Dúvidas, falsificações e mentiras

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 14/02/2024)

Escutar o contraditório, analisar os argumentos da outra parte, ainda que errados ou falsos, nunca fez mal a ninguém.


Nunca, nem na democracia ateniense nem no período glorioso do Império Romano do Ocidente, a sabedoria humana ousou pôr de pé um projecto político tão revolucionário como aquele a que hoje chamamos União Europeia (UE). Por ser o mais justo entre povos e nações, o mais solidário, o mais integrador de diferenças, o mais inovador, o mais pacificador, a União Europeia transformou-se no modelo de muitos, no sonho de milhões. Mas das suas forças, do seu êxito, dos seus sucessivos alargamentos, a UE fez as suas fraquezas. É difícil reconhecer hoje nela o espaço político e económico a que Portugal aderiu há mais de 30 anos. Sem pôr em causa a justiça da integração de outros que vieram depois, eles acrescentaram menos do que aquilo que trouxeram e tornaram mais evidentes as diferenças e mais difíceis os consensos e a governação. Nem tanto por razões de nacionalismos inconciliáveis, mas mais por diferentes concepções daquilo que seja a Europa e os seus valores comuns, do ponto de vista de cada um. É assim uma boa notícia que as forças políticas historicamente essenciais à construção europeia e ao seu funcionamento — do centro-direita ao centro-esquerda — tenham mantido uma maioria no Parlamento Europeu, derrotando os presságios fúnebres que já viam Bruxelas paralisada pela agenda de uma extrema-direita apostada na desagregação democrática e na anarquia populista.

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Entre nós, a precipitação de Pedro Nuno Santos em nacionalizar as eleições, ávido como estava por qualquer coisa que se parecesse com uma vitória, teve como resultado paradoxal e face à leitura fria dos votos, a recaída numa situação sem saída próxima: nem a AD reviverá 1985 e a fuga em frente vitoriosa de Cavaco Silva, nem o PS, desamparado à esquerda, ficou mais próximo da desforra, nem o Chega sabe bem o que fazer daqui em diante.

Dúvidas, falsificações e mentiras

2 Apoiar a Ucrânia é uma coisa; ir para a guerra da Ucrânia é coisa diferente. Não consigo deixar de ver nas retumbantes derrotas de Macron em França e de Scholz na Alemanha — ambos com 15% dos votos e ambos outrora os maiores defensores de uma solução de paz e hoje dos maiores belicistas — uma rejeição do seu aventureirismo. Se não foi isso, foi o quê? Recomendo, a propósito, a magnífica entrevista do historiador inglês Owen Matthews, especialista na Rússia e na Ucrânia, saído na última Revista do Expresso: é mesmo uma lufada de ar fresco e um exercício de informação inteligente e séria ver alguém do lado de cá conhecedor dos assuntos, que foge do discurso instalado e quase obrigatório sobre as motivações de Putin para a guerra e as suas ambições territoriais. Escutar o contraditório, analisar os argumentos da outra parte, ainda que errados ou falsos, deter-se nos ensinamentos da História, nunca fez mal a ninguém. Emprenhar pelos ouvidos é que faz mal. Sem deixar de criticar Putin e a invasão da Ucrânia, Matthews critica também o simplismo de muitas das análises feitas no Ocidente, dando como exemplo as afirmadas pretensões imperiais de Putin, supostamente tomando-se pelo novo Pedro, o Grande. Matthews acha que esse é “um erro de análise fundamental”. O que, segundo ele, fez Putin decidir-se pela invasão foi o medo da Ucrânia na NATO e más informações do seu círculo próximo, porque o seu sonho não é restaurar o Império russo ou soviético, mas sim a reunificação dos povos eslavos. E dá como exemplo disso e da desinformação promovida no Ocidente a sua célebre frase de 2005, quando disse que o colapso da URSS tinha sido a maior tragédia geopolítica do século XX. O problema, esclarece Matthews, é que se esqueceram de citar a outra metade da frase, quando ele disse que a tragédia estava nos milhões de russos que ficaram desprotegidos fora das fronteiras da Rússia. E não esqueçamos, acrescento eu, que, com o apoio quase unânime do Ocidente, Margaret Thatcher fez a Royal Navy atravessar dois oceanos para ir expulsar o Exército argentino das Malvinas, onde viviam 300 súbditos britânicos, criadores de carneiros.

