O crescente autoritarismo de Bruxelas

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 02/07/2026)


A Lei dos Serviços Digitais permite sancionar indivíduos apenas porque pensam diferente. Seria difícil não considerar esta Lei um inaceitável instrumento de censura.


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O prolongamento da guerra na Ucrânia poderá conduzir a uma confrontação mundial. Esquecendo o resultado das duas guerras mundiais que empurraram as potências europeias para a subalternidade estratégica, a Europa prepara-se afincadamente para travar uma guerra contra a Rússia, fazendo tábua rasa das dramáticas consequências que essa confrontação terá.

A probabilidade de um conflito militar direto entre a NATO e a Rússia é hoje, de longe, superior à de um acordo de paz. Neste turbilhão, assistimos à ação das lideranças europeias tentando convencer as suas populações da inevitabilidade da guerra. E fazem-no das mais variadas formas, não se inibindo de atropelar e subverter as normas básicas que regulam o funcionamento dos Estados democráticos. Assistimos presentemente ao que já vimos no passado, quando acontecimentos históricos foram utilizados para condicionar e reduzir as liberdades dos cidadãos, lembramo-nos, por exemplo, do onze de setembro e da Covid.

Para convencer os cidadãos da inevitabilidade dessa confrontação e da sua adesão a esses propósitos, os dirigentes europeus estão a silenciar as vozes que se opõem à loucura. Expressões como “desinformação” e “ameaças híbridas” tornaram-se recorrentes, sendo utilizadas como pretexto para policiar a liberdade de expressão. Tornou-se, segundo eles, uma “necessidade”, para defender a liberdade de expressão. O pensamento não alinhado com Bruxelas passou a ser tratado como traição.

O domínio digital tem sido um campo de intervenção privilegiado da União. As decisões que têm vindo a ser tomadas levantam-nos sérias dúvidas sobre o que se pretende: proteger ou controlar o cidadão?

Em 2021, o Parlamento Europeu aprovou a derrogação da privacidade nas comunicações eletrónicas, permitindo que os prestadores de serviços de correio eletrónico e de mensagens pesquisassem automaticamente todas as mensagens pessoais de cada cidadão, em busca de conteúdos presumivelmente suspeitos e que os comunicassem à polícia. Trata-se, pois, da vigilância em massa dos cidadãos, para adquirir a capacidade de analisar toda a correspondência privada em busca de material «problemático», de «matéria sediciosa e subversiva». Apesar de em 25 de março de 2026, o Parlamento Europeu ter votado contra a prorrogação do regime de derrogação da privacidade, a controvérsia está gerada e nada é irreversível.

Um marco neste processo foi a adoção, em 2022, pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da Lei dos Serviços Digitais, que estabeleceu regras para os serviços online utilizados pelos cidadãos europeus no seu dia-a-dia, como sejam, plataformas de comércio eletrónico, redes sociais, lojas de aplicações, plataformas de viagens e alojamentos online. Regras essas que atribuem à Comissão Europeia poderes sem precedentes.

Com alegado propósito de proteger os cidadãos, na verdade a Comissão pretende exercer controlo político sobre espaços onde a sua narrativa oficial é contestada e se encontra desacreditada, numa intromissão inaceitável.

Quem não subscrever a narrativa belicista da Comissão sobre o que se passa no conflito na Ucrânia, corre o sério risco de passar a ser acusado de espalhar “desinformação” ficando, como tal, sujeito a sanções.

A Lei dos Serviços Digitais permite sancionar indivíduos apenas porque pensam diferente. Seria difícil não considerar esta Lei um inaceitável instrumento de censura. As designadas “ameaças híbridas” passaram a ser o pretexto para punir quem ousar contestar a versão oficial da Comissão, conferindo-lhe poderes para congelar os bens dos “prevaricadores” e proibir a sua circulação no espaço da União, sem lhes garantir o direito de defesa ou a oportunidade de contestar as acusações.

As sanções já tomadas não resultaram de um processo judicial, ou de um veredicto de qualquer tribunal da UE ou outro internacional. Os cidadãos atingidos não tiveram o direito a serem ouvidos, sendo impostas sem juiz, sem julgamento, sem supervisão e sem transparência.

