A cabisbaixa feira portuguesa

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 09/06/2016)

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Baptista Bastos

Na minha malvada ingenuidade, pensava que Marcelo não enfileiraria no cortejo subserviente que costuma ir ao beija-mão de Merkel.


Marcelo Rebelo de Sousa foi a Berlim, caminhou pela passadeira vermelha, conversou, durante meia hora, com a senhora Merkel, e regressou muito feliz com o que a alemã lhe dissera. E o que lhe disse a alemã para o deixar tão feliz? Esta frase módica: “Compreendo Portugal.” Quanto a essa “compreensão”, é um enigma que comporta tudo: até a mais atroz ignorância. Despachou o expedito Presidente com o mais expedito dos comentários, configurando a imperatriz das cortes antigas, que nada diziam quando nada queriam dizer.

Há qualquer coisa de ignominioso nesta e em outras cenas semelhantes. E Portugal poderia muito bem passar em claro esta visita tão absurda como subalterna. Consta por aí, com os gritantes alaúdes da Direita, que Portugal vai ser sancionado não se sabe bem porquê. Quem manda nesta Europa amolgada e desacreditada é o Partido Popular Europeu, agremiação que reúne (nunca é excessivo dizê-lo) o que de pior existe nessa área, e à qual pertencem o PSD e o CDS. Marcelo teria ido lá pedir alteração nas datas da punição. O que não deixa de ser vergonhoso e desacreditante, para um país cansado de sanções e de exigências. Na minha malvada ingenuidade, pensava que Marcelo não enfileiraria no cortejo subserviente que costuma ir ao beija-mão de Merkel, que não passa de um factótum de interesses que se não revelam, e que transformaram a Europa num condomínio privado do capitalismo mais perigoso porque a pode conduzir a um cataclismo de resultados imprevisíveis.

Podemos hoje dizer que somos europeus livres? Não. Estamos a soldo e a mando de regras que nada têm que ver com a natureza específica de cada nação. Marcelo sabe-o muito bem. Ele mesmo, quando comentador, dissolveu a senhora Merkel num amontoado de absurdos: na ocasião, ela não passava de uma ignorante sem grandeza nem destino, provinda de uma toca misteriosa e sombria. Referia-se, certamente, à ex-RDA onde a senhora nascera e fora criada. A verdade é que, ao longo dos anos, sem escrutínio, sem eleição, por livre arbítrio, Angela foi transformada na dona de um império que tem, sobretudo, servido a Alemanha, e deixado de rastos muito países, como aquele de que o seu Presidente foi pedir não se sabe o quê.

A situação na Europa está a tornar-se cada vez mais ameaçadora, e não é com salamaleques dos governos à Alemanha que as coisas vão melhorar. Não sou somente eu a advertir destes perigos. Jornais importantes como o The Guardian não se cansam de repetir a natureza desses perigos e o que eles comportam. O capitalismo, tal como hoje está, aguerrido e beligerante, é uma organização tenebrosa pelos seus mistérios, que, inclusive, tem levado o Papa Francisco a tomar sérias posições de aviso.

Há ameaças cada vez mais visíveis no horizonte das nossas vidas

O Pedrexit

Fonte: O Pedrexit

(In Blog O Jumento)

