A tragédia europeia

(Por Joaquim Ventura Leite, in Facebook, 10/09/2025, Revisão da Estátua)


O Projeto Europeu: Destruído em menos de duas décadas por uma sofisticada, mas incompetente e desastrosa coligação política de liberais, socialistas e verdes, a que as restantes forças políticas europeias se submeteram sem oposição convicta ou simplesmente medo face a um vazio ideológico total. 

A Europa está presentemente mergulhada numa paranoia destrutiva, em consequência da sua posição em relação à invasão russa da Ucrânia. Para o público europeu, a narrativa que sustenta ou justifica esta paranoia é a da inevitabilidade de uma guerra com a Rússia, o que exigirá uma despesa maciça na defesa, que obviamente levará a mais concentração de poder político em Bruxelas, e maior destruição da economia e das condições de vida dos europeus. O argumento infantil e perigoso mais recente de Ursula von der Leyen  para justificar esta nova narrativa é o de que a economia russa está a “florescer” (booming!)  por  se ter transformado numa economia de guerra. Agora ela já não diz que a economia russa está em “fanicos” (in tatters, como disse em 2022 ao Parlamento), mas que está a florescer! É uma afirmação que mostra a sua total incompetência e infantilidade num cargo como o que desempenha, não por qualquer mérito seu anterior mas, exclusivamente,  por conveniência de uma coligação política conhecida: liberais, socialistas e verdes. Esta é a coligação que a história registará como a que destruiu o projeto europeu.

Mas vamos à paranoia. A minha tese resulta de um texto longo e ainda não editado para publicação. Contudo, hoje adianto as conclusões absolutamente convictas a que cheguei, apoiadas em factos e não em percepções ou  agendas políticas.

1 – A paranoia europeia nada tem a ver com qualquer hipótese de invasão russa da Europa ocidental.

    Vamos a factos. Em 1968, através de forças do chamado Pacto de Varsóvia, uma resposta da Rússia e dos seus países satélites à NATO, a URSS ocupou a Checoslováquia para pôr termo ao que ficou conhecida como a Primavera de Praga.

    Naquela altura havia dezenas de milhares de soldados soviéticos e tanques em Berlim Oriental. Ocupar Berlim Ocidental era um passo minúsculo para a URSS. A  URSS tinha do seu lado todos os países de leste. E, todavia, a invasão da Checoslováquia não gerou nenhuma histeria e paranoia sobre uma iminente invasão da Europa Ocidental. E vivia-se em plena Guerra Fria. Houve manifestações de indignação  pelo Ocidente, mas ninguém pensou que se estava a caminho de uma invasão generalizada da Europa Ocidental. Porquê então agora essa paranoia?

    Os russos querem progresso, e não mais guerras. Sofreram brutalmente não apenas durante a Segunda Guerra Mundial, mas igualmente porque  depois dela foram submetidos a  restrições severas nas suas condições de vida para que a URSS pudesse manter a sua máquina militar de dissuasão, o Pacto de Varsóvia,  e pudesse ainda apoiar movimentos e guerras contra o Ocidente pelo mundo fora.

    Eu visitei e conheci uma parte dessa URSS e senti essas dificuldades materiais dos soviéticos. O que hoje desejam é poder desfrutar dos seus recursos e viverem bem como no Ocidente. Nada de guerras. Mas, há o Putin, dizem as elites e os seus funcionários! Putin tem a ambição de recuperar o território da antiga URSS. Até hoje, tal como as inúmeras doenças imputadas a Putin, não existem documentos ou intervenções políticas de Putin formulando esse objetivo estratégico. Nem a altos funcionários russos. É, pois, uma conveniente fabricação ocidental, associada ao medo histórico da URSS!

    Na realidade, quem tem medo de quem é o oposto. A Rússia é que tem medo das falsas promessas do Ocidente sobre a não expansão da NATO para Leste. E a Ucrânia é uma questão vital para a Rússia desde que a NATO manifestou vontade de a integrar. Porquê a importância especial da Ucrânia? Porque este foi o corredor das anteriores invasões da Rússia e da URRS, respetivamente por Napoleão e  Hitler. Portanto, se alguém teme alguém, é a Rússia, e ela tem antecedentes históricos suficientes para isso.

    Então, sendo assim, como se explica a paranoia europeia? Haverá outra explicação para ela? Sim, há. E são apenas  desgraças!  

