48 Horas no Sistema de Saúde Inglês

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 01/11/2019)

Clara Ferreira Alves

Soube que estava em sarilhos. Saí de um restaurante na zona de Kings Cross e entrei na estação de metro. As imediações de St. Pancras e Kings Cross, um monturo nos anos do thatcherismo, são uma das zonas mais gentrificadas de Londres. Casas e escritórios caríssimos, arquitetura de ponta, torres de vidro e aço, a novíssima e monstruosa sede da Google a ser construída. Da construção emana o poder brilhante do futuro. Londres é uma cidade-estado, a Singapura dos Tories, mas ainda faz parte do Reino Unido, do empobrecido país dos nortes. Aqui, com as lojas de luxo e as marcas europeias chiques, às quais os ingleses reconhecem uma superioridade elegante, nada existe ou virá a existir que não seja de bom gosto e de bom preço. Os restaurantes, fusão criativa, com empregados esbeltos e clientes dessa população que só se costumava ver em Nova Iorque e LA. Nómadas digitais, novos empresários, a burguesia nacional e internacional viajada e bem empregada, qualificada, jovens e baby boomers que debicam vinhos franceses, americanos, italianos, neozelandeses, argentinos, israelitas e, sim, portugueses. Estive quase a pedir um Papa-Figos. Eu aprecio este mundo transversal, internacional, criativo, onde se ouve a babel das línguas e onde o talento tem importância. Nada de milionários, apenas profissionais ambiciosos que não são racistas nem puristas porque o mundo é o seu território. A espécie humana a viver bem sem fazer mal a ninguém. Saí do Coal Office, o restaurante era um antigo edifício industrial no tempo em que existia classe operária inglesa, a caminho do Gauguin na National. Chovia torrencialmente. Nas escadas rolantes do metro, um abismo de metal ensopado em água, escorreguei. Perna torcida e pé do avesso.

Amparada pelo meu filho, rumei ao Hospital Universitário perto de Kings Cross, onde costumo passar no autocarro quando vou ao Selfridges. Sempre o observei com atenção, a espiar o movimento da Urgência. Pior ou melhor? A transparência dos vidros dá para ver. Parecia-me muito decente.

Uma sala de espera com dezenas de pacientes esperando pacientemente. Todas as etnias e cores, um ou dois utentes de pele desmaiada e olho claro. Os coloridos são tão ingleses como estes, convém recordar. Quando se sustentam impérios onde o sol nunca se põe, a população não pode ser deitada ao mar. Inscrevi-me, não me pediram cartão europeu de saúde, mandaram-me esperar. Não residente no UK, certo. Quatro horas depois, fui inquirir. A perna doía prodigiosamente. A sala esvaziara, os comensais desandavam, novos comensais rodeavam-me. Deram-me Brufen e Paracetamol e disseram-me que estava nos três próximos. Mais um par de horas e nada. Inquiro de novo. Será hoje? Tom agressivo. Meia hora depois chamam-me. Paredes pintadas, boas instalações. Nada de corredores entulhados, nem macas a esmo, nem gente estafada. Enfermeiras conversam pelos cantos. Algumas portuguesas, decerto. Um médico de origem asiática, Paquistão ou Índia, atendeu-me. Raios X. Leitura dos raios X. Fratura múltipla. Tem de vir à Clínica da Fratura daqui a três dias para colocar uma bota de tala, porque agora vamos fazer metade do gesso para imobilizar. Será vista pelos ortopedistas. O seu país é o melhor país do mundo, disse-me no fim. Antes de entrar na sala do gesso, outro médico, de origem paquistanesa ou indiana, vem falar comigo. Vi os seus raios X e considero a cirurgia inevitável e a ser feita já. Fraturou vários ossos. A ortopedista vai falar consigo daqui a pouco. Veio a ortopedista, uma jovem médica, decerto estagiária. A operação é a única solução. Tudo se precipita. Tiram sangue para análises, deixamos o cateter para o soro, não deixamos, mais raios X, tensão medida, o melhor é ficar internada esta noite. Pergunto se não posso ir a casa, que não é longe, não vinha preparada. A ortopedista vai conferenciar com outro ortopedista no computador e já me dirá, mas o anestesista poderá vir às 5h ou 6h da manhã para discutir a anestesia e eu teria de estar no hospital a essa hora. Para a vaga. Uma injeção de anticoagulantes na barriga por causa das embolias. Será uma por dia, sem falta. Quando sair do hospital para casa, leva a receita e leva a medicação consigo. Mas… se volto de madrugada. Há aqui inconsistências. Tenho de preparar o meu internamento, preciso do computador. Vão ligar-lhe do hospital logo de manhã, depois da conferência ortopédica. Se as análises do sangue fossem anormais, ligaríamos durante a noite. Era um domingo. Aos fins de semana há menos médicos. Por esta altura, estava maravilhada com o NHS. Saí sem a medicação. Telefonei para o meu médico em Lisboa. Sim, se te operam já, melhor. E explicou as minudências. Riscos de embolia, edemas, etc. O médico que detetou a urgência cirúrgica deseja-me felicidades e diz que ficou contente por ter visto os meus exames. Cirurgia é a única solução. Não estará lá no domingo, quando eu entrar. Boa sorte.

