Legionela da Malcata

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 10/11/2017)
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João Quadros

Confesso que estou preocupado com este surto de legionella. Primeiro, porque preocupa-me que uma pessoa vá a um hospital e saia de lá mais doente do que entrou. Segundo, e mais importante, sou um bocado hipocondríaco. Dada a minha idade, fico assustado com o sistema de saúde e dá para imaginar uma conversa, após o jantar, em casais de reformados:

– E se fôssemos ao Santa Maria?
– Está a arder!
– E ao São Francisco Xavier?
– Tem legionela.
– Tu não queres é ir sair!

Há uma espécie de salve-se quem puder. O cunhado da minha porteira, que eu gosto de citar porque vive bem e não sei do que vive, disse: “Ao menos, em Santa Maria, mataram a legionela com fogo”. A verdade é que se o cito muitas vezes é porque ele está aqui ao meu lado com uma catana apontada ao meu pescoço. Felizmente, não sabe ler.

Como sempre, tivemos o nosso Presidente a visitar os doentes. Esteve bem, até porque não havia incêndios nem outro género de catástrofes, mas gostava de esclarecer que Marcelo Rebelo de Sousa, depois do mergulho no Tejo, ficou imune à legionella.

Vamos ao que interessa: vi a primeira conferência da senhora Graça Freitas, que era o rosto número dois da Saúde Pública no país, depois de Francisco George (que foi brilhante no seu cargo, apesar de sofrer de licantropia e não ser possível ir com ele a uma conferência em noites de lua cheia), e achei que ela estava demasiado relaxada. Aquele sorriso e a forma como disse que as pessoas que morreram tinham setenta anos e estavam fraquinhas, como se elas tivessem cento e oitenta e três anos, não me convence. Faltou dizer: “Até matámos uma legionela para fazer uma canja para a senhora”.

Houve um tempo em que os médicos justificavam tudo com uma virose – o meu filho tem uma perna maior que a outra – “isso é uma virose”. Agora, tudo é justificado com o calor. Há legionela nas torres de refrigeração do Hospital São Francisco Xavier, a culpa é deste Verão que durou até Novembro. É melhor prolongar a época balnear dos hospitais até Dezembro. Vai tudo de havaianas para as urgências.
Claro que nestas coisas de eliminar uma bactéria, como a legionella, temos sempre de ter em conta a posição do PAN. Sei lá se não decidem que uma das torres de refrigeração do Hospital São Francisco Xavier serve para alojar uma colónia rara de legionella.

Posso ser eu que não sou bom da cabeça – mas tenho um atestado -, mas irem buscar os corpos a meio das cerimónias fúnebres…, só consigo entender aquilo depois de ver os sorrisos com que a Doutora Graça Freitas está nas conferências sobre a legionella. Só pode ser uma partida, porque, nitidamente, ela gosta de se divertir com isto. É inaceitável que uma família veja alguém próximo morrer por ter apanhado uma bactéria num hospital e que depois seja sujeita a ver virem buscar o falecido a meio das cerimónias fúnebres. Isto só devia ser possível se dissessem: “Vamos levá-lo, mas depois devolvemo-lo vivo”. Em Portugal, tudo falha menos a burocracia.


TOP-5

Graça feita

1. Madonna surpreende ao viajar para Lisboa em classe económica – já é das nossas.

2. Twitter de Trump foi desligado durante onze minutos – alguém tropeçou num fio em Moscovo.

3. Puigdemont exigiu não ser visto ou reconhecido nas instalações da televisão belga – penteou o cabelo
para trás.

4. Tubarão pré-histórico foi capturado na costa algarvia – mas as sardinhas…, não se pode.

5. ASAE encerrou oito padarias – o espírito de equipa tinha bolor.

Por que este é o momento mais perigoso para a humanidade?

(Leonardo Boff, in Blog LeonardoBoff, 09/11/2017)

