O benfeitor e o malfeitor dos 5%

(Carlos Esperança, in Facebook, 07/04/2025, Revisão da Estátua)

5% do PIB para armas?! É simples, é a mesma técnica!

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Durante muitos anos só conheci Calouste Gulbenkian, o senhor arménio que detinha 5% das petrolíferas e deixou uma Fundação, com o seu nome, que presta valiosos serviços à cultura e à ciência, o que lhe vale o epíteto de benfeitor.

Recentemente, conheci Mark Rutte, político holandês, a prestar serviço aos EUA, agora como ventríloquo de Trump, que arrasta a UE para o armamentismo com imposição de 5% dos orçamentos de cada um dos seus países para compra de armas e munições para a NATO, uma aliança militar ao serviço dos EUA.

Tendo os EUA mudado de inimigo, entende Rutte que cabe a todos os países da UE a prossecução da guerra e a continuarem aliados dos EUA contra os próximos inimigos, à custa dos orçamentos de cada país. É, até prova em contrário, um malfeitor.

O que surpreende é a genuflexão dos líderes que confundem os interesses da UE com os da NATO e deixam à solta Macron e Keir Starmer, ambos a procurarem os benefícios dos empréstimos, contraídos por todos, para ampliarem os negócios de armas e munições de cada um. Ora, Starmer é o líder do Reino Unido, país satélite dos EUA que saiu da UE, e Macron o líder desacreditado em França que pretende reabilitar-se a colher benefícios. E ambos se digladiam na defesa dos seus interesses próprios.

Com a UE vítima das tarifas de Trump – o indomável patife que despreza os europeus e abomina a EU -, Starmer, em vez de ser unir aos países que desejam a resposta unânime aos 20%, deserta e negoceia uns amigáveis 10%, que lhe permitem lucros a intermediar produtos europeus, enquanto Trump não destruir a economia dos EUA.

Se não fossem as almas de vassalos de António Costa e Von der Leyan, eles estariam já a aplicar os recursos da UE para atrair professores e investigadores das universidades dos EUA para a Europa, disponíveis após os cortes federais de Trump.

Se não fosse o masoquismo, em vez de escolherem para inimigos os dos EUA, estariam a defender a Gronelândia e a procurar novos amigos e uma política comum na defesa da democracia e da paz.

Quando Viktor Orbán recebe, com honras de Estado, Netanyahu, um foragido do TPI, tal como Biden e Trump, a UE não pode exigir à Hungria o que permite aos EUA, um país onde a pena de morte e outras ignomínias são aceites como normais.

Agradeceremos a Trump a liberdade para a UE se libertar da tutela dos EUA. Basta que os dirigentes europeus expliquem os benefícios da União, que deu provas e que teve nos seus fundadores o sonho, de que Jacques Delors foi o mais consequente realizador.

Mas é preciso avançar já, antes que Musk, Bezos e Zuckerberg, os criadores de Trump, se virem contra a criatura. As perdas nas Bolsas estão a pô-los nervosos!

Europa – ou se redime ou morre

(Rodrigo Sousa e Castro in Twitter/X, 21/02/2025, revisão da Estátua)


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Durante décadas a elite europeia sentiu-se confortável com a “proteção” americana. O largo e decisivo chapéu nuclear, as imponentes bases militares, a arrogante NATO avançando para Leste à procura do comunismo perdido, os fundos inesgotáveis que compravam as vozes convenientes e calavam as outras.

Afundados na sua comodidade burguesa, desprezaram os seus povos esquecendo o que tinha feito a grandeza da Europa, após a Segunda Guerra Mundial. O último lutador pela independência e unidade esclarecida da Europa, Charles de Gaulle, desapareceu e com ele levou os seus sonhos. Os valores europeus afundaram-se perante a subserviência aos interesses americanos. Adeus democracia, adeus ordem internacional e suas leis, adeus legitimidade das instituições internacionais. Tudo o que os americanos atropelavam era calcado, de seguida, pelos europeus. O embuste da guerra do Iraque, a mentira das armas de destruição massiva, a subjugação da Sérvia, a destruição da Líbia, o apaparicar dos grupos terroristas “do bem” a indiferença perante o sofrimento atroz do povo palestiniano.