As sanções disfarçadas de “medidas de política externa” não resultaram de uma decisão judicial. São decisões políticas, administrativas e extrajudiciais, ao abrigo da Política Comum de Segurança e Defesa da UE, sem que tenha ocorrido a violação de qualquer lei, seguindo o princípio arbitrário de “pensas (diferente), logo violas”.

O debate político só é válido se subscrever as posições oficiais. A hipocrisia destas medidas é assustadora. Se, por um lado, a União premeia jornalistas presos noutras paragens pela dissidência, por outro, “intimida” os seus próprios cidadãos pela “opinião que expressam”. Mesmo quando se limitam a citar fontes ocidentais ou ucranianas, correm o risco de serem rotulados propagandistas estrangeiros.

A Comissão Europeia planeia levar por diante a monitorização geral e indiscriminada de chats, emails e Messenger; propôs obrigar os prestadores de serviços a pesquisar automaticamente todas as conversas privadas, mensagens e e-mails em busca de conteúdos suspeitos.

A censura de Bruxelas vem-se manifestando de muitas outras formas. Por exemplo, proibindo a transmissão de meios de comunicação social russos, como a RT e Sputnik, até à censura de redes sociais e veículos de notícias. A sua intervenção vai ao ponto de ingerir-se e reverter resultados de referendos e de eleições em que os povos exprimiram a rejeição das suas tentações autoritárias. Temos presente o que aconteceu nas eleições na Moldávia, na Bulgária, na Roménia, na Geórgia ou na Polónia, ou as tentativas de ilegalizar partidos e movimentos políticos, assim como de afastar candidatos a cargos presidenciais.

Apesar da imensa evidência disponível, passou a ser crime expor a corrupção do governo de Zelensky. Sobre a matéria, a UE mantém-se em silêncio e não sanciona funcionários ucranianos que desviam dinheiro dos nossos impostos; não reprova o brutal recrutamento de homens ucranianos levados à força para a guerra; não condena as operações de falsa bandeira da Ucrânia, como foi o recente ataque à Roménia com drones marítimos, que correu mal a Kiev. A ser bem-sucedida poderia ter tido resultados imprevisíveis. Os exemplos são infindáveis.

Este modo de atuação começou a alastrar-se aos Estados-membros. Por exemplo, o governo alemão decidiu, em 2025, começar a premiar a delação, pedindo aos seus cidadãos que denunciem familiares que tenham «visões conspirativas», promovendo um projeto designado por «Conselhos sobre o Pensamento Conspiratório», cujo objetivo é aconselhar quem «suspeite que amigos possam estar envolvidos numa conspiração ou que membros da sua família tenham sido vítimas de teorias da conspiração».

Isto é um déjà vu que nos lembra outras paragens e outros tempos, onde os códigos penais eram utilizados pelas autoridades para perseguir a dissidência, onde pensar fora dos cânones oficiais era considerado agitação e propaganda antirregime. A história repete-se agora, mas para pior, por ocorrer fora dos códigos penais.

Vemos na Europa o início de uma certa «caça às bruxas» com tiques de macartismo. Aquilo a que assistimos não representa um aprofundamento da democracia, mas sim o seu retrocesso, com a ausência de respeito pela liberdade de expressão. Como alguém escreveu, caminhamos para um «goulag intelectual, presidido pelo “politicamente correto”. Se as vossas opiniões não forem as “boas”, “politicamente corretas”, sereis ostracizados.»

Vive-se a emergência de um autoritarismo gerido e promovido por tecnocratas não eleitos que decidem sobre as nossas vidas, sobre como devem os cidadãos pensar e comportar-se. Hoje são as “ameaças híbridas” russas, amanhã não se sabe o que será. Na prática estas medidas visam meter medo, tornar as pessoas obedientes, medrosas e receosas de terem opiniões dissentes. Falamos de uma acentuada degradação da democracia.