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É um dever ético dos cidadãos conscientes, especialmente dos intelectuais, manter a humanidade informada sobre os riscos que pesam sobre ela. A insensatez da razão instrumental-analítica, criou o princípio de auto-destruição. Ela pode por fim a si mesma por muitas formas diferentes com armas químicas, biológicas e termo-nucleares. Elas não constituem uma possibilidade linginqua. São realidades já montadas e prontas para serem atividas pela arrogância e o espírito belicoso e suicidário dos portadores de poder das nações. O prêmio Nobel de Economia Paul Krugman alertou várias vezes que o atual presidente norte-americano é um perigo não somente para os EUA mas para toda a Humanidade. Ele é alguém que possui um ego tão inflado que perdeu o sentido dos limites. Ameaça pulverizar com armas nucleares toda aa Coreia do Norte. Tal intento, se ainda for respondido por aquele pais, poderá significar não apenas o fim de nossa civilização mas também o fim trágico da espécie humana e de grande parte da carga biótica do planeta Terra. Vivemos tempos de Noé. Com uma diferença. Desta vez não há uma Arca de Noé que salve alguns e deixa perecer os demais. Todos poderemos ter o mesmo fim sinistro, frustrando o plano divino da criação. É pela consciência deste risco que publico neste blog o resmo do livro de Michael Rampino, The Global Catasthrofic Risks pelo IHU, um instrumento de grande atualização a nível mundial . O texto apareceu no dia 07 Novembro 2017  no Instituto Humanístic de Unisinos (IHU). Chegou  o momento de pensar, de mudar de comportamento e de rezar ao Deus da vida para que não sejamos surpreendidos por semelhança desgraça. Se um dia assassinamos o Filho de Deus quando se encarnou entre nós (o crime maior da história) não é impossível que o ser humano, inadvertidamente ponha fim à sua existência sobre esse pequeno e belo planeta, nossa Casa Comum: LBoff


 A humanidade já esteve a ponto de desaparecer. Foi depois da terrível erupção vulcânica de Toba, na Indonésia, há 75.000 anos. Esta enorme erupção lançou tal quantidade de materiais na atmosfera que causou “efeitos comparáveis aos cenários de inverno nuclear”. “A população humana parece ter passado pelo gargalo da garrafa neste momento; de acordo com algumas estimativas, caiu para cerca de quinhentas fêmeas reprodutoras em uma população mundial de aproximadamente 4.000 indivíduos”, explica Michael Rampino no livro Global Catastrophic Risks (Riscos Catastróficos Globais). “Talvez este tenha sido o pior desastre que já recaiu sobre a espécie humana, pelo menos se a gravidade for medida por quão próximo o resultado esteve do terminal”, destaca.

A reportagem é de Javier Salas, publicada por El País, 06-11-2017.

É mais provável que morramos no fim do mundo que em um ataque terrorista ou em um acidente de avião

Segundo a teoria da catástrofe de Toba, a cinza da erupção bloqueou a entrada de luz solar e as temperaturas caíram rapidamente, tornando as condições de vida extremamente difíceis, o que levou os seres humanos à beira da extinção. Uma espécie hoje decisiva na história da Terra, capaz de deixar marca na escala geológica, e que agora corre o risco de passar pelo gargalo da garrafa de maneira semelhante, já que estamos a apenas dois minutos e meio do apocalipse.

De acordo com o relógio simbólico do fim do mundo, criado pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, chegar à meia-noite significa o abismo, e as condições atuais da humanidade nos levaram às 23h57 e 30 segundos. É o ponto mais próximo do cataclismo final, desde que a ex-URSS e os EUAexibiram seu poderio termonuclear em 1953. A instável e atrevida gestão do poder atômico mostrada por Donald Trump, juntamente com as mudanças climáticas, levou este painel de cientistas, que conta com 15 prêmios Nobel, a adiantar o relógio — que em 1991 estava a 17 minutos do juízo final. Antes do relógio ser criado, há 70 anos, ninguém poderia imaginar a humanidade se autodestruindo, e a ideia de que a raça humana poderia desaparecer era tão remota quanto um supervulcão ou um gigantesco meteorito.

Mas vivemos em tempos voláteis, embora não vejamos isso. É mais provável que morramos no fim do mundo, durante o hipotético evento que acaba com a humanidade, do que em um ataque terrorista ou em um acidente de avião. Estamos bem perto, segundo alguns dos acadêmicos dedicados a estudar os riscos existenciais, aqueles que comprometem nossa viabilidade como espécie. Como chegaremos em 2050?

Poucos se dão conta de que a ameaça de um holocausto nuclear é muito maior hoje do que foi durante a maior parte da Guerra Fria

“A maioria das pessoas não está ciente do perigo”, afirma Phil Torres, autor do recém-publicado Moral Bioenhancement and Agential Risks: Good and Bad Outcomes, da Pitchstone (numa tradução livre, Moralidade, Previsão e Prosperidade Humana: Riscos Existenciais). “Poucos se dão conta de que a ameaça de um holocausto nuclear é muito maior hoje do que foi durante a maior parte da Guerra Fria. E o negacionismo climático continua sendo inaceitavelmente generalizado, em especial entre os republicanos nos Estados Unidos”, acrescenta Torres. Para este especialista, um dos maiores desafios é encontrar a maneira de não paralisar a população ao difundir o que disse recentemente Stephen Hawking: que este é o momento mais perigoso da história da humanidade.