3 Se revisitar a História é sempre um exercício útil, comemorá-la nem sempre é uma empreitada feliz. Em especial quando os de hoje querem celebrar ao sabor das conveniências do momento os feitos dos de ontem. Lembrei-me disso a propósito das comemorações, a 6 de Junho, dos 80 anos da Operação Overlord, na Normandia francesa. Foi um pouco ridículo ver o pequeno Macron empertigar-se à altura do grande De Gaulle, Biden no papel de Roosevelt, e Sunak, que só não ensaiou o de Churchill porque o deixou para Zelensky, apressando-se a regressar à mais importante campanha eleitoral inglesa. Compreendo, claro, que, dado o ambiente reinante, não tivessem convidado Putin para o papel de Estaline, em representação do quarto aliado, a URSS. Mas nenhum ambiente, por mais toldado que esteja, pode consentir que a História seja falsificada por grosseira omissão — a não ser que o objectivo seja mesmo o de provocar um clima de guerra declarada. Nos discursos da Normandia todos se “esqueceram” que durante três anos, até ao 6 de Junho de 1944, a URSS enfrentou sozinha, numa Europa inteira subjugada à pata nazi, as Forças do Eixo, com excepção, mais tarde, dos combates dos ingleses com o Afrika Korps de Rommel, no Norte de África. E que, nesses três anos, não obstante as múltiplas súplicas de Estaline a Churchill para a abertura de uma frente ocidental na Europa, este foi-a adiando sucessivamente até garantir o apoio maciço dos americanos. Esse esforço solitário dos russos obrigou à deslocação do grosso do Exército alemão para Leste até à sua estrondosa derrota em Estalinegrado, sendo assim decisivo para o sucesso do desembarque aliado na Normandia. Custou aos russos 6 milhões de mortos, mais do que suficiente para que a sua memória merecesse pelo menos uma menção, num dia dedicado à memória dos que morreram para libertar a Europa dos nazis. E para que os discursos agora feitos na Normandia não tenham sido interpretados como a equiparação entre a luta contra a Alemanha de Hitler com a luta contra a Rússia de Putin. Por mais omissões ou adaptações da História que lhes ocorra fazer, não cabe aos vivos de hoje separar entre bons e maus mortos os que morreram a lutar pela mesma causa.

4 E por falar em comemorações, Nuno Melo, com a absoluta vacuidade de ideias que o vem ocupando (como se não tivesse nada de mais importante com que se ocupar), lembrou-se de tocar a reunir toda a direita, incluindo a direita infrequentável, para que se passe a comemorar solenemente o 25 de Novembro de 1975. Trata-se de um programa extemporâneo, ilegítimo vindo de onde vem, divisionista, provocatório e condenado ao fiasco. Mas a resposta do actual PS, entrincheirando-se com a esquerda antidemocrática derrotada por Mário Soares, Eanes, Melo Antunes e os “Nove”, em Novembro de 1975, é de que quem não entendeu nada e não respeita o seu passado. Felizmente, ainda há quem não esqueceu e agradeça.

5 “Pode um colunista dizer que os judeus são todos criminosos?”, pergunta, no texto e no título, Francisco Mendes da Silva, na sua coluna de opinião, sexta-feira passada, no “Público”. Respondo já: não, não pode. Mas faço outra pergunta: e pode um colunista, mais do que deturpar grosseiramente, inventar o que outro não escreveu a fim de melhor argumentar? E, ainda por cima, argumentar em defesa da legitimação de uma chacina humana praticada à vista de todos diariamente?