É este o caminho que a Europa está a trilhar. É altura de nos questionarmos se é por aqui que queremos seguir. Não pode haver quaisquer cedências nesta matéria. A defesa da democracia e da liberdade de expressão não se faz com sanções, proibições de vistos, pressão regulatória e controlo do que é dito online e por quem. Trata-se da completa negação do Estado de Direito por que tantos lutaram. É um retrocesso civilizacional

Mais alvos da encíclica Magnifica Humanitas: a UE e a Palantir

(Bruna Frascolla, in S. C. F., 26/06/2026)


A Magnifica Humanitas é um documento muito importante e complexo que merece ser lido na íntegra.


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Em nossa época, enfrentam-se a ideologia woke e a ideologia darwinista social. A primeira corresponde aos estertores do neoliberalismo, no qual o empobrecimento da população é edulcorado com uma ilusão de justiça social por meio de cotas para empregos de classe média. No caso europeu, onde a população passou por uma experiência profunda de bem-estar social, essa retórica é feita sob medida para disfarçar um sadismo das classes superiores: em vez de serem povo, os europeus são abomináveis homens brancos, que merecem pagar pelos pecados do colonialismo. Podem amargar o empobrecimento, a substituição por trabalhadores ilegais e a disparada da violência.

A União Europeia encarna o projeto neoliberal de Hayek: uma entidade política forjada numa moeda única e numa burocracia reguladora, imune aos riscos da democracia e das soberanias nacionais.

Já a Palantir publicou um manifesto no qual deixa muito clara a sua crença no anarcocapitalismo: é uma empresa privada reivindicando o posto de planejadora social. Coloca-se como vencedora dentro de uma cosmovisão darwinista social, na qual o Estado pode ser facilmente compreendido como uma instituição na melhor das hipóteses defasada – e na qual o cuidado com os fracos viola as leis da natureza.

Na nossa época, portanto, ser de esquerda ou de direita tem, no mais das vezes, esses significados: ser um fã da União Europeia e, portanto, um neoliberal lambuzado num leve verniz humanitarista, ou um fã dos bilionários anti-woke, ou seja, um darwinista social explícito que clama pelo fim da ação estatal. A encíclica Magnifica Humanitas enfrenta essas duas posições ideológicas, pois o princípio da subsidiariedade, por ela defendido, é incompatível com ambas.

A subsidiariedade é o oposto da planificação imposta de cima:

Se cada mulher e cada homem são chamados a ser protagonistas da própria vida e a participar na construção da sociedade, então também a organização social deve respeitar e favorecer essa responsabilidade. A Doutrina social da Igreja denomina ‘subsidiariedade’ o princípio segundo o qual aquilo que as pessoas, as famílias, as comunidades locais e os organismos intermédios podem fazer não deve ser absorvido por instâncias superiores. As instituições de nível superior devem reconhecer, proteger e promover a liberdade e a criatividade das instâncias inferiores, coordenando os seus contributos para que cooperem eficazmente em prol do bem comum.” (Magnifica Humanitas, 68).

No século XX, a propaganda da Guerra Fria nos acostumou a enxergar o centralismo planificador como uma característica especificamente comunista, usando a Gosplan soviética como exemplo. Por outro lado, essa mesma propaganda já lançava as bases para criar uma planificação capitalista: a ideia de ordem espontânea, de Hayek, é concebida como inapreensível pela mente humana; logo, este é um problema sanável por meio de uma mente inumana, a inteligência artificial. Se a Gosplan, segundo a explicação hayekiana, estava fadada ao fracasso porque um gênio das finanças em Moscou era menos capaz de determinar o preço do ovo em Vladivostoque do que um simples vendedor in loco, a tecnologia pode, muito bem, criar canais para que o vendedor de ovos em Vladivostoque informe Moscou do preço pelo qual consegue vender ovos. Com isso, cria-se um modelo central bem informado, capaz de interferir no preço. Vemos isso corriqueiramente em aplicativos de corrida e de entrega de alimentos. E os motoristas e donos de restaurante sabem muito bem que os algoritmos exercem poder sobre si.