Telefonam-me às 9h da manhã. Uma administrativa. Não a podemos operar. O sistema está cheio de emergências e temos de dar prioridade. Como é residente em Portugal, recomendamos que viaje para o seu país para se operar, a.s.a.p. Mas disseram-me que era urgente, entraria de madrugada. Sim, mas o serviço tem outras prioridades além da sua e tem a hipótese de se operar no seu país. Digo que não preparei as coisas, há aviões a tomar, há que avisar médicos que não me viram, tudo em menos de 24 horas. Pode dizer-me, se preferir operar-me aqui, quando o seria? Não lhe posso dar uma data, teria de ir aguardando dia após dia. Nenhuma ideia do dia. Incerto.

Tenho de ser operada com urgência, o edema, a embolia, a hemorragia, pois, não lhe posso adiantar mais nada. Regresse a Portugal. E a injeção? Não me deram a receita e a medicação. E os exames? Como ia ser internada, não os tenho. Venha ao hospital buscar a medicação, já não será observada por um médico. Regresse ao seu país.

Hospital de novo, a coxear nas canadianas. Na receção dizem-me que sou internacional. Onde está o meu seguro? Começo a berrar que eles ainda estão na União Europeia. A seguir, despejo uma torrente de argumentos que acabam com a ameaça de processo, linguagem jurídica complexa, nos anglo-saxónicos tem efeito seguro. Pedem logo desculpa, vão dar-me uma pulseira de prioridade. Não me podem dar a medicação e exames sem ser vista por um médico. Sorry. Mais umas horas de espera, o meu filho entra na unidade restrita e agarra um dos médicos do dia anterior, o que não tinha visto a necessidade da cirurgia. Pede-me desculpa das inconsistências do NHS. Diz-me para escrever uma carta e apresentar a reclamação. Porque foram rudes e isso afeta todo o sistema. Rudes? É esse o problema? Rudeza? Negaram-me tratamento. O NHS está muito sobrecarregado. Dá-me os exames, com ar pesaroso, depois de muita burocracia e vários impedimentos e uma conversa absurda sobre a proibida transmissão de dados para fora do UK. Tenho direito a um CD, peço a análise do sangue, dão a injeção, não a medicação. Tenho para 24 horas de efeito anticoagulante, por causa do avião. Tinham-me falado numa caixa de medicação, antes. Em Lisboa, trate do resto. Da ortopedista, nem sinais. Ou de um ortopedista. Fui expulsa do sistema.