Francisco Mendes da Silva, cuja coluna eu leio sempre com interesse e bastas vezes concordância — e continuarei a ler — dirige a sua pergunta ao texto que aqui publiquei há duas semanas intitulado “A traição de Israel”. Não perderei muito espaço a desdizer a acusação que me dirige, remetendo os leitores para a sua leitura ou releitura. Quem se der ao trabalho de o fazer ou quem recordar o que escrevi, facilmente constatará que em nenhuma passagem do meu texto eu escrevi, subentendi, ou, mesmo retirando do contexto, deixei passar qualquer frase que possa consentir a afirmação de que “todos os judeus são criminosos”. Trata-se da maior adulteração, da maior falsificação, da mais desavergonhada mentira acerca de um texto meu que tive de enfrentar em décadas de opinião. Eu escrevi, sim — o que é completamente diferente — que Israel é hoje “um Estado criminoso, que nenhum critério de decência pode absolver”, e que, ao contrário do que sempre sucedeu no passado, “todo o povo de Israel, ou quase todo, está solidário com um governo de criminosos”. Mas isso não sou só eu que o digo, di-lo também o TPI, cujo procurador, escudado na opinião unânime de oito peritos em direito internacional, emitiu mandatos de captura contra três terroristas do Hamas mandantes do 7 de Outubro, bem como contra o primeiro-ministro e o ministro da Defesa de Israel, por crimes de guerra e crimes contra a Humanidade. Simplesmente, há quem, “vendo, ouvindo e lendo”, consiga ignorar e prefira recorrer à mentira e à calúnia dos opositores para evitar ter de enfrentar os factos. Dizer, como Mendes da Silva, que eu “equiparo os judeus aos nazis” porque falo da “solução final” que Israel pretenderá para Gaza, omitindo que escrevi que essa seria a expulsão de todos os palestinianos de lá para fora (e não, como ele desejaria que eu tivesse escrito, as câmaras de gás!), ou que me “refiro sempre aos judeus como uma entidade una e indivisível” para insinuar o meu anti-semitismo, omitindo que me refiro indistintamente a judeus e israelitas ou a palestinianos, apenas como forma corrente de identificação das duas principais etnias habitantes da Palestina, são truques rascas e ofensivos. Mas há que entender: não deve ser fácil ver e fingir não ver, ler e pretender não ter percebido. Ter de sossegar a consciência de ser-se intelectual e moralmente conivente com a bebedeira de morte que está a acontecer em Gaza.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Ai meu belo cabo da Roca, só de te imaginar nas garras do Vladimir…

(Joaquim Camacho, in comentário na Estátua de Sal, 11/06/2024)

O urso não tem pernas para lá chegar… 🙂


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De acordo com Frau Ursula von der Lies, a Europa “boa”, a dela, tem 470 milhões de habitantes. Sabe-se que os Estados Unidos têm 334 milhões. Temos ainda o Canadá, com 37 milhões, e mais uns quantos associados menores do abençoado Ocidente alargado, como Austrália, Coreia do Sul, Japão, o mui democrático Israel, etc.

Quanto à demoníaca Rússia, esfomeada de “espaço vital” (como escreve, com subtileza de elefante, o Pacheco da Marmeleira), tem presentemente à volta de 145 milhões. Sabendo nós que a Rússia é, em termos territoriais, o maior país do mundo, com o dobro da área dos Estados Unidos e menos de metade da população, fica claro, para quem tenha no mínimo dois neurónios funcionais, que um dos principais problemas da Federação Russa é espaço a mais e falta de gente para o defender, e não espaço a menos e uma alegada vontade de abarbatar mais “espaço vital”, divagação esquizoide parida pelas ligações sinápticas curto-circuitadas do Pacheco, Pluma Caprichosa e restante praga de aldrabões… perdão, excelsas e criativas mentes que monopolizam o nosso espaço (vital) mediático.

Quanto a material bélico, concretamente forças aéreas, que alguns “especialistas” (Zelensky, Rogeiro e outros) nos dizem que farão toda a diferença num conflito, números recentes (Dezembro 2022), que já aqui despejei em tempos mas nunca é de mais repetir, mostram o seguinte:
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AVIÕES DE COMBATE:

América do Norte (EUA + Canadá): 2803

Europa: 2113

América + Europa: 4916

Rússia e CIS*: 1859
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HELICÓPTEROS DE COMBATE:

América do Norte (EUA + Canadá): 5581

Europa: 3323

América + Europa: 8904

Rússia e CIS*: 1927

*CIS: Comunidade de Estados Independentes, que junta Rússia e alguns países da ex-URSS, mas que, em termos operacionais, se resume hoje praticamente à Bielorrússia, o que, convenhamos, não é grande coisa.

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Ou seja, mesmo sem os EUA, a Europa sozinha tem mais aviões de combate (2113 contra 1859) e mais helicópteros de combate (3323 contra 1927) do que a Rússia.

Há inúmeros outros tipos de aviões e helicópteros, nomeadamente de transporte, vigilância, reabastecimento, etc., mas, em caso de conflito, é fácil de entender que são os aviões e helicópteros de combate que mais peso têm.