A Gosplan provavelmente nunca pensou em vigiar um vendedor de ovos em Vladivostoque. A Uber, por outro lado, tem o smartphone do motorista como uma espécie de escuta superpoderosa, que armazena padrões de comportamento. Segundo matéria do New York Times de 2017, “empregando centenas de cientistas sociais e de dados, a Uber fez experimentos com técnicas de videogame, recompensas gráficas e não-monetárias de pouco valor que podem levar os motoristas a trabalhar mais duro e por mais tempo – e, às vezes, em horários e lugares menos lucrativos para eles.”

O anarquista e pai do software livre Richard Stallman chamou o smartphone de sonho de Stálin, por causa de suas capacidades de vigilância e coleta de dados. Quem tem usado de tais capacidades não é nenhum Estado do mundo, mas sim as empresas capitalistas. Com muita sabedoria, portanto, a Magnifica Humanitas afirma:

Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são atores privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum.” (§5)

Em suas cruzadas contra o Estado, tanto o neoliberalismo quanto o anarcocapitalismo criaram entidades supra-estatais com poderes inimagináveis para qualquer czar vermelho. Diante desse novo cenário, no qual o Estado é hierarquicamente inferior a uma organização burocrática como a União Europeia, ou então inferior em poder e recursos a organizações privadas, defender a subsidiariedade implica defender que o Estado recupere as funções usurpadas por tais entidades. Atualmente, muitos Estados têm entregado dados de toda a sua população às Big Techs. Por isso, no parágrafo 178 Leão XIV afirma:

São estas as novas ‘terras raras’ do poder: informações vitais que, uma vez relacionadas entre si, podem utilizar-se para desenvolver modelos preditivos, orientar estratégias de investimento, antecipar crises e, sobretudo, selecionar quem e o que importa. Os titulares dos dados de saúde de populações inteiras, hoje frequentemente recolhidos sob o pretexto de ajudar, investigar ou inovar, detêm, na realidade, uma alavanca estrutural em relação ao futuro: podem moldar as necessidades e os mercados.

O Estado tem caminhado, então, na contramão da subsidiariedade, quando entrega os dados dos seus cidadãos a instâncias não-auditáveis que lhe são superiores. Leão XIV pontua:

O princípio de subsidiariedade é particularmente relevante no contexto da revolução digital. Aqui, a instância superior não é o Estado, mas cada um dos grandes atores econômicos e tecnológicos que exercem um poder real sobre as condições da vida em comum. […] A subsidiariedade exige que tais processos não sejam impostos a partir de cima, de modo opaco e unilateral […]. Neste cenário, os Estados e as instituições supranacionais são chamados a garantir regras justas e tutelas efetivas, para que comunidades locais, organismos intermédios, escolas, universidades, entidades eclesiásticas e associativas possam ter voz e contribuir para o discernimento sobre as escolhas que afetam a vida das pessoas: trabalho, acesso a serviços, gestão de dados e ambientes digitais.” (§§71 e 72)

Por aqui, resta muito claro o motivo por que a Magnifica Humanitas é uma encíclica contra a ideologia da Palantir: enquanto esta defende que tecnocratas privados planejem a sociedade por meio de tecnologia da informação, o correto é considerar a informação uma forma de poder e dividi-lo com instâncias inferiores.

No entanto, essas instâncias não se limitam à dimensão estatal ou pública – e aqui entendemos por que a União Europeia também é alvejada pela encíclica. No neoliberalismo, a democracia serve para dar um verniz à gestão tecnocrática da sociedade feita por burocratas, seja num modelo supranacional como o da UE, seja em democracias hiper-reguladas (cheia de “órgãos técnicos” autônomos, como o Brasil). Nessa retórica, a democracia equivale praticamente à salvaguarda das “instituições”, e é tratada como um fim em si mesma. Por isso, as democracias liberais têm usado a mão pesada da censura sem pudor nenhum, impondo como sacrossantos a ideologia woke e o culto às vacinas de covid. Na contramão disto, a encíclica lembra que a democracia não é fim em si mesma:

A busca da verdade é um elemento essencial para a democracia, que é, ela própria, um instrumento de participação no bem comum. Quando a questão sobre o verdadeiro perde interesse e se instaura um pragmatismo que se dá por contente com o que parece útil ou eficaz, a vida democrática enfraquece. Com efeito, ela não se nutre apenas de regras e procedimentos, mas, principalmente, de uma leal relação com os acontecimentos e de uma orientação efetiva para o bem das pessoas e do corpo social. O desinteresse pela verdade leva, lenta mas inexoravelmente, a deslizar para o totalitarismo […].” (§134)

Por mais que se vote e haja direitos no papel, é totalitário um sistema no qual as pessoas são obrigadas a dizer que mulheres têm pênis!