Depois do Grexit e do Brexit talvez não fosse má ideia discutir o nosso Pedroxit, a saída do traste político de Massamá que decidiu andar por aí armado em primeiro-ministro no exílio, com direito a bandeirinha, a um Zeca Mendonça a fazer de peão de brega e a entrevistas feitas por jornalistas que o olham com a condescendência dos guardas do Forte de Santo António olhavam para um Salazar que ate morrer estava convencido de que continuava a ser o presidente do Conselho. O ridículo da situação é tão grande que um dia destes o traste de Massamá ainda vai passar a visitar o D. Duarte todas as quintas-feiras par despachar os assuntos do reino.
O traste de Massamá está louco ao ponto de achar que de um dia para o outro deixa de andar sentado em cima de livros sobre Salazar para pousar o traseiro em obras da social-democracia europeia. Está louco ao ponto de pensar que Portugal volta a ter um resgate para que ele possa dar a segunda de mão no seu projecto de reformatação de um país, contra uma Constituição que ignorou, contra um povo a que chamou piegas, contra eleitores que enganou, contra jovens que forçou à emigração e contra quadros da Administração Pública que humilhou.
A dúvida em relação ao próximo Presidente da República não está em saber como se vai relacionar com o primeiro-ministro ou com os partidos que o apoiam. Deve ser bem mais interessante discutir o que quer que seja com uma Catarina Martins do que com personagens como o Marco António ou o outro gajo de Mação, faz mais sentido discutir o futuro da economia com alguém que pena como Jerónimo de Sousa do que com um político que achou que podia transformar um país europeu num tigre asiático sem ninguém dar por isso.
Alguém acredita que Marcelo Rebelo de Sousa achou que aquele nojo de moção do congresso do PSD onde se falava de um cata-vento não o visava? Como é que alguém como Marcelo vai ter paciência para aceitar uma personagem intelectualmente sofrível que um dia o apelidou de cata-vento? Marcelo nunca seria o au mandado de Passos que foi Passos Coelho e nunca o apoiaria da forma como foi apoiado.
É óbvio que a convivência de Marcelo com quem o ofendeu e humilhou sem a frontalidade de referir o seu nome vai ser bem mais difícil do que com os líderes dos partidos de esquerda. É óbvio que Passos Coelho não voltará a poder lançar um programa económico assente na escravatura parcial dos trabalhadores, nem sequer vai ter como parceiro de coligação um dócil comprador de submarinos. Pedro Passos Coelho só tem duas saídas, a porta das traseiras ou a porta do lado, já que perdeu a oportunidade de sair pela porá da frente quando ganhou as eleições.
Depois do Grexit e do Brexit vai ser a vez de se debater o Pedrexit e se o Trsipas continuará a ser primeiro-ministro, o Reino Unido ficará onde os britânicos quiserem todos sabemos que por cá vai ocorrer o Pedrexit, a dúvida está em saber como e quando, já que o rapaz passou-se e esta convencido de que um dia destes regressa a São Bento. É uma questão de tempo para que muitos do que hoje o apoiam percebam que Passos Coelho não passa de um activo tóxico da direita e a única saída é um Pedrexit.

O dr. Costa deve estar muito preocupado, deve

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 25/01/2016)

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O grande derrotado da noite eleitoral não foi Maria de Belém, Jerónimo de Sousa, Edgar Silva. Não. A acreditar na maior parte da comunicação social o maior derrotado da noite foi o primeiro-ministro, António Costa. Sim, sim. Nem deve ter dormido ontem à noite.

Para o “Diário de Notícias”, o jornal “i” e o “Jornal de Negócios”, António Costa está entre os grandes derrotados da noite. Para o DN porque “não conseguiu travar a pulverização de candidaturas à esquerda, duas delas com fortes apoios no seu partido”; para o “i” porque “perdeu as regionais na Madeira, as legislativas de outubro e, agora, as presidenciais”; e para o JN porque “a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa é o pior de todos os resultados para o líder do PS e atual primeiro-ministro”.

Se os meus ilustres camaradas de profissão o dizem é porque deve ser verdade. Permito-me, contudo, propor que se olhe para o problema de maneira diferente. E para sistematizar, que o façamos em sete pontos.

1) Depois de se confirmar que António Guterres não seria candidato e que António Vitorino também não avançaria, não havia nenhuma personalidade da área socialista que estivesse em condições de bater a notoriedade e a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa. Não gastar armas e energias numa batalha perdida costuma caracterizar os grandes estrategas.

2) Como é óbvio, Costa não dispunha de nenhum poder para impedir a proliferação de candidaturas à esquerda, a não ser que tivesse o ás de trunfo (Guterres). Não o tendo, não só se desinteressou da eleição (sobretudo a partir do momento em que Marcelo Rebelo de Sousa se afirmou como o único candidato do centro-direita), como era inevitável a tal pulverização de candidaturas à esquerda que, lembre-se, é uma constante desde que há eleições presidenciais livres em Portugal. Outra constante é o facto de o vencedor ser sempre encontrado logo à primeira volta – com a exceção muito especial das eleições de 1986.

3) Marcelo passou a campanha a fazer declarações de amor ao Governo PS e a deitar água na fervura em todos os dossiês polémicos, passando sucessivos atestados de responsabilidade ao Governo e afastando qualquer hipótese de, assim que se sentar em Belém, dissolver a Assembleia da República e convocar novas eleições. Além do mais, Marcelo, como mostrou o seu discurso de vitória, pretende ser um Presidente inclusivo, não discutindo uns votos em detrimento de outros e pretendendo sarar as feridas e as clivagens abertas pelos quatro duríssimos anos de austeridade e sustentando mesmo a necessidade do país apostar no crescimento, palavras que seguramente devem ter desagradado mais a Passos Coelho do que ao primeiro-ministro. Por que é que a sua eleição há de ser o pior de todos os resultados possíveis para Costa?