Em boa verdade, em boa verdade histórica nós, europeus, vendemos a alma ao diabo.

Por último, e para cumulo da subserviência, decidimos acompanhar e participar no sonho da administração Biden/Harris tão bem expresso pelo general Austin, “vamos infligir uma derrota estratégica à Rússia” tornando-a irrelevante e eventualmente dividindo-a a nosso bel-prazer, como afirmou Kaja Kallas, ela que é a imagem perfeita do escravo encantado com o poder do senhor.

Porém os interesses americanos mudaram e os lacaios entraram em desvario. Os EUA querem agora afastar a Rússia da China, lançada aquela para os braços desta pela leviandade estratégica da UE. Ninguém sabe qual o resultado de tão dramática inversão, mas uma coisa é certa, a Europa está perante a sua própria miséria moral. Ou se redime ou morre.

O discurso fúnebre de Biden, a avisar os sobreviventes de que não passam de uma manada para abate

(Nicole Guardioka, in mural do Facebook de Alfredo Barroso, 19/01/2025)


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Não sei quem escreveu o discurso/testamento de Joe Biden aos estado-unidenses, mas admiro a sua lucidez. Fez o diagnóstico mais severo e sintético do “estado da nação”, que é também o do “Ocidente alargado” de que a Europa é a parte mais significativa.

Esta oligarquia, que congrega o dinheiro, o poder político e militar e de influência, é também a que nos governa e manipula, todos os dias e a todas as horas. Um mundo que um punhado de indivíduos pode moldar e manipular ao sabor das conveniências, diabolizando, aterrorizando, destilando o medo e os ódios ou, pelo contrário, criando mitos e heróis inquestionáveis. Mas estes oligarcas não chegaram ao topo dos poderes de um dia para o outro, nem tiveram de exercer qualquer tipo de violência física: chegaram às posições que agora ocupam graças ao exército inumerável dos «cretinos numéricos» em que estamos todos arregimentados, com algumas – poucas – resistências.

Sim, fomos todos deslumbrados pela revolução informática, as «novas tecnologias», rendidos ao “progresso” que introduziram em todos os campos das atividades humanas, das finanças à agricultura e pecuária, do comércio á comunicação e aos transportes, da biologia e da genética, para invadir finalmente os domínios da investigação e inovação e da criação artística que promete a Inteligência artificial.

Sim, participámos no linchamento ideológico de todos os “lançadores de alerta” que incitavam à reflexão e propunham levantar controlos, limites, e uma avaliação criteriosa dos riscos e benefícios.

Os “velhos”, como eu, que se assustam e indignam com a indigência da nossa sociedade da informação, da censura omnipresente, da manipulação das memórias e da história são invariavelmente remetidos para a impotência resmungona dos “velhos do Restelo”.

Quando os livros desaparecem das casas, quando as palavras são pouco a pouco esvaziadas de sentido, quando os ecrãs ocupam todas as atenções, como exercer a tal “vigilância” a que Biden apela aos seus concidadãos, para resistirem à desinformação e às falsas informações?

Exemplarmente, os nossos comentadores interpretaram o discurso de Biden como endereçado ao seu sucessor Trump, como se este e a sua corte fossem a tal “ameaça” à democracia que convém derrubar quanto antes. Ou seja, como (mais) uma manifestação de ressentimento do derrotado.

Os Gates, Musk, Zuckenberg, Bezos e companhia não se deixam perturbar: Trump não é o seu problema, é a sua criatura, a que vai ajudá-los a completar a sua irresistível ascensão até ao pináculo do poder planetário.

Há já poucos Estados em condições de lhes impor limites e, quando terminarem de colonizar o espaço com os seus milhares de satélites, até as fronteiras e barreiras linguísticas ficarão definitivamente obsoletas.

Tudo, obviamente, em nome do progresso e do futuro radioso de uma Humanidade sem coração nem cabeça, mergulhada nos limbos de um mundo virtual, sem dores nem compaixão, e puro divertimento…