Magnifica Humanitas é um documento muito importante e complexo que merece ser lido na íntegra. O presente texto e o anterior terão cumprido o seu papel se levarem o leitor interessado em geopolítica a procurá-la. De fato, como argumentou o hispanólogo David Souto Alcalde, esta encíclica é mais marcante até do que a Rerum novarum, pois “é uma voz no deserto, que supera em muito as filosofias idealistas contemporâneas que exploram a relação entre democracia e técnica”, enquanto que a célebre encíclica de Leão XIII apareceu depois de uma série de textos influentes sobre a relação entre capital e trabalho. Não se escreveu nada tão importante quanto esta encíclica sobre a relação entre os tecnocratas do Vale do Silício e a organização das sociedades humanas.

N.E – Texto em português do Brasil de acordo com fonte aqui

Ucrânia, Europa e Segurança Global

(Sergey Lavrov in Resistir, 20/06/2026)


O presente artigo estava inicialmente previsto para ser publicado no Politico-Europe, com sede em Bruxelas. No entanto, devido a uma decisão de última hora da equipa editorial daquele media, a publicação foi cancelada.


Numa reunião realizada em Londres a 7 de junho de 2026, os líderes do Reino Unido, da França e da Alemanha, bem como Vladimir Zelensky, estabeleceram cinco condições prévias para que a Rússia assegure uma “paz justa e duradoura” na Ucrânia. A Europa unida apresenta agora esta lista de exigências como base para o diálogo com Moscovo.

Contexto

Mais de duas décadas de negociações com a Europa, enquanto parte do Ocidente coletivo, levam a uma única conclusão:   envolver a Rússia no diálogo serviu de cortina de fumo diplomática para a expansão geopolítica das instituições ocidentais, sobretudo da NATO e da União Europeia, para leste, até às fronteiras da Rússia.

A cumplicidade da Europa no agravamento da crise ucraniana é inegável. Juntamente com os Estados Unidos, os países europeus orquestraram a Revolução Laranja em Kiev, em 2004. Para criar uma cabeça de ponte antirussa na Ucrânia, passaram anos a subornar políticos e partidos inteiros, a reescrever a história e os programas curriculares, a cultivar e a alimentar o nacionalismo ucraniano, e não pouparam esforços para afastar a Ucrânia da Rússia.

Em 2013, a União Europeia rejeitou categoricamente a nossa proposta de compromisso sobre o acordo de associação — um acordo que Bruxelas há muito vinha a pressionar Viktor Yanukovich a assinar. Vale a pena recordar:   foi oferecida à Ucrânia uma abertura unilateral do mercado, sem compromissos recíprocos — condições que se teriam revelado incompatíveis com a permanência de Kiev na zona de comércio livre da CEI. Quando Viktor Yanukovich solicitou um adiamento, os europeus incitaram motins de rua que rapidamente se transformaram num golpe de Estado em Kiev, em fevereiro de 2014.

A Alemanha, a França e a Polónia revelaram-se então igualmente traiçoeiras. Tendo garantido que o acordo alcançado entre a oposição e Viktor Yanukovich seria honrado, lavaram as mãos do assunto no instante em que essa mesma oposição, fruto da sua própria obra, assumiu o poder. “A democracia”, disseram com indiferença, “dá voltas inesperadas”.

A Europa passou, a partir daí, a dar o seu apoio às novas autoridades. Em Odessa, a 2 de maio de 2014, o facto de dezenas de apoiantes inocentes de laços mais estreitos com a Rússia terem sido queimados vivos não suscitou uma única palavra de condenação por parte das capitais europeias.