    2 – Expectativas frustradas

    No início do conflito, a expectativa era clara: a Rússia entraria em colapso militar, a economia ficaria destruída sob o peso das sanções e Moscovo ficaria isolada no plano internacional. A Ucrânia, apoiada pelo Ocidente, resistiria heroicamente e, em poucos meses, o equilíbrio europeu voltaria a assentar-se sobre a vitória da ordem liberal.

    Esse ambiente de confiança manifestou-se em várias declarações públicas. Emmanuel Macron chegou a advertir que “o Ocidente deveria evitar uma humilhação de Putin” na solução do conflito. A frase é reveladora: pressupunha que a vitória ocidental estava assegurada e que a única preocupação era gerir a derrota russa de forma a não criar instabilidade.

    Boris Johnson foi ainda mais explícito. Contou ter dito a Putin, por telefone, que a invasão da Ucrânia era um “grave erro de cálculo político”. Mais do que isso, em março/abril de 2022 deslocou-se a Kiev para transmitir a Vlodymyr Zelensky uma mensagem inequívoca: se aceitasse um acordo de paz nos termos então em discussão, o Ocidente retiraria o seu apoio; mas se optasse por continuar a lutar, teria garantido financiamento, armas e logística para alcançar uma vitória total sobre a Rússia. O episódio mostra como a confiança na derrota russa era tamanha que até uma solução negociada foi rejeitada em nome da expectativa de vitória plena.

    Mas não só. Também Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, refletiu esse otimismo inconsciente ao afirmar no Parlamento Europeu que as sanções tinham deixado a indústria russa “de rastos” (in tatters). Foi mais longe, chegando a dizer que Moscovo, sem acesso a semicondutores, estava já a retirar chips de frigoríficos e máquinas de lavar loiça para os colocar em mísseis — uma imagem quase caricatural, que procurava desvalorizar a indústria militar russa e reforçar a narrativa de colapso. Noutra ocasião, sublinhou que a Rússia estaria condenada a paralisar a sua produção petrolífera por falta de válvulas fabricadas no Ocidente.

    Hoje, essas declarações soam infantis e superficiais, porque a realidade mostra ser o oposto: a Rússia não só manteve a sua indústria militar como aumentou a produção; não só não paralisou a exploração energética como reforçou exportações para mercados alternativos.

    Este conjunto de declarações — Macron, Johnson e Ursula — mostra com clareza o clima que dominava as elites ocidentais em 2022: uma confiança arrogante, baseada em avaliações ilusórias da realidade russa. Essa confiança e arrogância propaga-se à sociedade. Aos restantes políticos nacionais, ao comentariado televisivo. E quando essas expectativas não se confirmaram, a desilusão abriu espaço para a angústia da humilhação, que ajuda a alimentar a paranoia que hoje marca a política europeia. Mas não foi apenas a humilhação política sentida hoje pelas elites arrogantes! Algo mais, e também profundo,  frustra ou mesmo assusta esta Europa dominada pelos liberais, socialistas e verdes.

    3 – O simbolismo perturbador da Rússia

    O impacto não é apenas militar ou económico. Moscovo projeta-se como um “Estado-civilização” que recupera símbolos de soberania, religião, família, cultura e identidade conservadora, em contraste aberto com as recentes agendas consideradas “progressistas” da Europa. A Rússia não oferece, nesta altura, um modelo exportável como a URSS pretendeu depois da Segunda Guerra Mundial, mas a sua mera resiliência representa um desafio ao universalismo liberal.

    Para as elites ocidentais, este simbolismo é particularmente perturbador. Uma Rússia que se afirma culturalmente no oposto duma Europa arrogantemente auto promovida como “progressista”,  e que, ao mesmo tempo, não colapsa sob sanções, é percebida como uma ameaça civilizacional — não tanto pela sua força objetiva, mas pelo que revela das fragilidades internas do Ocidente.

    4 – Um mundo em mudança para a multipolaridade.

    A Rússia não colapsou apenas por causa da resiliência da sua economia, do seu renovado poder militar e dum estado politicamente forte e com capacidade estratégica. A Rússia contou com uma mudança estrutural no Mundo, e essa mudança apoia-se também na nova Rússia renascida do colapso da URSS. O pano de fundo onde isto acontece é a transição da ordem global unipolar para uma ordem multipolar. E o que isso trouxe foi que o chamado Sul Global se recusou a alinhar automaticamente com a estratégia ocidental no isolamento da Rússia. Pelo contrário, a Rússia reassumiu um papel internacional crescente em diversas zonas críticas do Mundo como África e Médio Oriente.