Fonte aqui.
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Contra toda a racionalidade e incontornável peso da realidade, porém, quer esta intelligentsia chalada e burra que, por azar, nos coube em sorte convencer-nos de que o mafarrico Vladimir Putin (cruzes, canhoto, bate nessa madêra!) vai enviar hordas atrás de hordas de pretos das neves para ocupar a Europa toda. E isto para começar. Depois, sabe-se lá, the sky is the limit, talvez o sistema solar… ou mesmo a galáxia.

Ai meu belo cabo da Roca, só de te imaginar nas garras do Vladimir quase me dá um fanico!

Mesmo sem o auxílio do outro lado do Atlântico, como é que um país com 145 milhões de habitantes consegue invadir, ocupar e controlar um território onde vivem 470 milhões, se falarmos apenas da Europa? Só um vigarista tentará convencer-nos dessa possibilidade e só um perfeito estúpido e ignorante poderá acreditar não apenas na sua viabilidade mas também na extrema estupidez de que os russos dariam provas se sonhassem sequer com tal “empreendimento”.

O que nos leva à seguinte conclusão: nunca a Rússia tomaria tal iniciativa, porque está bem ciente de que, numa guerra generalizada, apenas com armamento convencional, seria inevitavelmente derrotada pelo Ocidente alargado. Como ninguém com dois dedos de testa acreditará que a dita Rússia (nem os EUA, já agora) se conformaria alguma vez com isso: um eventual conflito, inicialmente convencional, entre Ocidente e Rússia, ou seja, NATO-Rússia, tornar-se-ia inevitavelmente nuclear, única maneira de a Federação Russa evitar o seu desaparecimento como país.

Portanto, eu não os mandaria ver se o mar dá choco, que é marca registada do Whale, mas seria bom que a inteligência gripada da nossa intelligentsia chalada não continuasse a tentar convencer-nos de que a caça aos gambozinos no cabo da Roca ou no Poço do Bispo alguma vez dará resultado.

Os homens mais perigosos do mundo, segundo Pacheco Pereira

(Por Agostinho Lopes, in Expresso Diário, 11/06/2024)

O que é extraordinário nesta abordagem de Pacheco Pereira (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza?


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Para José Pacheco Pereira (JPP), Putin e Trump são não só dois homens perigosos, mas “Os homens mais perigosos do mundo” (1). Não é fácil ver todos os meandros do seu raciocínio, as curvas e contracurvas do seu deambular argumentativo para tão sonora e taxativa conclusão. Que logo foi consolidada por Clara Ferreira Alves (CFA) (2) na sua Pluma Caprichosa, da Revista Expresso “O Grande Tubarão Branco – Trump e Putin são os tubarões exemplares. Têm em comum a enorme persistência e a resistência à extinção”. Uma notável fábula sobre tubarões, “peixes condíctrios”, que “são grandes e perigosos. Ocupam o topo da cadeia alimentar das espécies marinhas e estão adaptados aos mais diversos ambientes oceânicos. São predadores (…) que atacam e devoram quando farejam sangue. Pressentem a ferida, a vulnerabilidade. Tanto viajam a grande profundidade como atacam à superfície (…)”. Mas os tubarões humanos como Trump e Putin,“tubarões em versão hardcore”, “São muito piores porque agem conscientemente e são dotados de um gigantesco Id, mal controlado pelo ego e o superego residuais. Parecem inamovíveis e são assustadores pela destruição causada”. “Deram à tona em bancos de areia da política, emergindo de múltiplos habitats. A finança, a empresa, o monopólio, a agência do governo, o império ou, simplesmente um dos múltiplos empregos e prebendas oferecidos por tubarões maiores”. Entretanto, parece haver quem se disponha a juntar mais alguns facínoras à lista dos perigosos tubarões de JPP e CFA. No Correio do Leitor, Público, 04JUN24, alguém acrescentava Netanyahu… e não vai ser fácil fechá-la. É que eles são mais que as mães… mesmo se CFA acha “Que não são muitos…”.