Na qualidade de co-garantes dos Acordos de Minsk de 2015, a França e a Alemanha encorajaram efetivamente o regime ucraniano a sabotar os seus próprios compromissos. Como Angela Merkel e François Hollande admitiram mais tarde — depois de a operação militar especial já ter começado —, a implementação por parte de Kiev dos Acordos de Minsk, aprovados por unanimidade pelo Conselho de Segurança da ONU, nunca foi verdadeiramente pretendida. O objetivo, admitiram, era meramente ganhar tempo: reforçar as Forças Armadas da Ucrânia e inundá-las com armamento ocidental.

A Rússia, por seu lado, explorou todas as vias diplomáticas para atenuar a crise de segurança na Europa. No entanto, em janeiro de 2022, os Estados Unidos e a OTAN rejeitaram a proposta da Rússia de garantias de segurança mútuas juridicamente vinculativas. Os membros europeus da OTAN apoiaram ativamente essa rejeição.

Na sequência do lançamento da operação militar especial, a Europa unida deu o seu apoio aos esforços do primeiro-ministro britânico para sabotar as negociações de Istambul entre a Rússia e a Ucrânia. O apelo de Boris Johnson a Kiev – “não assinem nada, limitem-se a lutar” – fechou a porta à diplomacia genuína num futuro previsível.

Situação atual

Então, o que levou os líderes europeus a mudar repentinamente a sua retórica e a começar a falar de negociações, e o que pretendem alcançar com estas declarações? Por exemplo, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou:   o objetivo de qualquer diálogo com a Rússia é ditar os termos da Europa. Estes incluem:   o pagamento de “reparações” à Ucrânia; a retirada das tropas da Transnístria e do Cáucaso do Sul; a abolição da lei dos “agentes estrangeiros”; e a aceitação de limites rígidos quanto ao tamanho das Forças Armadas da Federação Russa. Na sua perspetiva, “não pode haver uma paz justa e duradoura sem que a Rússia seja responsabilizada”. Durante a sessão do Conselho de Segurança da ONU, em 19 de maio de 2026, um representante da UE deixou a questão bem clara:   “apoiar militarmente a Ucrânia não contradiz a busca da paz, mas serve antes como um pré-requisito fundamental para quaisquer negociações credíveis e de boa-fé”.

O plano da Europa consiste em dialogar com a Rússia, ao mesmo tempo que avança com uma campanha de guerra jurídica orquestrada através do Conselho da Europa. No seio desta organização outrora respeitada, está a ser montada toda uma infraestrutura com o objetivo expresso de “responsabilizar a Rússia”:   um Registo de Danos, uma Comissão de Reclamações e um Tribunal Especial.

A União Europeia também deu sinal verde à detenção de navios mercantes em alto mar. Já ocorreram vários incidentes no Báltico e no Atlântico. Ao mesmo tempo, o Ocidente desvia cuidadosamente o olhar dos atos terroristas de sabotagem perpetrados pelas Forças Armadas da Ucrânia nos mares Negro e Mediterrâneo.

O verdadeiro objetivo dos líderes europeus, portanto, não é negociar com a Rússia. É reforçar o regime de Zelensky e preservá-lo como plataforma de lançamento para um confronto contínuo contra a Rússia. Com isto em mente, os líderes europeus estão a esforçar-se por garantir um cessar-fogo o mais rapidamente possível e por uma única razão: impedir o colapso das Forças Armadas da Ucrânia no campo de batalha. O plano consiste em “congelar” o conflito sem abordar as suas causas profundas e, em seguida, destacar rapidamente contingentes militares da “coligação dos dispostos” anglo-francesa para o território ucraniano.

É do conhecimento geral que as elites europeias investiram o seu “capital político” no confronto com a Rússia, injetando centenas de milhares de milhões de dólares para sustentar o regime de Kiev e para aumentar os orçamentos militares dos Estados-Membros da UE e da NATO. A Europa pretende agora alcançar a “prontidão de defesa” contra a Rússia até 2030. Até lá, pretendem ganhar tempo por todos os meios disponíveis. Numa observação surpreendentemente franca em abril deste ano, o chefe do Estado-Maior da Bélgica foi direto ao ponto:   “Ainda temos alguns anos. Graças à coragem e ao sangue dos ucranianos, que nos estão a proporcionar esse tempo”.