Estou em Lisboa, a ser muito bem tratada pelos médicos portugueses. Sei que o nosso depauperado SNS, para o qual pago impostos, jamais faria isto a um cidadão britânico. O ‘Brexit’ já aqui está. O português com sotaque britânico que conduzia o Uber que me levou a casa, depois de 25 anos a trabalhar no país, mulher e filha com passaporte britânico, viu-lhe negado o pedido de residência fixa por causa de uns papéis em falta dos últimos seis meses. Fazem-lhe a vida negra.

No NHS, mal pus os olhos num “puro-sangue”. Médicos e utentes? Vi imigrantes e descendentes de imigrantes, com uma ou outra exceção. Quem vai limpar as latrinas dos ingleses? Os ‘brexiteiros’, espero. Vai fazer-lhes bem.

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A secessão da União Europeia

(Thierry Meyssan, 20/11/2018)

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Para Thierry Meyssan, a maneira como a Alemanha e a França recusam ao Reino Unido o direito de sair da União Europeia mostra que esta não é apenas um espartilho. Ela demonstra também que os Europeus se mostram pouco preocupados com os seus vizinhos tal como no período das duas Guerras Mundiais. Manifestamente, perderam a noção que governar, não é simplesmente defender os interesses do seu país a curto prazo, é também pensar a longo prazo e prevenir os conflitos com os vizinhos.


Os povos dos Estados membros da União Europeia não parecem estar conscientes das nuvens negras que se amontoam sobre as suas cabeças. Identificaram os graves problemas da UE, mas tratam-nos com superficialidade e não compreendem o que se joga com a secessão britânica, o Brexit. Lentamente, eles afundam-se numa crise que poderá não ter outra saída senão a violência.

A origem do problema

Aquando da dissolução da União Soviética, os membros da Comunidade Europeia aceitaram vergar-se às decisões dos Estados Unidos e integrar os Estados da Europa Central, muito embora estes não correspondessem, de forma nenhuma, aos critérios lógicos do processo de adesão. Com base nisto, adoptaram o Tratado de Maastricht que fez bascular o projecto europeu, de uma coordenação económica de Estados Europeus, para um Estado supranacional. Tratava-se de criar um vasto bloco político que, sob a proteção militar dos Estados Unidos, iria avançar, junto com eles, na via da prosperidade.

Este super Estado que nada tem de democrático. Ele é administrado por um colégio de altos funcionários, a Comissão, cujos membros são designados, um a um, por cada um dos Chefes de Estado e de Governo. Jamais na história um Império funcionou dessa maneira. Rapidamente, o modelo paritário da Comissão deu à luz uma gigantesca burocracia comum, na qual certos Estados são «mais iguais do que outros».

O projecto supranacional mostrou-se inadaptado ao mundo unipolar. A Comunidade Europeia é originária da componente civil do Plano Marshall, do qual a OTAN é a componente militar. _ As burguesias europeias-ocidentais, preocupadas com o modelo soviético, apoiaram-na a partir do Congresso convocado por Winston Churchill, em Haia, em 1948. Mas, elas não tinham já qualquer interesse em prosseguir por esse caminho após o desaparecimento da URSS. _ Os antigos Estados do Pacto de Varsóvia hesitaram em aderir à União ou em aliar-se directamente aos Estados Unidos. Por exemplo, a Polónia comprou aviões de guerra aos americanos, que ela empregou no Iraque, com os fundos que a União lhe concedeu para modernizar a sua agricultura.

Para além da criação de uma cooperação policial e judicial, o Tratado de Maastricht criou uma moeda e uma política externa únicas. Todos os Estados-Membros tinham que adoptar o euro, assim que a sua economia nacional lhes permitisse. Apenas a Dinamarca e o Reino Unido pressentindo os problemas futuros se mantiveram à parte. A política externa parecia natural num mundo tornado unipolar e dominado pelos Estados Unidos.