    O pesadelo ocidental e europeu não assenta apenas na humilhação pelas expectativas falhadas assentes numa postura arrogante e ridícula, ou no medo das elites perante o conservadorismo perturbador da Rússia. É também a constatação de que, enquanto o Ocidente se entregava a uma deriva destrutiva sob o céu liberal,  o resto do Mundo estava em mudança por uma autonomia e por um progresso não ditado e decidido pelo Ocidente. Perceber. de repente,  que o Ocidente já não dita sozinho as regras, e que os centros de decisão se diversificam, é algo que se tornou insuportável para um Ocidente arrogante.

    5 – Consequências desastrosas irrecuperáveis

    As elites políticas europeias percebem com horror que as consequências do erro estratégico cometido com a guerra na Ucrânia não são apenas catastróficas. São irrecuperáveis.

    E os povos europeus irão reagir a isso ao longo dos próximos tempos, virando as costas à coligação que destruiu um Projeto Europeu muito promissor, que colocaria a Europa como um protagonista central na geopolítica internacional. Hoje a Europa corre o risco de se tornar uma região periférica do Mundo em desenvolvimento. Sem credibilidade e mergulhada em problemas da sua própria génese, a saber:

    A – Uma política energética que está a destruir a economia europeia em nome da salvação do planeta.

    Poucos exemplos ilustram melhor esta arrogância transformada em fraqueza do que o dossier energético. Durante décadas, a Europa construiu a sua competitividade industrial sobre o gás barato vindo da Rússia. Essa dependência era criticada pelos EUA, mas vista como inevitável em Berlim e Bruxelas.

    Com a guerra, tudo mudou. O Nord Stream foi posto fora de serviço, os fluxos de gás russo caíram a pique e a Europa virou-se para o gás natural liquefeito americano — mais caro, mais instável e logisticamente mais difícil. O que era uma vantagem estratégica transformou-se em vulnerabilidade.

    O episódio mais simbólico ocorreu há dias: a Rússia e a China assinaram um memorando para a construção de um novo gasoduto gigante a partir da península de Yamal. O detalhe relevante é que esse gás tinha sido originalmente pensado para abastecer a Europa. Agora seguirá para a China, reforçando o crescimento do maior rival sistémico da União Europeia.

    É um pesadelo pensar na competitividade da Europa sem energia barata e disponível. O peso dos verdes destruiu esse quadro, e agora um outro quadro de desenvolvimento difícil de desenhar é necessário. Mas com liberais, socialistas e verdes essa correção é difícil nesta altura.

    B – Uma politica migratória que está a destruir os alicerces da sociedade europeia em nome não se sabe de quê, talvez de um complexo de culpa, tudo muito defendido pelos liberais, socialistas e verdes.

    C – Uma aventura irresponsável na guerra da Ucrânia, em vez de se ter batido pela paz, reconhecendo as razões de segurança da Rússia.

    Estes foram os desastres que a coligação liberal, socialista e verde, causou à Europa, e que não podem agora ser rapidamente corrigidos, muito menos pelas mesmas forças políticas. O desespero pela desorientação política na UE não podia ser maior do que o atual.

    6 – Uma complicação inesperada

    Num Ocidente que se apresentava monolítico, as fissuras dentro do bloco estão a começar a aparecer.

    A narrativa da unidade ocidental é hoje uma fachada, que esconde fissuras cada vez mais profundas. Os EUA seguem uma agenda de reindustrialização e protecionismo que choca com os interesses exportadores da Europa. Dentro da União Europeia, o Leste diverge do Oeste, o Norte do Sul, e as tensões políticas internas acumulam-se e irão intensificar-se à medida que as crises internas não puderem ser resolvidas pela própria UE.

    O Ocidente já não é o bloco monolítico da Guerra Fria nem o espaço unipolar dos anos 1990. Hoje, enfrenta divisões transatlânticas e internas que o fragilizam ainda mais perante a Rússia e a China.

    Conclusão: A coligação liberal/socialista/verde está perdida e desorientada. A narrativa da guerra contra a Rússia e o aumento do autoritarismo seguem-se de forma óbvia.

    E agora um fecho com chave de chumbo! Quem são os principais coveiros do Projeto Europeu? Emanuel Macron e Olaf Scholz.

