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Entrevista Inédita a Mário Soares de 07 Jan 2017

 

Este é um documento histórico que nos dias de hoje ganha outra dimensão. As tecnologias atuais são assim. Trazem-nos a imagem e a voz de alguém que acabámos do perder e que nos fala do passado para o presente, para o hoje do seu passamento físico. Na altura, provavelmente não demos ao documento e ao testemunho a importância que ele tinha. Hoje, que Soares partiu, é seguro que ele será visto com outro olhar. Mas em qualquer caso ficam as histórias de uma vida e das lutas pelas ideias de quem as conta. Mas a grande importância das histórias que Mário Soares conta na primeira pessoa de forma magistral é que, mesmo sem querermos nem o sabermos, todos nós éramos personagens das suas narrativas. Tal acontece quando a história pessoal de alguém se confunde com a história de um Povo e de uma Nação. Poucos conseguem esse feito, e poucos estão destinados a consegui-lo. Mário Soares talvez estivesse. E não escapou nem desmereceu esse destino. (Estátua de Sal, 10/01/2017)

Fonte: Entrevista Inédita a Mário Soares de 07 Jan 2017 – RTP Play – RTP

Uma lástima o triste legado de Barack Obama

(Cornel West, in The Guardian, 09/01/2017, Tradução de António Gil, in Facebook)

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Nota do tradutor: Traduzi este artigo do Guardian, para tod@s aqueles que não entenderam os 8 anos de seus dois mandatos nem a minha posição sobre ele e sua cúmplice, Hillary Clinton. Senhoras e senhores, apresento-vos o porteiro de Trump e o parteiro do neo-fascismo americano.


Há oito anos atrás, o mundo abeirava-se de uma grande celebração: a estreia de um brilhante e carismático presidente negro dos Estados Unidos da América. Hoje abeiramo-nos de um abismo: a tomada de posse de um mitómano e catártico presidente branco em sua substituição..

Este é um declínio deprimente no mais alto cargo do mais poderoso império da história do mundo, capaz de produzir um penetrante cinismo e introduzir um venenoso niilismo . Existe realmente alguma esperança de verdade e justiça neste tempo decadente? Será que a América tem mesmo a capacidade de ser honesta consigo mesma e de aceitar o seu vício auto-destrutivo, o culto ao dinheiro e à xenofobia cobarde?

Ralph Waldo Emerson e Herman Melville – os dois grandes intelectuais públicos da América do século XIX – lutaram com questões semelhantes e chegaram à mesma conclusão que Heráclito: o carácter é o destino (“semeia uma personagem e colherás um destino”).

A era de Barack Obama pode ter sido a nossa última chance de romper com a alma neoliberal. Estamos enraizados e orientados para um mercado que maltrata a integridade e para políticas voltadas para o lucro que trucidam o bem estar geral.
O nosso mundo “pós-integridade” e “pós-verdade” é sufocado pela diversão e por actividades lucrativas que pouco ou nada têm a ver com a verdade, a integridade ou a sobrevivência do planeta a longo prazo.Testemunhamos a versão pós-moderna da gangsterização do mundo em grande escala.

O reinado de Obama não produziu o pesadelo Donald Trump – mas contribuiu para isso. E os entusiastas de Obama que se recusaram a reconhecê-lo carregam alguma responsabilidade.

Alguns de nós imploraram e suplicaram a Obama para romper com Wall Street, socorrendo em vez disso «a rua principal». Mas ele seguiu o conselho de seus consultores neoliberais “inteligentes” para salvar a primeira. Em março de 2009, Obama reuniu-se com os líderes de Wall Street e proclamou: Eu estou entre vós e os carrascos. Eu estou do vosso lado e vou.vos proteger, prometeu. E nenhum criminoso executivo de Wall Street foi para a prisão.

Pedimos que fossem responsabilizados os torturadores (dos EUA) de muçulmanos inocentes e exigimos transparência nos ataques com drones dos EUA a civis inocentes. A administração de Obama disse-nos que nenhum civil tinha sido morto. Mais tarde admitiram que alguns haviam sido mortos. E ainda mais tarde disseram-nos que talvez 65 ou mais tivessem sido mortos. No entanto, quando um civil americano, Warren Weinstein, foi morto em 2015, houve uma conferência de imprensa imediata com profundas desculpas e compensação financeira. E hoje ainda não sabemos quantos inocentes foram mortos.