Dadas as diferenças no seio da zona euro, os pequenos Estados iam tornar-se a presa do do maior, a Alemanha. A moeda única que, no momento da sua entrada em circulação, fora ajustada ao dólar transformou-se, progressivamente, numa versão internacionalizada do marco alemão. Incapazes de competir, Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha foram simbolicamente qualificados de PIGS («porcos») pelos financistas. Enquanto Berlim pilhava as suas economias, propunha a Atenas restaurar a dela se esta lhe cedesse uma parte do seu território.

Constatou-se que a União Europeia, ao mesmo tempo que prosseguia o seu crescimento económico global, era ultrapassada por outros Estados cujo crescimento económico era várias vezes mais rápido.

A adesão à União Europeia, enquanto para os ex-membros do Pacto de Varsóvia era uma vantagem, tornou-se um fardo para os Europeus Ocidentais.

Tirando lições deste fracasso, o Reino Unido decidiu retirar-se deste super Estado (Brexit) para se aliar com os seus parceiros históricos da Commonwealth e, se possível, com a China. A Comissão ficou com medo que o exemplo britânico abra a via a novas retiradas, à manutenção do Mercado Comum mas ao fim da União. Ela decidiu, portanto, fixar condições dissuasórias de saída.

Os problemas internos do Reino Unido

Servindo a União Europeia os interesses dos ricos contra os pobres, os camponeses e os trabalhadores britânicos votaram para sair dela, ao mesmo tempo que o sector terciário desejou permanecer.

Se a sociedade britânica dispõe, tal como outros países europeus, de uma alta burguesia que deve o seu enriquecimento à União Europeia, ela tem também, ao contrário dos grandes países europeus, uma poderosa aristocracia. Esta dispunha, antes da Segunda Guerra Mundial, de todas as vantagens que a União Europeia oferece, mas também de uma prosperidade que já não pode esperar de Bruxelas. A aristocracia votou, portanto, pelo Brexit contra a alta burguesia, abrindo uma crise no seio da classe dirigente.

Em última análise, a escolha de Theresa May como Primeira-ministro era suposta preservar os interesses de uns e de outros («Global Britain»). Mas isto acabou por não ocorrer, de forma alguma, como previsto.
- Primeiro May não conseguiu concluir um acordo preferencial com a China e sente dificuldades com a Commonwealth, cujos laços foram diluídos pelo tempo.
- Em seguida, ela encontra obstáculos com as suas minorias escocesa e irlandesa, tanto mais que a sua maioria parlamentar inclui protestantes irlandeses ancorados nos seus privilégios.
- Por outro lado, ela esbarra na intransigência cega de Berlim e de Bruxelas.
- Por fim, ela tem de fazer face à colocação em causa da «relação especial» que ligava os seu país aos Estados Unidos.

O problema levantado pela implementação do Brexit

Depois de ter tentado em vão vários ajustes nos tratados, o Reino Unido votou democraticamente pelo Brexit, em 23 de Junho de 2016. A alta burguesia, que não acreditava nisso, tentou imediatamente colocar esta escolha em causa.

Falou-se, então, em organizar um segundo referendo, como se tinha feito com a Dinamarca aquando do Tratado de Maastricht. Parecendo a coisa impossível, distinguem agora um «Brexit duro» (sem novos acordos com a UE) de um «Brexit suave» (com a manutenção de diversos compromissos). A imprensa assegura que o Brexit será uma catástrofe económica para os Britânicos. Na realidade, os estudos anteriores ao referendo e, portanto, a este debate, atestam todos que os dois primeiros anos após a saída da União serão recessivos, mas que o Reino Unido não tardará a relançar-se e a dobrar o crescimento da União. A oposição ao resultado do referendo —e, portanto, à vontade popular— tem conseguido arrastar a sua implementação. A notificação da retirada britânica só feita pelo governo à Comissão após nove meses de atraso, a 29 de Março de 2017.