    A sua ação política só trouxe fracassos ao Projeto Europeu e aos respetivos países que foram e são centrais para o rumo europeu. 

    Emmanuel Macron: está atascado até ao pescoço na gestão da França. Falhou em,  praticamente, tudo o que a França precisava. A sua aceitação pública não vai além dos 25%. Agora está com uma crise de governo, com dificuldades de aprovar um orçamento que tenta travar a situação financeira deficitária do Estado.

    Tenta manter algum protagonismo internacional à custa da Ucrânia, afirmando volta e meia que a França vai enviar tropas para a Ucrânia, mas acabando por se encolher, uma vez que não tem capacidade militar para ajudar a Ucrânia a defender-se. Começou por dizer que a guerra na Ucrânia não era entre a Rússia e a Ucrânia, mas entre a NATO e a Rússia. Mas depois viu uma oportunidade da Europa derrotar a Rússia. Agora não sabe o que fazer… 

    Olaf Scholz. A sua passagem pelo governo alemão terá sido das mais desprestigiantes para a Alemanha, provavelmente só ultrapassável pelo atual chanceler Frederic Merz, que quer conduzir a Alemanha como se fosse uma empresa de gestão de  ativos financeiros. 

    Com ele os Verdes tiveram a maior influência num governo alemão. Deu aos Verdes duas pastas importantes como a economia e os negócios estrangeiros. O resultado foi simplesmente desastroso na economia e na energia, e desprestigiante para o governo em política externa. Nas últimas eleições pensou que continuava a governar, mas saiu pela porta dos fundos arrastando os sociais-democratas para um resultado medíocre de terceira força política. Uma situação que começa a ser mais frequente na Europa.

    Estes podem ser considerados os  dois principais coveiros recentes do Projeto  Europeu. Com Ursula von der Leyen à frente da Comissão Europeia, fecha-se um trio absolutamente incompetente na condução da Europa nos últimos anos.

    Pode e deve dizer-se que a maioria dos chefes de governo dos restantes países membros da União Europeia são igualmente desta extração, mas é razoável afirmar-se que se os líderes de França e da Alemanha fossem políticos com verdadeira dimensão política e sentido europeu, os restantes líderes seguiriam a França e a Alemanha. 

    Conclusão: A França e a Alemanha falharam onde não podiam ter falhado dadas as suas responsabilidades especiais no Projeto Europeu: na política energética, na imigração, na guerra na Ucrânia e, como cereja no topo do bolo,  na escolha e recondução de Ursula von der Leyen como Presidente da Comissão Europeia,  uma figura política  de segundo ou terceiro  plano,  cuja utilidade foi apenas executar a agenda política da coligação de Liberais/Socialistas/Verdes.

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    Trump, a União Europeia e o Brasil

    (Carlos Esperança, in Facebook, 01/08/2025)


    Trump é o exemplar perfeito do que um governante não deve ser, mas pode. E é o mais poderoso PR do país mais forte, violento e dominador do mundo!

    Não havendo em países democráticos tamanha concentração de poderes num só homem, e excedendo este os poderes legais que detém, só a resposta adequada dos países vítimas e a solidariedade entre si, podem evitar a catástrofe em que precipita o mundo.

    Urge reconhecer que os EUA não são já uma democracia, e que, ao contrário de outros regimes autocráticos e de tenebrosas ditaduras teocráticas, tem o mais desequilibrado e megalómano dos líderes. Neste momento, é o mais danoso e assustador de todos.

    A UE, com população, PIB e desenvolvimento aproximados aos dos EUA, devia ser o travão aos intoleráveis desmandos de Trump, mas o que sucede é a enorme covardia dos atuais líderes da mais auspiciosa integração de nações de todos os tempos – a UE.

    A solidariedade com o Brasil e o Canadá devia ser uma exigência ética e um passo para a sua própria sobrevivência. O Canadá é vítima do aumento das tarifas pelo duplo crime de ter votado no Governo que Trump quis impedir e que aceitou reconhecer a Palestina como Estado. E a UE que capitulou nas suas tarifas assimétricas calar-se-á agora.

    Acontece o mesmo com o Brasil, submetido à mais dura prova contra o ataque à sua democracia, tarifas brutais para os seus produtos porque não impede os seus Tribunais de julgar o autor de uma tentativa de golpe fascista, o seu amigo Bolsonaro.