Resolvam-se à partida duas diatribes, que quem gosta deste tipo de análises ou efabulações sempre chama à colação. A mais habitual é a acusação – persistente contra os marxistas – de uma história ou leitura política fixada nas dinâmicas estruturais, subestimando, desvalorizando, negando o papel das personalidades/personagens, dos líderes/chefes, homens/mulheres que assumem/encabeçam/dirigem os movimentos/forças/processos políticos de mudança/alteração/revolução. Ou até o desconhecimento dos acasos/áleas da história, dos que não chegaram a horas ao encontro que a história lhes tinha destinado. Não é certamente o caso, pois não desconhecemos ou negamos a importância das atitudes, decisões que as duas citadas personagens possam tomar, mesmo se é impossível esquecer ou apagar os contextos, conjunturais e estruturais, económico, social, político e histórico em que se movimentam. A outra crítica é a de que quem assim discorre está feito com os “tubarões”, ou, no mínimo, simpatiza com tais personagens, como os que não são “candidatos da democracia e liberdade nas eleições portuguesas”, referidos por JPP. Asseguramos que não se perfilha qualquer idolatria particular ou empatia pelos perfis e opções político-ideológicas daqueles senhores.

Para JPP aquele par de jarras, Putin e Trump, “tem como objectivo primeiro deter um poder pessoal absoluto nos seus países. Por isso mesmo, são inimigos, antes de tudo, da democracia, o resto vem por acrescento”. O resto (“nacionalismo”, “isolacionismo”, vontade de alargar “o espaço vital”, etc.) são questões “secundárias e instrumentais” para “as suas ambições de poder”! Isto é, para JPP são umas boas promessas de “ditadores”. É claro que há aqui um lapso evidente de JPP: Putin, ao que nos rezam as crónicas e as notícias da “comunicação estratégica” ocidental (fundamentalmente produzida nos EUA e no Reino Unido) já o é há muito! Portanto não precisa de ir ser… já o é, já cumpriu o objectivo de “um poder pessoal absoluto”! Trump é que vai ter mais trabalho e tem que dar ao pedal para lá chegar!

Reflectindo sobre o assunto não nos podemos admirar do que acontece com Putin. Aquilo, ao que consta dos canhenhos da geoestratégia “ocidentais” faz parte da genética russa. É assim que a multidão de críticos, que acusam o materialismo histórico de estruturalismo, mecanicismo, determinismo, finalismo, tudo simplificam, reduzindo a complexidade ingénita da história a um simplismo atroz. Tudo se resume a “ditadura” naquelas paragens. Primeiro a autocracia czarista que terminou em 1917. Depois a ditadura do proletariado acabou em 1991. E ao breve interregno da democracia alcoólica de Ieltsin (só houve mesmo “democracia” porque os eflúvios de vodka assim o permitiram)… sucedeu a “ditadura” de Putin! Muitos ainda não perceberam aquela sucessão de regimes, como por exemplo JPP que avalia a actual “ditadura” na Federação Russa de Putin como uma emanação directa do “império social fascista”. Era assim que denominava e criticava a URSS nos idos dos primeiros anos da década de 70 do século passado, quando era um M-L encartado em maoísta! Nada a fazer com estes russos! Está-lhes na massa do sangue ou é uma questão de clima… A bendita democracia só reinará quando todo aquele espaço político se fragmentar como há muito se esforça por fazer o “Ocidente cristão”. Outra coisa não pretendeu Napoleão. Outra vontade não tiveram os exércitos das potências capitalistas ocidentais (EUA, RU, França, etc.) ao invadirem a Rússia em socorro dos Brancos para esmagarem a revolução proletária-bolchevique de 1917. Outro desejo não teve Hitler! E continua hoje nos planos estratégicos dos EUA congeminados por Brzezinski e Kissinger. O problema é que até hoje, apesar de muito esforço, o “Ocidente” ainda não conseguiu “democratizá-la”! Isto é, espartilhá-la, balcanizá-la, de forma a facilitar a exploração e colonização do “Ocidente”… alargando o seu (de algumas potências europeias) “espaço vital”. Para JPP Putin anda à procura de “espaço vital na Europa”, provavelmente porque é estreito, acanhado o “espaço vital” russo e não conseguem abrir os braços ou fazer umas passeatas dentro da Rússia! Ou será que Putin procura antes impedir que outros “espaços vitais” lhe calquem o rabo do seu “espaço vital”???

