O inimigo n.º 1 da economia portuguesa

(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 16/02/2017)

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Não é Trump. Não é o Brexit. Não é Centeno. Não é a CGD. Não é um pássaro, não é um avião. E não é a Uber nem a Goldman Sachs, pelo menos para já.

Tendo em linha de conta o que escreveu recentemente Jens Spahn (quem?!) é difícil escapar a uma conclusão: cheira a enxofre na Europa, não é só por cá. O tal cavalheiro Jens Spahn é o vice-Ministro das Finanças alemão (ah, um vice do senhor Wolfgang Schäuble).

Num artigo publicado no Wall Street Journal (9 Fevereiro, 2017) este governante revelou a abordagem alemã à Administração Trump. Essas ideias são actualmente a principal fonte de risco a curto prazo para a economia portuguesa, para a periferia da UE, e para o próprio projecto europeu.

Mas então o que se passa?! O Ministério das Finanças alemão quer à força um euro mais valorizado. O mini-Schäuble Sr. Jens Spahn dá um sinal claro naquele jornal norte-americano: “Ajudaria ter um euro mais forte”.

Percebe-se. Trump precisa de resultados económicos para segurar a sua audiência eleitorado. A tendência de aumento de taxa de juro, que é a política da Reserva Federal perante o cenário de recuperação da economia norte-americana, complica esse objectivo. Como contra-medida nada melhor que uma depreciação do dólar. Para isso outras moedas têm de ficar mais caras.

Esta é a estratégia por trás da acusação de manipulação cambial feita à Alemanha, que é simplesmente vista em Washington como quem manda na Europa. O superavit da balança corrente alemã tem atingido valores inacreditáveis (8,7% do PIB em 2016, contra um défice de 2,7% os EUA). A isso chama-se um desequilíbrio. E um desequilíbrio é um problema, atrai muita atenção.

O nosso Schäuble 2.0 Jens Spahn afirma no entanto que a razão da competitividade alemã é “o ambiente de negócios, a força de trabalho, a protecção dos direitos de propriedade e administração eficaz da justiça”. Dois economistas discordam: o prémio Nobel norte-americano Paul Krugman (aqui) e o editor alemão do Financial Times (aqui) … e são estes que têm razão. A Alemanha goza de uma moeda furtivamente mais depreciada do que teria se tivesse o Marco. É um centro de acumulação que consegue saldos positivos à custa dos necessariamente saldos negativos da periferia.

Mas a Alemanha não admite isso. Faz o jogo de Trump. Quer valorizar o Euro. Quer diluir o seu excessivo e artificial excedente sem tem ter de fazer reformas. Essas seriam reformas pró-sociais no seu próprio território (por exemplo, re-investir em infra-estruturas e inflacionar a remuneração do trabalho). Prefere, pelo contrário, aumentar as taxas de juro para todos. Sendo que se isso acontecer muitos dos países da periferia começarão a fazer “pop” como bolhas de sabão. Vão rebentar crises gémeas de dívida pública e défices comerciais.

O governo alemão não cede. Não se importa em comprometer a viabilidade da periferia, ameaçar a frágil recuperação europeia e de acicatar ainda mais as tensões em que as populações sentem que este colete-de-forças europeu não lhes serve. O que isto implica tem de ser lido muito claramente em Lisboa. Medidas de antecipação, gestão e mitigação destes riscos têm de ser equacionadas. Pode estar uma disrupção à vista, neste ano de todos os perigos.

ENTRETANTO, NO RECTÂNGULO…

  • Carrocel CGD. Já disse várias vezes aqui no Expresso que este país não sabe gerir gestores. E, em particular, os políticos não sabem gerir mega-administradores. Mas agora também se percebe que o país não sabe gerir SMS! Mas pelo menos há um Ministro das Finanças que sabe gerir as contas públicas, algo bem original se compararmos com o anterior executivo.
  • Lobisomem CDS. Então ninguém pergunta como é que um Lobo Xavier Conselheiro de Estado (das bandas do CDS e amigo do inefável Domingues) anda a acicatar o Presidente da República nesta matéria?! O CDS, excitado com um eventual e putativo acesso privilegiado as esses SMS, anda numa berraria de Lua Cheia. Já não mede a ética dessas fugas de informação nem os danos para a CGD?! Quem tem de cair é Lobo Xavier, pois anda em manobras que Belém não deveria tolerar. Tem de cair e já se faz tarde.
  • Tejo turvo. O tejo está realmente poluído e não é só problemas de descargas a montante. É preciso perceber a correlação entre mais cruzeiros e mais poluição no Tejo. A negligência da governança fluvial neste país tem de ter limites.
  • Mochilas tonelada. Há muito tempo que as mochilas dos alunos do primeiro e segundo ciclos estão a passar todos os limites. Dos vários anos que tenho reuniões de escola por deveres parentais nem uma vez isso foi identificado por responsáveis ou professores como sendo um problema de saúde pública. A consciência também deveria pesar neste caso; mas agora o urgente é resolver isto.
  • Mundet mundo. No Seixal, onde antigamente era o saudoso Seixal Jazz, há um novo sítio de bom gosto gastronómico, inteligência de serviço e de respeito pelo património material e imaterial da nossa industrialização tardia e depois decadente. Assim se vai provando a evolução da autenticidade em Portugal. Força, pois.
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Candeia que vai à frente?

(Estátua de Sal, 10/09/2017)

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A saída da Grécia da zona Euro é uma hipótese cada vez mais provável. As consequências para a zona Euro? Bem, não podem ser boas mas é difícil, senão impossível, fazer uma quantificação prévia dos estragos e das ondas de choque. Deixo esse exercício ao Ministro Alemão Schauble e à sua casmurrice austeritária e punitiva. Hoje eles, amanhã nós? E nós, Portugal?