    O Acordo de Associação entre o Mercosul, de que o Brasil é o país mais importante, e a UE continua por entrar em vigor enquanto a UE vê fugir a China e ostraciza a Rússia na prossecução de uma política externa de que Trump se afastou.

    E quanto a princípios éticos estamos conversados. A UE, tão assertiva na defesa das fronteiras da Ucrânia, parecendo às vezes que é Zelensky o presidente da CE, é tão timorata a defender as fronteiras da Síria ou a opor-se ao expansionismo da Turquia e de Israel e a repudiar as ameaças dos EUA à Gronelândia!

    Quanto a Portugal não vale a pena falar. Se a política externa da UE é pusilânime, a de Portugal é um nojo. Nas condições para reconhecer o Estado da Palestina, as exigências são todas sobre a Palestina e nenhumas sobre Israel. Segue os países mais covardes da UE. Só o PR, agora paquete de Montenegro, consegue designar como prudência a abjeção.

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    A Europa morreu em Gaza

    (Benedetta Sabene in SUBSTACK, 12/07/2025, Trad. Estátua de Sal)


    Os dois conflitos do século — Ucrânia e Palestina — significam a morte política de Bruxelas. Resta apenas rearmar-se até aos dentes e criar inimigos imaginários para restaurar o seu sentido de existência.


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    As duas grandes crises internacionais que marcarão para sempre esta década, se não este século — a guerra na Ucrânia e o massacre em curso em Gaza — expuseram a total inconsistência política da União Europeia, privada de autonomia decisória e reduzida a um apêndice vazio da política externa dos EUA.

    Apesar do desprezo coletivo pela guerra na Ucrânia, que deixou de ser um evento importante – que transformou quase todos os italianos em especialistas em geopolítica -, para se tornar um ruído de fundo entediante que já não desperta o interesse de ninguém, não se pode sequer considerar analisar o que está a acontecer em Gaza sem considerar o que está a acontecer em Kiev.

    Falar da “incapacidade” da liderança europeia administrar as duas crises é extremamente tendencioso, visto que há uma dupla bitola moral que é aplicada à Ucrânia e à Palestina que não é um simples erro metodológico ou um problema moral, mas uma estratégia perfeitamente consistente com a estrutura das relações internacionais e a divisão do mundo em blocos militares e esferas de influência.

    Com a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022, a União Europeia demonstrou um ativismo humanitário sem precedentes: pacotes de sanções contra Moscovo, biliões de euros em ajuda militar e humanitária a Kiev, acolhimento incondicional de refugiados, censura de toda a mídia russa sob o pretexto de “combater a propaganda” (enquanto isso, a propaganda de Kiev estava a ser relançada na Itália: nos primeiros meses do conflito, eu pessoalmente desmascarei dezenas e dezenas de notícias descaradamente falsas relatadas pela nossa imprensa, copiadas e coladas diretamente do “The Kyiv Independent” e de outros meios de comunicação ucranianos envolvidos em propaganda de guerra implacável) e uma mobilização diplomática e mediática sem precedentes a favor do governo ucraniano.

    O mesmo governo ucraniano que, durante o mandato do presidente Petro Poroshenko, foi culpado de inúmeros crimes de guerra, como o bombardeamento de infraestrutura civil no Donbass e o envio de batalhões paramilitares extremistas que, segundo o relato de organizações internacionais, cometeram as piores atrocidades contra dissidentes e civis. Já para não mencionar a catástrofe humanitária que desencadeou o conflito civil com os separatistas no Leste, contra os quais Kiev escolheu uma “mão pesada”, contribuindo para a deslocação interna de um milhão de pessoas e milhares de vítimas civis. 

    Na época, a União Europeia não se mostrou pronta para defender os civis ucranianos bombardeados por Poroshenko no leste do país, assim como agora titubeia para demonstrar solidariedade aos palestinianos massacrados às dezenas de milhares, espremidos numa faixa de terra da qual não há escapatória. Isso porque não é tanto a cor dos seus olhos e cabelos que importa – no Donbass eles também eram loiros de olhos azuis, como em Kiev –, mas sim o clube pelo qual você joga. Resta saber, no entanto, que racismo, islamofobia e russofobia foram e ainda são elementos fundamentais na narrativa e na perceção coletiva dos dois conflitos.

    Crianças de Donbass escondendo-se dos bombardeamentos ucranianos, 2014.