De conscientizar sobre os riscos Teresa Ribera entende bastante. É considerada uma das artífices do Acordo de Paris, especialista nas mudanças climáticas, sem dúvida um dos maiores perigos que teremos de combater em 2050. “É particularmente delicada a situação de populações vulneráveis em países em desenvolvimento nos quais a falta de solidariedade internacional e as dificuldades intrínsecas para fazer frente a cenários de mudanças climáticas severas causam deslocamentos e sofrimento e, com isso, instabilidade local e mundial”, observa Ribera, diretora do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e as Relações Internacionais.

Deter as mudanças globais do clima

Ribera projeta dois cenários bem diferentes para 2050. Por um lado, um de mudanças climáticas intensas, sem mais redução de emissões que a da inércia, com mudanças de uso de solo aceleradas e sem estratégias de adaptação: “Estaríamos nos aproximando de um cenário Mad Max: um mundo cheio de conflitos por acesso a recursos básicos, com injustiças e fragilidades que alimentariam populismos e reações violentas. Um mundo no qual a fragilidade dos ecossistemas e a virulência dos impactos das mudanças climáticas dificultariam a segurança alimentar, inundariam zonas baixas densamente povoadas, deixariam fora de serviço a infraestrutura básica de mobilidade, energética ou de fornecimento de água, além de provocar verões de cinco meses, muito mais dias acima de 40ºC e com mínimas não inferiores a 25ºC e incêndios cada vez maiores e virulentos em climas mediterrâneos como o espanhol”.

Stephen Hawking acredita que este é o momento mais perigoso da história da humanidade

Por outro lado, um cenário no qual adotaríamos todas as medidas para conseguir uma economia baixa em carbono: “Não poderíamos escapar de muitos dos efeitos que a inércia do sistema climático nos impõe, mas, sim, evitar os mais graves, as enormes consequências da falta de preparo e uma normalização progressiva para o futuro de nossos netos”. Ribera acredita que nos movemos peto desse segundo cenário, se bem que “é provável que não obtenhamos o melhor em redução de emissões nem com a aplicação das medidas que nos ajudem a estar preparados para os impactos”.

As mudanças climáticas são a maior ameaça para a saúde do século XXI, segundo um relatório da The Lancet e Nações Unidas. Nas grandes cidades do planeta, as inundações severas se duplicarão em 2050 enquanto 4 bilhões de pessoas sofrerão com problemas de acesso a água. Nessa data, dobrará o número de mortes decorrentes do ar poluído em boa parte dos países em desenvolvimento. As populações urbanas expostas aos furacões chegarão a 680 milhões de pessoas. Mais de 1 bilhão de pessoas padecerá com as ondas de calor (em 2015 foram 175 milhões), sendo particularmente letais para crianças pequenas e idosos, que constituirão grande parte da população em alguns países.

Se as tendências atuais persistirem, em 2050 haverá mais quilos de plástico que de peixes no mar. Nesse ano, milhões de pessoas em todo o mundo não poderão ter acesso aos peixes como fonte básica de proteínas; pode ser que em 2048 já não contemos com outros alimentos de origem marinha selvagem, segundo um estudo publicado na Science. No entanto, será preciso aumentar em 70% a disponibilidade de alimentos para satisfazer as demandas dos mais de 9 bilhões de humanos povoando o planeta. A África terá que triplicar sua produção agrícola para poder atender às necessidades de uma população que terá duplicado, enquanto os rendimentos agrícolas cairão 20% em razão dos efeitos do aquecimento. “Nos próximos 50 anos será necessário produzir mais alimentos no planeta que os produzidos nos últimos 400 anos, com a restrição adicional de garantir que os limites planetários cruciais para o meio ambiente não sejam sobrepujados no processo”, resumia The Lancet.

Se não houver intervenção contra as mudanças climáticas nos aproximaríamos de um cenário Mad Max: um mundo cheio de conflitos por acesso a recursos básicos, com injustiças e fragilidades que alimentariam reações violentas

Embora Torres considere que hoje os riscos mais preocupantes sejam decorrentes das mudanças climáticas e um conflito nuclear, acredita que há “uma série de perigos ainda mais sinistros no horizonte”, associados com tecnologias emergentes que poderiam permitir aos terroristas criar novos tipos de patógenos ou construir grandes arsenais de armas, inclusive os derivados de uma superinteligência artificial. Para 2050, este especialista fala do risco de uma pandemia, do aumento de conflitos pelas mudanças climáticas, da perda de biodiversidade mundial –“estamos nas primeiras etapas do sexto evento de extinção maciça em 3,8 bilhões de anos, e a causa é a atividade humana”. “Mas o risco existencial mais preocupante antes de 2050 envolve um ator maligno que usa biologia sintética ou nanotecnologia avançada para infligir dano global à humanidade”, afirma. E acrescenta: “É bastante inquietante imaginar pessoas como Ted Kaczynski [o Unabomber] ou algum combatente apocalíptico do Estado islâmico tendo acesso às tecnologias de amanhã”.