Parece que, “nós por cá todos bem”. Ninguém anda preocupado com a possibilidade de sermos, como a Grécia, a prazo mais ou menos longo – mas talvez mais cedo do que se possa pensar -, empurrados para fora do Euro. Normalmente, quem não tem um plano B, acaba sempre a negociar de calças na mão, o que nunca é uma posição ganhadora. Andamos com tanta delicadeza a fugir à discussão do tema, medo dos mercados, medo do Schauble, medo das agências de rating,  mas acreditem, quando a hora chegar ninguém vai ter qualquer delicadeza ou complacência connosco.  Ver artigo abaixo.


O provável novo embaixador dos EUA junto da União Europeia antecipa que a Grécia saia do euro dentro de um ano ou ano e meio. Já o ministro alemão das Finanças voltou a alertar para esse risco caso o Governo grego não aplique as reformas tal como acordadas a troco do terceiro resgate…..


Resto do artigo aqui: Cenário de saída da Grécia do euro está de regresso – União Europeia – Jornal de Negócios

A Fitch e o rating

(João Galamba, in Expresso Diário, 06/02/2017)

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Vale a pena consultar o que a Fitch foi dizendo ao longo dos últimos dois anos sobre Portugal e os bancos portugueses para perceber a razão pela qual o rating da dívida pública portuguesa não seguiu a trajectória que, durante o ano de 2015, se esperava que viesse a ocorrer em 2016 e 2017. Não é porque este Governo existe, como Maria Luís Albuquerque afirmou num evento da JSD, é porque a verdadeira dimensão dos problemas e desafios no sector financeiro só se tornou conhecida após as eleições. A 25 de Setembro de 2015, a poucos dias das eleições, a Fitch dava um rating BB+ com outlook positivo à dívida pública portuguesa. Portugal, dizia a Fitch em comunicado, tinha a economia a crescer em linha com a média da zona euro, ia ter um défice abaixo dos 3%, o que permitiria sair do procedimento por défices excessivos, e apresentava um sector financeiro estável. O único risco era o adiamento da operação de venda do Novo Banco que criava “um risco elevado do Novo Banco ser vendido por menos do que o valor da sua capitalização (4,9 mil milhões de euros)”. Até na Caixa Geral de Depósitos o discurso do então Primeiro-Ministro era sobre o reembolso do dinheiro injectado pelo Estado, e não de qualquer necessidade adicional de capital. Ou seja, até às eleições, o que se discutia era quanto é que o Estado ia reaver do dinheiro injectado no sector financeiro, não quão mais é que teria de injectar no futuro. Desde então, tudo mudou.

O Banif, que a Fitch considerava estável, foi resolvido a 20 de Dezembro, menos de um mês após a tomada de posse do actual Governo.
Também em Dezembro, no dia 29, por determinação do Fundo de Resolução, o Novo Banco foi recapitalizado em mais 2 mil milhões de euros. Em menos de uma semana um banco tido como estável desapareceu e um banco tido como sólido e uma resolução tida como irrepreensível resultaram em algo que a Fitch classifica de “restricted default”. 6900 milhões de euros de capital depois, a melhor oferta pelo Novo Banco implica que o Estado tenha de pagar para vender. A estabilidade de Setembro de 2015 revelava-se, assim, uma ilusão. Isto teve impacto na credibilidade do país, levou a um ajustamento (em alta) da trajectória da dívida pública e, em março, a uma degradação do outlook do rating, que passou de positivo a estável. Desde então, e até ao presente, a Fitch diz que a situação melhorou. Sim, melhorou. É certo que a realidade é pior do que se esperava, mas, depois de desfeita a ilusão da saída limpa alimentada até às eleicões, os problemas têm sido enfrentados e estão resolvidos ou em via de resolução: o problema da recapitalização da Caixa foi resolvido, o BCP foi recapitalizado e as dúvidas em torno da estrutura accionista do BPI desapareceram. O maior problema, que vem de trás, e que a oposição não parece considerar ser um problema, muito menos uma prioridade, é a questão do crédito mal-parado, que a Fitch reconhece ser uma prioridade política do actual Governo. Uma solução sistémica para este problema parece ser, para a Fitch, um evento que melhoraria as perspectivas para a evolução do rating Português. Se tal vier a acontecer, será seguramente por causa de medidas do actual Governo, medidas que deviam ter sido tomadas no passado e cujo adiamento prejudicou o financiamento da economia portuguesa.

Ao contrário do que afirmou Maria Luís Albuquerque, a situação não se deteriorou face a 2015, deteriorou-se face previsto (e anunciado) até às eleições, mas está agora melhor face ao que a Fitch previa quando, em Março, já sem a ilusão da saída limpa, baixou o outlook da dívida portuguesa de positivo para estável. O sector financeiro está estabilizado ou em vias de estabilização. O défice, com ou sem medidas extraordinárias, vai ficar bastante abaixo do que a Fitch previa em Março, permitindo – finalmente – a saída do procedimento por défices excessivos.

O emprego e as contribuições sociais crescem acima do que cresceram em 2015 e bastante acima do que a Fitch achava possível. A economia está melhor do que estava quando o actual Governo assumiu funções: estava a desacelerar, baixando para 1.4% no segundo semestre de 2015, e agora está (em termos homólogos) a crescer acima do que cresceu em 2015 e a acelerar, terminando o ano a crescer mais do que os 1,6% do terceiro trimestre. A Fitch prevê que a economia cresça 1,5% em 2017, exactamente o mesmo que previa para este ano, em 2015, quando o outlook era positivo.