Nós descemos às ruas novamente com o movimento Black Lives Matter e outros grupos e fomos detidos por protestar contra a matança de jovens negros pela polícia. Nós protestámos quando as Forças de Defesa israelitas mataram mais de 2.000 palestinos (incluindo 550 crianças) em 50 dias. No entanto, Obama respondeu com palavras sobre a difícil situação dos policias, com investigações do departamento (sem ninguém sendo punido) e com os $ 225 milhões adicionais no apoio financeiro do exército israelita. Obama não disse uma palavra sobre as crianças palestinas mortas, mas chamou “criminosos e bandidos ” aos jovens negros de Baltimore .

Além disso, as políticas de educação de Obama beneficiaram a iniciativa privada e as forças de mercado que fecharam centenas de escolas públicas. 1% de privilegiados obtiveram quase dois terços do crescimento da renda em oito anos, mesmo quando a pobreza infantil, especialmente a pobreza das crianças negras, permaneceu assustadora. As revoltas dos trabalhadores de Wisconsin, Seattle e Chicago (vigorosamente reprimidas pelo prefeito Rahm Emanuel, um confidente próximo de Obama) foram silenciadas.

Em 2009, Obama considerou o governador de Nova York, Michael Bloomberg, um ” governador notável”. No entanto, ignorou o facto de mais de 4 milhões de pessoas detidas e esbulhadas sob a «ordem» da Bloomberg. Juntamente com Carl Dix e outros, sofri uma detenção arbitrária, dois anos mais tarde, por protestar contra essas mesmas políticas que Obama ignorou ao elogiar Bloomberg.

No entanto, os mídia e o meio acadêmico não conseguiram destacar essas verdades dolorosas ligadas a Obama. Em vez disso, a maioria dos especialistas bem pagos na TV e rádio comemoraram a «marca» Obama. E a maioria dos porta-vozes negros defendeu descaradamente os silêncios e os crimes do presidente em nome do simbolismo racial e de seu próprio carreirismo. Que hipocrisia vê-los agora pretensos defensores da verdade, quanto ao poder branco, quando a maioria ficou muda e quieta face ao poder negro. A autoridade moral deles é fraca e suas militâncias recém-descobertas são superficiais.

O grosseiro assassinato de cidadãos norte-americanos sem o devido processo após ordens directas de Obama foi omitido por partidários neoliberais de todas as cores. E Edward Snowden, Chelsea Manning, Jeffrey Sterling e outros testemunhas de verdade foram demonizados, assim como os crimes que expuseram foram pouco mencionados.

A maior conquista legislativa do presidente foi a de fornecer cuidados de saúde para mais de 25 milhões de cidadãos, mesmo se outros 20 milhões ainda não foram abrangidos. Mas manteve-se uma política baseada no mercado, criada pela conservadora Heritage Foundation e da qual foi precursor Mitt Romney no Massachusetts.

A falta de coragem de Obama para enfrentar os criminosos de Wall Street e a sua falta de carácter ao ordenar ataques de drones levou a revoltas populistas de direita em casa e cruéis rebeliões islâmicas fascistas no Médio Oriente. E como deporter-in-chief – expulsou 2,5 milhões de imigrantes prenunciando os planos bárbaros de Trump.

Bernie Sanders tentou audazmente gerar um populismo de esquerda, mas foi esmagado por Clinton e Obama nas desleais primárias do partido democrata . Eis-nos agora entrando numa era neofascista: uma economia neoliberal de esteróides, uma atitude reacionária em relação aos “estrangeiros” domésticos, um armário militarista ávido de guerra e a negação do aquecimento global. Ao mesmo tempo, assistimos a um eclipse da verdade e da integridade em nome da «marca» Trump, facilitada pelos mídia corporativos esfaimados de lucro.

Que triste legado para o candidato que representava a nossa esperança de mudar – mesmo para nós guerreiros que ainda agitamos os desbotados nomes da verdade e da justiça.


Artigo original aqui

Tradução in Facebook aqui

 

4% de “whatever it takes”

(Ricardo Cabral, in Público, 08/01/2017)

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A taxa de juro das Obrigações do Tesouro (OTs) a 10 anos no mercado secundário fixou-se, esta semana, em 4,04%. O mais grave é que a taxa de juro tem registado uma escalada desde o ponto mais baixo, na primeira semana de Março de 2015, em que chegou a atingir 1,57%.