Os teóricos dos riscos existenciais da humanidade falam dos perigos que representam atores decisivos: desde o líder carismático de uma potência atômica a um terrorista global, passando por um erro humano que provoque um desastre inesperado. Sabendo que as decisões dos próximos 50 anos marcarão os próximos 10.000, há um ator que aparece como determinante; Donald Trump. “As políticas climáticas imprudentes de Trump, sua retórica incendiária sobre a Coreia do Norte e o terrorismo islâmicoestão contribuindo para uma situação de segurança global mais precária”, afirma Torres, diretor do Projeto para a Futura Prosperidade Humana. “Nunca estivemos em uma situação como esta. Agora mais que nunca necessitamos de sabedoria e visão de futuro. No entanto, temos Trump no Salão Oval, respaldado por um poderoso partido político que continua ignorando as terríveis advertências dos cientistas”, lamenta.

Fonte aqui

Centeno no Eurogrupo seria uma péssima notícia 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/11/2017)

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Quando Durão Barroso foi escolhido para presidente da Comissão Europeia, cargo que aceitou sem pestanejar apesar do compromisso que tinha com os portugueses, o provincianismo nacional, sempre sedento de aprovação externa, celebrou. E instalou-se a ideia de que Barroso, num lugar como aqueles, iria ser muito útil ao país. Sabemos que nenhum presidente da Comissão teve um mandato tão prejudicial para os interesses nacionais como ele.

Ainda hoje há quem acredite que a falta de apoio a Portugal se deveu à deslealdade e falta de patriotismo do atual quadro da Goldman Sachs. Enganam-se. Com outro seria igual. Barroso foi escolhido por ser fraco (e por vir de um país fraco) e facilmente manobrável por aqueles a quem devia a sua eleição: as maiores potências europeias. Ele nunca nos poderia ser útil. Tudo isto se passará se Mário Centeno for escolhido como presidente do Eurogrupo. Só que em pior, porque o cargo acumula com o de ministro das Finanças e acabará sempre por determinar a ação interna do ministro.

A escolha de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo seria um presente envenenado que criaria enormes dificuldades ao país. A partir do momento em que Centeno passasse a ser o presidente do Eurogrupo, o seu cargo de ministro das Finanças confundir-se-ia com o seu cargo europeu.

Não poderia ser firme com outros Estados se não cumprisse tudo à risca ou até mais do que à risca. Não poderia dar-se a si mesmo qualquer espaço de manobra. O que quereria dizer que Portugal deixaria de poder negociar com Bruxelas. Pelo contrário, teríamos de ser mais papistas do que o Papa na aplicação de uma ortodoxia orçamental que é nociva para a economia. Qualquer desastre que acontecesse em Portugal, fosse responsabilidade do Governo ou não, teria de contar com tolerância zero daquele que deixaria, na realidade, de ser quem negociaria os interesses de Portugal na Europa para passar a ter de dar provas permanentes de bom comportamento. Não é por acaso que nenhuma grande potência deseja este tipo de cargo. Preferem quem lhes ceda.

Na situação política atual a coisa seria ainda mais complicada. Como se sabe, o Governo depende de uma maioria que inclui dois partidos muito críticos da ortodoxia orçamental de Bruxelas. Acho que a história lhes deu razão, mas isso não interessa agora para o caso. De um dia para o outro estes dois partidos passariam a apoiar o presidente do Eurogrupo. E isto teria três efeitos. O primeiro: o comportamento “exemplar” a que Centeno estaria obrigado tornaria os entendimentos à esquerda ainda mais difíceis. O segundo: o fosso que separa o PS do BE e PCP em matéria europeia ganharia uma nova centralidade perante a relevância europeia do nosso ministro das Finanças. Terceiro: o comportamento do presidente do Eurogrupo com outros Estados (a Grécia, por exemplo) passaria a ser um problema interno. Cada crítica ao Eurogrupo seria uma crítica ao ministro das Finanças do governo que apoiam, cada apoio ao ministro das Finanças seria um apoio ao presidente do Eurogrupo.

Tudo isto, num entendimento já de si tão frágil, corresponderia a uma gestão impossível. Não acredito que a “geringonça” sobrevivesse a tamanha pressão. Por mero cálculo de risco, ninguém faria cair o Governo. Mas ele deixaria de ter a mesma base de apoio. No estado em que Costa está, não podia ser pior para ele. Se compreendo o contentamento de um ministro sem passado nem futuro político, custa-me perceber como não boicota António Costa esta candidatura. É má para ele mas, acima de tudo, é péssima para o país.