4) Além do mais, Marcelo não era o candidato que Passos Coelho defendia e não lhe ficou a dever nada nesta campanha, pelo que não tem de lhe pagar favores. É um dos presidentes mais livres que, desde 1974, alguma vez esteve em Belém. E quer na campanha eleitoral quer no seu discurso de vitória distanciou-se claramente da política de austeridade seguida por Passos. Um Presidente da República que não aprecia o presidente do maior partido da oposição (e que sabe que este lhe paga na mesma moeda), que não é entusiasta das políticas que ele seguiu e que claramente se orienta pelos princípios sociais-democratas que caracterizaram o PSD até Passos o levar para uma deriva ferozmente neoliberalista, não é seguramente um grande incómodo para António Costa.

5) A estrondosa derrota de Maria de Belém é também uma excelente notícia para o líder do PS e primeiro-ministro. A ex-presidente do partido, vários notáveis que estão contra a atual fórmula de Governo e os seguristas juntaram-se numa candidatura destinada a tentar causar sérios problemas a António Costa, a desgastá-lo e, em última instância, a obrigá-lo a resignar. Saiu-lhes o tiro pela culatra. Maria de Belém começou mal e acabou pior. A sua candidatura nasceu contra o apoio que o secretário-geral do PS tinha dado informalmente a António Sampaio da Nóvoa e não tinha mais nada para a justificar perante os portugueses. Foi por isso perdendo gás e a machadada final foi o caso das subvenções, onde a candidata perdeu definitivamente a sua honra republicana. Com tudo isto, António Costa bem pode continuar a perder eleições, desde que se mantenha como primeiro-ministro, porque durante muito tempo não se ouvirá falar de oposição interna no PS.

6) O excelente resultado de Marisa Matias também não é uma má notícia para Costa. O Bloco de Esquerda tem sido um partido mais responsável e sólido no apoio ao Governo do que o PCP, ao contrário do que se esperava. Este resultado demonstrará a Catarina Martins e aos seus pares que este posicionamento é premiado pelos eleitores, em vez de grandes declarações ditirâmbicas ou atos radicais que acabam por afastar os cidadãos que veem com muita simpatia este “novo” BE – pelo que se pode esperar que os bloquistas continuarão a ser um apoio sólido do Governo nos momentos parlamentares decisivos. Mas há mais. É que apesar do excelente resultado, ele repete, na prática, o que o Bloco obteve nas últimas legislativas. Ou seja, o Bloco não cresceu – e isso é, para já, uma preocupação a menos para Costa.

7) Finalmente, a última boa notícia para Costa da noite eleitoral é a derrota quase humilhante de Edgar Silva, uma aposta do líder comunista, Jerónimo de Sousa. O PCP podia facilmente ter apoiado Sampaio da Nóvoa. Preferiu ir por outro caminho. Jogou e perdeu muito. É claro que há sempre o risco do desespero e de o PCP querer vir a ganhar nas ruas a influência que está a perder nas urnas. Mas quem sair agora do barco que Costa colocou a navegar dificilmente não será penalizado em eleições antecipadas – pelo que o PCP pensará muito maduramente antes de rasgar o acordo que assinou com o PS.

Digamos, portanto, que as notícias de que Costa foi um dos grandes perdedores da noite me parecem manifestamente exageradas. Só o futuro, contudo, dirá quem tem razão. Marcelo é imprevisível mas não é de grandes confrontos e abruptas clivagens. Tanto ele como Costa são duas velhas raposas da política portuguesa, que se conhecem bem, o que lhes permite antecipar com alguma razoabilidade o que cada um vai fazer a seguir.

Uma coisa é certa: a partir de agora, o Governo PS não terá em Belém um presidente ressabiado e pronto a fazer tudo para lhe dificultar a vida. E isso muda quase tudo nas relações entre o Palácio de Belém pintado verdadeiramente de laranja e São Bento engalanado nos tons de rosa originais.

PS – Uma última nota para Sampaio da Nóvoa. Fez uma campanha sempre a crescer, com intervenções políticas cada vez melhores e mais consistentes. Foi o único que tirou Marcelo do sério e o obrigou a explicar-se politicamente, tendo ganho claramente esse debate ao novo Presidente da República. E o discurso de derrota que proferiu, sem ressabiamentos e reconhecendo Marcelo como presidente de todos os portugueses, fez dele claramente o vencido mais vencedor da noite.