    Em fevereiro de 2022, Ursula von der Leyen não se conteve em condenar os crimes do governo de Putin contra civis ucranianos, as suas violações do direito internacional e os seus ataques à infraestrutura energética: todas as medidas possíveis e imagináveis foram adotadas para defender Kiev do “carniceiro” Putin, contra quem os epítetos mais malévolos foram cunhados naqueles meses.

    Lembra-se? Na época, falava-se de um “despertar europeu“, de uma nova era em que o mundo humano e democrático, finalmente unido e coeso, atuaria como uma barreira ao autoritarismo e à violência dos “ogres russos“. Os valores europeus dos direitos humanos e do direito internacional, dos quais os países da UE se orgulhavam de ser bastiões, foram amplamente utilizados, tornaram-se pilares do discurso oficial e assim se propagaram num coro único.

    Bem, no início funcionou. Quando comecei o meu trabalho como agente de divulgação, primeiro no Instagram e depois como jornalista e ensaísta, tentando expor as raízes profundas do conflito russo-ucraniano (que, ao contrário da grande maioria dos comentadores de última hora, eu acompanhava desde bem antes de 2022), o clima estava tão polarizado que recebi centenas, senão milhares, de insultos, ameaças de morte, ameaças de violação e todo tipo de ataques públicos ou privados. Alguns acusaram-me de ser paga diretamente por Putin, outros de repetir manuais de propaganda russa, outros de ser cúmplice do invasor e de ter sangue ucraniano nas mãos: a loucura e a histeria coletiva eram tão assustadoras que muitas vezes tive medo de me manifestar. Mas o mais assustador é que, assim que essa onda de ódio e raiva chegou, ela desapareceu com a mesma rapidez do debate público. É por isso que é crucial, agora, conectar as coisas.

    A rapidez com que a Europa respondeu à agressão russa demonstrou que vontade política existe de facto, mas apenas quando converge com os interesses estratégicos dos Estados Unidos. Há pouco humanitarismo guiando as ações dos líderes de Bruxelas e dos governos europeus: o que importa é o que serve à estratégia dos EUA. Isolar a Rússia, romper o vínculo Moscovo-Berlim para conter a influência russa na Europa, romper o vínculo energético russo-alemão (e, portanto, russo-europeu), enfraquecer a Alemanha como força motriz da economia europeia e, assim, enfraquecer a autonomia política alemã, impedir a Rússia de se tornar uma potência euroasiática e, em vez disso, confiná-la exclusivamente ao continente asiático: isso, e simplesmente isso, é o que tem guiado a ação dos EUA e da Europa.

    Isto é demonstrado pelo facto de que, desde outubro de 2023, quando Gaza foi submetida a uma ofensiva militar devastadora que resultou em dezenas — senão centenas — de milhares de mortes (principalmente mulheres e crianças), milhões de deslocados, hospitais destruídos, fome e a destruição sistemática das infraestruturas civis, a União Europeia tem sido extremamente tímida em condenar Israel.

     Apesar do massacre ter sido imediatamente denunciado por dezenas de juristas, relatores da ONU e pelo próprio Tribunal Internacional de Justiça como um “possível genocídio“, a União Europeia não assumiu uma posição clara. Muito pelo contrário, na verdade. Entre as ações europeias mais notáveis nos últimos dois anos estão: a recusa em pedir um cessar-fogo imediato nos estágios iniciais do conflito e a repetição da ladainha sobre o direito de Israel de se defender; a suspensão do financiamento à UNRWA, com base em alegações não verificadas, enquanto a população de Gaza já corria o risco de uma grave crise alimentar; o apoio explícito a Israel por muitos Estados-membros, particularmente a Alemanha; a repressão interna de protestos pró-palestinianos, muitas vezes rotulados como “antissemitas“, mesmo quando apenas invocavam os direitos humanos e o direito internacional.

    O conflito na Ucrânia desaparece, portanto, dos media e do discurso público porque a duplicidade de critérios é tão evidente que mesmo os menos familiarizados com a política internacional percebem imediatamente que algo não está certo. E esse “algo” é que Israel é um aliado estratégico dos Estados Unidos (e, portanto, da União Europeia, visto que esta é uma organização desprovida de qualquer autonomia em política externa), os quais estão dispostos a fazer qualquer coisa em sua defesa, inclusive bombardear o Irão e a impor sanções a funcionários das Nações Unidas.