É conhecido que a escalada dos juros se verifica para todos os países membros e é fortemente influenciada, por um lado, pela perspectiva do “tapering” do programa de expansão quantitativa do BCE e, mais recentemente, pelo aumento da taxa de inflação na Alemanha, em Dezembro de 2016, resultante do aumento do preço do petróleo.

Mas o certo é que a subida da taxa de juro em Portugal é muito mais rápida do que a que ocorre na Alemanha, Espanha, Itália ou Irlanda.

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Em particular, a diferença das taxas de juro da dívida pública a 10 anos da Alemanha e Portugal (o “spread”) sobe de 1,3 pontos percentuais em Março de 2015 para 3,7 pontos percentuais esta semana. Este spread relativamente à dívida pública alemã é importante porque é utilizado em modelos financeiros de investidores institucionais para determinar a probabilidade de incumprimento da dívida pública portuguesa.

As tendências longas da taxa de juro num sentido ou noutro são usuais. Mas um país com uma dívida pública que deverá ficar em cerca de 132% do PIB no final de 2016 não pode esperar vida fácil nos mercados financeiros internacionais. E, como já referi por diversas vezes nos últimos anos, a dívida pública é insustentável, continuando a defender que a dívida pública e a dívida externa do país terão de ser reestruturadas.

Claro que é particularmente penoso que essa evolução das taxas de juro se registe precisamente quando o país regista os melhores saldos primários de sempre (antes de recapitalizações bancárias). Mas esse facto só demonstra que a evolução da taxa de juro nos mercados secundários não depende da performance das contas públicas. Depende muito mais da política monetária do BCE e da política económica da Alemanha.

Durante as próximas décadas, a manterem-se as actuais condições de financiamento e dado o elevado nível de dívida do país, uma crise nos mercados financeiros internacionais pode “levar o país às boxes” (novo resgate ou mesmo incumprimento), mesmo que o país registe contas públicas equilibradas ou até excedentárias. Isto porque mesmo com défice público e défice externo nulos, o país irá precisar de recorrer a financiamento externo para amortizar a dívida que se vence, durante as próximas décadas.

O principal determinante das taxas de juro da dívida pública portuguesa é, afigura-se, o “whatever it takes” (o tudo o que for necessário) de Mario Draghi. E a mensagem de Mario Draghi do início de Dezembro de 2016, ao prolongar o programa de compra de dívida pública da zona euro, é que o “whatever it takes” já não se aplica a Portugal: o BCE não alterou as regras que o limitam a adquirir 33% da dívida pública titulada transacionada a Portugal, o que significa que poderá adquirir muito pouca dívida pública portuguesa em 2017. Parece-me que Draghi não teve força suficiente para alterar o consenso no Conselho do BCE. Os mercados ouviram Draghi, ouviram também Schäuble (Ministro das Finanças da Alemanha) e Dijsselbloem (Presidente do Eurogrupo).

Quase parece que esses decisores europeus (Schäuble mais do que Draghi) não querem que a ligeira inflexão da política económica portuguesa – que se afastou de forma quase imperceptível do rumo da austeridade e, em parte por sorte, em parte pelo seu desenho, foi premiada com uma performance económica e orçamental favorável -, possa ter sucesso, pondo em causa a ideologia dominante na zona euro.

No curto prazo, não me parece que esteja em causa a sustentabilidade da dívida. O actual Governo só pretende discutir a “renegociação” da dívida no contexto de negociações europeias. Como estas foram adiadas “sine die” – à espera de resultados eleitorais em diversos países membros –, a renegociação/reestruturação continua um assunto tabu. Pelo que se prevê que continue no país a sangria das taxas de juro e da despesa com juros.

O IGCP adoptou, desde 2013, uma estratégia que se baseou no aumento das maturidades e da almofada financeira, da qual discordei e discordo. O programa de compras de dívida pública do BCE foi alargado até Dezembro de 2017. Por conseguinte, o IGCP dispõe agora de alguma margem de manobra para reverter a estratégia adoptada desde 2013 de forma a fazer face ao aumento das taxas de juro, reduzindo a taxa de juro implícita média da dívida da República e procurando estabilizar a despesa com juros.

Em suma, a subida da taxa de juro a 10 anos a 4% é grave e não ajuda a consolidação orçamental. Mas não representa (ainda) o fim…. Ainda não é necessário ir “às boxes”.