A 14 de Novembro de 2018 —ou seja, dois anos e quatro meses após o referendo— Theresa May capitula e aceita um mau acordo com a Comissão Europeia. No entanto, assim que ela o apresenta ao seu governo, sete dos seus ministros demitem-se, incluindo o encarregado pelo Brexit. Claramente, ele ignorava elementos do texto que a Primeira-ministra lhe atribui.

Este documento inclui uma disposição que é totalmente inaceitável para um Estado soberano, seja ele qual for. Ele institui um período de transição, cuja duração não é fixada, durante o qual o Reino Unido não mais será considerado como membro da União, mas será forçado a vergar-se às suas regras, aí incluídas as que vierem a ser então adoptadas.

Por trás desta manhosice escondem-se a Alemanha e a França.

Logo que o resultado do referendo britânico foi conhecido, a Alemanha tomou consciência que o Brexit provocaria uma queda, de várias dezenas de milhares de milhões (bilhões-br) de euros, do seu próprio PIB. O governo de Merkel dedicou-se, no entanto, não a adaptar a sua economia, mas, antes a sabotar a saída do Reino Unido da União.

Quanto ao Presidente francês Emmanuel Macron, ele representa a alta burguesia europeia. Ele está, portanto, por natureza, em oposição ao Brexit.

Os homens por trás dos políticos

A Chancelerina Merkel poderá contar com o Presidente da União, o polaco (polonês-br) Donald Tusk. Este, com efeito, não está neste posto por ter sido antigo Primeiro-ministro do seu país, mas, sim por duas razões: durante a Guerra Fria, a sua família, pertencente à minoria Cachúbia, escolheu os Estados Unidos contra a União Soviética e, por outro lado, é um amigo de infância de Angela Merkel.

Tusk começou por levantar o problema do compromisso britânico nos programas plurianuais adoptados pela União. Além de Londres ter de começar por pagar o que se comprometera a financiar, não poderia deixar a União sem pagar uma taxa de saída compreendida entre 55 e 60 mil milhões de libras.

O antigo ministro e Comissário Francês Michel Barnier é nomeado negociador-chefe com o Reino Unido. Barnier tem fortes inimizades na City que ele maltratou durante a crise de 2008. Além disso, os financistas britânicos sonham gerir a convertibilidade do yuan chinês em euros.

Barnier aceita como adjunta a Alemã Sabine Weyand. Na realidade, é esta última quem conduz as negociações com a missão de as fazer falhar.

Simultaneamente, o homem que «fez» a carreira de Emmanuel Macron, o antigo Chefe da Inspecção de Finanças, Jean-Pierre Jouyet, é nomeado embaixador da França em Londres. É um amigo de Barnier com quem geriu a crise monetária de 2008. Para fazer falhar o Brexit, Jouyet apoia-se no líder conservador da oposição a Theresa May, presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros na Câmara dos Comuns, o Coronel Tom Tugendhat.

Jouyet escolheu como adjunta na embaixada francesa em Londres, a esposa de Tugendhat, a enarca francesa Anissia Tugendhat.

A crise cristalizou-se na cimeira (cúpula-br) do Conselho Europeu de Salzburgo, em Setembro de 2018. Theresa May apresenta aí o consenso que ela conseguira estabelecer em casa e que muitos outros deveriam tomar como exemplo: o plano de Chequers (manter apenas o Mercado Comum entre as duas entidades, e não a livre circulação de cidadãos, de serviços e de capitais, deixando de estar sujeita à justiça administrativa europeia do Luxemburgo). Donald Tusk rejeita-o brutalmente.

Aqui chegados é necessário voltar atrás. Os acordos que puseram fim à revolta do IRA contra o colonialismo inglês não resolveram as causas do conflito. A paz só se instalou porque a União Europeia tornou possível a revogação da fronteira entre as duas Irlandas. Tusk exige que, para prevenir o ressurgir desta guerra de libertação nacional, a Irlanda do Norte seja mantida na União Aduaneira. O que implica a criação de uma fronteira controlada pela União, cortando o Reino Unido em dois, separando a Irlanda do Norte do resto do país.