Já o problema do Trump abre outras perspectivas. Pode ser que não chegue a “ditador”! Mas o problema Trump levanta sérias interrogações, dúvidas, questionamentos que JPP não esclarece. Como é que Trump dá cabo do edifício da democracia nos EUA? Como é que o farol da democracia e dos regimes democráticos, que anda há décadas a exportá-la e exportá-los (nem que seja à bomba!) pode transformar-se numa ditadura, por simples vontade, ambição, manobra de um sujeito que parece um tanto ou quanto baralhado da cabeça… pelo menos às vezes? Uma personagem condenado em tribunais pelas mais diversas violações da lei. Diz JPP, “Como ameaça à democracia” Trump é “mais perigoso, porque actua num país democrático e, num quadro democrático.” Ainda por cima “ele anuncia, sem disfarce, querer subverter” o regime democrático! É mais fácil ao Trump subverter a democracia nos EUA? Então o que é feito e o que fazem as outras instituições do país? Então os famosos “Checks and Balances”, freios e contrapoderes não servem para impedir, derrotar, corrigir tais malignos e maléficos objectivos? Será porque a democracia americana é uma oligarquia, controlada/comandada pelo grande capital nos votos, nos medias, na educação/universidades, e Trump oligarca, é um dos deles?

Trump, afirma JPP: “Alterará o equilíbrio de poderes, exercerá o poder presencial sem qualquer limitação constitucional, e, talvez o mais importante, perseguirá todos os que se lhe opuseram, numa vingança que conduzirá o mais longe que puder”. Como é isto possível? Não haverá um tribunal ou juiz do Supremo, decisão do Congresso, cadeia de médias, e etc., etc., que se lhe oponha e o impeça de tal? Então o que faz o Congresso e a Câmara dos Representantes? E a CIA e o FBI? Então o Partido Republicano, e o Partido Democrático, e o Supremo Tribunal Federal? E os “Think-Thank”, e as Fundação Soros e a Rockfeller? E a National Endowment for Democracy, NED, “Suporting Freedom Around the World” que semeia por todo o mundo dinheiro para fazer brotar a democracia? E as Universidades tão entretidas que andam a chamar a polícia para malhar na estudantada pró-palestina? Chamem a Guarda Nacional e o Ku-Klu-Klan! Muito mal vai no reino dos ianques a democracia, exemplo único e supremo ideal de todos os adeptos da dita democracia liberal, aqui e nos algarves e na excelsa União Europeia. A Teresa de Sousa vai ficar muito triste…

Querem ver que para salvar a democracia americana, vamos ter que enviar uma delegação europeia do Grupo Bildeberg chefiada por Pinto Balsemão e a Teresa de Sousa a Washington?! Ou pedir à Sr.ª Von der Leyen que mande a UE decretar sanções económicas? Tudo às costas de Trump é um absurdo.

É o Trump um “isolacionista” como diz JPP? Sim mas já o Obama tinha sido e o Biden também não quer outra coisa, e em grau superlativo se tivermos em conta as recentes subidas de tarifas aduaneiras de 100% e outras medidas proteccionistas. É o que dá a “pessoalização” das maldades… Dizer tal não significa qualquer atributo de Trump porque é o resultado da resposta do grande capital americano ou de alguns dos seus sectores aos problemas de uma economia em declínio no confronto com a China e que quer garantir a continuidade da supremacia americana. Não é uma “característica”, ou “natureza” ou sequer “opção” de Trump. O Trump é um “nacionalista”? Mas qual o Presidente da República dos EUA, republicano ou democrata, que não assumiu “motivações nacionalistas” na definição das suas políticas externas? A defesa da globalização e da liberalização do comércio internacional, a criação da OMC, o comportamento face à ONU e às suas Organizações, alguma vez tiveram outra finalidade que não a defesa da “nação americana”?