A Europa unida continua a sonhar com a expansão. Pretende absorver a Ucrânia e a Moldávia, ao mesmo tempo que atrai a Arménia para a sua esfera de influência. A NATO já se expandiu para leste, incorporando a Finlândia e a Suécia. Quanto à Ucrânia, é cada vez mais vista como o “punho de ataque” de uma futura força militar europeia, independente dos Estados Unidos e da NATO.

Riscos para a segurança global

Esta situação representa sérias ameaças à segurança global. Um confronto direto entre a NATO e a Rússia poderia rapidamente degenerar numa troca de ataques nucleares, com consequências catastróficas.

Sob a bandeira da “autonomia estratégica”, a Europa está a assistir a um reforço significativo das suas capacidades militares, incluindo na esfera nuclear. A intenção de Paris de alargar o seu “guarda-chuva nuclear” a vários Estados-Membros da UE e da NATO é motivo de profunda preocupação. Isto não contribuirá em nada para reforçar a segurança da própria França nem dos destinatários da sua chamada proteção.

Apesar de tudo isto, a classe política e militar europeia continua a atribuir planos agressivos à Rússia — planos que, segundo afirmam, vão muito além da Ucrânia. O Presidente russo afirmou em numerosas ocasiões que tudo isto não passa de disparates, provocações e desinformação, tudo com o único objetivo de obter fundos orçamentais para a luta contra a Rússia. Este não é, de modo algum, o clima propício a um diálogo substantivo.

A posição da Rússia

No que diz respeito às negociações, Vladimir Putin reiterou no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo que a Rússia não se opõe a contactos com nenhuma das partes. Consideramos, no entanto, que a Europa é uma parte empenhada na derrota da Rússia — uma postura que os próprios europeus assumem abertamente. O diálogo com a Europa, portanto, não pode ser conduzido como se esta fosse um observador imparcial e independente.

A Rússia preferiria alcançar os objetivos da operação militar especial através da diplomacia. Isso requer garantir de forma fiável a segurança ao longo das fronteiras ocidentais da Rússia e assegurar o respeito e a dignidade dos nossos cidadãos e compatriotas, incluindo o direito de falar a sua língua materna, o russo, e de praticar a fé cristã ortodoxa. Uma maior expansão militar, política e económica por parte do Ocidente é inaceitável:   contraria os imperativos de um mundo multipolar.

Os líderes europeus devem reconhecer que o modelo de segurança regional construído na Europa ao longo de décadas, desde a adoção da Ata Final de Helsínquia em 1975, foi destruído pelas suas próprias mãos. E nunca mais será restaurado. Temos agora de avançar no sentido de criar uma arquitetura de segurança à escala do continente, aberta a todos os países da Eurásia e que reflita a realidade multipolar atual.

O princípio da segurança igual e indivisível, pisoteado pelos euro-atlantistas, pode ser incorporado numa nova arquitetura euro-asiática. Quando chegar o momento certo, também a Europa poderá juntar-se a este grande esforço.

O ponto-chave é que um diálogo significativo requer a restauração da confiança, abalada pelas ações antirrussas do Ocidente — e da Europa como parte integrante deste — na era pós-Guerra Fria. A confiança só pode ser recuperada através de medidas concretas que demonstrem um compromisso sincero em deixar de utilizar a diplomacia como pretexto para ambições expansionistas. A confiança não pode ser restaurada, nem o diálogo retomado, através de ultimatos como o que foi lançado à Rússia em Londres, a 7 de junho de 2026.

P.S.: É digno de nota que o ultimato de Londres tenha sido inequivocamente reafirmado pelos embaixadores da Grã-Bretanha, França e Alemanha na reunião realizada no Ministério dos Negócios Estrangeiros russo a 11 de junho de 2026 — uma reunião que eles haviam solicitado com muita insistência. Esse foi o único objetivo da sua visita ao Ministério.

Fonte aqui.

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