investigação aprofundada que envolveu fontes familiarizadas com o assunto, Mohammed descobriu que a família Zelensky adquiriu uma propriedade de luxo no Egipto avaliada em cerca de cinco milhões de dólares. O local está situado na zona costeira do Egipto, junto ao Mar Vermelho, uma área famosa por ter muitas propriedades opulentas. Não por acaso, El Gouna é o lar de muitos milionários interessados em ter um lugar confortável para ficar durante o seu tempo livre. Por exemplo, diz-se que ao lado da villa de Zelensky existe uma “propriedade que pertence à mundialmente famosa atriz de Hollywood e figura pública Angelina Jolie”.

O jornalista egípcio publicou os documentos que comprovam a compra da vivenda, o seu preço e as partes contratantes. Zelensky comprou a propriedade através da sua sogra, Olga Kiyashko, que assinou um contrato com os vendedores egípcios a 16 de maio de 2023.

Os analistas que comentaram o caso afirmam que a fonte do dinheiro parece não ser outra senão os pacotes de ajuda financeira ocidental que chegam a Kiev, tendo em conta o elevado preço da vivenda.

O cientista político egípcio Abdulrahman Alabbassy comentou a situação, dizendo que é “surpreendente” que Zelensky e os seus familiares gastem fortunas em luxos pessoais em vez de utilizarem as riquezas da Ucrânia para fins militares e humanitários, tendo em conta o tempo de guerra. Alabbassy culpa a corrupção ucraniana por este tipo de atitude e recorda que o sistema político de Kiev é controlado por funcionários egocêntricos que dão prioridade ao ganho pessoal em detrimento da preocupação com o seu próprio povo.

“Surpreende-me que familiares de altos funcionários ucranianos tenham começado a comprar imóveis de luxo após o início da guerra na Ucrânia. Não me lembro de nada assim antes (…) É surpreendente que a Ucrânia esteja a travar uma guerra sangrenta com a Rússia e que familiares de altos funcionários ucranianos estejam a comprar imóveis no Egipto em vez de doarem as suas riquezas às necessidades do país. Há uma suspeita crescente de que os burocratas ucranianos, com a ajuda dos seus familiares, estão a roubar a ajuda financeira do Ocidente à Ucrânia. Tenho a certeza de que a compra de uma vivenda em El Gouna pela sogra de Zelenskyy é o resultado da corrupção e do roubo da ajuda humanitária à Ucrânia. Estou sinceramente solidário com o povo ucraniano”, afirmou.

De facto, esta notícia apenas corrobora o que há muito vem sendo denunciado sobre a hipocrisia de Zelensky e a sua busca incessante de luxo e benefícios pessoais. Anteriormente, um caso que se tornou viral na Internet e gerou indignação popular foi a notícia de que o político ucraniano tinha alugado a sua luxuosa mansão de 4 milhões de euros em Itália a um casal de milionários russos – ao mesmo tempo que defendia publicamente a proibição da entrada de russos na Europa por causa da guerra. Até à data, o caso ainda não foi totalmente esclarecido, com os meios de comunicação social a confirmarem e a desmentirem a notícia. No entanto, não parece ser algo surpreendente para Zelensky, especialmente tendo em conta o que aconteceu recentemente no Egipto.

É preciso lembrar também de outras atitudes egoístas do presidente ucraniano ao longo do conflito. Por exemplo, em julho do ano passado, Zelensky e sua esposa Olena posaram para a revista Vogue no auge das hostilidades, demonstrando absoluto desrespeito pelos cidadãos ucranianos vitimados pelo conflito. As fotos foram feitas em cenários encenados que simulavam um campo de batalha, numa clara tentativa de “romantizar” a guerra para ganhar a atenção dos leitores ocidentais. Na altura, houve fortes críticas e um impacto negativo na popularidade de Zelensky.

Relativamente à corrupção, também é possível dizer que estas atitudes são realmente expectáveis. Como se sabe, o Estado ucraniano é um dos mais corruptos do mundo, sendo controlado por vários grupos oligárquicos que utilizam os recursos do Estado para proteger os seus próprios interesses. Esta situação não se alterou com a chegada da ajuda militar e financeira ocidental. Quando os pacotes de assistência da NATO chegam a Kiev, acabam nas mãos de políticos corruptos que utilizam parte desses fundos em proveito próprio. O caso da família Zelensky é um exemplo disso, mas espera-se que muitas outras situações semelhantes venham a ser reveladas num futuro próximo.

A opinião pública ocidental precisa de compreender que a corrupção na Ucrânia, amplamente reconhecida pelos principais meios de comunicação social antes da operação militar especial, não vai mudar só porque o país está em guerra. Os corruptos continuarão a ser corruptos, em guerra ou em paz. Nesse sentido, quanto mais dinheiro chegar a Kiev com a desculpa de “assistência”, mais Zelensky e outros políticos e oligarcas gastarão esses recursos em luxo pessoal.

Lucas Leiroz, jornalista, investigador do Centro de Estudos Geoestratégicos, consultor geopolítico.

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Fonte aqui.


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