A economia mundial entraria em colapso se a City de Londres deixasse de fazer lavagem de dinheiro

(Chris Summers, in Resistir, 01/02/2020)

A Grã-Bretanha deixou a União Europeia em 31 janeiro, mas não há sinais de que os bancos deixem a City de Londres, uma das principais reivindicações dos Remainers [NT] antes do referendo do Brexit. Mas serão as engrenagens da City mantidas a girar apenas com a lavagem de dinheiro?

Nicholas Wilson , que denunciou escândalos financeiros e deu a conhecer os milhões de libras de cobranças injustas a clientes, tendo em consequência sido demitido do escritório de advocacia britânico Weightmans, afirma que a City de Londres depende do “dinheiro sujo” e diz que a economia mundial entraria em colapso se ela parasse de lavá-lo .

O Reino Unido tentou bloquear uma proposta da UE para apertar o controlo à lavagem de dinheiro

Nicholas Wilson, um ex-gerente de litígios, afirmou: “A UE queria reforçar o controlo à lavagem de dinheiro, o Reino Unido foi o único país que votou contra”. “O capitalismo depende do dinheiro sujo, movimentado para realizar investimentos em todo o mundo”.

Um relatório do ano passado do Centro de Pesquisa Bancária da Cass Business School pintou um quadro róseo da City no pós-Brexit. A coautora do relatório, professora Barbara Casu Lukac, escreveu: “Londres continuará sendo um elemento importante no sector global dos serviços financeiros e no mercado de capitais após o Brexit. No entanto, algumas de suas operações, capacidades e margens serão afetadas pela incerteza política da regulação a longo prazo, subjacente ao processo Brexit”.

Isto contrasta fortemente com as declarações alarmistas sobre o futuro da City feitas pelo então Chanceler George Osborne, como parte de seu “Projeto Medo”, antes do referendo do Brexit em 2016.

Após o referendo, David Cameron renunciou e foi substituído por outro Remainer, Theresa May. Quando seus esforços para aprovar um acordo no Brexit falharam, ela foi substituída por Boris Johnson , desde o início um entusiástico defensor da saída de UE. Em junho de 2019, durante a campanha para a liderança do Partido Conservador, Boris Johnson gabou-se de quanto havia feito pela City de Londres.

Johnson renegociou um novo acordo com a UE, mas o futuro da City fará parte das negociações sobre comércio, a realizarem-se ainda este ano. Os bancos poderão continuar a prestar serviços durante o período de transição, a começar em 1 de fevereiro, mas devem perder os seus “direitos de passaporte”, que lhes permitiam oferecer serviços aos clientes nos 27 estados da UE. Uma solução possível é que os bancos do Reino Unido precisem criar uma subsidiária num estado membro da UE e então, nesse país, solicitar uma “licença de passaporte”.

O Chefe da Financial Conduct Authority foi promovido, mas será que ele estava a ‘dormir ao volante’?

No mês passado, o governo anunciou a nomeação de Andrew Bailey, atual chefe do Departamento Financeiro, da Financial Conduct Authority – o regulador que supervisiona os serviços financeiros e os mercados de capitais no Reino Unido – para o cargo de Governador do Banco da Inglaterra, que assumirá em março.

Mr. Bailey disse: “O Banco tem um trabalho muito importante e, como Governador, continuarei o trabalho que Mark Carney fez para garantir que o interesse público esteja no centro de tudo o que faz. É importante para mim que o Banco continue trabalhando para o público, mantendo a estabilidade monetária e financeira, garantindo que as instituições financeiras sejam seguras e sólidas.”

Mas Nicholas Wilson, declarou que apenas nos últimos 12 meses Bailey fracassou em vários escândalos de destaque, como o colapso da empresa London Capital and Finance , a implosão da Woodford Investment Management e o bloqueio do imobiliário da M&G Property Portfolio por questões de liquidez. Acrescentando: “Mr. Bayley falhou seguramente ao longo de todos estes anos ao lidar com a fraude do HSBC , que relatei pela primeira vez à FCA em 2012″.

Wilson foi demitido depois de ter demonstrado que o HFC Bank, uma subsidiária do HSBC, impunha ilegalmente uma sobretaxa de 16% aos clientes caso não cumprissem pontualmente o pagamento dos créditos contratados e empréstimos subprime.

Em 2017, venceu a sua batalha contra o HSBC, que foi forçado a pagar mais de 4 milhões de libras a milhares de clientes. Em 2019, outras 18 500 vítimas foram identificadas. Até agora, o HSBC concordou em pagar 30 milhões de libras e Wilson acredita que o total chegará a 200 milhões de libras.