Durante a segunda sessão do Conselho, diante de todos os Chefes de Estado e de Governo, Tusk mandou fechar a porta na cara de May, deixando-a sozinha do lado de fora. Uma humilhação pública que não poderá deixar de ter consequências.

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Reflexões sobre a secessão da União Europeia

Todas estas panelinhas atestam a esperteza dos dirigentes europeus para conceder a mudança. Eles simulam respeitar regras de imparcialidade e decidir colectivamente com o único propósito de servir o interesse geral (mesmo se esta noção é refutada pelos Britânicos). Na realidade, alguns defendem os interesses do seu país em detrimento dos seus parceiros e outros os da sua classe social em detrimento de toda a gente. O pior é, evidentemente, a chantagem exercida contra o Reino Unido: ou ele se submete às condições económicas de Bruxelas ou será reavivada a guerra de independência da Irlanda do Norte.

Este comportamento só pode levar ao despertar dos conflitos intra-europeus que provocaram as duas Guerras mundiais; conflitos que a União mascarou dentro de si, mas que não foram resolvidos e persistem fora da União.

Conscientes de estar a brincar com fogo, Emmanuel Macron e Angela Merkel subitamente evocaram a criação de um exército conjunto incluindo o Reino Unido. Claro, se as três grandes potências europeias se aliassem militarmente o problema seria resolvido. Mas, esta aliança é impossível, porque não se constrói um exército antes de se ter determinado quem será o seu chefe.

O autoritarismo de Estado supranacional tornou-se tal que, durante as negociações sobre o Brexit, ele criou três outras frentes. A Comissão abriu dois processos de sanções contra a Polónia e a Hungria (a pedido do Parlamento Europeu), acusadas de violações sistemáticas dos valores da União; processos cujo objectivo é colocar estes dois Estados na mesma situação que o Reino Unido durante o período de transição: serem forçados a respeitar as regras da União sem poder influenciá-las. Além disso, indisposto pelas reformas em curso na Itália, que vão contra a sua ideologia, o Estado supranacional recusa a Roma o direito de se dotar de um orçamento para executar a sua própria política.

O Mercado Comum da Comunidade Europeia havia permitido estabelecer a paz na Europa Ocidental. O seu sucessor, a União Europeia, destruiu essa herança, e opõe seus próprios membros uns aos outros.


Fonte aqui

Mistério

(Agostinho Lopes, in Foicebook, 29/07/2018)

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Jeremy Corbyn 

(A Estátua responde ao autor. O que será, que será? É censura, meu caro, determinada pela agenda dos grandes interesses económicos que controlam a comunicação social. Esse Corbyn, sim, esse é mesmo perigoso! Se a moda pega nos partidos socialistas europeus lá se vai a Europa neoliberal pela borda fora, as auteridades, as troikas e todas essas malfeitorias a que tem sido sujeitos os povos europeus.
Comentário da Estátua, 29/07/2018)