É o Trump que “levará, como já de algum modo faz, os EUA a um clima de pré-guerra civil, e só a moleza dos democratas permitirá que ganhe”, como quer JPP??? Parece que se troca a causa pelo efeito: Trump é o resultado, não a causa de um Estado à beira da guerra-civil, “vítima” da crise do sistema capitalista e imperialista, das suas contradições, antagonismos e impasses e da vontade sem limite das suas oligarquias de continuarem a assegurar o poder dentro e fora dos EUA! Muita gente e insuspeitas personalidades o afirmam. Trump aparece para algumas dessas oligarquias como a hipótese de salvaguarda do essencial. É o capital, ou uma importante fracção do capital norte-americano, de que Trump faz parte, que o “fabrica” e o promove, e o faz eleger! É ver quem lhe paga as campanhas eleitorais. Tudo o resto é treta… O que não quer dizer que o Trump não dê uma mãozinha. A 19 de Abril, a Revista do Expresso publicou um interessante (e ao que se pensa, insuspeito) texto de Ricardo Lourenço (3): “A polarização nos Estados Unidos, que as presidenciais de novembro agudizam, gerou o receio de uma nova guerra civil – um cenário explorado agora na literatura e no cinema. O Expresso avaliou esse sentimento coletivo a partir de dezenas de conversas com americanos espalhados pelo país.” Que as diversas facções estão armadas – há milhares de milícias organizadas – não parece haver dúvidas, faces aos tiroteios e morticínios que vão acontecendo um pouco por diversos locais e regiões – “83 massacres registados no ano passado em estabelecimentos de ensino nos EUA” (3)!

Mas o grande problema para JPP (4) é que face aos comportamentos “perigosos” de Putin e Trump a Europa fica “entalada” “entre os dois”! Para JPP “Os termos do dilema são muito simples (…): ou se armam e se preparam para garantir a sua defesa sem terem os EUA de Trump como seu aliado” “ou ficam sem política externa e de defesa própria, como aconteceu com a Áustria e a Finlândia no pós-guerra.” Isto para a Europa Ocidental, porque a do Centro e Leste fica sob suserania russa.”! Valha-nos deus! E porque este “entalanço”, este dilema, é existencial, logo devia ter sido o centro/objecto das eleições para o PE, pelo menos dos “candidatos da democracia e da liberdade nas eleições portuguesas, que não são todos”. E porquê? Porque “a Europa é um continente de guerra” como nos diz a história (“com h minúsculo”) e logo… prepara-te para a guerra. O pequeno problema, que JPP não refere, é que essas guerras foram sempre desencadeadas pelas grandes potências da dita “Europa Ocidental”, França, Alemanha, Reino Unido, etc. até à penúltima na Jugoslávia… no Continente e muitas fora do Continente, como nos esclarece a história com “h” pequeno!

O que é extraordinário nesta abordagem de JPP (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. (Basta ver a quantidade de “salvadores”/profetas que por aí andam a escrever livros/tratados/receitas para o salvar… Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza???

Nada que não esteja presente como “filosofia” e “metodologia” histórica dos que só conseguem olhar a ditadura fascista portuguesas ancorada na figura e comportamento “perigoso”, ditatorial, de Salazar, sem invocar a “infraestrutura” dos monopolistas, latifundiários e do imperialismo/NATO. Ou do regime nazi em Hitler, esquecendo o papel do grande capital alemão na sua chegada ao poder, na alimentação da máquina de guerra e até na sobrevivência das raízes económicas do nazismo e figurões nazis no pós guerra. (5) Aliás, esta visão da história tem uma grande vantagem: mata-se o bicho, acaba-se a peçonha… e muitos historiadores ficam com a vida simplificada: a causas das ditaduras é dos ditadores…


(1) “Os dois homens mais perigosos do mundo: Putin e Trump…”, José Pacheco Pereira, Público, 01JUN24.

(2) “O grande tubarão-branco”, Clara Ferreira Alves, Revista Expresso, 07JUN24.

(3) “Estados Unidos da América: um país em estado de guerra”, Ricardo Lourenço, Revista Expresso, 19ABR24.

(4) “Coincidência” notável, na 2.ª feira 10JUN24, nos comentários aos resultados eleitorais para o PE, em Portugal e na UE, vários são os artigos que reproduzem as teses de JPP. No Público, Manuel Carvalho escreve “(…) que o PCP acredite que entre imperialismos agressivos e democracias só há uma escolha.” E António Barreto aflige-se com a “Europa sempre a sofrer dos ataques dos seus tradicionais inimigos, dos impérios que a rodeiam!”, “A Europa está ameaçada pelo afastamento americano. A Europa está posta em perigo pelo imperialismo agressivo russo.” É pena que não identifiquem os “outros imperialismos agressivos” e “os impérios que a rodeiam”, “seus tradicionais inimigos”! Mas parece não haver dúvidas, o “comunismo russo” está de volta…

(5) É muito esclarecedor o recente livro “Milionários Nazis – A história negra das maiores fortunas alemãs”, de David de Jong, Desassossego, 2023.