Em março de 2019, Adrian Hill , ex-CEO do HFC Bank, afogou-se na sua casa de luxo em Oxfordshire. Num inquérito sobre sua morte, foi dito que sofria de stress, por estar convencido de que seria enviado para a prisão em resultado da investigação da FCA sobre o HFC.

Nicholas Wilson salientou que o chanceler do Tesouro do governo sombra, John McDonnell, afirmou no Parlamento em 8 de janeiro, que o histórico de Bailey na FCA deveria ter sido levado em consideração antes de ser nomeado. McDonnell disse que Bailey esteve “a dormir ao volante durante seu mandato na FCA”.

O chanceler, Sajid Javid, insistiu que Bailey era “um excelente candidato, o mais relevante candidato para ser o próximo governador do Banco da Inglaterra”.

Reino Unido, o país mais corrupto do mundo

Em 2016, o jornalista italiano Roberto Saviano , que passou a maior parte de sua carreira investigando a máfia, disse que a Grã-Bretanha era o país mais corrupto do mundo.

Numa intervenção no Hay-on-Wye Book Festival, Saviano disse ao público:

“Se eu perguntasse qual é o lugar mais corrupto do mundo, você poderia dizer-me que é o Afeganistão, talvez a Grécia, a Nigéria, o sul da Itália e eu vou dizer-lhe: é o Reino Unido. Não é a burocracia, não é a polícia, não é a política, mas o que é corrupto é o capital financeiro: 90% dos proprietários de capital em Londres têm sua sede no exterior”.

Em resposta, Nicholas Wilson, disse: “Concordo com isso. Ele está falando sobre a City de Londres, que é a capital mundial da lavagem de dinheiro. Nada pode ser feito para limpar a City. Se algum político tentasse desmantelá-la, a economia mundial entraria em colapso. O dinheiro das drogas foi a única coisa que manteve em funcionamento os bancos durante a crise financeira de 2008”.

Em 2016, o Home Affairs Select Committee declarou que 100 mil milhões de libras de dinheiro ilícito eram lavados no mercado imobiliário de Londres todos os anos.

Wilson disse ainda que o banco com a pior reputação era o HSBC , que estava envolvido em 18 dos 25 principais escândalos de corrupção listados pelo órgão de fiscalização Transparency International no ano passado. Rona Fairhead, ex-diretora do HSBC, que também foi presidente do BBC Trust e é atualmente membro da Câmara dos Lordes, foi ministra no governo de Theresa May, até maio do ano passado.

Como afirmou Wilson, as instituições políticas e financeiras estão estreitamente entrelaçadas. Existem vários exemplos de ex-parlamentares e ministros que foram trabalhar para bancos e ex-banqueiros a entrarem na política ou em cargos influentes.

A City of London Corporation recusou-se a comentar e a Financial Conduct Authority, que também foi abordada, não fez comentários.


Corbyn e Sanders eram sequer imagináveis há uns anos?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/12/2019)

Daniel Oliveira

Não vou repetir o texto de sexta-feira sobre aquelas que me parecem ser as razões profundas para a derrota trabalhista. Haverá, como há sempre, muitos fatores que a expliquem. Mas parece-me que qualquer análise séria terá de sobrepor os resultados destas eleições aos votos no referendo do Brexit e concluir que este era o tema que estava na cabeça dos eleitores. E é extraordinário que, com a fuga de eleitores dos trabalhistas para os conservadores e o resultado medíocre dos Liberais Democratas, ainda haja remainers trabalhistas a cobrar a Corbyn um discurso ainda mais vincado na defesa de um referendo que os britânicos claramente não desejavam.

Outros preferem concentrar-se no programa, fazendo por esquecer que, com propostas igualmente “radicais”, Jeremy Corbyn conseguiu 40% há dois anos. Outros elegem traços de personalidade do líder, que não mudaram desde 2017, como o grande problema. Diferente era o contexto desta campanha, onde o Brexit era central e o candidato a primeiro-ministro andou a defender sem qualquer convicção a repetição de um referendo. Quem defende uma proposta derrotada em que ainda por cima não acredita dificilmente é mobilizador. E quando não se é mobilizador, o resto vem por arrasto. Por fim, há o antissemitismo de alguns trabalhistas que Corbyn não terá atacado prontamente. Podia e devia tê-lo feito há uns meses, sem deixar que a coisa se arrastasse para a campanha. Mas não deixa de ser revelador que o primeiro-ministro eleito tenha feito da xenofobia uma imagem de marca (sua, não de outros que ele estivesse obrigado a desautorizar) e seja a Corbyn que muitos trabalhistas passaram os últimos meses a pedir explicações.