    O caso mais recente é o de Francesca Albanese, advogada e académica italiana, Relatora Especial da ONU para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinianos Ocupados desde 2022. Nessa função, ela publicou relatórios detalhados sobre a ilegalidade da ocupação israelita, as suas políticas de apartheid e as violações do direito humanitário durante a ofensiva em Gaza. As suas reportagens e denúncias monumentais tornaram-na uma das vozes mais influentes no debate público sobre a situação dos palestinianos na Faixa de Gaza.

    O seu trabalho é rigoroso e está em conformidade com os mandatos das Nações Unidas. No entanto, ela tornou-se alvo de uma campanha cruel de deslegitimação pessoal e política, que culminou na imposição de sanções por Israel e pelos Estados Unidos. As acusações são (adivinhe?) antissemitismo, partidarismo e propaganda. Mas, analisando mais de perto, o crime fundamental de Francesca Albanese é essencialmente um só: aplicar o direito internacional a Israel.

    Francesca Albanese

    Como lembra o jornalista Paolo Mossetti, o presidente Sergio Mattarella foi rápido a demonstrar solidariedade ao ex-editor do La Repubblica, Molinari, quando este foi desafiado por estudantes num evento. Ele também chamou Giorgia Meloni quando um utilizador qualquer insultou a sua filha Ginevra, no Twitter/X. Mas quando uma cidadã italiana, unicamente devido ao desempenho legítimo do seu mandato nas Nações Unidas, é submetida a sanções e a uma campanha de difamação no Google, financiada pelo governo israelita, simplesmente por fazer o seu trabalho, nenhuma instituição italiana, até agora, se mostrou à altura de lhe demonstrar solidariedade.

    Mas, embora a Europa se mostre totalmente dissociada da opinião pública, cada vez mais desiludida e desconfiada das políticas de Bruxelas desde o massacre de civis em Gaza, ela também tenta recuperar a legitimidade política por meio da guerra e da criação de um inimigo comum contra o qual se unir: a Rússia. 

    Uma invasão da Europa por Moscovo está a ser descrita como altamente provável e quase iminente, a ponto de ser urgente aumentar os gastos militares para 5% do PIB, apesar dos média europeus estarem a noticiar, ao mesmo tempo, que o exército russo, atolado na Ucrânia há mais de três anos, luta com pás e tem dificuldades para conquistar até mesmo alguns quilômetros quadrados de terra.

    A crise da União Europeia não é meramente política, é existencial. Na ausência de um projeto político comum e dada a incoerência que demonstrou aos olhos dos cidadãos europeus, a única cola para recuperar a legitimidade política parece ser a ameaça externa. Neste contexto, o apoio à Ucrânia, embora legítimo do ponto de vista da solidariedade internacional, tem sido explorado não para defender a lei em si, mas para redefinir o papel da UE como um ator internacional relevante, ainda que exclusivamente de uma perspetiva militar.

    A guerra na Ucrânia acelerou uma transformação já em curso: o ressurgimento da política de blocos militares como principal forma de organização geopolítica. De um lado, a expansão e o fortalecimento da NATO; do outro, o surgimento de alianças alternativas entre Rússia, China, Irão e outros atores do chamado “Sul Global“. Essa lógica marca uma rutura definitiva com a ilusão pós-Guerra Fria de um mundo em que o direito internacional gradualmente substituiria a força. Em vez disso, estamos a assistir ao retorno brutal de um mundo bipolar, cujos efeitos vemos na Ucrânia e na Palestina.

    A União Europeia, que poderia ter-se apresentado como um terceiro polo autónomo, um estabilizador e mediador entre as duas potências, os EUA e a Rússia (e no Mediterrâneo com a Palestina), optou por se aliar acriticamente ao bloco atlântico: o resultado é uma subordinação diplomática e militar da qual parece não haver saída.

    Mas, justamente porque o mundo se está a unir em torno da lógica militar, torna-se ainda mais urgente defender, redefinir e promover o papel do direito internacional como um fundamento comum: uma Europa que renuncia a essa tarefa não apenas se trai, mas contribui enormemente para a desestabilização de regiões inteiras, a eclosão de novos conflitos e a manutenção de um estado de guerra perpétua.

    Em suma, a Europa morreu em Gaza, mas a lógica militar e o rearmamento não a salvarão. Assim como não salvarão os ucranianos nem os palestinianos.

    Fonte aqui