O QUE SERÁ, QUE SERÁ…
Há um mistério nos órgãos de comunicação social portugueses. Continua a não se perceber, a ausência notícias sobre o Partido Trabalhista do Reino Unido, e sobretudo do seu líder Corbyn (1). Não há dia que dali, do reino de sua majestade, não venha qualquer coisa. Mais um ataque dos russos com novichok, as aflições da srª primeira-ministra, com o brexit e outros «exit», sobretudo de ministros do seu governo, mais um descendente real, com direito quase que ao parto em directo, e de Corbyn, zero.
Mesmo aqueles jornais que passaram muitos dias, lá mais para trás, a massacrarem o homem, zero. Perdão. Teve direito a uma chamada de atenção, quando se lembrou de perguntar à Srª May, onde estavam as provas do ataque russo ao espião russo, que afinal era um espião inglês!
E também, quando (uma história mal contada), uns membros do Partido se lembraram de atacar o sionismo e o Corbyn passou a ser uma espécie de Hitler! Aterrada, em pânico, Teresa de Sousa logo foi esclarecer o problema entrevistando Chis Patten, velho líder conservador e ex-Comissário Europeu, que logo a esclareceu: «Mas há creio eu, tanto na extrema-esquerda como na extrema-direita do sistema político britânico, traços de antisemitismo. Não creio que seja um problema enorme, mas reconheço que é um grande embaraço para o Labour e para o seu líder». Pega que já almoçaste.
Os nossos henriques, o monteiro e o raposo, e mesmo o excelso Francisco Assis, não diriam melhor. Pelo meio, tivemos ainda a notícia via Lusa/Público (29ABR18): «Milhares de contas do Twitter com ligações à Rússia ajudaram Jeremy Corbyn» nas eleições de 2017. O Putin é assim um “mãos largas”, mas justo, não olha quem ajuda. Nos EUA apoia a direita de Trump, no Reino Unido, a “extrema-esquerda” de Corbyn!
Nem a vinda de Corbyn a um conclave dos partidos sociais-democratas e socialistas em Lisboa mereceu qualquer relevo. Soube-se que esteve cá, porque apareceu nas imagens noticiosas de algumas televisões. Nem uma entrevistazinha! Por seu lado, o seu camarada, 1º Ministro António Costa foi a Londres, e ainda hoje se está por saber, se teve algum encontro oficial ou oficioso, com o sr. Corbyn! Admirável!
Muitas notícias sobre o Trump em Londres. Sobre o chá com sua majestade. Sobre os lapsos de protocolo. Sobre um balão que nos ares de Londres, dava uma imagem melhorada do Trump. Sobre o discurso de Corbyn nas manifestações de contestação a tal presença, zero!
Mas haja esperança. Agora que no dia 14 de Julho, foi publicada uma sondagem que põe o Labour com 40% nas intenções de voto, 4 pontos acima dos Conservadores com 36%, não vão tardar as notícias! Não foi notícia no dia 15, nem a 16, nem a 17,… talvez, lá para o dia de S. Nunca… O correspondente do Público, António Saraiva Lima, que a 1 de Abril, na onda do “anti-semitismo do Labour” se alegrava: «O clima de optimismo em redor de Jeremy Corbyn dá sinais de estar a desvanecer-se aos poucos», é que vai ter algumas dificuldades…
O que será, que será, que provoca esta cegueira persistente, este esquecimento doentio, esta distorção visual e auditiva?
Será pelo facto desse Partido Trabalhista, à revelia, ao contrário, dos seus partidos irmãos do continente, apresentar um programa contra o neoliberalismo, onde se defende o resgate e reforço financeiro do “NHS”, o celebrado SNS britânico, e o mesmo para a Escola Pública, com o aumento dos salários dos professores, menos alunos por sala e o fim das propinas; reverter o aumento da idade de reforma e um tecto para a factura energética das famílias; afirmar a necessidade de mais impostos para os ricos e as grandes empresas; defender a renacionalização dos correios, da ferrovia, da energia; por criticar a NATO e estar contra os misseis nucleares Trident, pelo desarmamento e pela paz!
Será pelo facto, de em consequência dessas opções políticas, o Partido Trabalhista britânico aparecer numa Europa onde a social-democracia desfalece ou desaparece, reforçando-se em aderentes (há quem diga que é o maior partido da Europa), influência social (incluindo jovens e sindicalistas) e eleitoral? Será porque apesar de todos os maus augúrios e notícias, Corbyn permanece vivo e de pé?
Mistério!

(1) Declaração de interesses (mais uma vez): não sou social-democrata, nem estou filiado no Partido Trabalhista (para os anglófilos, no Labour).