Enquanto a guerra civil se instala no Labour, gostava de ver a coisa mais de longe. Recordar que, não há muito tempo, os trabalhistas eram incapazes de balbuciar qualquer coisa que lhes parecesse vagamente socialista. O discurso de Corbyn e Sanders ganhou espaço de disputa onde ainda há pouco tempo não tinha lugar para ser sequer notado

Este debate corre quente dentro do Labour e não se deve esperar qualquer sinceridade na análise dos resultados. Os que achavam que a repetição do referendo deveria ser o alfa e o ómega do discurso trabalhista continuarão a atribuir à falta dessa clareza a derrota, mesmo que isso desafie todos os factos. Os que querem ver o New Labour de Tony Blair (que Thatcher disse um dia ser a sua principal vitória) continuarão a dizer que o problema foi o radicalismo, fingindo que essa mesma agenda não teve 40% há dois anos. Os que só querem mudar líder ficar-se-ão por leituras simplistas sobre o carisma do candidato. E os apoiantes de Corbyn tentarão culpar os opositores internos, ignorando que também foi na base jovem mais empenhada de apoio à ala esquerda do partido que nasceu essa ideia absurda de repetir um referendo porque não se gostou do resultado. E que da mesma forma que Corbyn tinha de ser rápido perante o mínimo sinal de discurso antissemita, matando o assunto à nascença, deveria ter sido claro na afirmação democrática de que o voto dos britânicos tinha decidido a saída da UE. Sem passar três anos neste jogo do empata que só deu força a Boris Johnson.

Mas enquanto a guerra civil se instala no Labour, gostava de ver a coisa mais de longe. Recordar que, não há muito tempo, os trabalhistas eram incapazes de balbuciar qualquer coisa que lhes parecesse vagamente socialista. Isto apesar da sua história. Que Blair se limitou a ser a consequência lógica dos conservadores e que, com Schroeder, foi um dos obreiros da traição política da Terceira Via, aliada intencional da desregulação do capitalismo e da destruição do Estado Social. Hoje, poucos são os trabalhistas que se atrevem a atacar a viragem à esquerda do partido, mesmo que defendam que ela tenha sido excessiva. Até Boris Johnson foi obrigado a fazer promessas que não pretende cumprir em defesa do Serviço Nacional de Saúde.

Seja por culpa própria ou da estratégia que aceitou para o Brexit , o que valorizo em Jeremy Corbyn é o que valorizo em Bernie Sanders, também ele derrotado há quase quatro anos e provavelmente a caminho de nova derrota, até porque a sua idade e saúde não ajudam. Um e outro deslocaram o discurso das forças hegemónicas à esquerda para uma clareza impensável há poucos anos. Não é certo que esse caminho se salve depois das suas derrotas, sobretudo quando são expressivas. Mas é certo que esse discurso ganhou espaço de disputa onde ainda há pouco tempo não tinha lugar para ser sequer notado. E é este caminho que pode devolver à esquerda a radicalidade de propor horizontes mobilizadores, disputando à direita xenófoba a representação do crescente descontentamento em sociedades onde se aprofunda a desigualdade e a frustração. Já esteve mais longe do que hoje. Não se conquistam vitórias sem muitas derrotas.

It once upon a time a Great Britain…

(Vítor Lima, 14/12/2019)

O NOVO MAPA DOS EUA

Os ingleses tiveram de escolher nas últimas eleições, entre um idiota e um incapaz. O Boris Trump pretende recuar à orgulhosa Inglaterra, ainda que sem império mas com muitos offshores para animar a Bolsa. O Corbyn vincou as questões sociais mas mostrou-se neutro em algo mais abrangente como a integração europeia; sem querer ver que as duas coisas estariam absolutamente ligadas, um erro crasso que o vai remeter para a aposentação.

Um terço dos votantes trabalhistas vieram de regiões empobrecidas e apoiaram o Brexit como se o encerramento autárcico seja solução para alguma coisa. E Boris, com a sua maioria de avatares nacionalistas, quiçá lepenistas, tratará de liquidar o sistema de saúde, privatizando-o; e, certamente, de modo mais radical do que vem acontecendo em Portugal, com as célebres PPP, levadas a cabo pelo PS/PSD, com capitalistas a viver do dinheiro dos impostos.

Em termos gerais, calcula-se que a quebra do PIB da GB, para os próximos dez anos, será de 4 a 10% consoante o resultado dos acordos com a UE, nos capítulos do comércio e dos emigrantes.

Uma grande parte do enorme problema que Boris vai ter de resolver é admitir que a Escócia e a Irlanda do Norte (e até Gales, onde o separatismo cresce a olhos vistos) se separem da Inglaterra, transformando esta numa Grande Londres e arredores, centrada na bolsa, na rede de offshores e reportando a Trump.

O que se passa no mundo, muito para além do Brexit, da atrofia da GB, da estagnação da economia e a incapacidade política das classes políticas é a crise do capitalismo.

Acima o novo mapa dos EUA com o seu novo estado federado.